sábado, abril 13, 2013

Salagasparzar



A recente exigência de “visto prévio”, castigo com que Victor Gaspar entendeu penitenciar uns quantos logo após, pela segunda vez consecutiva, lhe terem feito ver que o “quero, posso e mando” ainda não está acima de todas as regras, deve fazer “soar campainhas” pois remete para 1933, mesmo passando por cima do 28 de Maio de 1926!
A rapidez de reacção (que diferença quando comparada com o eternamente adiado cortar de regalias e mordomias à séria: PPP’s, rendas excessivas, assessores de luxo, etc. e tal) tal como a burocracia que o “gasparista visto prévio” acarreta, só justificadas por uma grande e leviana emotividade, de imediato, fizeram-me recordar uma anedota do tempo da “velha senhora”, na qual um Salazar, “piedoso”, por escrito e caso a caso, se propôs passar um “livre conduto” a uns quantos “pobrezinhos” que cirandavam os jardins na proximidade da de São Bento colhendo e comendo trevo, “livre conduto” este com o qual os “coitados” podiam evitar a dura punição estabelecida, apesar de tudo, mais leve do que a decretada para quem fosse apanhado a mendigar.
Anedota à parte, só me ocorre uma justificação para este estardalhaço sem efeito prático aparente: o Dr. Gaspar foi a Belém com o intuito de se “por na alheta”, por um qualquer motivo (logo se saberá) obrigaram-no a “aguentar”, e, o “mestre nas folhas de Excel”, numa tripla vingança (TC, PM e PR), chamou a si todo o poder. Lembrem-mo-nos que também Salazar deixou a pasta das finanças para depois regressar todo-poderoso como “Presidente do Conselho”!
Mas há um outro “terlintar de campainhas” que não deve – nem pode – ser ignorado. Quando, em comparação com os desmandos e delírios Gaspar/passistas (será que Relvas “já não pica relva” nenhuma?) as vozes e opiniões de Manuela Ferreira Leite e Bagão Félix soam a “música angelical” é caso para dizer que só mesmo o próprio e a sua corte mais chegada não enxergam que “o rei vai nu”!
E nós açorianos, temos de “por as barbas de molho”. É que vendidos como eles estão aos ditames da alta finança mundial; obcecados como se apresentam em passar por “bons alunos”; determinados como parecem em pagar tudo até ao último cêntimo (mesmo ignorando que do outro lado estão agiotas e que os juros só por si fermentam mais a dívida do que os próprios deficits), depois de valorizar as garantias que os Açores representam diminuindo em simultâneo as receitas que por direito nos pertencem, ainda nos vendem, ilha a ilha!

A.O. 13/04/2013; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado) 

sábado, março 30, 2013

Colonizados sim!



Quando o sentir-se colonizado já de si cria repulsa, é duplamente revoltante assistir à impreparação, falta de cultura e estatuto, e completa falta de prestígio e civilidade dos que (embora umas vezes mais hábil, outras de forma mesmo atabalhoada) da “colónia autónoma” só se lembram para humilhar e/ou “sacar”. E não são só “relvices”, como a de equivaler as Assembleias Legislativas do Açores e da Madeira a Assembleias Municipais. São também muitas outras “aldrabices”, como a putativa “extensão da plataforma continental”, milagre geofísico com o qual se pretende abocanhar as riquezas do Mar dos Açores, aliás, como outrora foi feito com as do Brasil, Índia, Angola …, ou até a mais recente “sacanice” ao reduzir o conceito de solidariedade à autorização de acréscimo do endividamento camarário para responder a uma questão que claramente afecta os Açores em geral, não só uma ilha, muito menos um só município!
O preconceito colonial português é velho, e quando muda é para pior. Se há diferenças entre os “velhos colonialistas” e os “colonialistas da nova vaga” estas em nada favorecem os actuais. Uns, os de então, escorados pelo que à época se pensava sobre o assunto, pelo menos não ignoravam que muito antes da Índia, Angola, Moçambique, Cabo Vede e S. Tomé, já os Açores reivindicavam a sua independência. Os de hoje são, quase todos, “uns relvas”!
“A Administração Colonial Portuguesa” (Carneiro de Moura, Livraria Clássica Editora, 1910) é prova de como o tempo passa mas “a escola” permanece. Vale bem uma leitura na íntegra, mas, até porque ajuda a perceber muito do que ainda hoje acontece (e quanto mais de direita for a “administração colonial” tanto pior), deixo-vos com esta parcela da pág. 14 da referida obra:
“ (…) A colonização portuguesa da Madeira e dos Açores está de há muito no regime pleno de assimilação, e Cabo Verde, Angola, Índia, S. Tomé e Moçambique têm sido regidas quase inteiramente pelas leis gerais da metrópole. Mandam deputados ao parlamento, e até se lhes aplica a urdidura política administrativa do continente. E no entanto é nos Açores que as tendências separatistas são mais notadas, de onde não se pode concluir que a política de assimilação não evita a independência das colónias, que alguns julgam ser mais facilitada pelo regime da autonomia.”

Já vai longa esta quaresma. Boa Páscoa!


A.O. 30/03/2013; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado e com outro título) 

domingo, março 17, 2013

Actual (hoje como ontem)


No meio de uma sociedade indiferente, que se atrofia e definha com as intermináveis espoliações do fisco, nunca é demais um estímulo.
Temos sido demasiadamente brandos. E não basta o protesto de hoje, porque a sangria foi grande; é necessário que não deixemos os governos provocar a seu talante as hemorragias continuadas. Façamos a homostase de uma vez para sempre para que não dêem connosco na sepultura.
O Povo Açoriano, (…), precisa de saber as causas da sua degenerescência, os motivos das suas angustias, as razões da sua fraqueza. Degeneramos, porque nos esgotam com impostos; sofremos, porque não temos tido energia para repelir imposições; somos fracos, porque queremos, porque não há coesão política, porque não nos unimos nas horas de combate e porque temos a ingenuidade de acreditar em promessas do poder central.
(…)
Os governos portugueses há mais de vinte anos que deixaram de desempenhar o papel sublime, a que os obriga a ascensão às culminâncias do poder. Esqueceram-se as noções antigas de economia e moralidade, diminuindo dia a dia o respeito pela lei. As garantias de liberdade foram sofismadas, a podridão de costumes e de caracteres determinou as lutas apaixonadas de uma política demente, resultando de tudo isso o desprezo pelas imunidades populares. Hoje para ser ministro basta saber minar como toupeiras, farejar como cães e ter reputação de talento superior. A experiência, porém, vai demonstrando que para bem governar mais vale o escrúpulo da honradez impoluta do que as transcendências de um talento fenomenal.
Os açorianos estão fartos de discursos e de deficits, de promessas e de asneiras. Parece que o país chegou à inverosímil mas real colisão de ter mais gente talentosa que honrada! É de temer que neste evolucionar da espécie, o cérebro venha a queimar com as suas fosforências as flores delicadas da consciência humana…


Para os que ainda o não notaram – embora ao revisitar “Questões Açorianas” não me saiam da cabeça um sem número de iluminados e predestinados “salvadores da pátria” do Século XXI –, os trechos atrás transcritos, não obstante a sua quase integral actualidade, são da autoria de Gil Mont’Alverne de Sequeira e datam de 24 de Julho de 1891 (quatro anos depois mudou qualquer coisinha). 

A.O. 16/03/2013; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado e com outro título) 

sábado, março 02, 2013

Águas de Março



 


Ainda é cedo, mas logo se saberá das consequências resultantes da recente “imposição Goldman Sachs” na vida pública italiana. Haja esperança: se aconteceu o que aconteceu com Monti, que é Monti, com ou sem “5 Estrelas” (mas não desprezando as ajudas que daí advêm: que grande pedrada no charco!) o mesmo poderá acontecer com outro qualquer “pau mandado”, em especial tratando-se de Coelho, um Relvas/Gaspar dependente. Mas, sendo ainda cedo para conhecer o desfecho da “onda Grillo”, o que já se conhece é a merecida vontade de castigar os putativos “salvadores da pátria”, possuídos por uma obsessão ultra liberal que os torna servis servidores de quem gere e comanda os ditos mercados, governantes carecidos de ideias e vontade própria, bons mesmo só para serem “levados ao andor”, já que depois de lá instalados fazem “milagres”. Veja-se o do fim das “gorduras do Estado”, rapidamente transformadas num “raspar do osso até ao tutano”, incluindo aos mais desfavorecidos. É pois esta a marca que fica – causando enorme “fartote” – de uma partidocracia doentia, onde, da alternância que se conhece, volta após volta, cada um que aparece é mais incompetente que o anterior, e todos exibindo uma escandalosa defesa de interesses próprios e dos próximos (já sem disfarce), daí a espiral de contradições e mentiras que se conhecem.

Hoje é 2 de Março. Em 1895 – há 118 anos – foi decretada a “velha autonomia”. Velha mas frutuosa: filha da “questão do álcool” e mãe de um surto de desenvolvimento industrial e mercantil apreciável, porém já ultrapassada. Com Salazar, clara e descaradamente (tal como com a moeda própria), ou cínica e metodicamente (como sucedeu com todo o resto), a “velha autonomia” foi definhando. Terminada a Ditadura seguiram-se outras Autonomias. Sempre envergonhadas. Sempre incapazes de se libertar das grilhetas de um paternalismo mais preocupado em castrar e extorquir – é ver o que se passa com os “novos salazares” e/ou com a agora tão propalada questão da “extensão da plataforma continental” – do que em, e naturalmente, “cortar o cordão umbilical”. O tempo é outro. A Autonomia está caduca. Há que reclamar outros 2 de Março e/ou 6 de Junho. Há que lutar pela Autodeterminação!

Hoje é 2 de Março de 2013: “cheira a rua”; pairam bons prenúncios no ar!


A.O. 02/03/2013; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado) 

sábado, fevereiro 16, 2013

Tal qual um coador

Quanto mais se sabe sobre o BPN mais este colossal buraco se parece com um coador de ralo variável, que em passagens sucessivas, como que cumprindo o plano pré determinado, filtrou o produto das vigarices engendradas pelos seus promotores por forma a servir “material limpo” (expurgo pelo menos de infracções criminais já que das morais e de consciência cada um falará por si), deixando consecutivas borras cada vez mais sujas, com as últimas mutações transformadas em autêntica escória tóxica.
Foram, nas “primeiras passagens”, as mais-valias bolsistas privilegiadas e de favor; foram, ainda em “tempo de bonança”, as ofertas de financiamento para amigos e apaniguados em condições singulares; foram também, já com recurso a “veículos off-shore” e outros cambalachos, os negócios ruinosos cujos responsáveis passam incólumes mas que a todos nos arruínam; foi a falta de controlo e supervisão que tudo isso permitiu e acabou na promoção (como quase sempre) com “fuga para cima” do supervisor mor; foi a nacionalização (dos resíduos insalubres); foi a reprivatização (do derradeiro quinhão “descontaminado”). É aquilo que se continua a conhecer, dia após dia, até sabe-se lá quando? Em tudo isso há um padrão: independentemente do valor, cuja amplitude varia entre as centenas de milhar e os milhares de milhões de euros, alguns, poucos, em regra gente dita distinta, governantes sérios e competentíssimos, ficaram com os lucros. Para os restantes, todos nós, o Povo, sobram os prejuízos. Paga e aguenta!
A “talho de foice”:
O obstinado Relvas, como que ainda extasiado pelo “Réveillon” desfrutado em companhia de um dos beneficiários do BPN (eles sim, a viver acima das nossas possibilidades), sem nada aprender com o “Documento Verde” e subsequente Proposta de Lei 44/XII (onde equiparou as Assembleias Municipais às Assembleias Legislativas dos Açores e da Madeira), voltou agora, de novo, a “misturar” o que não deve ser confundido: a Lei das Finanças Locais com a Lei das Finanças dos Açores e da Madeira. Livra que “ele não se enxerga”, mas o mais grave é ver quem, ali tão perto, não seja capaz de colocar “o rapazinho” em sentido. Bem bom, desta vez votaram contra! 

A.O. 16/02/2013; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado) 

sábado, fevereiro 02, 2013

Os Piratas do Mar dos Açores



Caiu a máscara. Agora, sem as subtilezas utilizadas num passado ainda não muito distante – como aconteceu com os proveitos da Base das Lajes enquanto foram generosos e fartos, ou até depois, quando já mais minguados e subtilmente transformados em FLAD –, é de forma desenvergonhada e descarada que os portugueses pretendem dar continuidade ao seu modo de nos espoliar. A matriz do recente projecto de lei, que a pretexto da “extensão da plataforma continental” mais não pretende do que retirar poderes aos Açores em relação à gestão e usufruto dos recursos do NOSSO mar, é disso bom exemplo.
É fácil dizer que nós, Açores e açorianos, “vivemos à pála” das transferências do Estado português quando este mesmo Estado “abocanha” as nossas riquezas (localização geoestratégica inclusive), controla e estrangula as nossas potencialidades e capacidade de desenvolvimento, e, nem daquilo que usa e diz ser seu, como por exemplo os bens patrimoniais ao serviço das funções de Estado aqui exercidas, sabe zelar e manter!
O Mar dos Açores é a nossa (dos Açores) reserva estratégica; o “nosso petróleo” (talvez até também em sentido literal); o “nosso ouro”. O Mar dos Açores será, sem dúvida, a “grande âncora” da nossa (açoriana) soberania!
Por isso é reconfortante verificar a unanimidade que a defesa e salvaguarda desta parcela dos interesses dos Açores está a gerar junto daqueles que, via democracia mas também escassa autonomia até aqui conseguida, para tal foram eleitos. Tal como é animador constatar como o Presidente do Governo dos Açores não tenha poupado no verbo (são suas palavras: “pirataria travestida de lei”, “aberração”) para adjectivar mais esta nova afronta. Mas não basta. Todos somos poucos para defender o Mar dos Açores: há que apelar à mobilização geral.
A propósito: é bom saber o que pensam sobre o assunto aqueles que, na “Casa da Democracia Portuguesa”, eleitos pelos Açores, dos Açores deveriam fazer sua primeira e única bandeira a defender. Será que vão proceder como fizeram no passado recente? A ver vamos!

A.O. 02/02/2013; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado) 

sábado, janeiro 19, 2013

Tolos a dar…





Pois é. Então o próximo passo é ter-mos as Lajes transformada em “base adormecida”! Com isso os EUA poupam uns dólares, e nós, açorianos, aqui sujeitos ao que der e vier, que nos amanhemos com as “migalhas das sobras do banquete”, comezana com um prato em tempos servido na Lapa, capital do ex-império, e outro, bem mais recente, servido mesmo no local (e que muito deve ter contribuído para o Presidente da Comissão Europeia ser quem é).
Revisitar 1917, em especial os meses que precederam a entrada dos EUA na I Grande Guerra, ajuda a compreender o que ainda hoje se passa com a Base das Lajes.
Até Abril de 1917 os submarinos alemães, varrendo o Atlântico, já tinham afundado cerca de 2.000.000 toneladas de suprimentos que deveriam ter chegado ao Reino Unido com isso obrigando os EUA a entrar na guerra. Estavam também em causa os investimentos feitos até ali, só rentáveis se a Inglaterra pertencesse ao grupo dos vencedores.
Assim, sem dar grande cavaco a quer quem que seja (tampouco aos ingleses) e já preparando a logística para colocarem na Europa o exército que seria determinante na derrota do Kaiser, os EUA fazem chegar a Ponta Delgada (Junho de 1917) um carvoeiro – o célebre Orion – que além do mais dava inicio ao aprovisionamento em carvão daquela que seria a sua primeira base nestas paragens. Cargueiro este que, por coincidência – digo eu – vinha bem armado (com “peças” melhores e mais rápidas do que as cá existentes, até na principal bateria para defesa do porto - Alto da Mãe de Deus ). Cargueiro este que, por coincidência – digo eu – foi colocado “a seco” e logo de forma a que uma das suas armas ficasse acima do molhe de protecção do porto, o que lhe permitiu rechaçar o ataque do U155 perpetrado semanas depois (4/7/1917). Cargueiro este que, por coincidência – digo eu – assim ficou até chegarem os primeiros vasos de guerra dos EUA e ser dado início à instalação, em Ponta Delgada, de uma Base Naval que aqui se manteve até ao fim da I Grande Guerra (na II Grande Guerra, com evolução dos meios, seguiu-se uma em Santa Maria e depois a das Lajes).
As movimentações que antes se faziam em várias semanas fazem-se hoje em algumas horas (desde que a base exista, mesmo que “adormecida”). Mas, não obstante o poder (e as relações de preferência e proximidade) dos EUA, só “parolos”, como os portugueses, permitem que os Açores sejam tratados como parque de campismo, onde se aluga a longo prazo (garantindo reserva e preço baixo) um espaço de caravana para dele fazer uso quando apetecer, mesmo que só por alguns dias, num qualquer Verão!

A.O. 19/01/2013; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado) 

segunda-feira, janeiro 07, 2013

O que sobrou da “Mata da Doca”

O meu amigo Manuel Moniz (também, pontualmente: companheiro, camarada e cúmplice em acções de intervenção cívico/politico/comunitárias), ontem, via “FB”, após dar a sua opinião sobre o desenho e potencial uso para outras valências do “Jardim Padre Fernando”, “entrou comigo”, desfiando-me a “entrar na liça”. Não é isso que aqui vou fazer (fi-lo na altura com a informação que tinha de memória), mas depois de lhe agradecer “a deixa” para a coluna de hoje, fiquei também de acrescentar alguma da informação que então não me ocorreu, e, aproveitando, voltar a Santa Clara e ao que sobrou da “Mata da Doca”, o que faço sempre com muito gosto, algum prazer e até “sentido de missão”!

Antes do mais é bom não esquecer que o “Jardim Padre Fernando”, desenhado pela Toparis obedecendo a um programa cuja discussão foi muito participada na comunidade santaclarense (atenção: ser santaclarense é uma coisa e ser santaclarista é outra. Há quem as misture, não faz mal, mas nada como ir corrigindo – “andar faz caminho!”), só foi possível dada a colaboração e grande participação da SRAM, ao tempo dirigida pela Dra. Ana Paula Marques, cujo carinho e dedicação por aquele projecto foi a todos os níveis notável. É bom também dizer que foi a “Mata da Doca”, e o muito que ela representou para Santa Clara, aquilo que em primeiro lugar se pretendia evocar com a requalificação do pouco que restou daquele que outrora foi um dos mais frondosos, populares e públicos “pulmões” de Ponta Delgada.

Foi-se o “Campo Açores”; foi-se o “ring” do Patronato, a “Mata da Doca” deixou de ser o “viveiro” de futebolistas que sempre alimentou o CDSC, os outros “Santa Claras” existentes antes do CDSC, assim como mais clubes de Ponta Delgada. Mas salvou-se a “Mata de Baixo”, ou “Mata Pequenina”, local de “pic-nic’s” e outras distracções, como o deslizar sobre cartões, ou “folhetas” (recuperadas no calhau e na Nordela) nas íngremes encostas confrontantes com a “Fábrica do Papel”, hoje instalações da AC Cymbron.
“Bruno Dennis”, no CA de 28/11/1920, ajuda-nos a perceber o forte “espírito” da “Mata da Doca”. Vale a pena ler!

Obrigado Manél Moniz. "Tá feito"

A.O. 05/01/2013; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado)

domingo, dezembro 23, 2012

A RTP/A “janelinha”, outro garrote centralista


Mais do que a obsessão ultra liberal, capitaneada por dois ou três “old yuppies” a soldo da finança internacional que norteia ideologicamente a “Relvas/passista” forma de espremer e fazer definhar a que alguns chamam governar; mais até do que o despudorado modo como está a ser desmantelado, e a bel-prazer “do dono” controlado, aquilo que deveria ser o Serviço Público de Rádio e Televisão em Portugal, o que se está a passar com a RTP/Açores mais não é do que a consequência lógica do esmagamento provocado pelo “rolo compressor centralista”, agora conduzido por manobradores de elevado preconceito neocolonial. Nada de novo: já assim foi no século XIX com a “questão do álcool”; assim voltou a ser, no início do segundo quartel do século XX, com Salazar a dar fim à moeda própria; já no nosso tempo e sob a autonomia vigente desde 1976, assim também aconteceu com a estratégica desvalorização (e consequente substituição de “cash” por sucata bélica) da Base das Lajes; e – oxalá me engane – assim irá acontecer brevemente com a usurpação dos direitos de exploração dos recursos naturais existentes no fundo do Mar dos Açores!
Mas, voltando à RTP/Açores, ou melhor, à vergonhosa “janelinha” em que a estão transformando, não será demais aqui trazer as conclusões da tese de Doutoramento de Catarina Burnay, documento de Junho de 2010 que recentemente voltou “à baila”, onde é demonstrado o enorme contributo da televisão dos Açores (em especial da sua produção) no fortalecimento da identidade açoriana, concluindo também que nenhuma outra televisão atingiu esse mesmo objectivo em relação à identidade portuguesa.
Eis pois aqui, muito mais do que nas evocadas razões de racionalização e redução de custos, aquilo com que os preconceituosos neocolonialistas estão preocupados. E não é para menos. Se poucos (mas bons) açorianos, como Antero, Arriaga e Teófilo – só para citar três – provocaram em Portugal as revoluções e mudanças que se conhecem, natural se torna que os neocolonialistas temam que o valor da Açorianidade se imponha, nos liberte e, quiçá, ainda os subjugue. Olhem o exemplo de Angola!

A.O. 22/12/2012; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado)

domingo, dezembro 09, 2012

Manuel Ferreira

Eu e o Senhor Manuel Ferreira, em Outubro de 2002 (como o tempo passa), quando lhe fui dar a conhecer as ruínas do "Catelinho de Santa Clara", estava então a ser finalizado o "As voltas que Santa Clara deu".

Faz hoje exactamente sete dias que o Senhor Manuel Ferreira - o Comendador Manuel Ferreira -, mui digno paladino da Açorianidade e estóico portador/guardião do testemunho da “Livre Administração dos Açores pelos Açorianos” desde o ocaso dos “velhos autonomistas” até à Autonomia conquistada com o 6 de Junho de 1975, fisicamente, deixou-nos. Partiu ficando, pois o legado que nos proporcionou fará com que Homem e Obra, agora para sempre fundidos, entre nós permaneçam!

Mais de três dezenas de títulos publicados e milhares de peças jornalísticas dispersas em vários periódicos – sempre bem fundamentadas, na sua grande maioria exigindo minuciosa preparação, algumas delas geradoras de forte polémica, bastas vezes dando origem a réplicas e tréplicas – dão bem a ideia da enorme capacidade de trabalho que Manuel Ferreira patenteava, facto ainda mais relevante tendo em conta que durante largo tempo acumulou as actividades jornalística e literária com as que realmente lhe garantiam subsistência. A si e aos seus! Um labor frenético que, acompanhado de austera disciplina e suportado por um sempre lúcido raciocínio e uma prodigiosa memória manteve praticamente até aos últimos tempos, deixando “como que esmirrado” quem, mesmo que com pouco mais da metade da sua idade e só o fazendo pontualmente, procurasse acompanhar tamanha energia e produtividade.

Da obra de Manuel Ferreira permitam-me, até também pela actualidade (num tempo de esbulho fiscal e “caça à multa”), aqui trazer o “Alevante da isca”, conto, histórico, com o qual, em 1948, ganhou, os Jogos Florais do Instituto Cultural de Ponta Delgada. A acção remonta a 1898, dois anos depois das Cortes ratificarem o hoje já mais que centenário “decreto de 2 de Março de 1895”. Além do “retrato” da Ponta Delgada de então que nos é proporcionado, onde, distintos personagens como o industrial João de Melo Abreu mas também outros bem mais humildes como o pescador santaclarense “João Viúva” são “apanhados na foto”, o uso de expressões como: “O pulha, com cara de tratador de porcos, anos antes destacado do continente para cá, como soldado raso e impedido do comandante da Guarda-fiscal (…)”, ou; “Lisboa só nos mandava daquelas encomendas!”, ou ainda; “Cães danados. – E fala-se em regalias…. em autonomias… – Qual autonomia, nem meia autonomia? – Nem na nossa casa uma pessoa manda!”, dão bem conta do que “ia na alma” do então jovem escritor, que, não obstante serem tempos de ditadura, além das criticas veladamente romanceadas, não se coibiu em lhes dar contexto e personalizar com o paragrafo com que remata o texto: “Daqui vou-me direito, sem mais conversas, tirar a minha licença de isqueiro…”.

Obrigado Manuel Ferreira. Um eterno bem-haja!

A.O. 08/12/2012; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado)