terça-feira, junho 22, 2010

Saramago

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Polémico? Sim, claro. Como poderia deixar de ser polémico quem, pensando tão bem e profundamente quanto ele não se coíbe de com enorme frontalidade nos fazer chegar o resultado das suas reflexões, fazendo-o, quer em discurso directo quer de forma romanceada com uma clareza e simplicidades impressionantes?
Coerente? Também, e muito. Quase se pode dizer: a coerência de toda uma vida! Uma coerência e integridade que são tão mais consideráveis quanto menor é a representatividade, na sociedade onde ele se inseria e vivemos, do grupo daqueles que partilham as suas convicções.
Radical? Talvez. O próprio Saramago o admitia. Mas a intransigência, sobretudo quando – e se – lucidamente sustentada, ficava muito melhor a Saramago do que aqueles, como ao "L' Osservatore Romano" (só para citar um exemplo de topo), que aproveitam a hora da morte do adversário para radicalizarem os seus ataques ao falecido.
Genial? Sim. Com certeza. E é este o Saramago que me interessa, e aquele que cuja memória permanecerá!
Cheguei até Saramago já muito tarde. Não o ignorava, pois desde que em Portugal e por tabela aqui nos Açores a liberdade de imprensa começou a fazer o seu caminho, Saramago era nome não passava despercebido, pelo menos nalguma imprensa. Mas, se não o ignorava, de obras como: “Manual de Pintura e Caligrafia”, “ Levantado do Cão”, “Memorial do Convento”, “O Ano da Morte de Ricardo Reis”, “A Jangada de Pedra” e “História do Cerco de Lisboa”, pouco mais conhecia do que o título, e as opiniões, avulsas, que delas alguns amigos tinham, de modo especial os mais identificados com “a cartilha comunista”, “catecismo” que encontravam transcrito em muitas das páginas de alguns destes títulos.
Foi Sousa Lara o grande responsável pela minha aproximação à obra de Saramago. O radicalismo do então Subsecretário de Estado da Cultura de Cavaco Silva, o seu prepotente espírito censório e a sua consumada reprovação da candidatura do “Evangelho Segundo Jesus Cristo” a Prémio Literário Europeu em 1992 empurraram-me com força para a aquisição do livro em causa. Foi o primeiro de muitos (quase todos). Depois deste, lido e relido como literatura de viagem numa das vezes que fui a Israel (e o usei como guia para alguns dos percursos), havia que recuperar o tempo perdido, constatando que pelo menos “Memorial do Convento” e “O Ano da Morte de Ricardo Reis” deram real conta do quanto havia até então perdido. Como imperdível (para mim o melhor) é também “Ensaio Sobre a Cegueira”, o primeiro comprado em 1ª edição, quando fresca ainda estava a sua tinta, e se apresenta como um representativo exemplo da enorme capacidade analítica, criativa e descritiva de Saramago.
Já encerrando o livro, tropeçando nas vírgulas que substituem pontos e são marca da escrita de Saramago, o autor, encarnando o médico, e respondendo à pergunta:
- “Por que foi que cegamos”, oferece-nos esta preciosa pérola:
“(…) Não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão, Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegámos, penso que estamos cegos, Cegos que vêem, Cegos que, vendo, não vêem.
Tem razão, e não há mais nada a dizer! Como não deixa de ter alguma razão quem disse: “não há palavras. Saramago levou-as todas”. Não foi bem assim, mas foi quase!
A última grande ironia de José Saramago foi ser cremado e mesmo assim permanecer entre os que têm direito a vida eterna. O que não deixa de ser um justo merecimento!

A.O. 22/06/10; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado)

terça-feira, junho 08, 2010

6 de Junho; e já lá vão 35 anos

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Exigiu-se Independência para os Açores, conquistou-se a autonomia com que nos governamos. Contudo, atenção, muita atenção: ao contrário do que muitos pretendem fazer constar, não foi aquela a primeira vez que nestas ilhas os anseios de Autodeterminação e Independência eclodiram. Esta é outra verdade quase sempre, e propositadamente, ignorada!
De então para cá muito mudou. Em 1975 dizia-se que os Açores não tinham condições de ser independentes, que nem “fábrica para fazer cuecas” possuíam, dependendo, até nisso, de Portugal para sobreviver. Santa ingenuidade. Como se não fosse a soberania, este bem de valor incalculável, a grande panaceia, e solução para transpor ou até eliminar dificuldades; basta olhar para o que se passa em Cabo Verde.
Podemos também olhar para Portugal: hoje, e, sem mais nada fazer do que só deixar passar o tempo, verifica-se como na “pátria mãe”, não obstante o número de “fábricas para fazer cuecas” que tem, ou que já teve, são enormes (tão ou mais graves do que os que teriam uns Açores Independentes) os problemas que apresenta para manter a sua própria soberania, se é mesmo que ainda a detém – recordo uma das últimas visitas do Primeiro Ministro de Portugal a Bruxelas, e da sua radical mudança de política e de discurso, a partir daí: “o mundo mudou”, passou então a dizer! Uma “mãe pátria” que, tal como outrora aconteceu com o Brasil e muito mais tarde com Angola, usa e abusa dos Açores, uma das duas “jóias da Coroa” que lhe restam do vasto Império, como mais valia negocial junto da UE, e dos EUA.
De então para cá – dizia eu – muito mudou, mas nem tudo mudou para melhor: não faltam, agora, portos, aeroportos, estradas e outras construções. Escasseia, isso sim, gente, sobretudo gente com a mesma têmpera daqueles que da terra, especialmente colocando-a produzir, tal como aconteceu com a laranja, conquistaram a nata da Europa.
Queiram ou não, o 6 de Junho de 1975 está para a autonomia dos Açores – e da Madeira – como 25 de Abril de 1974 para a democracia em Portugal!
Se não, vejamos: já após a Revolução dos Cravos, em Portugal, como se ainda fosse “o tempo da outra senhora”, o MAI da altura, preparava uma nova divisão administrativa do território transformando os Açores numa província – porventura adjacente –, que com outras oito parcelas (Madeira e mais cinco províncias em “terra firme”) corporizariam o projecto de regionalização ao tempo em curso, dotado de autonomia político administrativa. Só após o “6 de Junho”, e – por mais que desagrade a alguns – em consequência directa deste, se pensou ir mais além no que aos Açores e à Madeira dizia respeito. Mas os efeitos imediatos do “6 de Junho” não se ficaram por aí. Só após o “6 de Junho”, ainda “na ressaca” dos acontecimentos em Ponta Delgada, e usando a estratégia "de amansar" que tanto efeito tem e ainda hoje é muito adoptada e resulta, o Conselho da Revolução determina como medidas a implementar nos Açores, entre outras: a atribuição imediata de 100.000c ao Plano Pecuário dos Açores; um significativo apoio ao sector das pescas e conservas de peixe; a urgente cobertura médica do arquipélago; e até, imagine-se, a instalação de um Secretariado Regional da Banca.
Hoje para continuar a dar sentido ao 6 de Junho, há que olhar em frente e ser cada vez mais exigente: não ter de pedir licença para ensinar ao Povo a que pertencemos a nossa própria História, nela incluindo todos os 6 de Junho que precederam o de 1975, entre outros, o de 1 Março de 1821, ou o de 2 de Março de 1895; revoltarmo-nos contra leis que nos conotam com o fascismo por defendermos a independência da nossa terra; indignarmo-nos por nos impedirem de organizar em partidos aqui originários, único modo democrático de lutar, sem subtilezas, pelos nossos próprios interesses. E também, que haja coragem: já tarda a institucionalização do 6 de Junho, dar nome a uma rua é manifestamente muito pouco!

A.O. 08/06/10; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado)

