sábado, janeiro 18, 2014

 

Representante,não: Embaixador, sim!

Ao iniciar estas linhas não resisto – a propósito (e creio não ser o único em o achar) –, mais uma vez, em evocar Manuel Ferreira e o seu “Alevante da Isca” (que reporta a um “6 de Junho” ocorrido a 22 de Maio de 1898), em concreto nas seguintes passagens:
“Lisboa só nos mandava daquelas encomendas!”
(…)
- Não há direito! Não há consciência! Cães danados! E fala-se em regalias…em autonomias…
- Qual autonomia, nem meia autonomia? Nem na nossa casa uma pessoa manda!”
(…)
“Desse no que desse (…) Era girar direito ao Paço, ao Governador. Chamá-lo à fala, a bem ou a mal, pelo braço ou pelas golas da casaca, se fosse preciso, e retratar-lhe a tratada, as coisas ditas pelos seus nomes, de caras, sem papas na língua, alto e a bom som. Senhor Governador: pão, pão! Senhor Governador: queijo, queijo! O povo quer isto e aquilo, não quer isto e aqueloutro! Basta de fosquinhas, Senhor Governador… Com autonomias ou meias autonomias, basta de roubalheiras …”
(…)
Transcrito isso, é com agrado que se dá conta da quase unanimidade existente à volta da “condenação” ao extemporâneo arbítrio do “Donatário Catarino”. Um consenso que se deseja – pelo menos sempre que em causa estejam questões lesa Autonomia (desta escassa autonomia!) – não seja só e apenas um “golpe de rins” ao jeito do interesse político/partidário (português) da ocasião. É que a Autonomia – atenção que não mudei, para a aceitar, no mínimo, quero-a MUITO PROGRESSIVA pois anseio a Autodeterminação! – não é um “bem perdurável”, é do tipo que se não se consolida e aprofunda, mais cedo do que tarde dissipa-se! Nem é obtida por oferenda – ninguém dá nada a ninguém –, só por conquista! E a história prova-o. O “Estado Novo” fez o que fez ao que então restava da autonomia consagrada pelo decreto de 2 de Março (1895), e com a velocidade com que “isso” está a andar para trás corre-se o risco de não se ficar pelo 24 de Abril (1974), chegando ao 22 de Fevereiro (1933) se não mesmo ao 28 de Maio (1926).
Por estas e outras sinto uma inveja benigna dos irmãos cabo-verdianos: como nós sujeitaram-se aos Donatários e depois aos Governadores, mas daí passaram para um Governo Próprio, verdadeiramente SEU, dispensando “Ministros da República” e mais ainda “Representantes”.
Embaixadores sim! De parte a parte; como iguais; como irmãos. Como filhos, concedo: desde que maiores, Livres e Emancipados! 

A.O. 18/01/2014; “Cá à minha moda" (revisto e bastante acrescentado) 

sábado, janeiro 04, 2014

 

Gato por lebre

Foto "roubada" aqui: https://www.facebook.com/photo.php?fbid=10201061679296095&set=a.1488333220249.2061711.1591514390&type=1&theater

Um catarino afrontamento, tão desagradável quanto a velha e mediática expressão que aquele súbito alardeio recordou, remeteu-nos para meados da década de oitenta do século passado, relembrando um célebre “gato por lebre” e o “crash” bolsista português que aquela imprevidente “tirada” ajudou a compelir. Mas não foi só. Como que animado por um efeito sequencial o catarino suplício recordou também uns quantos outros “gatos por lebre” mais recentes, e até, pelo menos, duas “lebres por gato” que, dispendiosa, descarada e desenvergonhadamente alguns se esforçam a branquear se não mesmo em as fazer esquecer.
Vejamos estes casos: “Gato por lebre” logo pareceu a célebre cena gaga em que um abrutalhado mastigar de bolo-rei funcionou como descortês forma de fugir a uma pergunta menos conveniente; também só pode ser “gato por lebre”, digo eu, o sucessivo servir de muleta a um governo obcecado em levar por diante uma política ultraliberal, isto sobretudo depois de, passado apenas um ano, do mesmo amparo ter vindo o amplificar das vozes que preveniam para a “espiral recessiva” que esta mesma política ameaçava despoletar; “gato por lebre” é da mesma forma a manifesta e repetida preocupação tida com a entrada em vigor em Janeiro de um OE que, além das reiteradas dúvidas sobre a sua constitucionalidade, desta feita até arranca já necessitado de rectificação. Mas se há os “gatos por lebre” também não faltam as “lebres por gato”: Em contraponto com a “previdente” recomendação do Outono de 1987, foi uma clara “lebre por gato” o que entre 2001 e 2003 resultou da rentabilíssima aquisição e venda das acções SLN/BPN; e não pode deixar de ser “lebre por gato” quando, ao contrário do que se passou com o orçamento de Portugal, no caso dos Açores, não é tida em conta a preocupação com o facto de haver, ou não, orçamento a tempo e horas!
Mas é na flexibilidade do critério – total desarticulação, diria –, que varia conforme as conveniências, onde melhor se vê “gato por lebre”: atenda-se à tolerância dos dias de hoje com o OE vs a intransigência (para com o Estatuto dos Açores) que até levou a interromper férias para fazer a inusitada comunicação do Verão de 2008. 
A muito se obrigam os neocolonialistas quanto aos Açores! 

A.O. 04/01/2014; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado) 

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