terça-feira, março 29, 2011

 

Santa Clara, “Mata da Doca”, Campo Açores


Recorte do "Sport dos Açores", 1924 ............"Mata da Doca", ainda com as araucárias

Santa Clara Foot-ball Club, Out 1922........ Sport Club Santa Clara (?1927?)

Clube Desportivo Santa Clara 1948/49........ Equipa das Cancelas (Loja do Capinha) 1972

Santa Clara não foi só “o berço” de Ponta Delgada. Embora em outro patamar, foi também “creche” e “jardim-de-infância” do futebol micaelense. Disso nos deu conta António Kopke Ayalla, em 1924, nas páginas do “Sport dos Açores”, Semanário Desportivo Ilustrado do qual foi director, ao remeter para 1895, nas “pedreiras da doca” (Mata da Doca, mais tarde Campo Açores), os primeiros jogos de futebol com bola apropriada. O luxuoso objecto, uma câmara-de-ar esférica revestida com pedaços de a couro bem cosidos uns aos outros, naqueles derradeiros anos do século XIX mandado vir de Inglaterra pelo “Padre James” do Colégio Fisher, tinha acabado de chegar à ilha para gáudio do próprio António Kopke Ayalla (filho de um, e parente próximo de outro, dos responsáveis pela construção do porto de Ponta Delgada) e de outros jovens alunos daquele estabelecimento de ensino, pioneiros entre nós na prática da modalidade. Um quarto de século depois de Santa Clara ter sido palco daqueles que foram os primeiros pontapés num cautchú em São Miguel, quando entretanto o Campo Açores já havia deixado de ser local de acantonamento “dos americanos” que passaram os últimos tempos da I Grande Guerra em Ponta Delgada (Fevereiro de 1918/Setembro de 1919), viviam-se então quer nas “Cancelas da Doca” quer na “Mata da Doca” alguns dos momentos altos dos “Campeonatos de Santa Clara”, o Campo Açores saltou de novo para as primeiras páginas por via do muito mediatizado desafio efectuado pelo team brasileiro, com o Sport Club Terror, com fortes afinidades a Santa Clara, assumindo as “honras da casa”.

O jogo brasileiros vs açorianos deu origem a um soberbo texto (CA 28 de Novembro de 1920) assinado por Bruno Dennis – possível pseudónimo de alguém próximo de Diniz Moreira da Motta, talvez Rolando Viveiros, mas com grande probalidade Agnelo Casimiro – cuja leitura é imperdível.

Ora vejamos:

.Domingo. O burguês deixa os asfaltos…

Lembrou-nos Heine.

Dia lindo, ar fresco e lavado, luz doirada convidando-nos à acção. Quebre-se no dia do Senhor a monotonia pungente do viver angustioso destes tempos, dando tréguas às suas preocupações constantes: o futuro da família, da nação, da sociedade! …

E como o Correio dos Açores tivesse anunciado um desafio de foot-ball entre Brazileiros e Micaelenses – excelente pretexto – enveredamos pela Rua Formosa além.

Desapareceram as antigas Pedreiras da Doca?

Por sobre aqueles montículos pitorescos, coleando pelos vales, em cima das esplanadas, bordando veredas e caminhos, estendendo-se cerrado o arvoredo, que entremeia e tece os ramos, numa confusão imensa de folhagens, matiza os seus verdes diferentes e derrama gratamente, por sobre a terra que o nutre, uma sombra protectora e amiga.

Dum deserto fez-se um bosque! Por entre as pedras brotaram acácias e pinheiros; o antigo solo abrasado ostenta hoje carvalhos, engélias, araucárias, rubínias, piteiras… e sobre aquela terra vermelha e tórrida, que escaldava, que feria a vista, estendeu-se um tapete verde de relva fresca e tenra, que nos descansa a retina…

Quanto podem o entusiasmo de um homem, o escorregar vagaroso do tempo, e o forte viço das plantas! No meio do parque – seu coração – espraiando-se largamente como arena imensa de um coliseu atlântico o Campo Açores. Plano, nivelado, extenso, presta-se magnificamente a todos os jogos, a todos os desportos: tennis, foot-ball, croquet, bilro barra, gymkanas, corridas de velocidade, de resistência, de bicicleta, concursos hípicos, etc.

A um canto, joga-se, muito mal, o Association. Brazileiros e Micaelenses disputam com ardor quem levará a palma da indisciplina, desorientação e falta de sangue frio, qualidades essenciais para aquele jogo, e que ele tanto desenvolve, quando bem dirigido…

Apesar, porém, de todas as incorrecções e faltas, sempre era um protesto vivo contra a atrofiante civilização actual, que condena ao sedentarismo, amolece as funções, fazendo-lhes perder a tenacidade e o vigor, e priva o corpo do ar e do sol.

Como nos lembraram então os ginásios da Grécia, vastos parques em que rijos efebos, nus, tostados pelo sol, alegres de saúde, se exercitavam com entusiasmo nas palestras, sob a clara luz do dia, enquanto outros, já retemperados pelo exercício, se refrescavam no balneário, esfregando-se com estrigil, lubrificando-se com óleos suaves, e mais longe, outros ainda, lestos e contentes, com a boa disposição que segue a hidroterapia, manejavam com subtileza a dialéctica, avançando altas teorias e conceitos profundos ou equilibrando com agilidade sofismas argutos e delicados… !

Tais instituições formavam os mais belos cérebros, sustentados pelos mais nobres corpos, que a Humanidade tem visto! Sabe-se o resultado obtido no ginásio de Reims pelo grande Hébert...


Denis Mota acariciava este plano; mas não se limitavam a isso os seus projectos. Desejava traçar ali avenidas de rodagem, arruamentos para peões, veredas e atalhos nos sítios mais íngremes, propunha-se desbastar o arvoredo, semeado assim compacto com intuitos de protecção e para obviar as recusas tão frequentes das plantas mais delicadas, introduzindo depois espécies mimosas e belas, mas de resistência menor. Ajardinaria uns dois ou três pontos deixando o resto na sua rudeza de mata, convidando às excursões e aos piqueniques.

Junto à casa do Século XX abrir-se-ia um lago (a cargo do mar enche-lo), e construir-se-ia uma piscina. Uns barquinhos, montes de areia aqui e além, algumas redouças e outros brinquedos eram destinados às crianças…

Assim haviam de passar algumas horas de bom ar, paz e simplicidade aqueles a quem a Vida não permitisse gozar o campo nos meses de verão.


O estabelecimento do seu Parque da Alegria (assim tencionava chamar-lhe); a organização da Praia de São Roque, aproveitando a variante da estrada nacional entre São Roque e o Pópulo (chegou a expropriar os terrenos precisos), que viria a proporcionar a Ponta Delgada as vantagens de uma praia, que o acaso verdadeiramente lhe destinou; o aproveitamento da energia da Ribeira dos Tambores, feito paralelamente com a construção da estrada da Ribeira Quente (serviço que deixou começado) – tais foram as três últimas ideias que lhe inflamaram o coração altruísta.

“É o meu testamento à minha terra”, disse uma vez, com um sorriso triste nos olhos de veludo.

Dentro de poucos dias, expirava…” .


Este é, ou não um autêntico hino à “Mata da Doca”, ao Campo Açores, e, claro, a Diniz Moreira da Motta?

A.O. 29/03/2011; “Cá à minha moda" (revisto e muito, muito acrescentado)

terça-feira, março 15, 2011

 

Nem sempre o Carnaval são só três dias




Este foi um Carnaval diferente. Não, não me refiro ao carismático assalto que já acontecia vai para duas dezenas de anos, algures no Pico da Pedra, que este ano não se realizou. Aludo sim a um Carnaval longo, extenso demais, cuja também excepcional quaresma, esta sim, foi de três dias: a Quarta-feira cinzenta, do desagravo; a Quinta-feira tagarela, da censura; a Sexta-feira dolorosa, de mais um PEC. Ainda bem que logo de seguida houve um Sábado libertador, de protesto, de manifestação, de alegria. Aleluia! Levemos a preceito as três epístolas desta liturgia pós carnavalesca. Primeira. A da Quarta-feira do desagravo. Vindo de um pré vitoriano, que de si próprio dizia não ler jornais, nunca ter dúvidas e raramente se enganar, confesso que até concordei com a resenha. O que já não entendo foi a demora de Sua Excelência o Presidente da Republica dos portugueses em chegar àquelas conclusões. É que, bem vistas as coisas, nos últimos tempos (o último ano e meio, vá lá) a grande diferença verificada não foi ao nível da condição económica, nem de governação, mas sim na da sua situação pessoal: de pré candidato, antes, de candidato, depois, e agora de PR eleito. Quer dizer – mesmo que como conclusão precipitada: a preocupação de S. Excelência com os limites dos sacrifícios exigidos ao “pagode” (agora e antes) foi/é bem menos importante do que aquela que dedicou à sua estratégia eleitoral. Será que valerá a pena nascer duas vezes? Segunda. A da Quinta-feira tagarela. O resultado era fácil de adivinhar. Nem espantou que a ocasião fosse bem aproveitada para mais uma vez nos impingirem as putativas vantagens de ter um predestinado na chefia do governo. Já cansa, e ninguém acredita. A surpresa, esta, chegou no dia seguinte, quando, desta vez sem que o tempo funcionasse como amortecedor da incongruência, se fez jus a uma sentença desde há muito aceite pelo “futebolês”: “o que hoje é verdade amanhã pode ser mentira”. E foi! Terceira. A da Sexta-feira de mais um PEC. E neste corrupio, em louvor do Anjo (que como se sabe não têm sexo) Merkel, entidade agora mais venerada que Nossa Senhora das Dores em época Quaresmal, sem compaixão nem vergonha (como se na véspera se não tivesse “vendido” um mundo cor-de-rosa), eis que nos mandam apertar mais furos num cinto já a um palmo da fivela. Acabar com as mordomias de uns quantos, com o regabofe de outros tantos, com os privilégios e desperdícios de tantos mais, NÃO, porque não dá jeito! Cortar às cegas em quem já tem pouco, e fazer pagar caro quem já tem mais mês que ordenado, SIM, e a eito! A aleluia chegou no Sábado. É certo que o protesto no imediato vai resolver pouco, mas consola a alma. Estão “à rasca”, mas parvos não são.

São inquietos e irrequietos. Ainda bem. Sabem que ganham uns precários “quinhentos” quando outros da sua idade, quais Ruis Pedros Soares, só por serem servis e obedientes ganham cem vezes mais. Tal como sabem, também, que não é o “surfar a sua onda”, nem o comunicar por “facebook”, aquilo que pode levar outros agora tão prontos a identificarem-se com a genuína indignação que os move. Estão “à rasca”, mas parvos não são.

Começam a descobrir as virtudes da participação, da acção, da contestação, e fizeram-no de forma extraordinariamente empenhada, civilizada, com altíssimos níveis de tolerância e pedagogia. Estão “à rasca”, mas parvos não são.

Situam-se muito mais próximos da cidadania altruísta do que partidocracia ambiciosa, egoísta e calculista que está na origem do actual estado de coisas. E isto é bom. É muito bom. Mau será se estes sinais não forem convenientemente interpretados.


A.O. 15/03/2011; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado)

terça-feira, março 01, 2011

 

Mar dos Açores: uma das chaves para a nossa independência




Com a Universidade dos Açores como palco, e “Os Açores na estratégia do mar – perspectivas económicas e de segurança” como tema, o Mar dos Açores andou recentemente de novo na berlinda. Não obstante a numerosa assistência, “casa cheia” não deixou de evidenciar significativas ausências. Algumas “de peso”! É que falar dos Açores não significa necessariamente fazer a sua defesa, nem são “os outros” aqueles que, usando e abusando da atitudes paternalistas, nos devem impingir aquilo que supostamente julgam ser o melhor (para eles) para nós.
Nos Açores nada muda como o tempo. Pena é que há coisas que nem mesmo o tempo as mude!
Desde a terceira década do século XV plataforma geoestratégica para exploração e submissão de uns e outros, agora que das Índias já não vêem especiarias, nem do Brasil ouro e madeiras preciosas, tampouco das possessões africanas “mão de obra escrava”, petróleo e diamantes, aproxima-se o momento de nos Açores o desaforo também acontecer ao nível da exploração dos recursos inorgânicos, minerais e outros.
Não me canso de repetir, mas nestas ocasiões – eu que prefiro, e procuro sempre que possível, o caso de Cabo Verde – é o exemplo de Timor Lorosae que me ocorre. Um exemplo que ganha especial significado, agora, quando aquele antigo território português, um jovem país altamente carenciado, ainda a dar os primeiros passos, passou como que por milagre de frágil “meia ilha” dependente a potencial comprador de divida soberana portuguesa. Quem é que se recorda de em Timor, enquanto esteve sob posse portuguesa, ouvir falar no petróleo que sob o seu mar existia?
Não interessava falar disso, e, interessando, era só a alguns.
Aqui nos Açores não é muito diferente. A nossa posição geoestratégica tem sido sistematicamente subvalorizada, não é que seja esta a real situação, mas porque importa não tornar evidente o muito que Portugal ganha “por nossa conta”, para com isso poderem persistir e ampliar o mito de que são os impostos dos portugueses aquilo que nos sustenta.
A verdade é que a importância geopolítica e estratégica dos Açores tem um valor incalculável, grandeza que nem Portugal, por inépcia, dela beneficia convenientemente!
Alguém poderá quantificar o valor de ter portos e aeroportos seguros a um terço da distância entre a costa ocidental da Europa a costa oriental da América do Norte? Neste contexto, quanto não vale a posição privilegiada dos Açores no apoio às comunicações marítimas e aéreas do Atlântico Norte? Ou ainda, quanto vale controlar o enorme espaço aéreo e marítimo que nos rodeia, correspondente, sem sombra de dúvidas, à maior ZEE da União Europeia?
Só as respostas a estas questões, sobretudo quando comparadas com o PIB/Açores, contribuiriam para desfazer mitos que a muitos interessa perpetuar.
Mas esta é apenas uma parte.
Agora – começa a ser mais comummente conhecido o que desde há muito se fala em surdina – não é só a posição geoestratégica dos Açores aquilo que está a ser alvo de cobiça e domínio neo-colonial. Com a enorme extensão marítima dos Açores acolhendo um património natural único, e as suas profundezas repletas de recursos cujo valor aumenta a cada dia que passa, é também a mais valia incalculável que representam os direitos soberanos sobre esta riqueza: o prospectar, explorar, conservar e gerir o dito “petróleo dos Açores” – o nosso mar, o seu fundo e respectivo subsolo (com isso fazendo render recursos de capital importância) –, aquilo que nos permite encarar com optimismo a sustentabilidade de um país livre e independente: os Açores.
Ou não fossem estes préstimos só sublimados por uma nação soberana, tal como acontece agora com Timor!

A.O. 01/03/2011; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado)

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