sábado, março 14, 2015

 

Outros Marços


Quase cinquenta anos antes do Decreto de 2 de Março de 1895, diploma que o Açor fez chegar a Ponta Delgada sete dias depois, e que, não obstante a demora – nem a difícil vida de então – não deixou de ser saudado com vinte dúzias de foguetes… quase cinquenta anos antes do 2 de Março de 1895, dizia, um paladino da autonomia verdadeira, em missiva enviada de Londres (carta de 27 de Março de 1853: “Cartas particulares de José do Canto a José Jácome Correia”, ICPD, 1999), dava bem nota do que é lutar por tal objectivo; de como a autonomia verdadeira só se consegue com lucidez e uma crença tão visionária que, para muitos, até pode parecer utopia; de como, mais do que nos decretos, está na vontade e na inteligente persuasão a solução para a autonomia verdadeira; e, sobretudo, de como vale a pena sonhar e lutar pela realização do que se almeja (mesmo que seja muito mais que autonomia)!
Eis dois excertos da dita carta:

“ (…) Não concluirei sem te dizer duas palavras sobre o negócio da doca. Vim receber aqui a satisfatória notícia que o Ministério tinha proposto no Orçamento, entre outras reduções, a da Fruta (…) (…) pode dar-se como decidido este negócio: os negociantes calculam aqui
– Londres – que a redução virá a ser de 2 shelins em cada caixa grande. Parece pois que não havia melhor ocasião de levantar em S. Miguel um imposto sobre a Laranja, para a obra da doca: que o comércio e produtores ficassem com 1 shelin e que o outro fosse arrecadado para a obra, ainda a Laranja ficava aliviada (…).”
“Eu escrevi para Lisboa aos nossos Deputados a ver se o Governo Portuguez entrava com o Inglez n’uma convenção por onde garantisse que os impostos aplicados para a doca não teriam outro fim – diferente do financiamento da obra (…).”

E a carta continuava, tal como outras que se lhe seguiram, revelando mais “negócios de Estado”.
Nem cinco anos passados já “as obras da doca” haviam começado, e, só depois da doca, o dia do Decreto chegou! Imagino com gente desta como seria hoje? É que, muito mais do que “a doca” – e uma autonomia de decreto – há tanto em causa nos nossos dias: até o próprio mar!

AO. 14/03/2015; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado) 

sexta-feira, fevereiro 27, 2015

 

Gregos vs “Troikanos”



A mãe pátria da democracia – o berço de Clístenes e Péricles – chegou-se à frente e, à Syriza, colocou uma pedra na engrenagem que vê a austeridade como panaceia para todos os males de uma UE coxa e falha de líderes capazes de realizar alguns dos seus mais nobres objectivos: desenvolvimento sustentável assente em crescimento económico; combate à exclusão social; solidariedade e respeito mútuo entre os povos; erradicação da pobreza. 
Como sempre, na ausência de lideranças com envergadura, aparecem as "marionetes", gente incapaz de evitar, por exemplo, o “peso das botas” da Sra. Merkel ou “a chibata” do Sr. Schauble. Se o recente “bater de pé” dos helénicos vai mudar a situação, não sei. Só por si temo até que não! Fica porém a esperança de se ter aberto uma brecha na “frente alemã”, contribuindo para transformar esta “nuvem negra”, austera e já fazendo lembrar velhos tempos, em algo que reponha o sonho, traga ânimo, confiança: que nos volte a sintonizar com Beethoven e o seu "Hino à Alegria". Se é estreita a frincha conseguida pela Grécia? Sim, é! Mas também, não tendo sido a acção dos pequenos grupos de resistência o que determinou o fim da penúltima ocupação germânica, o seu contributo e coragem foi uma grande ajuda para a expulsão dos invasores. 
Mantêm-se o imperial sonho de alguns em dominar a Europa e o Mundo. Frustradas que foram as tentativas do século XX (1914/18 e 1939/45), o século XXI começou praticamente com uma terceira, sem recorrer a armas convencionais, claro, mas trocando-as por outra: o poder do Euro/Marco. A arma é diferente mas a arrogância e determinação de quem a usa recorda os déspotas do passado (só que agora sem o mini bigode). As recentes provocações do Sr. Schauble, até adjectivando de irresponsável o Povo Grego (eleitores e eleitos) são disso demonstração. Outro “todo-poderoso” daquelas bandas também começou por tratar com semelhante desdém os judeus e outras minorias. Tudo acabou como se sabe, não sem que, antes, mesmo já próximo do fim, também fossem vistos “meninos bem comportados” extasiados, porque fotografados ao lado do líder; o querido, o louvado, o idolatrado fuhrer! 

AO. 28/02/2015; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado) 

sexta-feira, fevereiro 13, 2015

 

O prometido é devido

 Planta do Forte de S. Pedro
 "O Forte e a Cidade", pág. 44,  de 
  José M. Salgado Martins (Edição Letras Lavadas, 2012).  


Recortes da cópia de um documento notarial de 1925 preparando a venda do "Castelinho de Santa Clara" e do Forte de São Pedro.


Foto aérea da zona do Forte de São Pedro (à esquerda), vendo-se ao centro a respectiva igreja.
Ponta Delgada: Vandalismo ou Desenvolvimento, pág. 46, de
Carlos Falcão Afonso (Edição CMPD, 2006).



Óleo sobre tela (Júlio Gomes de Menezes) onde se vê junto ao mar a muralha Poente do Forte de São Pedro.
História dos Açores II, pág. 153, de
Carlos Melo Bento (Edição do Autor, 1995).


O meu amigo Fernando de Jesus, nascido em São Pedro (logo, naturalmente, marítimista e portista fervoroso) mas “naturalizando” santaclarense por casamento, vai já para meio século, desafiou-me a escrever sobre o forte que existiu na sua freguesia, paredes-meias com o qual, disse-me, os avós possuíam a casa onde ele nasceu e viveu até ao início da década de cinquenta, altura em que a construção da avenida obrigou a demolir a residência da família – que ele gostaria de poder localizar e rever – tal como aconteceu a outras na mesma zona. Esta não é “a minha lavra” (fosse para as bandas “Loeste” e, talvez, lhe pudesse ser mais útil), mas como há coisas que estão ligadas… aqui vai disso:
Em 1925, o notário Tavares de Carvalho, de Lisboa, preparou a venda do “Castelinho de Santa Clara” (então avaliado em 2.320 escudos) e do Forte de São Pedro (bem mais valioso). O documento notarial (cuja cópia devo ao meu saudoso e bom amigo Comendador Manuel Ferreira) dá com detalhe as confrontações do Forte de São Pedro: Norte, adro da igreja de S. Pedro; Sul, mar; Leste, Rua do Castelo, Henrique Joaquim Botelho e Travessa do Calhau; Oeste, Dr. Luís Bernardo Leite Athayde. Para ajudar a esmiuçar o assunto recomendo uma interessante fotografia aérea da zona, publicada no livro do Dr. Carlos Falcão Afonso (“Ponta Delgada. Vandalismo ou Desenvolvimento?”, pág. 46) e a planta do Forte de São Pedro inserta no livro do Coronel José Manuel Salgado Martins (“O Forte e a Cidade”, pág. 44), conjunto de documentos que nos dão uma minuciosa percepção do local, com a foto oferecendo pormenores das residências em volta do castelo, onde, quiçá, poderá ser possível localizar a casa dos antecessores do meu prezado amigo.
Ficam para outras calendas as deliciosas “estórias” – reveladas pelo Fernando – sobre o “Ti Mané Miola” e o contrabando que fazia em volta da casa de sua avó, a “Tia Laurinha”, não podendo eu deixar de dar registo de que, mesmo que mais pequeno (só três canhoneiras enquanto o de São Pedro tinha sete) o “Castelinho de Santa Clara” – honra seja feita a “Santa Clara – Vida Nova”, já que a 1ª versão do PDM ignorava-o, convidando ao seu arrasamento – ainda lá está, enquanto do Forte de São Pedro restam apenas ilustrações.
Pois, Fernando, aqui fica um início para a meada. Agora é segui-la!

AO. 14/02/2015; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado) 

domingo, fevereiro 01, 2015

 

80 anos: uma vida



Em Maio de 1934, cumprindo a penúltima etapa da peregrinação encetada logo no seu primeiro mês devida (nos primeiros sete anos de existência o CDSC passou por sete diferentes sedes), o Clube Desportivo Santa Clara instalou-se num edifício com muito boas condições, localizado no “coração de Ponta Delgada” (esquina da Rua Machado dos Santos com a Rua Híntze Ribeiro: até recentemente a sede do Micaelense Futebol Clube). Um acordo – que por pouco não deu em fusão – com a SPER (Sociedade Promotora da Educação e Recreio) permitiu uma facilidade que, não fora a perspicácia de Manuel Inácio de Sousa, logo ali poderia ter descaracterizado aquele que já então dava passos significativos para um dia vir a ser o maior clube de futebol dos Açores (na época de 1933/34 o CDSC acumulou o seu 5º título consecutivo de campeão: 1 da LDM e 4 da AFPD).
Avaliada a situação, com uma congregação de esforços – uma das que mais tarde levaria António Horácio Borges (um homem do MFC) a proferir e eternizar a célebre frase: “o Santa Clara é o retrato da alma popular, um milagre de vontade” –, ainda antes do final de 1934 já o CDSC estava a efectuar as obras e adaptações para, a 31 Janeiro de 1935, ser oficialmente inaugurada a sede que, de então até hoje, nunca mais deixou de ocupar.
No ano seguinte, já com o Dr. Alberto Paula de Oliveira na presidência – substituindo o Capitão Reis Rebelo, primeiro presidente do CDSC (1927/1935) –, com pompa e circunstância foi celebrado o primeiro aniversário da “Nova Sede”. O brilhantismo da festa, tal como o de outras que se lhe seguiram, anos mais tarde (1949), acabou gerando o equívoco ainda hoje não completamente dissipado que confunde a data da inauguração da sede, 31 Janeiro de 1935, com a data de fundação do CDSC (remetida para o ano de 1921, depois de antes também serem referidos os anos de 1919 e 1920, em todos os casos enredando o CDSC com o “fenómeno Santa Clara”, a origem dos “Campeonatos de Santa Clara”, no qual as equipas das “lojas” do bairro se defrontavam renhidamente em regime de “desafio vs desforra”).
80anos, uma vida. Razão suficiente para repetir: “a nossa casinha, apesar de velhinha, é sempre a nossa casinha”!

Com os melhores cumprimentos,
Senhor Melo

AO. 31/01/2015; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado) 

sábado, janeiro 17, 2015

 

OLD PDL_1: O “Calhau da Areia”



1    -  Esquisso mostrando o perfil do "Calhau da Areia" antes dos aterros efectuados para a .......passagem das "locomotivas da doca". 
1.1 -  Localização do "Castelinho" (atenda-se à distancia entre este e a linha de água).
2    -  Planta mostrando o perfil do "Calhau da Areia" na década de cinquenta.
2.1 -  Localização do "Castelinho" (atenda-se à distancia entre este e a linha de água).
2.2 - Zona onde estava o "Cunhal da maré".
3    - Foto do "Calhau da Areia" na década de sessenta.
3.1 - Pormenor do "Cunhal da Maré".
4    - Foto do "Calhau da Areia" na década de oitenta.
5    - Foto do "Calhau da Areia" hoje.

A histórica enseada ainda lá está. Os habitantes locais chamam-na “Calhau da Areia”. Porém, areia, hoje, é pouca ou nenhuma a existente naquela antiga cala. Mas as diferenças não estão só na actual inexistência de areia. Se compararmos o que agora lá se pode observar com as descrições que desde o século XVI existem do local outras alterações são identificadas: a começar pelo seu perfil, antes uma cavada goleta entrando terra dentro até aos contrafortes do “Castelinho”, hoje uma elíptica alongada. Ao longo dos tempos, sobretudo a partir de meados do século XIX, com a construção do porto artificial de Ponta Delgada, vários aterros transformaram a sua forma original. Nem o “Cunhal da Maré”, imponente penedo que qual farol assinalava o zóster com melhor acessibilidade e mais protegido daquele anco, conseguiu resistir: foi mais uma - ainda recente - terraplanagem, para sobre ela alicerçar a inútil etar que lá se está a degradar, que o enterrou! Da primordial calheta apenas o seu comprimento se não alterou. Ela lá está, com a dimensão de antanho, espartilhada entre as duas pontas que sempre a definiram: a dos Algares, ou dos Aringas, a Nascente, a Delgada, ou de Santa Clara, a Poente. Duas extremidades pouco altas, progressivamente afundando-se mar adentro, que, basálticas que são, ao longo dos séculos se mantiveram firmes, determinando o início e fim da baía. Pequena, porém historicamente rica: Foi nela que desembarcavam os habitantes de Vila Franca, então Capital, quando para aquela zona vinham à caça de porcos bravios; Depois dos caçadores, e seguindo-lhes as pisadas, por aquela enseada chegaram também os primeiros habitantes a fixarem-se nesta latitude da ilha; Foi ainda naquele portinho que desde os primórdios varavam seus barcos os pescadores do pequeno núcleo populacional que está na origem da actual maior e mais importante cidade dos Açores!
Em Santa Clara, do “Calhau da Areia” até à Nordela, deverá estar a única parcela da costa da cidade que ainda mantém, quase inalterável, o recorte e as características que tinha, quando, em finais do século XV, por lá se fixaram os primeiros habitantes do lugar da ponta delgada. 
Que assim se mantenha!

AO. 17/01/2015; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado) 

domingo, janeiro 04, 2015

 

2015



Sem querer entrar em concorrência com os muitos “Zandingas” habituais desta quadra, confesso que, como já há muito não acontecia comigo, é grande a minha convicção de, finalmente, o “Ano Novo” poder vir a ser melhor que o “Ano Velho”!
Não. Não é que tenha “embarcado” na propaganda daqueles que não obstante ainda recentemente dizerem “se estar a lixar para as eleições”, agora, dopados pelo frenesim pré eleitoral, até dizem terem-se já dissipado as “nuvens negras” que eles próprios, contra tudo e contra todos, obcecadamente, se encarregaram de escurecer o mais possível (e não fora o Tribunal Constitucional, ainda maior seria o negrume!). 
Não. Definitivamente não “embarquei”, nem “embarco”, na tão cínica quanto enganosa “cantiga” do desafinado duo “Pedro & Paulo”, sonambulamente dirigido a partir do palácio de Belém. 
Esta minha convicção – a de, finalmente, podermos vir a ter um “Ano Novo” melhor do que o finado – é fundamentada numa premissa simples: depois de dois “anos horribillis” difícil será vir, logo de seguida, um terceiro ainda pior! O grave é se a lei das probabilidades não funciona! E os primeiros sinais não foram nada encorajadores: não foi que Ponta Delgada atrasou-se na entrada do ano? Atrasada e envolta em nevoeiro! E logo tudo isso a acontecer no ano em que, e tal como a minha convicção apontava, era grande a vontade para encontrar uma réstia de optimismo.
Bom. Ignoremos os presságios. Até porque o dia um já passou, hoje é dia três, amanhã será Domingo, e para principiar tivemos logo um feriado, uma Sexta e um Sábado, tudo de enfiada.
Que tenham TODOS um ano com muita saúde, próspero e feliz. Mas, não se esqueçam, isso só vai lá se cada fizer a sua parte! BOM ANO. 

AO. 03/01/2015; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado) 

domingo, dezembro 21, 2014

 

Os prós dos contras



Há ocasiões em que me lembro imediatamente de Manuel Ferreira, em especial o seu “O ALEVANTE DA ISCA”, sem nunca me cansar de transcrever passagens como: “Lisboa só nos mandava daquelas encomendas!” / “Qual autonomia, nem meia autonomia? Nem na nossa casa uma pessoa manda!”.
Vem isso a propósito do último “Prós e Contras”, programa que nos seus tempos áureos praticamente nos ignorou, mas agora, desgastado no formato e degradado nas audiências, tal como a maioria dos circos e/ou bandas POP nas mesmas circunstancias, vê fora da “Capital do Império” – no caso, numa das últimas colónias – o modo de ganhar folgo e sobrevivência. Valha-nos que, como quase sempre, nem tudo foi mau. As intervenções do Presidente do Governo dos Açores, em especial a de abertura, roçaram o brilhantismo (viu-se que se preparou bem), dando boa imagem do próprio, do cargo e dos Açores. O mesmo se pode dizer da intervenção do Ex Reitor da Universidade dos Açores, Prof. Dr. Machado Pires, cuja “lição” foi também de grande nível. Não obtendo a minha total concordância, há também que considerar as mensagens do Dr. Álvaro Monjardino (sempre inteligente, mas estou cada vez mais impenetrável ao seu discurso bairrista e português/dependente), em especial quando recordou que os portugueses nos deixaram aqui, só de nós se lembrado para, depois, virem cobrar impostos; ou quando comparou o alargamento do território marítimo – do nosso mar: o Mar dos Açores – ao “Mapa Cor-de-rosa”, chamando a atenção para a necessidade de o ocupar (para Álvaro Monjardino, de forma portuguesa/dependente, para mim, cada vez mais sob nosso – dos açorianos – exclusivo controlo!).
De resto foi o resto (que mal ficaram outros bairristas!? / E que dizer do cenário montado em Angra?). Excluindo, claro, a referência ao Dr. José de Almeida e com ela, implicitamente ao processo de total emancipação dos Açores, que continua actual, não uma “estória” com 40 anos, como foi referido. Mesmo que convidados à última da hora e após vários recados (alguns muito directos), estavam presentes independentistas. Foi pena que, sobre o assunto INDEPENDÊNCIA, não lhes fosse dada a palavra, ao invés de sobre este assunto ela ter sido atribuída ao congressista açor-americano Tony Cabral: isto sim, no mínimo, merecia um protestativo vigoroso agitar de bandeiras: das nossas!

AO. 20/12/2014; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado) 

domingo, dezembro 07, 2014

 

José de Almeida: a obra e o sonho



A ignorância de muitos e a conveniência de outros tantos tem dado a ideia que a “INDEPENDÊNCIA DOS AÇORES” é CAUSA recente, pós 25 Abril. É falso! Mais aproximado da verdade será dizer que foram as consequências do 25 de Abril – que não só a chegada da Democracia (uma democracia, “à portuguesa”, que até impede a constituição de partidos pró independência nos Açores) – e a histórica e corajosa acção do Dr. José de Almeida o que democratizou a “CAUSA INDEPENDÊNCIA DOS AÇORES”, trazendo até ao povo o que antes fora só uma “QUESTÃO” das elites.
Hoje já é consensual dizer que sem José de Almeida e a sua integra, coerente, frontal e corajosa defesa da INDEPENDÊNCIA DOS AÇORES, nem esta escassa autonomia de que alguns tanto se orgulham teríamos. Isto, sim, é verdade! Mas verdade também é que a “CAUSA” de José de Almeida não foi a autonomia, sim a INDEPENDÊNCIA!
Será – já o era de uns tempos a esta parte – grande a falta que o Dr. José de Almeida irá fazer ao processo de Total Emancipação dos Açores. O seu carisma; as suas inatas capacidades de liderança; o seu histórico percurso; a sua profunda cultura e consistente preparação para o cargo; a sua grande capacidade de gerar consensos; a sua enorme integridade pessoal, tal como a imensa coragem e frontalidade com que sempre defendeu a “CAUSA”, muito dificilmente poderão ser igualadas. Mas a sua OBRA ficou. O mais difícil está feito! Há que saber dar continuidade, e, tal como rezam as escrituras, e foi lembrando em oração fúnebre perante o seu féretro, “a semente só germina depois de morta e lançada à terra”!

O sonho do Dr. José de Almeida – “assistir em vida à INDEPENDÊNCIA DOS AÇORES” – não se realizou! Mas nem todos os sonhos são para realizar. Muitos deles são só e apenas para “comandar a vida”, com a aspiração de INDEPENDÊNCIA DOS AÇORES comandando quase por completo a vida de José de Almeida. Convenhamos, perante tão importante desiderato é quase sempre assim. Lembro, apenas por proximidade arquipelágica, Amílcar Cabral: Ele também não assistiu ao “grande dia”, mas isso não impediu de Cabo Verde ser hoje um país independente!

AO. 06/12/2014; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado) 

sábado, novembro 22, 2014

 

1923/1975: os outros campeonatos dos primeiros 50 anos da AFPD.


A Associação de Futebol deu os seus primeiros passos em 1923: era a “Associação” a dar os primeiros passos e a I Republica os derradeiros.
Logo em 1923/24 (há coisas que são como o célebre anúncio: “vêm de longe”), tendo como protagonistas os Drs. Francisco Luís Tavares e Lúcio Agnelo Casimiro, começaram as demandas sociopolíticas. Mas então, porque com o tempo iria endurecer, foi mesmo só isso: luta política! Na altura estava muito acesa a querela entre os “velhos republicanos” e os conservadores, muitos deles então ainda monárquicos, sendo que foram os mais conservadores quem depois acabaria por condicionar quase tudo e todos: também, logicamente, e quase por completo, os primeiros 50 anos de vida da Associação de Futebol!
Ao longo da década de vinte – 1924 / 1930 –, e sobretudo depois do 28 de Maio de 1926, novamente com o Dr. Lúcio Agnelo Casimiro encabeçando a falange que já então ganhava cada vez maior preponderância, este confronto político conheceu outro protagonista, o Dr. Jeremias da Costa, que muito a custo conseguiu manter a então AFSM como baluarte de democratas e “velhos republicanos”. Também por isso, em 1929/30, o Dr. Agnelo Casimiro chegou mesmo a criar um organismo alternativo à Associação de Futebol, com Ponta Delgada assistindo a dois campeonatos, que procuravam, cada um deles, “abafar” o outro. Do lado da "Associação", e dos “velhos republicanos”, ficaram o Club União Sportiva; o Sport Club Santa Clara – mantendo-se fiel ao posicionamento do “Santa Clara Velho”; o Operário Sport Club (da Federação Operária de Ponta Delgada); e o Micaelense Foot-ball Club. E do lado da Liga Desportiva Micaelense – foi este o nome do organismo criado pelo Dr. Agnelo Casimiro – e daqueles que a partir de 1931 iriam passar a controlar, quase completamente, os acontecimentos por longos anos, ficaram o Clube União Micaelense e o Clube Desportivo Santa Clara, juntando-se a estes o “Estrela” e o “Artista”, clubes da Ribeira Grande, antecessores do Ideal e do Águia. Esta “revolta” terminou em Agosto de 1930, com a chegada a Ponta Delgada de um Comunicado da Federação Poprtuguesa de Futebol, assinado pelo punho do histórico Ribeiro dos Reis, que ameaçando de exclusão o CUM e o CDSC colocou um ponto final à estratégia da LDM.
A “Revolução das Ilhas”, em 1931, fracassando no seu objectivo de derrubar o Estado Novo, entre nós teve como consequência a “decapitação” dos últimos “velhos republicanos” que estiveram na liderança da Associação de Futebol, os, Dr. Castanheira Lobo e Tenente Luís Lacerda Nunes.
A partir daí acabaram-se as “veleidades democráticas”, e, sempre que estas se esboçavam, lá aparecia uma “mão firme”: com o Sr. Horácio Teves sendo chamado a estas funções por várias vezes.
Tal como o regime, a vida da Associação de Futebol entrou então numa fase de quase perfeita tranquilidade, só suspensa pela interrupção da prática do futebol entre 1942 e 1945, o que aconteceu sobretudo por falta de recintos desportivos, mas também porque a II Grande Guerra atingia então o seu apogeu.
Com o recomeço do futebol federado em São Miguel uma nova geração chegou à liderança da AFPD, foram os casos o Dr. Carlos Bettencourt, embora por pouco tempo – custou-lhe ser apoiante do Movimento Unitário Democrático e, por tal, viu dificultada a tarefa de conseguir reunir os apoios (CMPD e JAPPD) para a obter o necessário recinto desportivo –, do Dr. Fernando Costa Matos, do Arq. Francisco Quintanilha, entre outros. Mas será o Sr. António Horácio Borges, com os quinze mandatos que entre os anos de 1955 e 1972 efectuou como Presidente – muitos deles consecutivamente –, quem, mais do que fazer o “ressurgimento do futebol local” (foi este o que António Horácio Borges atribuiu ao projecto que se propôs dinamizar e executar) acabou levando a cabo uma verdadeira revolução no futebol de São Miguel.
Na transição da década de 60 para a de 70, coincidindo com a “primavera marcelista” e com a aproximação da “nova era” que já se prenunciava, Eduardo Pereira Duarte foi eleito presidente da AFPD, deixando também ele bem visível a sua marca. Com Eduardo Pereira Duarte foi a vez da “revolução” chegar à vida administrativa e financeira da Associação de Futebol, sendo o seu desempenho muito bem acolhido pela imprensa da época, que publicou e elogiou os relatórios de contas e actividade dos seus mandatos.
A inauguração do Aeroporto de Ponta Delgada (na Nordela) e, em consequência disso, a decisão de se não construir o Estádio Distrital na “Mata da Doca”, em Santa Clara, obrigou Eduardo Pereira Duarte a procurar rapidamente outra solução, logo montando, dinamizando e levando a cabo, a campanha de angariação de fundos que se tornou decisiva para construção do Estádio na “Estrada da Ribeira Grande”, ainda hoje, o mais importante palco de futebol em São Miguel.
Já quando o calendário mostrava 1974, a greve dos árbitros, primeiro, e a chegada de Ted Smith, depois, (onde isto nos levaria: Ted Smith foi anunciado como indo do "Estoril" para o Irão, mas, como que conduzido pela “mão invisível do Tio Sam”, apareceu quase de surpresa em Ponta Delgada)… Escrevia então que a greve dos árbitros e a chegada de Ted Smith a Ponta Delgada já anunciavam claramente o que estava a chegar.
Pouco antes de Abril de 1974 João Gago da Câmara chegou à presidência da AFPD, sendo ele o presidente em funções, mas não em presença – fora detido em consequência do 6 de Junho de 1975 – quando terminou a última época dos primeiros 50 anos de vida da Associação de Futebol.
Foi “tão quente aquele verão” que a importante efeméride, o meio século de existência da AFPD, começada a preparar por António Horácio Borges quase uma década antes com a disputa das taças aniversário da AFPD, passou despercebida!
....
Tal como já aconteceu com o Sr. Rolando Viveiros, outros presidentes merecem sair da penumbra em que os colocaram. Alguns foram mesmo ostracizados (como foi os casos dos Drs. Francisco Luís Tavares, Duarte Castanheira Lobo e Tenente Luís Lacerda Nunes), podia-se (devia-se), começar por estes. Fica a sugestão! 

AO. 22/11/2014; “Cá à minha moda" (revisto e muito, muito acrescentado) 

sábado, novembro 08, 2014

 

Referendo sim, mas…



Quer o referendo realizado na Escócia, quer aquele que, na Catalunha, os “espanhóis” tudo fazem para evitar que se cumpra, devem ser casos a acompanhar com mais tempo e maior detalhe do que aqueles que a eles têm sido habitualmente dedicados.
O caso escocês é exemplar. Não só porque nunca “uma derrota” foi tida por tão vitoriosa, mas, e sobretudo, porque a mais velha democracia do mundo, afora as suas deficiências, continua sendo exemplo de boas práticas democráticas, em especial quando comparada com Espanha e Portugal, seus “velhos” e principais competidores na demanda pelo mundo, quando se tratou de construir um Império. Diferente é o caso catalão: ou, aliás, o esforço que “Castela” está efectuado para que o Referendo na Catalunha não se realize (passe o exagero, lembra o que se passou, embora em sentido contrário, no Leste da Ucrânia: prepotência imperial!). O desenrolar do processo dá bem nota de como continuam deixando marca as ditaduras que, praticamente até ao último quartel do século XX, se mantiveram a sudoeste dos Pirenéus. Um estigma tanto mais profundo quanto mais se avança para ocidente na península. É que, apesar de tudo, os catalães – tal como os bascos, galegos, canarinos e outros –, embora agora aparentemente impedidos de se manifestarem em referendo secessionista, já há muito “ganharam” o direito de democraticamente fazerem a defesa das suas aspirações independentistas. Outra, para pior, é – e permanece, após já quase meio século de alguma democracia – a sorte dos Povos Açoriano e Madeirense, a quem esta pretensão não só lhes está vedada como é equiparada a fascismo!   
Numa democracia civilizada e madura, tal como a inglesa, o Referendo é o instrumento ideal para aferir a vontade emancipalista de um Povo. Mas, antes deste, outros passos tiveram necessariamente de ser dados: a organização política dos que defendam este desiderato é um deles (o que até na Espanha já é permitido).

Não consentir a criação de partidos defensores da Independência dos Açores (e da Madeira) é um dos sinais de como é curta, frágil e insegura a Democracia Portuguesa. Será ainda culpa de Salazar?

AO. 08/11/2014; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado) 

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