domingo, junho 10, 2012

Ainda o 6 de Junho

Por mais que se esforcem para o negar, o 6 de Junho de 1975 está para a autonomia dos Açores – e da Madeira – como 25 de Abril de 1974 para a democracia em Portugal!
Para aqueles que continuam renitentes em aceitar a importância do 6 de Junho em favor do mais recente processo de desenvolvimento dos Açores, alguns deles insistindo em chamar “manifestação de lavradores” a um levantamento popular que colocou milhares de pessoas à entrada do Governo Civil de Ponta Delgada exigindo INDEPENDÊNCIA, convém avivar-lhes a memória (porque há coisas que não mudam, e ressurgem com a oportunidade: foi assim com Salazar, também assim foi, em 1975, com o Conselho da Revolução, e hoje, com este governo “relvas/passista” bem escudado na finalmente conseguida “uma maioria/um governo/um presidente”, bem tentam que volte a sê-lo) e lembrar-lhes que, já após o 25 de Abril em Portugal, o MAI da altura preparava uma nova divisão administrativa do território, transformando os Açores numa província – que não podia deixar de ser ultramarina –, que com outras oito parcelas (Madeira e mais cinco províncias em “terra firme”), todas dotadas de autonomia político administrativa, corporizariam o projecto de regionalização ao tempo em curso (não faltam semelhanças com a recentemente promulgada Lei 44/XII).
Só após o 6 de Junho de 1975, e em consequência directa deste – por muito que a uns quantos isto custe a admitir –, se foi mais além no que aos Açores e à Madeira dizia respeito. Mas os efeitos imediatos do “6 de Junho” apareceram quase de imediato. Ainda com os gritos de INDEPENDÊNCIA ecoando bem alto em Portugal, o Conselho da Revolução, "para amansar", determinou como medidas a implementar nos Açores, entre outras, as seguintes: a atribuição imediata de 100.000c ao Plano Pecuário dos Açores; um significativo apoio ao sector das pescas e conservas de peixe; a urgente cobertura médica do arquipélago; e até, imagine-se, a instalação de um Secretariado Regional da Banca.
Hoje, para continuar a dar sentido às conquistas do 6 de Junho, há que persistir na luta, começando por coisas tão simples como: não ter de pedir licença a ninguém para ensinar ao Povo a que pertencemos a nossa própria História e revoltarmo-nos contra leis que nos conotam com o fascismo por defendermos a INDEPENDÊNCIA da nossa terra e/ou nos impedem de organizar em partidos aqui originários (único modo democrático de lutar, sem subtilezas, pelos nossos próprios interesses).
6 de Junho: ontem, hoje e sempre!
A.O. 09/06/2012; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado)

terça-feira, maio 29, 2012

A completa rendição

Algo de muito estranho se deve andar a passar com o PSD/Açores. É absolutamente confrangedor observar como, com a passiva cumplicidade de deputados açorianos, têm passado facilmente – “como faca quente em manteiga” – alguns dos mais recentes ataques aos Açores, à sua já de si escassa Autonomia, e ao Estatuto que a regula. É caso para perguntar: que pacto estará feito (o que se pretende e quem com tal ganhará) com o acintoso grupo que conduz o pesado “Rolo Compressor Centralista” que está em movimento em Portugal?