terça-feira, maio 25, 2010

Falhar na segunda, fugir à terceira



Há momentos que podem marcar toda uma vida, ou carreira. São por regra ocasiões em que alguém, ora por não saber avaliar a hora certa para sair em grande (perceber quando não tem capacidade de acrescentar mais ao desígnio / quando já não é factor de progresso, ou de diferença em relação ao passado), ou, no outro extremo, quando interrompe abruptamente um projecto, abandonando-o antes do tempo, fugindo assim à pressão e à responsabilidade do cumprimento de objectivos contratados, como, ao que parece, está a acontecer com o ainda treinador do CDSC, Prof. Vítor Pereira.
É pena que assim seja.
Pena porque macula sobremaneira o trabalho positivo por ele desenvolvido nas duas épocas que passou no CDSC. Pena porque representa “um passo atrás” no trajecto de pessoas e instituições que se empenham estoicamente por uma “nova ordem” para o futebol. Pena porque retira credibilidade ao que foi pelo próprio Vítor Pereira, dito e repetido várias vezes no final da época 2008/09, quando os métodos da “velha ordem” vingaram perante os que dizia defender, tendo na altura feito a apologia da força do trabalho em detrimento das “outras forças”.
Até pessoalmente sinto pena: pena por mim, que acreditei no projecto; pena pelo CDSC, que dado o esforço feito merecia ver concluído o propósito, e com sucesso; mas também pena por Vítor Pereira, que independentemente do que possa vir a acontecer, e dos sucessos que ainda venha a obter, foi claramente o grande – para não dizer único – responsável pelo não cumprimento dos objectivos definidos, e quem, esgueirando-se sorrateiramente a meio do processo, não só inviabiliza uma forte possibilidade de cumprir completamente os desafios com que se comprometeu (apresentando-se depois como um verdadeiro vencedor), como, ainda, ao fugir – mesmo que para a frente –, não deixa de “dar parte de fraco”, saindo como um vencido.
O Vítor Pereira da primeira época (2008/09) encantou. Com as enormes restrições orçamentais do CDSC soube construir uma equipa jovem, ambiciosa, que praticou bom futebol, patenteando exibições em casa – em especial na primeira volta – que agradaram e cativaram os adeptos e simpatizantes. Apenas houve um “se não”: foi muito além das expectativas, handicap que com o decorrer do tempo se haveria de revelar complicado de ultrapassar!
O Vítor Pereira da segunda época (2009/10) falhou. Por pouco, mas falhou: as exibições em casa não conseguiram o brilho das da época anterior, faltando fulgor, capacidade de risco e um bom "plano B" - sobretudo para as equipas que nos estudaram e por isso não as conseguimos surpreender -, sobejando desperdício (defensivo e ofensivo) e passividade; a estabilidade emocional do grupo não evoluiu, repetindo-se, nos momentos chave, a “tremideira” que já se verificara – embora mais compreensivelmente – na época anterior; faltaram três ou quatro pontos, escassos quando comparados com os excessivos dezasseis perdidos em casa, porém os determinantes.
O Vítor Pereira da terceira época (2010/11), ao que parece, “vai fugir”. E é pena!
Só espero que não se repita um “Manuel Fernandes II” (o Santa Clara ser o veiculo promovedor, ficando o promovido com fartas vantagens e o promotor com consideráveis prejuízos), já que, pelo que se vai lendo, de um “Paulo Sérgio II” (terminar a época com a cabeça noutro clube, lesando significativamente o clube a que ainda está vinculado, no mínimo, negligenciando a programação e planeamento da época que se aproxima) já ninguém nos livra.

ps – Escrito na manhã de sexta-feira, 21 de Maio de 2010 (assim me pediram no AO por a segunda-feira limite ser "o feriado da pombinha"), quando tudo ainda pode acontecer, ou não estivéssemos no universo que originou a já popular sentença, um dia ditada por Pimenta Machado: “no futebol o que hoje é verdade, amanhã pode ser mentira!”.
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A.O. 25/05/10; “Cá à minha moda" (ligeiramente acrescentado)

