terça-feira, março 30, 2010

PEC, de “Provação Em Contínuo”, para alguns



De uma forma mais próxima da verdade futebolística – “o que hoje é verdade amanhã pode ser mentira” – do que do que da socrática, o Plano de Estabilidade e Crescimento a cada dia que passa tem vindo a revelar as desagradáveis surpresas que contém. Um PEC que parece mais talhado para desequilibrar do que estabilizar, e que, como tudo o indica, irá fazer mingar ainda mais, ao contrário da pretensa medrança que anuncia. Com ele, uns, a grande maioria, ainda vergados pelo esforço exigido para equilibrar um deficit para o qual pouco ou nada contribuíram, são de novo obrigados a mais sacrifícios, outra vez com o pressuposto de esmagar a maldita cifra, valor que ainda muito antes de se notar ter baixado para o patamar apontado como pretexto da primeira vaga de agruras, já havia disparado – não obstante o empenho em o esconder – para um nível superior ao triplo do objectivo intentado. Cortar nos ordenados e salários (os mais baixos da EU), aumentar impostos (sim, porque anular ou limitar deduções à colecta, para mais quando nem as despesas com saúde e educação escapam à rapina, é um claro aumento da carga fiscal) e destruir, com o que isso representa em termos do aumento do desemprego, aquilo que resta do débil sector produtivo (agricultura é o que se vê, indústria o que se está vendo, e mesmo no sector terciário, só um único segmento económico tem vitalidade: a política, já uma autêntica actividade económica!), são alguns dos efeitos práticos mais evidentes, e previsíveis, deste PEC.
É óbvio que o mal não irá tocar a todos. Para outros, quase sempre os mesmos – um pequeno grupo de privilegiados –, o mal fadado PEC passa rapidamente de “Provação Em Contínuo” para garantia de “Privilégios Especiais de Corridas”: é assim no continuar a permitir a passagem, quase directa, dos bancos da escola para as bancadas parlamentares e/ou para as poltronas dos Conselhos de Administração no dito “Grupo Empresarial do Estado”(cada vez mais gordo com as mais que muitas Empesas Municipais, também elas farta manjedoura); assim é também no manter e reforçar da “panelinha” com as agora tão badaladas “Parcerias Público Privadas”, nas quais se acomodam os que, na volta – “uma mão lava a outra” –, vão ajudar a financiar, e ficar à disposição de quem lá os colocou; assim não deixa de ser com as autênticas “vias verdes” atribuídas basicamente só e apenas por servilismo partidário, atalhos que permitem passagem, ágil e rápida, da condição de acanhados “yes men” para a útil e confortável condição de “boys” estrategicamente bem colocados. Para o que der e vier, digo eu!
Com ou sem PEC, ainda assim é grande a “travessa de papas” colocada à disposição da casta dos privilegiados, assim continuando, por mais que digam o contrário, pelo menos enquanto houver o que rapar no “fundo do tacho”. É que não há (pelo menos daqueles que o poderiam fazer) quem queira acabar com o esquema, pois este permite, umas vezes mais outras menos – mas ininterruptamente e sempre aos mesmos –, ir aproveitando, nem que para isso seja necessário evocar, mesmo que em vão, o “interesse nacional”.
É, como diz o povo, “a abelha procurando a parelha”, para assim, com estes ou outros protagonistas, um nunca mais acabar de rimas e parelhas se poderem fazer. Tais como: Varas e Loureiros rimando com banqueiros; Lino – ao que parece já na fila – e outros comensais aderentes a rimar com pontes, estradas, alcatrão, betão e cimentos; e todos eles entre si, mais os amigos, comparsas e familiares entoando com dinheiro. Muito dinheiro. Tanto que, melhor aplicado, com certeza, podia resultar num PEC diferente, mais maneiro.

A.O. 30/03/10; “Cá à minha moda"

quarta-feira, março 17, 2010

Brados de burro II (e ponto final)


O tal asno, jumento afectado por "pegadilhos" e um grandessíssimo cobarde, depois de ontem ter levado duas ou três ripadas pelas orelhas abaixo (muito mais por ser cobarde do que por ser jerico), armou-se em virgem pudica, e insinuando possuir a “educação esmerada” que segundo ele outros não têm, com a cobardia que lhe é habitual, tentou vitimar-se. Coitadinho!
Asno. Cobarde. Aldrabão. Mentiroso compulsivo, e agora coitadinho.
Se um animal destes, em vez de pretender só parecer, fosse efectivamente educado, com apenas um “Tá asno” (Asno: mote que segundo ele, quebrando o verniz, denuncia uma educação menos esmerada) e sem ter de se “esticar” até ao “Caguei-te Mariano” (vocabulário usado nos dignos salões que frequenta), resolvia o assunto.
Mas como já disse, asnos são asnos, e com este asno em especial (jerico afectado, jumento frouxo), mais do que a sua educação, é o seu mau carácter, a cobardia com que se procura proteger e a hipocrisia que cultiva e o camufla o que me interessa denunciar.

Para ajudar a perceber isto é só passar pelo "Candilhes", mais concretamente aqui.

terça-feira, março 16, 2010

Lusitânia: aproveitar para recordar


Emblemas originais; USEC/CUS (1921/22), S. C. Lusitânia (1922), CDSC (1927), realçando-se a curiosidade de os dois clubes com afinidades ao Sporting, o União Sportiva e o Lusitânia, apresentarem uma águia (em rigor, um açor) no emblema, e aquele que seria mais tarde delegação do Benfica, um leão.

As últimas notícias, felizmente, reforçam a confiança de quantos alimentam a esperança do Sport Clube Lusitânia vir a encontrar uma saída para a dramática situação em que o se viu envolvido nos últimos anos. Uma esperança que, pelo menos no meu caso, é inversamente proporcional à vontade de ver esquecidos (o que mais quero é vê-los disseminados) os ensinamentos a retirar das graves consequências do desvario, da irresponsabilidade, do oportunismo, da leviandade, e até, como no caso do Santa Clara já se provou, da vigarice e do roubo, males que assolaram num passado recente – deixando marcas, vícios e hipóteses de trapaça para as quais não vai faltando quem persista no aproveitar – os dois principais emblemas desportivos dos Açores. Esbulho com alguns autores materiais já identificados, mas muitos, muitos mesmo, autores morais, cúmplices, e/ou outros responsáveis, gente que continua fingindo nenhum comprometimento ter tido no processo com a mesma desfaçatez com que, durante anos a fio, mantiveram “ouvidos moucos” aos avisos à navegação que alguns – poucos diga-se de passagem – nunca deixaram de emitir.
E porque a trapaça e intrujice é sempre reprovável – não só quando se trata de bens fiduciários –, nunca é demais recordar que a honra e glória das instituições provém, em regra, da longevidade do seu percurso, dos êxitos que as mesmas acumulam ao longo deste, mas também da seriedade e verdade com que se pauta e escreve o seu historial.
Os factos são factos, e ao contrário do que por vezes se diz, repetir uma mentira nunca a transforma em verdade. Bem pelo contrário, o prolongar de qualquer farsa retira sempre credibilidade a quem insistir em mantê-la, bem como espaço de manobra aos que, por estarem de boa fé, apenas necessitam obter o conhecimento necessário que lhes permita corrigir os efeitos de uma mentira intencionalmente imposta, o que nunca devia ter acontecido, e, sobretudo agora, não faz qualquer sentido manter. Aqui fica um naco de história.
Aproximava-se a primavera do ano de 1922 quando o grupo dirigente do Instituto de Educação Física deu início aos melhoramentos no Campo Açores, recinto onde em Maio daquele mesmo ano, por ocasião das festas do Senhor Santo Cristo, se haveria de disputar uns célebres jogos entre micaelenses e terceirenses, sendo o grupo visitante, orientado por Bernardo Noronha, dirigido por Clemente Pamplona assim constituído: Machado Ávila, Jorge Soeiro Borges - Capitão -, Machado Freitas, Antóio Tavares, Alvaro Silva, José Pimentel, Amadeu Simões, Santos Nascimento, Malequiades Silveira, Tomaz da Silva, Correia de Lima, Inácio Pereira e Ferreira Neves. No grupo dos micaelenses, entre muitos outros (José Tavares, Jaime da Costa, José da Costa, Torrão, Manuel Rodrigues, Pereira Gomes, Manuel de Jesus - o madeirense -, Moisés, António da Cunha, Eduardo Costa, Egídio Costa e Alberto Castro), encontrava-se o jovem alferes José Joaquim de Souza, então já referido como “distinto sportsman” e à época responsável no IEF pelo futebol. Retribuindo a visita ocorrida no mês anterior, em Junho de 1922, por ocasião das festas de S. João de Angra, os “micaelenses” deslocam-se à Terceira, onde no Campo do Relvão tiveram lugar os jogos de futebol programados para a “desforra” das copiosas derrotas que os "terceirenses" averbaram no Campo Açores. Por esta altura (22 Junho de 1922), quiçá em consequência destes acontecimentos, mas com certeza como corolário da grande movimentação futebolística naquele e nos anos imediatamente anteriores verificada um pouco por todos os Açores, nasce o Lusitânia. Pouco depois, no início de Agosto de 1922, em Assembleia-geral para tal convocada, a União Sportiva dos Empregos do Comércio (USEC) alterou a sua designação para Clube União Sportiva (CUS). Na ocasião, José Joaquim de Souza, que entretanto já havia rompido com o IEF, tornara-se uma importante peça da organização futebolística do CUS. Alguns meses depois, no início de Outubro de 1922, mais uma vez com José Joaquim de Souza como pólo dinamizador, aconteceu a apresentação pública do Santa Clara Foot-ball Club, o primeiro dos “Santa Clara” com expressão fora do bairro. Só muitos anos depois aparece o Sport Club Santa Clara, e mais tarde ainda, entre a Primavera e o Verão de 1927, apadrinhado pelo Capitão Eduardo Reis Rebelo e alguns dos seus amigos e companheiros de armas (tenente João Joaquim Vicente Jr., João Baptista Rodrigues, Lúcio Agnelo Casimiro, Manuel Inácio de Sousa, Amável de Medeiros Casanova, e outros), nasce então Clube Desportivo Santa Clara, o terceiro e último dos “Santa Clara” federados, e aquele que chegou aos nossos dias.