Por vezes disfarçada de disciplina, todos sabemos que a submissão fácil é uma matriz (diria mesmo uma “característica genética”) das hostes conservadoras. Mas nem mesmo isso pode e deve justificar a completa vassalagem que está a ser prestada por quem tem – ou devia ter – como principal missão defender os Açores, as suas gentes e o que estas a muito custo conquistaram de autonomia nos últimos anos. Isto mesmo quando os personagens têm de conviver com o “inimigo”, como é o caso dos deputados do PSD/A e a prepotente maioria “Relvas/passista” que como se vê os submete e manieta. É que, ainda não “assentou pó” o caso da “lei da extinção das freguesias” – que, não me canso de dizer: trata as Autonomias “abaixo de cão”, chegando ao ponto de equiparar a Assembleias Legislativas dos Açores e da Madeira a meras Assembleias Municipais – e já o Estatuto dos Açores, mais uma vez com a passiva cumplicidade de deputados supostamente eleitos para com ele serem solidários, é de novo vítima de outra tentativa de subalternização (o caso do DLR 51/2006/A – sobre o “reconhecimento das Fundações”). Com tanto “dobrar de espinha” (e já diz o Povo que quem muito se abaixa……) não admira pois que até o nobre milhafre, buteo buteo acastanhado que desde há séculos nos simboliza, agora nos seja apresentado em versão albina, descolorado, como que já expressando as criaturas submissas, “domesticadas” (mas sempre prontas para exibição quando necessário) em que, parece, os actuais regentes e os seus delegados locais nos pretendem transformar.

Nada que outras crises – a da década de 30 do século XX, por exemplo –, oportunistamente aproveitadas por outros autoritários governantes, já não tivessem experimentado, e até conseguido.

Há no entanto que saber resistir!

A.O. 26/05/2012; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado)

domingo, maio 13, 2012

A triste dependência


É  doloroso ver a forma como um partido como o PSD/A, que se diz – e foi – fundador desta última fase do processo autonomista, agora, não obstante a sua líder se escudar em atributos tipo “ser uma negociadora difícil”, o que mais faz é vender a alma por questões de táctica política, o que se torna gravíssimo sobretudo quando estão em jogo, como é o caso, Causas e Ideais, Princípios que deviam ser intocáveis, nunca “moeda de troca”. A desesperada busca de uma vitória eleitoral, que com tanta vassalagem mais parece uma quimera que a cada dia que passa mais se desvanece, não pode “valer tudo”, muito menos cedências naquilo que muito custou a conquistar e se exige consolidar: a escassa autonomia até agora conseguida!

A forte subserviência deste PSD/A ao poder centralista já tinha ficado bem evidenciada por ocasião das últimas eleições para o Parlamento Europeu, com a “troca”, à última hora, de um açoriano com meritório trabalho desenvolvido por uma “portuguesa imposta”, no caso, não pelo “Terreiro do Paço” mas pelo “Palácio de Belém”.

Se já assim fora em tempos, agora, quando o “torniquete centralizador” arrocha mais a cada dia que passa, e as tendências autoritárias se evidenciam como já não havia memória, a propensão deste PSD/A pela submissão angustia, aflige e inquieta. Os sinais são mais que muitos, desde os mais atabalhoados e aparentemente displicentes – quem não se lembra como, de uma semana para outra, quem antes disse que só governaria em maioria mudou de opinião a “toque de caixa”, para tal bastando apenas o som de um distante clarim –, até a outros mais sofisticados, como tal bem elucidativos, e, estou em crer, muito perigosos. Atenda-se à forma como têm sido tratadas questões como: a RTP/A, a Universidade dos Açores, a SATA e até o caso da “fibra óptica para as Flores e Corvo”. Também o caso da “lei da extinção das freguesias” – relvista obsessão que trata as Autonomias “abaixo de cão” chegando ao ponto de equiparar a Assembleias Legislativas dos Açores e da Madeira a meras Assembleias Municipais –, ofensiva que em “São Bento” contou com a cumplicidade dos deputados do PSD/A para a aprovação da malfadada Lei n.º 44/XII (facto muito pouco, ou mesmo nada noticiado nos Açores), nos ajuda a demonstrar com quem se pode contar. Que tristeza!

A.O. 12/05/2012; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado)


quarta-feira, maio 02, 2012

Do PREC ao PRAC




Trinta e oito anos após o 25 de Abril, e quase outros tantos depois do célebre PREC, que, como que em consequência da espontânea descompressão dos quarenta e oito anos da ditadura se lhe seguiu, eis que a muito ambicionada – e finalmente conseguida – “uma maioria, um governo, um presidente”, logo na sua primeira oportunidade, nos presenteia com um PRAC: Processo de Regresso ao Autoritarismo Compulsivo.