terça-feira, maio 11, 2010

Mário Soares, Cabo Verde e Açores

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São célebres a “gaffes” de Mário Soares, tal como foi também célebre o seu observar visionário, e a sua capacidade de antecipar acontecimentos, embora muitas das soluções encontradas não fossem as mais adequadas. “Gaffes” e originalidades à parte, Mário Soares continua polémico, como aconteceu recentemente no colóquio “Vozes da Revolução: Guerra Colonial e Descolonização”, no ISCTE, com a descabida e tardia revelação: "Eu sempre achei que Cabo Verde não deveria ter sido independente, não assisti à independência de Cabo Verde por isso mesmo".
Não posso concordar com Mário Soares. Nisto, como noutras coisas, estamos nos antípodas. Cabo Verde, felizmente, é já independente. Tal como o deveriam ser, também: os Açores, a Madeira e as Canárias. E determinante aqui não é o facto de Cabo Verde ser ou não África, que a ter em conta aquilo que Mário Soares diz que pensava, o não seria propriamente. Determinante sim é, para os arquipélagos do Atlântico Norte, que o incalculável valor da sua soberania é aquilo que mais pode contribuir para os desenvolver, fazer progredir, e, consequentemente, garantir melhores condições de vida aos habitantes de nações tão singulares, e valiosas, como os quatro arquipélagos macaronésicos.
É indiscutível que “o factor autonomia”, de 1975 para cá, trouxe aos Açores – e à Madeira – um indubitável desenvolvimento. Mas, mesmo sem recorrer a sofisticados estudos comparativos, só por má fé se não admite que Cabo Verde, neste mesmo período, em termos relativos – as potencialidades dos Açores e de Cabo Verde são incomparavelmente diferentes, tal como diferente, também para pior, era em 1975 o ponto de partida de Cabo Verde em relação aos Açores –, progrediu mais que os Açores.
Cabo Verde tem percorrido um invejável percurso, com os cabo-verdianos mostrando-se orgulhosos por viverem num país independente; um dos mais jovens do mundo, e o único dos PALOP, africano, em que a vida das populações melhorou após a independência. Não seria necessário muito mais para demonstrar as vantagens “do factor independência”. Mas há mais, bastante mais. Cabo Verde, apesar da mísera herança dos cinco séculos de dominação portuguesa (falta de luz eléctrica, de esgotos, de estradas e de escolas, com as poucas existentes apresentando um elevado défice de condições e professores), e não obstante a sua condição de deserdado pela mãe natureza (com falta de água potável, escassez de terra arável, com tudo isso causando uma enorme dependência de bens alimentares), é hoje, e cada vez mais, um país promissor, que ao invés da maioria dos seus congéneres africanos, tem revelando uma gestão eficiente e reprodutiva dos apoios internacionais que recebe, fazendo disso a chave do seu sucesso, um êxito que persevera. Vejamos: Ainda recentemente o Índice da Liberdade de Imprensa (RSF) colocou Cabo Verde entre os 50 países do Mundo com maior liberdade de imprensa (44º lugar), isso, enquanto Portugal, no mesmo período, descia do 16º para o 30º lugar. Significativo. E este é só mais um exemplo!
Por cá, Açores, onde para alguns as semelhanças com Cabo Verde ficam só pelo facto de também sermos um arquipélago desabitado quando os portugueses aqui chegaram – para outros, nem isso! –, só por estarmos mais a Norte, e porque a nossa mestiçagem é claramente mais europeia do que africana, fomos vítimas daqueles que em 1975 transpuseram o “Muro de Berlim” para o Atlântico.
Mas, acredito, melhores dias advirão!


A.O. 11/05/10; “Cá à minha moda"

terça-feira, abril 27, 2010

175 anos do AO: muito mais que uma vida



O Açoriano Oriental comemorou, aliás, continua e irá continuar a comemorar ao longo do ano, o seu centésimo septuagésimo quinto aniversário.
São muitos anos, uma longa vida, tantos que faz dele o decano dos jornais açorianos, o mais antigo jornal escrito em língua portuguesa, e um dos mais antigos da Europa!
Tilintadas as “flutes”, libado o “champanhe”, remetidos de novo “para a naftalina” os trajes de gala, nada melhor para celebrar a obra do que aqui trazer, também, o seu criador.
Ao contrário do periódico que criou, Manuel António de Vasconcelos teve uma vida relativamente curta (1796-1844), em conturbados tempos, de guerra civil e mutação política. Este vigoroso açoriano, um fruto do meio rural micaelense, nado e criado na emblemática Bretanha, desde cedo convertido aos ideais liberais, e, nestes, militando com desmedido zelo – por vezes radicalmente – na sua margem extrema, foi um baluarte na defesa intransigente dos Açores, do seu Povo, em especial das suas camadas mais desfavorecidas. Entre outros testemunhos, isso mesmo se pode aferir nas suas muitas intervenções na Câmara dos Deputados, em Portugal, numa em especial, onde denunciando a fome que grassava nos Açores, e, simultaneamente, os que matando à fome aqueles que aqui trabalhavam a terra faziam lucro fácil com a exportação de cereais para Portugal, afrontou:

“ (…) que das produções dos Açores uma grande e considerável parte vem para Portugal, porque existem aqui muitos proprietários de lá, e é essa uma sangria que está desatada por onde se derrama o sangue dos podres dos Açores para Portugal (…)”.