Sei que estas, tal como outras, noutras ocasiões proferidas, são verdades incómodas. Porém são verdades!

A.O. 16/03/10; “Cá à minha moda" (Revisto e acrescentado)

Brados de burro


Há um asno, não só asno como um grande asno, cobarde, que de há uns tempos para cá vem zurrando para que outros denunciem aquilo que ele, cobarde, não é capaz de denunciar (tampouco consegue explicar exactamente o que pretende). Aliás, nem para “dar a cara” pelas “encomendas” que faz, este asno, grande asno, hombridade tem!
Asnos são asnos, e asnos há que, não satisfeitos com a sua condição de jericos, com os seus doentios “pegadilhos”, e ainda com a sua monstruosa cobardia, além de asneirarem compulsivamente, inventam e mentem.
De tão asnos que são, até se imaginam suficientemente importantes para estarem na origem do que acontece com a caixa de comentários deste blog.
Tristes asnos. Nem se enxergam!
Como podem este tipo de animais, sem dignidade, eles sim, “material” que se compra e vende por tuta e meia, tentar denegrir aqueles que já derem bastas provas de não terem a sua voz, pena, ou consciência à venda? A começar quando não aceitam “encomendas”, praticamente inofensivas (basta comparar o putativo assunto com outros bem mais delicados), sobretudo porque vindas de asnos, anónimos e cobardes!