Se as bastas marcas até agora registadas já não deixavam grandes dúvidas sobre esta pretensa forma tendencialmente déspota de governar – padrão “custe o que custar” –, os sinais que apontam para o futuro são ainda mais preocupantes. É que, como se já não bastasse o continuo “impõe, espreme e esfola” a que se tem assistido, agora, até o respeito pela Constitucional separação dos poderes parece estar em causa. Atenda-se ao polémico processo de nomeação dos juízes do Tribunal Constitucional, claro exemplo da instrumentalização do “Poder Judicial” pelo “Poder Legislativo”. E/ou, cumulativamente, à forma como a Ministra da Justiça, publicamente, exerceu a sua inaceitável pressão sobre aquela que, em Portugal, também é a mais alta estância de recurso judicial. Bom, “pelo andar da carruagem” é hora de começar a fazer figas para que não regressem os Tribunais Plenários que tanto jeito deu ao anterior regime!

Como escreveu recentemente Pedro Guerreiro dos Santos, em Editorial no Negócios Online, o Tribunal Constitucional estaria prestes a chumbar o corte dos subsídios da Função Pública, e por isso as polémicas escolhas poderiam ter sido feitas à medida, para inverter aquilo que, acontecendo, constituir-se-ia como uma calamidade política para o Governo de Passos Coelho. Para que as dúvidas ficassem esclarecidas logo à partida, concluindo a sua dedução, o autor do Editorial acrescentou que tal acontecia porque: “Não que os escolhidos sejam manipuláveis. Mas por saber-se o que pensavam. E teriam sido escolhidos em função disso. E isso sim será manipulação.”

“A manipulação do Estado de Direito” foi o título que o autor deu ao seu trabalho. A mim, apetece dizer: é de ter dó, o estado a que isto chegou!

A.O. 28/04/2012; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado)




domingo, abril 15, 2012

Passos perdido

Portugal parece-se cada vez mais com o palco de um concurso de mentiras e menos com um País, capaz sobreviver em democracia!
De lapso em “lapso”, apresenta-se já muito íngreme a “via dolorosa” que os “senhores da verdade” apontam como “o caminho da redenção”. Íngreme, e enlameada, forçando os seus próprios promotores – que já “patinam” – a dar o dito por não dito, a mudar rapidamente de discurso, de opinião, e até o seu modo de intervenção (metamorfose ainda mais evidente quando comparamos o que antes, na oposição, diziam, com aquilo que, agora, no poder, dizem e fazem).
As “trocas e baldrocas” da passada semana, sucessão de acontecimentos que culminou (beneficiando da cúmplice cobertura do Presidente da Republica Portuguesa) com um “expediente salazarista” (secreto e totalitário), disso nos dão perfeita conta. Vejamos três exemplos:
1º - O aparentemente convicto “não será necessário nem mais tempo nem mais dinheiro [para cumprir o “troikano” programa]” que cedo deu lugar à dúvida – já quase certeza! – em Portugal poder “regressar aos mercados” na data prevista. Não por coincidência – digo eu! – com a confessa incerteza expressa em língua germânica;
2º - A já de si dura subtracção, supostamente só por dois anos, dos subsídios de férias e Natal, que agora, como foi dito, só serão repostos para lá de 2014, e aos “bocadinhos” – bem o recomenda Maquiavel –, em ocasião eleitoralmente oportuna;
3º - O solenemente anunciado: “Este ano não vão haver mais medidas de austeridade”, que logo foi seguindo, dia sim, dia sim, de um contínuo arrochar do “medonho torniquete”.
É certo que o mal não é só de agora, mas certo também é que, em democracia, nunca como agora se assistiu a tão grande insensibilidade social – bastas vezes cinicamente disfarçada – e a tanta obsessão por um autoritarismo tipo “quero posso e mando”, que, em crescendo, recai continuamente sobre uns, os mais desfavorecidos, e poupa sistematicamente outros, sempre os mesmos, em regra os que mais podiam – e deviam – serem justa e devidamente colectados.
Passos Coelho começa a parecer perdido. E, já inquieta – quase levando ao desespero – amigos, apoiantes, companheiros, parceiros, e alguns apaniguados (sobremaneira os que têm a curto e médio prazo eleições para disputar).
A.O. 14/04/2012; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado)

sábado, março 31, 2012

Troika a uns, não troika a todos



Pois é! A “Troika mandou” – tal como eles gostam de dizer –, e, sem dó nem piedade, com a rapidez de um piscar de olhos: os impostos subiram em flecha; o custo de vida “disparou”; os rendimentos de trabalho, da maioria, “foram esmagados”, sem que, para tudo isso e muito mais (o subsídio de férias e de Natal também mirraram) não houvessem “direitos adquiridos” que valessem nem consciência que obrigasse a pensar duas vezes!
No entanto, quando os destinatários são outros, de casta superior, não obstante serem também pela Troika visados, “a coisa pia mais fininho”. Digamos que a capacidade deste governo “relvas/gaspar/passista” para implementar as “medidas da Troika” é adaptável: muito forte e determinada quando se tratam de destinatários/vítimas (a base da pirâmide social), mas substancialmente reduzida sempre que se dirige aos que mais podem, a destinatários “de peso”, àqueles a quem as medidas se aplicariam com mais justiça. “Um governo forte com os fracos, mas fraco com os fortes” como por aí se diz. Demasiado fraco com os fortes, atrevo-me a acrescentar: o caso EDP, com as rendas excessivas – que já fizeram “rolar cabeças” – e os 180 M euros de dividendos recebidos por antecipação, são bom exemplo disso (a reforma autárquica também)!
O actual primeiro-ministro, e, pelo menos como consta, o chefe deste governo “Relvas/gaspar/troikista” que nos esfola e desespera, bem que se esforça para passar uma ideia contrária. Ele bem que fala em equidade e justiça social. Porém, e a cada dia que passa isso se torna mais óbvio, é no agravar da já enorme desigualdade de rendimentos existente entre uns e outros que Passos Coelho parece estar mais empenhado. E, numa hora destas, já nem a “pesada herança” – quem recebeu uma grande herança foi o “negociador Catorga”! – funciona bem como descarte.
Como é diferente o antes e o depois: os impostos que com ele não iam subir, mas subiram; os subsídios de Natal que com ele não iam ser retirados, mas foram; o acomodar de amigos e correligionários que com ele iria acabar, mas que continua...
Acredito que entre “mortos e feridos, alguém há-de escapar”. Só espero que sejam muitos, e que estes não se esqueçam do refrão: “pelos domingos se tiram os dias santos”!
A.O. 31/03/2012; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado)

quarta-feira, março 14, 2012

Terá sido do zapping?




No fim de tarde, início de noite, do passado Domingo, com a atenção repartida entre as notícias que passavam em diversos canais e o “Estado de Graça” da Maria Rueff e os demais “estadistas” que a acompanham naquele horário, não pude deixar de andar espreitando, embora com intermitência, a homilia semanal do Prof. Marcelo. Fi-lo porque tinha uma enorme curiosidade a satisfazer: saber se também ele iria exigir a retratação dos responsáveis pelo tal anuário que, enganando a Exma. Presidente da Câmara Municipal de Ponta Delgada, levaram-na a anunciar “boas novas” que depois se verificou não serem assim tão boas, e, sobretudo, serem muito diferentes das que haviam sido anunciadas. Admito ter sido de tanto “zapping”, mas, confesso, a esta parte (a correcção da notícia que segundo um qualquer critério colocava a CMPD em primeiro lugar num qualquer “ranking”) eu não assisti.
Porém, como que em contrapartida, vi e gostei das duas fortes “chibatadas” que o Prof. Marcelo desferiu no Prof. Cavaco. Não é que tenha saudades de José Sócrates. Até acho que está muito bem onde está – em Paris, melhorando o seu currículo académico – e que foi tempo perdido o seu 2º mandato. Só que também acho ter sido uma pena que a mudança não tenha acontecido para melhor. É que, como com imenso saber já dizia José Régio: “ [mudar] para melhor, está bem, está bem / para pior já basta assim”. E, como se viu – se vê e sente na pele –, para melhor nada mudou: a não ser as moscas!
Bom. Mas sem ter conseguido dar pela correcção da notícia sobre o tal “ranking”, ficou ainda mais evidente o registo das “chibatadas”, em especial a forma como com elas, a seu jeito – e bem –, o Professor, interrogando-se, também nos interrogou:
- Quando por parte do primeiro-ministro Sócrates se verificou uma deslealdade institucional, para mais, algo com um nível de gravidade que nunca ocorrera nos trinta anteriores anos de Democracia, será muito difícil (ou talvez não) entender o porquê do Presidente da República, então, não ter agido em conformidade.
E não se ficou por aqui. Rematando o assunto, Marcelo Rebelo de Sousa logo de seguida acrescentou, “ao decidir manter silêncio acerca de uma deslealdade dita como de grande gravidade, Cavaco Silva transmite a ideia de que no futuro, e perante um caso idêntico, não demite nenhum Governo”.
No que a demissões possa dizer respeito, longe de mim – oh santa ingenuidade – esperar do actual Presidente da Republica Portuguesa que faça com o actual Governo de Portugal (e não é que não merecesse!) aquilo que não fez com o anterior. Mas, e contrariando o que aconteceu com a notícia sobre o tal “ranking”, não posso deixar de dar razão – “carradas dela” – à análise que o Professor Marcelo Rebelo de Sousa fez ao procedimento do actual Presidente da Republica Portuguesa: pelo que devia fazer e não fez; pelo que devia dizer e não disse. Convinha-lhe (acrescento eu), pois não se pode esquecer que, por muito menos, em pleno Verão, interrompendo férias, ele não se conteve, e foi feita aquela inusitada comunicação. Não, na altura não estava em causa a “mais grave deslealdade institucional dos últimos 30 anos”. Nem a “Independência dos Açores”, infelizmente (digo eu).

A.O. 13/03/2012; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado)

terça-feira, fevereiro 28, 2012

Zeca Afonso, 25 anos depois





Só o tempo passa.
Parece ter sido ontem, quando logo depois do memorável concerto proporcionado por Zeca Afonso em Lisboa, num longo e também inesquecível serão, alguém que desde há muito acompanhava de perto o iconográfico baladeiro, relembrando alguns momentos do evento que ali estava ainda muito presente, enfatizava o esforço do cantor em superar as suas dificuldades, pois já se encontrava muito debilitado fisicamente.
Quatro anos depois, a 23 Fevereiro de 1987, Zeca Afonso deixava-nos. Partiu o homem, o poeta, o músico. Mas ficou a sua memória, a sua obra, a sua música, e com ela a forte e profunda mensagem que a mesma contém e integra. Ficou, e, por incrível que pareça, volvidos todos estes anos, continua actual: casos há, a fazer hoje tanto ou mais sentido do que aquele que fazia quando foi pensada, escrita, dita e cantada!
Como acontece com todos – ou quase todos – os visionários, Zeca Afonso pagou caro, nada recebeu em troca, e até pouco fruiu da saudável aragem que soprou após se terem esboroado as penosas barreiras que ajudou a derrubar. O que talvez Zeca Afonso nunca imaginasse – neste sentido ganhou, pelo menos a tal foi poupado – é que a sua obra, edificada com propósito de dar combate a uma ditadura já então contando quase quatro décadas, se mantivesse com tão grande actualidade outro tanto tempo depois de destituída “a velha senhora”.
Dá muito que pensar a contemporaneidade de, por exemplo, os “Vampiros”. Ora vejamos:

“No céu cinzento sob o astro mudo
Batendo as asas pela noite calada
Vêm em bandos com pés veludo
Chupar o sangue fresco da manada.

Se alguém se engana com seu ar sisudo
E lhes franqueia as portas à chegada
Eles comem tudo, eles comem tudo
Eles comem tudo e não deixam nada.