Faz cada vez mais falta, quem, como Manuel António de Vasconcelos, combativo e não menos altruísta, servindo e não procurando servir-se, empenhando bens, saúde e até a própria vida, atenda defender as causas em que acredita, sobretudo quando nestas sobressaem as liberdades cívicas e a defesa soberana da terra que o viu nascer.
O “Açoriano Oriental”, açoriano sim, mas açoriano oriental também (não fosse ele herdeiro dos ideais emancipadores de 1821 - dissimulada na parede sob a sombra de velhos plantámos, lá está, em Santa Clara, na única rotunda por aqui existente durante muitos anos, dita “Rotunda da Autonomia” mas de facto Rotunda do Governo Interino, uma marca indelével da época), foi, também, quase sempre, o grande pendão da “Livre Administração dos Açores pelos Açorianos”. Bem vistas as coisas, antes da “Livre Administração dos Açores pelos Açorianos” se transformar no slogan que o 2 de Março de 1895 imortalizou, o Açoriano Oriental já apontava uma “livre administração” que pusesse fim à “livre exploração”, de que a “livre exportação” dos cereais era disso só um exemplo!
Talvez por isso, e também por ter sido assinado por quem foi, não deixa de ser significativo o título escolhido por um dos convidados de honra da edição comemorativa do 175º aniversário daquele que é um dos mais antigos jornais europeus: “Imprensa livre, Açores livres”.
Gostei. E muito mais gostaria se, acompanhando as cativantes palavras, tal como já antes o foram; “Governo dos Açores”, actos e acções eficazes as prosseguissem.
Regressado ao Açoriano Oriental, de agora, final desta primeira década do século XXI, permitam-me convosco partilhar o quanto me sinto honrado em, “cá à minha moda”, publicar num jornal cujas páginas outrora acolheu tão insignes açorianos, a começar pelo próprio Manuel António de Vasconcelos, mas também: Antero, Vitorino, Natália, e outros.

A.O. 27/04/10; “Cá à minha moda"

terça-feira, abril 13, 2010

O Sonho comanda a vida


Partilhar o sonho (01Setembro2007) .......Ver nascer a realidade (12 Abril 2010)

Deve ser uma tristeza, um “inferno”, viver sem sonhos. Pior mesmo, só passar pela vida sem capacidade de sonhar. Não me refiro a sonhos comezinhos, quimeras triviais, do tipo das que basta “estar parado”, crer, esperar sem nada fazer, pois de tão banais que são, será só uma questão de tempo o assistir à sua realização. Aludo isso sim, a sonhos amplos, aos sonhos que alavacam visões rasgadas, àqueles sonhos que muitos apelidam de utopias, e que, até, por vezes, durante muito tempo não passam disso mesmo: utopias! Sonhos que, é verdade, nem sempre se realizam, mas aquando da sua concretização “enchem a alma” e fazem transbordar de alegria os que ousaram sonhar, bem como também fazem esquecer as dificuldades, que sempre existem, e muito consomem, quantos se empenham em transformar o virtual em realidade palpável.
Estes sonhos, os grandes sonhos, os sonhos que assinalam a sua concretização muito antes desta ser visível a muitos, têm pelo menos três importantes momentos:
Primeiro. O sonhar propriamente dito. Uma ocasião descrita por António Gedeão em poema que para além de oferecer título a este texto, entre o muito mais, ensina-nos também isso: “quando o homem sonha / o mundo pula e avança / como bola colorida / nas mãos de uma criança”.
Segundo. O de lutar tenazmente pela concretização do sonho. Momento muito bem retratado num outro poema, lírica popularizada também pela voz do Padre Fanhais, cantando: “vem, vamos embora / esperar não é saber / quem sabe faz a hora / não espera acontecer”.
Terceiro. O assistir à realização do sonho (o que nem sempre acontece). É este o melhor momento, o mais gratificante, aquele em que os que passaram pelos dois anteriores – e só estes –, umas vezes alimentando a esperança que outros tentaram derrubar, outras, não menos significativas, cerrando dentes e fileiras por forma a ultrapassar os obstáculos e contratempos surgidos, podem, por fim, tactear, sentir, e continuar a sonhar, sim, mas agora já com o fruir do sonho que ajudaram a realizar.
Foi um destes momentos que se viveu, quase que por acaso, recentemente. E conta-se em poucas palavras:
Na passada quinta-feira, terminada que estava mais uma longa sessão de trabalho do grupo “Santa Clara – Vida Nova”, os últimos a dispersar, respondendo ao apelo de uma noite que a isso convidava, fizeram uma breve visita ao “Jardim Padre Fernando” que já está em adiantada fase de conclusão: Já lá estão montados alguns dos equipamentos de diversão infantil. Às poucas árvores, algumas seculares, que resistindo ao aterro se transformaram no pouco que restou da “Mata da Doca”, foram acrescidas largas dezenas – se não mesmo centenas – de outras. É imenso, contando-se aos milhares, o número de plantas e arbustos no entretanto ali plantados. Mas, é a qualidade do projecto, o bom gosto, o ar limpo e arejado que aquele local agora apresenta, aquilo que mais simboliza a marca da “nova” Santa Clara com que “Santa Clara – Vida Nova” soube sonhar.
Pode haver quem já não se lembre, mas há também quem não esqueça que há pouco mais de três anos aquele espaço mais não era do que uma “sala de chuto” ao ar livre, na sombra de araucárias, protegida dos olhares por moitas de silvas, recebendo dezenas de visitas por dia. “Sala de chuto” onde já nem faltavam, por perto, também camufladas entre silvados e arbustos, as barracas e outros abrigos clandestinos que estes lugares costumam atrair.

Felizmente já não é assim. O pérfido tornou-se benéfico. E não é sonho, é realidade!

A.O. 13/04/10; “Cá à minha moda"

terça-feira, março 30, 2010

PEC, de “Provação Em Contínuo”, para alguns



De uma forma mais próxima da verdade futebolística – “o que hoje é verdade amanhã pode ser mentira” – do que do que da socrática, o Plano de Estabilidade e Crescimento a cada dia que passa tem vindo a revelar as desagradáveis surpresas que contém. Um PEC que parece mais talhado para desequilibrar do que estabilizar, e que, como tudo o indica, irá fazer mingar ainda mais, ao contrário da pretensa medrança que anuncia. Com ele, uns, a grande maioria, ainda vergados pelo esforço exigido para equilibrar um deficit para o qual pouco ou nada contribuíram, são de novo obrigados a mais sacrifícios, outra vez com o pressuposto de esmagar a maldita cifra, valor que ainda muito antes de se notar ter baixado para o patamar apontado como pretexto da primeira vaga de agruras, já havia disparado – não obstante o empenho em o esconder – para um nível superior ao triplo do objectivo intentado. Cortar nos ordenados e salários (os mais baixos da EU), aumentar impostos (sim, porque anular ou limitar deduções à colecta, para mais quando nem as despesas com saúde e educação escapam à rapina, é um claro aumento da carga fiscal) e destruir, com o que isso representa em termos do aumento do desemprego, aquilo que resta do débil sector produtivo (agricultura é o que se vê, indústria o que se está vendo, e mesmo no sector terciário, só um único segmento económico tem vitalidade: a política, já uma autêntica actividade económica!), são alguns dos efeitos práticos mais evidentes, e previsíveis, deste PEC.
É óbvio que o mal não irá tocar a todos. Para outros, quase sempre os mesmos – um pequeno grupo de privilegiados –, o mal fadado PEC passa rapidamente de “Provação Em Contínuo” para garantia de “Privilégios Especiais de Corridas”: é assim no continuar a permitir a passagem, quase directa, dos bancos da escola para as bancadas parlamentares e/ou para as poltronas dos Conselhos de Administração no dito “Grupo Empresarial do Estado”(cada vez mais gordo com as mais que muitas Empesas Municipais, também elas farta manjedoura); assim é também no manter e reforçar da “panelinha” com as agora tão badaladas “Parcerias Público Privadas”, nas quais se acomodam os que, na volta – “uma mão lava a outra” –, vão ajudar a financiar, e ficar à disposição de quem lá os colocou; assim não deixa de ser com as autênticas “vias verdes” atribuídas basicamente só e apenas por servilismo partidário, atalhos que permitem passagem, ágil e rápida, da condição de acanhados “yes men” para a útil e confortável condição de “boys” estrategicamente bem colocados. Para o que der e vier, digo eu!
Com ou sem PEC, ainda assim é grande a “travessa de papas” colocada à disposição da casta dos privilegiados, assim continuando, por mais que digam o contrário, pelo menos enquanto houver o que rapar no “fundo do tacho”. É que não há (pelo menos daqueles que o poderiam fazer) quem queira acabar com o esquema, pois este permite, umas vezes mais outras menos – mas ininterruptamente e sempre aos mesmos –, ir aproveitando, nem que para isso seja necessário evocar, mesmo que em vão, o “interesse nacional”.
É, como diz o povo, “a abelha procurando a parelha”, para assim, com estes ou outros protagonistas, um nunca mais acabar de rimas e parelhas se poderem fazer. Tais como: Varas e Loureiros rimando com banqueiros; Lino – ao que parece já na fila – e outros comensais aderentes a rimar com pontes, estradas, alcatrão, betão e cimentos; e todos eles entre si, mais os amigos, comparsas e familiares entoando com dinheiro. Muito dinheiro. Tanto que, melhor aplicado, com certeza, podia resultar num PEC diferente, mais maneiro.

A.O. 30/03/10; “Cá à minha moda"

quarta-feira, março 17, 2010

Brados de burro II (e ponto final)


O tal asno, jumento afectado por "pegadilhos" e um grandessíssimo cobarde, depois de ontem ter levado duas ou três ripadas pelas orelhas abaixo (muito mais por ser cobarde do que por ser jerico), armou-se em virgem pudica, e insinuando possuir a “educação esmerada” que segundo ele outros não têm, com a cobardia que lhe é habitual, tentou vitimar-se. Coitadinho!
Asno. Cobarde. Aldrabão. Mentiroso compulsivo, e agora coitadinho.
Se um animal destes, em vez de pretender só parecer, fosse efectivamente educado, com apenas um “Tá asno” (Asno: mote que segundo ele, quebrando o verniz, denuncia uma educação menos esmerada) e sem ter de se “esticar” até ao “Caguei-te Mariano” (vocabulário usado nos dignos salões que frequenta), resolvia o assunto.
Mas como já disse, asnos são asnos, e com este asno em especial (jerico afectado, jumento frouxo), mais do que a sua educação, é o seu mau carácter, a cobardia com que se procura proteger e a hipocrisia que cultiva e o camufla o que me interessa denunciar.

Para ajudar a perceber isto é só passar pelo "Candilhes", mais concretamente aqui.

terça-feira, março 16, 2010

Lusitânia: aproveitar para recordar


Emblemas originais; USEC/CUS (1921/22), S. C. Lusitânia (1922), CDSC (1927), realçando-se a curiosidade de os dois clubes com afinidades ao Sporting, o União Sportiva e o Lusitânia, apresentarem uma águia (em rigor, um açor) no emblema, e aquele que seria mais tarde delegação do Benfica, um leão.

As últimas notícias, felizmente, reforçam a confiança de quantos alimentam a esperança do Sport Clube Lusitânia vir a encontrar uma saída para a dramática situação em que o se viu envolvido nos últimos anos. Uma esperança que, pelo menos no meu caso, é inversamente proporcional à vontade de ver esquecidos (o que mais quero é vê-los disseminados) os ensinamentos a retirar das graves consequências do desvario, da irresponsabilidade, do oportunismo, da leviandade, e até, como no caso do Santa Clara já se provou, da vigarice e do roubo, males que assolaram num passado recente – deixando marcas, vícios e hipóteses de trapaça para as quais não vai faltando quem persista no aproveitar – os dois principais emblemas desportivos dos Açores. Esbulho com alguns autores materiais já identificados, mas muitos, muitos mesmo, autores morais, cúmplices, e/ou outros responsáveis, gente que continua fingindo nenhum comprometimento ter tido no processo com a mesma desfaçatez com que, durante anos a fio, mantiveram “ouvidos moucos” aos avisos à navegação que alguns – poucos diga-se de passagem – nunca deixaram de emitir.
E porque a trapaça e intrujice é sempre reprovável – não só quando se trata de bens fiduciários –, nunca é demais recordar que a honra e glória das instituições provém, em regra, da longevidade do seu percurso, dos êxitos que as mesmas acumulam ao longo deste, mas também da seriedade e verdade com que se pauta e escreve o seu historial.
Os factos são factos, e ao contrário do que por vezes se diz, repetir uma mentira nunca a transforma em verdade. Bem pelo contrário, o prolongar de qualquer farsa retira sempre credibilidade a quem insistir em mantê-la, bem como espaço de manobra aos que, por estarem de boa fé, apenas necessitam obter o conhecimento necessário que lhes permita corrigir os efeitos de uma mentira intencionalmente imposta, o que nunca devia ter acontecido, e, sobretudo agora, não faz qualquer sentido manter. Aqui fica um naco de história.
Aproximava-se a primavera do ano de 1922 quando o grupo dirigente do Instituto de Educação Física deu início aos melhoramentos no Campo Açores, recinto onde em Maio daquele mesmo ano, por ocasião das festas do Senhor Santo Cristo, se haveria de disputar uns célebres jogos entre micaelenses e terceirenses, sendo o grupo visitante, orientado por Bernardo Noronha, dirigido por Clemente Pamplona assim constituído: Machado Ávila, Jorge Soeiro Borges - Capitão -, Machado Freitas, Antóio Tavares, Alvaro Silva, José Pimentel, Amadeu Simões, Santos Nascimento, Malequiades Silveira, Tomaz da Silva, Correia de Lima, Inácio Pereira e Ferreira Neves. No grupo dos micaelenses, entre muitos outros (José Tavares, Jaime da Costa, José da Costa, Torrão, Manuel Rodrigues, Pereira Gomes, Manuel de Jesus - o madeirense -, Moisés, António da Cunha, Eduardo Costa, Egídio Costa e Alberto Castro), encontrava-se o jovem alferes José Joaquim de Souza, então já referido como “distinto sportsman” e à época responsável no IEF pelo futebol. Retribuindo a visita ocorrida no mês anterior, em Junho de 1922, por ocasião das festas de S. João de Angra, os “micaelenses” deslocam-se à Terceira, onde no Campo do Relvão tiveram lugar os jogos de futebol programados para a “desforra” das copiosas derrotas que os "terceirenses" averbaram no Campo Açores. Por esta altura (22 Junho de 1922), quiçá em consequência destes acontecimentos, mas com certeza como corolário da grande movimentação futebolística naquele e nos anos imediatamente anteriores verificada um pouco por todos os Açores, nasce o Lusitânia. Pouco depois, no início de Agosto de 1922, em Assembleia-geral para tal convocada, a União Sportiva dos Empregos do Comércio (USEC) alterou a sua designação para Clube União Sportiva (CUS). Na ocasião, José Joaquim de Souza, que entretanto já havia rompido com o IEF, tornara-se uma importante peça da organização futebolística do CUS. Alguns meses depois, no início de Outubro de 1922, mais uma vez com José Joaquim de Souza como pólo dinamizador, aconteceu a apresentação pública do Santa Clara Foot-ball Club, o primeiro dos “Santa Clara” com expressão fora do bairro. Só muitos anos depois aparece o Sport Club Santa Clara, e mais tarde ainda, entre a Primavera e o Verão de 1927, apadrinhado pelo Capitão Eduardo Reis Rebelo e alguns dos seus amigos e companheiros de armas (tenente João Joaquim Vicente Jr., João Baptista Rodrigues, Lúcio Agnelo Casimiro, Manuel Inácio de Sousa, Amável de Medeiros Casanova, e outros), nasce então Clube Desportivo Santa Clara, o terceiro e último dos “Santa Clara” federados, e aquele que chegou aos nossos dias.

Sei que estas, tal como outras, noutras ocasiões proferidas, são verdades incómodas. Porém são verdades!

A.O. 16/03/10; “Cá à minha moda" (Revisto e acrescentado)

Brados de burro


Há um asno, não só asno como um grande asno, cobarde, que de há uns tempos para cá vem zurrando para que outros denunciem aquilo que ele, cobarde, não é capaz de denunciar (tampouco consegue explicar exactamente o que pretende). Aliás, nem para “dar a cara” pelas “encomendas” que faz, este asno, grande asno, hombridade tem!
Asnos são asnos, e asnos há que, não satisfeitos com a sua condição de jericos, com os seus doentios “pegadilhos”, e ainda com a sua monstruosa cobardia, além de asneirarem compulsivamente, inventam e mentem.
De tão asnos que são, até se imaginam suficientemente importantes para estarem na origem do que acontece com a caixa de comentários deste blog.
Tristes asnos. Nem se enxergam!
Como podem este tipo de animais, sem dignidade, eles sim, “material” que se compra e vende por tuta e meia, tentar denegrir aqueles que já derem bastas provas de não terem a sua voz, pena, ou consciência à venda? A começar quando não aceitam “encomendas”, praticamente inofensivas (basta comparar o putativo assunto com outros bem mais delicados), sobretudo porque vindas de asnos, anónimos e cobardes!

Para ajudar a perceber isto é só passar pelo "Candilhes", mais concretamente aqui.