Para ajudar a perceber isto é só passar pelo "Candilhes", mais concretamente aqui.

domingo, março 14, 2010

Estreei-me: não foi tão difícil como suponha



Uma aposta/promessa ditou a minha estreia na “missa das seis da manhã”, no Farias, da Ribeira Grande.
Quase no fim do almoço de sábado, por regra uns “chicharinhos”, no “Cigano”, ali em frente ao já totalmente atulhado molhe do castiço porto da Calheta de Pero de Teive, já tranquilizado com a bênção de Baco (sumo de uva, de cheiro, vindo, dizem, da Fajã do Calhau) e olhando o relógio por forma a não perdeu o CDSC vs Portimonense, em dia de chuva e vento, de tal forma que nem a pala da bancada central evitou uma valente molha, um amigo, que comia na mesa em frente, disse em voz alta para todos ouvirem:
- Se o Santa Clara ganhar esta tarde, amanhã vou à missa das seis à Ribeira Grande!
Explicada de que missa se tratava, e que a “capela” era o Farias, logo lhe retorqui:
- Se ganhar, mas só se ganhar, liga-me para casa que vou lá ter contigo.
E assim foi. Por volta das 20:00h do sábado lá recebi o seu telefonema, acertando a hora, e lembrando que ele, sacristão daquele templo, não faltaria. Acrescentou também que; se eu iria ou não, logo se veria! Ele é que, telefonando-me, já fizera a sua parte, e como bom "sacristão" não faltaria.
E lá fui eu, hoje, logo pela manhã, para aquilo que julgava ser um sacrifício difícil. Mas não foi!
Claro que não é como o leite e os cereais do dia a dia, mas um dia não são cem dias, e foi por uma boa causa!
Marchou a sopa de carne (quase toda, porque com a conversa, ao arrefecer, já não estava fácil terminar com o fundo do prato). Marchou também uma boa costeleta de porco, um bom naco de carne de vaca, as rodelas de chouriço e de morcela da conta, e três “meizinhos”; um por conta de cada golo, o último, o mais apetecido (até porque o golo correspondente foi um espectacular exercício de simplicidade) acompanhado com queijo de São Jorge e pão acabadinho de sair do forno.
Às 8:30 estava a cerimónia terminada, e eu com um anormal pequeno-almoço tomado, que acabou não sendo, como já referi, tão difícil como suponha (e a melhor prova do que digo é que aqui estou, quase logo de seguida, a relatá-lo).
Já de regresso a casa no auto-rádio passava o “Dilalah”, do Tom Jones. Não sei porquê – será porque já não ouvia esta música há muitos anos? Ou terá sido mais uma vez obra de Baco? -, até porque é género que pouco aprecio, dei comigo a cantarolar a canção, que naquele contexto, até parecia musica celestial.
Não me custa voltar a fazer promessas destas: venham mas é mais vitórias!

terça-feira, março 02, 2010

Madeira: solidariedade, sim, parar para pensar também!



Trágédia anunciada : Clicar no link abaixo para ver video

Poucos serão aqueles que, melhor do que nós, ilhéus, e de forma cabalmente demonstrada, nós, açorianos, conhecem o que é viver em zonas, para tal, sob diversos aspectos, de elevado risco. Conviver amiúde com intempéries e catástrofes naturais, e resistir, ou “renascer”, logo após ser vítima das suas consequências, é outra característica que parece fazer parte do nosso ADN. Lidamos com tanta naturalidade com estas adversidades que, mesmo quando outros – em regra “de fora” – nos chamam à atenção para determinados perigos, ou para algumas situações graves às quais quase permanentemente, mesmo sem darmos disso conta, estamos expostos, ignorá-los, considerando serem exageradas as preocupações que manifestam, é o que, na maioria das vezes, fazemos. Só por isso, talvez – quero de tal convencer-me –, se pode justificar a continuada pouca atenção que é dada às questões que têm a ver com o ordenamento do território, ou mesmo a cumplicidade das diversas entidades na execução, desenvolvimento e implementação dos várioss planos e reservas (que por vezes parecem mais vocacionados para a valorização imobiliária do que para acautelar os fins para que efectivamente são criados), e/ou a passividade, se não mesmo negligência, com que lidam com aqueles que, quando confrontados com as regras que existem, habilidosa e sistematicamente as contornam.
Perante tanta permissividade os efeitos saltam logo à vista, e são os próprios instrumentos supostamente vocacionados para o planeamento e ordenamento que disso melhor nos dão conta: é ver como, mesmo nas áreas onde o solo urbanizável ainda está muito longe de ficar completamente ocupado, as zonas destinadas a outros usos continuam sendo alvo facilitado da invasão do betão. É assim com a Reserva Agrícola, de forma mais comedida também com a Reserva Florestal, e até, como facilmente se verifica, tanto os leitos de cheia como a própria orla marítima (mesmo em zonas sujeitas a regulares sobressaltos e forte erosão) não escapam a tamanha pressão. Casos há que, não obstante a perigosidade do local, ao mesmo tempo que é efectuado um significativo esforço para o realojamento de uns, outros, de forma pouco prudente e a coberto de uma legalidade ambígua, insistem em construir.
Ordenar o território, prática de planeamento cada vez mais necessária onde quer que seja, assume capital importância em ilhas, espaço territorialmente restrito e que tem como única fronteira o oceano. E porque a terra é um bem cada vez mais escasso, num tempo em que já nem o subsolo se livra de usos de duvidoso interesse – com consequências nefastas cada vez mais evidentes –, seria bom que alguém, com responsabilidades, se lembrasse que por cada m2 de alcatrão estendido e m3 de betão colocado, são mais uns quantos ares de solo que deixa de desempenhar as suas importantes funções de drenagem e absorção natural de águas pluviais, evidência que parece facilmente estendível por todos, excepto, pelos decisores.
É no prevenir, não no remediar, que está o ganho. Depois do mal ficar feito pouco mais resta do que os habituais: “ai Jesus”, “Virgem Santíssima”, “meu querido Senhor Santo Cristo dos Milagres”, “Divino Espírito Santo”, “tende piedade de nós”!

A.O. 02/03/10; “Cá à minha moda" (ligeiramente alterado)

quarta-feira, fevereiro 17, 2010

Já estou como o outro: Bom Carnaval


E mais um MONTE de fotografias: anjos de duas faces, bruxas e ciganas vigiadas por um Zorro de acrílico, o tal, e a F. Chada bem acompanhada.

Não sendo esta quadra a melhor para tratar coisas sérias, foi em pleno Carnaval, num dos mais tradicionais “assaltos” de São Miguel, que, impressa na camisa do “mordomo da festa”, encontrei a chave de um socrático arcano que dura pelo menos desde que se tornaram públicos pormenores de uma célebre licenciatura, numa não menos célebre universidade, entretanto encerrada compulsivamente, não sem antes ter licenciado mais umas quantas celebridades. “Faça o culto”, lia-se na artística Tshirt, onde também constava uma caricatura do visado. Bingo, pensei eu – talvez inspirado pelo “barulho das luzes” –, aqui está a solução! É que, mais do que ironizar com “face oculta”, o caso, que tudo indica vai continuar e transformar-se em autêntica penitência quaresmal, a mensagem apontava, acertadamente, para a solução do problema real de que o personagem padece: um frustrado sentimento de adoração, de que parece estar carente quem, embora exímio no uso dos média, lida mal com as críticas e demais apreciações mais causticas que pela mesma via lhe são dirigidas. Só assim percebo, para mais porque vindo de quem usa a comunicação como um pilar da governação – muitas vezes raiando a propaganda –, que, quer a estridente insistência de Manuela Moura Guedes, o lúcido “pessimismo” de Medina Carreira, ou até a assertiva contundência de Mário Crespo, sejam um problema para resolver. Percebo mas não concordo: O verdadeiro problema, o problema que pode afectar todos e não só alguns, é o da escassa preparação e lastro (até democrático, pois é isso que o autoritarismo e a prepotência denunciam) de quem detém o poder; o problema, um sério problema, é que a política, poucos anos ainda haviam decorrido desde que deixara de ser monopólio de uns poucos, ainda antes de se consolidar como serviço público, já se transformara em actividade económica, “nicho de mercado” selvaticamente – embora a coberto da democracia – disputado por uns quantos; o problema, o dramático problema, é que a ninguém, por pior que faça, é pedida responsabilidade. Bem pelo contrário, não faltam benesses para distribuir, nem baias douradas para os acolher. Tal como não faltam cintos para mandar apertar, sempre aos mesmos. E não é como o Carnaval, que são só três dias!

A.O. 16/02/10; “Cá à minha moda"

terça-feira, fevereiro 02, 2010

Deformar a “Rua Formosa”


Formosa e não segura, mas bem equilibrada com mamarrachos

Quando, depois de andar algum tempo em redor de temas correlativos, tinha por fim pensado em deixar de “bater no ceguinho”, eis que a publicitação de um novo “mamatacho” (que embora embrulhado em “papel de oferta”, e por alguns docilmente classificado de “projecto moderno”, não deixa de estar destinado a camuflar e afiançar mais estorvo para a cidade) me veio obrigar a não cumprir o premeditado.
Vistas amplas, e sólido sentido de subordinação do interesse individual, pessoal, ao interesse público, tiveram aqueles que ainda no século XIX, de forma visionária, e adoptando uma escala e rigor geométrico muito pouco habitual entre nós, projectaram a então Rua Formosa, hoje Rua de Lisboa (até na alteração do nome, a emenda à posteriori ficou muito aquém do original), indicando com um rasgo de modernidade a potencial zona de expansão da cidade. Anos depois, primeiro a Av. Roberto Ivens e logo a Príncipe do Mónaco, adoptando os mesmos parâmetros quando à escala e geometria, confirmavam claramente a direcção, e a amplitude desejada, para a expansão de Ponta Delgada. Já na “primavera marcelista”, tal como muitas vezes acontece quando se confunde inchaço com crescimento, o suposto “progresso” trouxe para ali um aeroporto, para, já em autonomia, e, sob o ponto de vista do ordenamento da área agravando ainda mais a situação, o seu prolongamento para Nascente (outros, mais ousados, prologavam para Poente, pelo mar adentro, tal como na Madeira), com o aberrante aterro que o sustenta, qual monstruoso abcesso artificial, desfigurar toda aquela zona.
Mas isso são contas de outro rosário, regressemos ao que agora interessa.
Hoje, século XXI, quando a tendência é deixar os carros fora das cidades e dotar estas de transportes públicos adequados (amigos do ambiente e cumprindo horários aceitáveis), eis que nos querem presentear com uma central de camionagem acoplada a um parque de estacionamento, tudo numa das principais vias de acesso ao centro da cidade, como se já não fosse suficiente o congestionamento de transito do local, mesmo fora das horas de ponta.Por este andar: construir, construir, quanto mais alto e compacto melhor, não obstante a oferta exceder em muito a procura (o que mais por aí há são ofertas de venda, e até empreendimentos inacabados, alguns quase ao abandono), ainda corremos o risco de ver demolir o Bairro Económico (passem por lá para ver o que é qualidade de vida quase no centro da cidade) para o rentabilizar como área de construção, permitindo ali mais uns não sei quantos “galinheiros de betão”.
A.O. 02/02/10; “Cá à minha moda" (ligeiramente acrescentado)

terça-feira, janeiro 19, 2010

Dos “Pinheiros” à “Rua do Lameiro”




Recuar, por vezes é bom. No caso em concreto, bom e sensato. Feio é fingir que não se avançou só para evitar admitir recuos. Restará saber – ficará para mais tarde – se o passo atrás foi, finalmente, sinal de que o bom senso começa a imperar sobre a teimosia e a prepotência, ou se, pura e simplesmente, em função dos cenários anunciados, é já uma antecipada táctica eleitoral que a isso obrigou. De qualquer forma, “haja Deus”, especialmente por se tratar do “Parque dos Pinheiros”.
Bem vistas as coisas, não é de estacionamento, muito menos pago, aquilo de que Ponta Delgada mais necessita: carece isso sim, “como de pão para a boca”, de bom planeamento, e de uma boa rede de transportes públicos. Ou não tivesse o centro de Ponta Delgada duas ou três vezes mais lugares de estacionamento do que casas habitadas, sendo, como se sabe, praticamente inexistente o sistema de transportes públicos, urbano e interurbano, que o serve!
Veja-se o exemplo Santa Clara, cuja viagem até ao centro é excessiva para fazer a pé, e demasiado curta para, racionalmente, ser feita de carro. E quem diz Santa Clara, diz Relva, Arrifes, Fajã de Baixo, Fajã de Cima (para não ir mais longe), onde, obedecendo a modelos noutros locais já desde há muito tidos como más soluções de urbanismo, nascem como cogumelos novos aglomerados, com moradores que, claro, não têm outro remédio senão ir de carro para o centro. E, assim continuando, podem duplicar ou triplicar os lugares de estacionamento que estes serão sempre insuficientes.
Voltemos ao Parque dos Pinheiros. Lembram-se que aquilo passou de terreiro para o que hoje é quando ainda confinava com o seminário? Lembram-se que na altura se construía ali perto – Rua do Castilho – o primeiro auto silo da cidade? Será que nos “Pinheiros” – onde até atingir a cota da Rua do Conde, se calhar, é mais fácil fazer dois ou três pisos subterrâneos do que apenas um no Campo São Francisco – o estacionamento subterrâneo não substituía com vantagem o silo da Rua do Castilho?
Bom, pelo menos maior fluidez de trânsito na Machado dos Santos e nas suas paralelas e ortogonais haveria com certeza!

A.O. 19/01/10; “Cá à minha moda"

terça-feira, janeiro 05, 2010

Torres do Dubai




A “Burj Dubai” (por razões óbvias, na última da hora batizada de Burj Khalifa), com cerca de 800 metros de altura, actualmente o arranha-céus mais alto do mundo, um investimento colossal de cerca de mil milhões de euros cuja rentabilização começou a ser posta em causa antes mesmo da obra conhecer o seu fim, foi inaugurada ontem (hoje, 4/01/2010, dia em que escrevo), aproximadamente seis anos após o início da sua construção.
Irónico – ou talvez não –, é que isso acontece no auge da crise provocada pela “bolha imobiliária”, quando o custo do m2 construído na mesma torre já caiu para cerca de cinquenta por cento do valor pelo qual já fora negociado, e num território cuja economia está à beira da bancarrota, com a sua mola original, o petróleo, dada a inevitável mudança de paradigma, muito dificilmente lhe servindo de futura “bóia de salvação”.
Pois é. Mais uma vez sem ter necessidade de olhar para muito longe – tal como no meu anterior escrito aconteceu com Copenhaga –, volto a ver o Dubai aqui tão perto!
Sim. Porque penso no Dubai quando vejo as novas urbanizações, algumas desde à muito inacabadas, às quais se acrescentam as mais que se anunciam projectadas, tudo malha densa, obviamente em altura, a mais das vezes em território cumplicemente “roubado” à reserva agrícola, ou a outras "reservas" ainda mais delicadas.
Sim. Porque é do Dubai que me recordo sempre que reparo nas muitas propriedades agora amplamente anunciadas para venda, prédios ou fracções onde – moda que a necessidade impôs – podem ser vistos, em simultâneo, os dísticos de duas ou mais imobiliárias disputando a intermediação da sua venda.
Sim. É o Dubai que me vem à memória sempre que assisto à destruição de uma das “galinhas de ovos de ouro” dos Açores – a natureza, também marca da nossa singularidade –, recurso avidamente destroçado por um bárbaro planeamento urbanístico: que destrói em vez de preservar; que na ânsia de tanto construir não dá conta do quanto assim contribuiu para a desertificação.
É que, com ou sem rendimentos do petróleo, até acho mais razoável usar o betão para transformar um deserto numa enorme e súbita metrópole, do que usá-lo para destruir um paradisíaco oásis, mesmo que minúsculo.
A.O. 05/01/10; “Cá à minha moda" (Revisto e acrescentado)