A toda a parte chegam os vampiros
Poisam nos prédios poisam nas calçadas
Trazem no ventre despojos antigos
Mas nada os prende às vidas acabadas.

São os mordomos do universo todo
Senhores à força mandadores sem lei
Enchem as talhas, bebem vinho novo
Dançam a ronda no pinhal do rei.

No chão do medo tombam os vencidos
Ouvem-se os gritos na noite abafada
Jazem nos fossos vítimas dum credo
E não se esgota o sangue da manada.

Se alguém se engana com seu ar sisudo
E lhes franqueia as portas à chegada
Eles comem tudo, eles comem tudo
Eles comem tudo e não deixam nada.”




A.O. 28/02/2012; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado)

quinta-feira, fevereiro 16, 2012

Loas, lérias e sussurros perversos



Carlos César, Presidente do Governo dos Açores, escolheu Santa Clara para dizer que não existem freguesias a mais nos Açores. Como em política não há coincidências, e tendo o desígnio sido proferido por ocasião da inauguração de uma importante beneficiação na freguesia – a necessária, muito reclamada e desde há muito aguardada requalificação da “Rua Direita do Ramalho” –, a sua mensagem foi também, sem dúvida nenhuma, um sinal de reconhecimento ao muito e bom trabalho desenvolvido em Santa Clara desde que a localidade se afirmou como freguesia: realidade que “entra pelos olhos adentro” de todos – até mesmo daqueles que muito se empenham para que assim não fosse –, e é prova de como a proximidade, a tolerância, a actuação persistente e empenhada, sobretudo (como acontece no caso de Santa Clara) quando devidamente enquadradas num consistente projecto de cidadania activa, podem fazer milagres. Basta lembrar como era Santa Clara em 2005 e comparar com o que é Santa Clara hoje para constatar “o milagre” em tão pouco tempo realizado, prodígio que, não fora a “2ª Rua da Teimosia” – ou Via Marginal dos “bidãs” (nome que também lhe assenta bem) –, seria ainda mais notável.
Num outro registo – o da submissão (no caso dupla submissão) –, Berta Cabral, Presidente da Câmara Municipal de Ponta Delgada, escolheu o Carnaval para, a propósito de uma tolerância de ponto, que lhe era conveniente mas não queria que fosse entendida como afronta ao Primeiro-ministro de Portugal, mostrar uma oportuna subordinação ao Presidente do Governo dos Açores. Também aqui não existem coincidências (nem “Batalha de Limas” ou “ressaca” de Baile no Coliseu que o justifique), e não sendo coincidência tampouco é um bom sinal. Sobretudo quando o “Rolo Compressor Centralista”, hoje conduzido com os tiques autoritários que se conhecem, e que a cada dia que passa se manifestam com maior sobranceria, tem ao seu volante operadores que competem entre si pelo título de “campeão da insensibilidade social” ou da “arrogância política”, cujo exemplo máximo é o Ministro Relvas.
Hoje mais do que nunca – e de forma preferencial assegurando uma transmissão de testemunho geracional – a afirmação identitária dos Açores não pode ser tida como uma conveniência politica da ocasião, mas sim, e obrigatoriamente, como uma convicção, uma causa, um nobre dever a cumprir!
Os tempos que correm não diferem muito dos vividos em finais da década de 20 inicio da de 30 do século XX, e, é sabido, como, em pouco tempo, o “Rolo Compressor Centralista” colocado em marcha na época por António Oliveira Salazar, nuns casos esmagou, noutros seduziu e/ou absorveu muitos, uns quantos mesmo entre aqueles que ainda poucos anos antes andavam tão empolgados com projectos de aprofundamento da autonomia dos Açores.

Outro sinal dos tempos foi o sussurro feito pelo Ministro das Finanças de Portugal ao ouvido do “patrão” europeu. Se dúvidas haviam ficaram praticamente dissipadas. Há uma estratégia: passa por espremer e fazer sangrar quase até à última gota, para depois, o mais próximo possível das eleições, uma qualquer folgazinha poder ser dada “à laia de rebuçado”. Resta saber se os estrategas resistem, e, resistindo estes, se as vitimas desta estratégia, depois de “sangradas até ao limite”, sobreviverão com alguma utilidade?

A.O. 14/02/2012; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado)

quarta-feira, fevereiro 01, 2012

Jogo de espelhos com imagens invertidas



Na vida em geral, e na política em especial – sobretudo nesta, até porque, em política, os erros e/ou as mordomias de uns poucos são pagos com o “sangue suor e lágrimas” de muitos –, não há nada pior do que corrigir uma ou um conjunto de acções/intenções menos acertadas ou completamente erradas, com outra, ou outras tantas, de sentido diametralmente oposto. É do mais elementar bom senso emendar o que quer que seja gradualmente, por aproximações sucessivas, avançando no sentido daquele que foi entendido ser o “novo rumo”. Nunca de supetão! Já diz o povo que “quem muito arrocha pouco aperta”. É sabedoria popular, e, tenho a certeza, não será quaisquer Troikas e toikistas, Relvas e relvistas, uns e outros mais ou menos amparados pelo seu serviçal exército de fulanos e beltranos, quem, mesmo numa hora destas, contrarie o rifão popular.
Os sinais, tal como o rol de contradições que os realçam, já são visíveis!
“Trocando por miúdos”:
Sim. Já poucos suportavam o excessivo optimismo socrático que até recentemente nos foi “vendido”: também por isso, tornou-se desejada, se não mesmo inevitável, a mudança. O que não era espectável, nem há Troika que o justifique – por mais que o repitam para parecer verdade –, é que a correcção da “ilusão socrática” possa ser feita recorrendo à “terapia Relvas/passista”, um culto pelo empobrecimento que mais do que austero é miserabilista, castrador da confiança e da esperança, comprovadamente eficaz na transformação do mau em péssimo!
Sim. Não obstante a eficaz equipa de comunicação contratada para promover “a ilusão socrática”, foram os muitos “gatos” que não conseguiram passar por “lebre” (um só exemplo: o novo aeroporto de Lisboa e as suas localizações) o que mais ajudou a desmontar “um altar” corrompido por outras questões menores (de novo um só exemplo: a célere licenciatura de Domingo à tarde). O que não era espectável – pelo menos em tão curto espaço de tempo –, é que a “terapia Relvas/passista”, dando o dito por não dito e desde cedo afogueada pela troca de uns por outros (na EDP um António de Almeida por um Eduardo de Almeida, Catorga, de seu último nome, e na Administração das AdP uma colocaçãozita para os apaniguados Manuel Frexes e Álvaro Castelo-Branco), rapidamente esquecesse as “gorduras do Estado”, os “custos intermédios”, as grandes negociatas – e seus beneficiários – tipo PPP’s, BPN’s e BPP’s, para, em seu lugar, atacar com sofreguidão aqueles que já só têm osso. Ossos mal nutridos, nalguns casos a definharem até serem encontrados como cadáver depois de durante anos se terem arrastando a fazer “esticar” os parcos meios de subsistência com que sobreviveram (rendimentos mensais cujos valores chegam a ser a centésima parte dos auferidos por quem, não o devendo fazer, descaradamente, diz que cerca de 10.000 euros/mês são insuficientes para cobrir as suas despesas).

Pior só mesmo os reflexos que aqui (aos Açores) nos chegam “destes espelhos”: os pretextos que “a crise” proporciona para estrangular a escassa Autonomia no entretanto conquistada, sobretudo quando vindos de quem tem, e cultiva, tendências autoritárias (nunca será demais recordar os autoritarismos anteriores, nomeadamente aquele que em situação similar até com a moeda açoriana acabou). Os reflexos “destes espelhos”, que cegam, são tão ou mais perigosos quando mais submissa for a relação político-partidária entre os detentores do poder em Portugal e os seus “afins” nos Açores.
Uma subserviência que, por vezes (e para alguns), até admite entregar os dedos desde que lhes seja permitido “brilhar com os anéis”.
Há que resistir!

A.O. 31/01/2012; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado)