sábado, março 14, 2015
Outros Marços
Quase cinquenta
anos antes do Decreto de 2 de Março de 1895, diploma que o Açor fez chegar a
Ponta Delgada sete dias depois, e que, não obstante a demora – nem a difícil
vida de então – não deixou de ser saudado com vinte dúzias de foguetes… quase
cinquenta anos antes do 2 de Março de 1895, dizia, um paladino da autonomia
verdadeira, em missiva enviada de Londres (carta de 27 de Março de 1853: “Cartas
particulares de José do Canto a José Jácome Correia”, ICPD, 1999), dava bem
nota do que é lutar por tal objectivo; de como a autonomia verdadeira só se
consegue com lucidez e uma crença tão visionária que, para muitos, até pode
parecer utopia; de como, mais do que nos decretos, está na vontade e na inteligente
persuasão a solução para a autonomia verdadeira; e, sobretudo, de como vale a
pena sonhar e lutar pela realização do que se almeja (mesmo que seja muito mais
que autonomia)!
Eis dois excertos
da dita carta:
“ (…) Não concluirei sem te dizer duas palavras sobre o negócio da doca. Vim receber aqui a satisfatória notícia que o Ministério tinha proposto no Orçamento, entre outras reduções, a da Fruta (…) (…) pode dar-se como decidido este negócio: os negociantes calculam aqui – Londres – que a redução virá a ser de 2 shelins em cada caixa grande. Parece pois que não havia melhor ocasião de levantar em S. Miguel um imposto sobre a Laranja, para a obra da doca: que o comércio e produtores ficassem com 1 shelin e que o outro fosse arrecadado para a obra, ainda a Laranja ficava aliviada (…).”
“Eu
escrevi para Lisboa aos nossos Deputados a ver se o Governo Portuguez entrava
com o Inglez n’uma convenção por onde garantisse que os impostos aplicados para
a doca não teriam outro fim – diferente do financiamento
da obra (…).”
E a carta continuava, tal como outras que se lhe seguiram, revelando mais “negócios de Estado”.
Nem cinco anos passados
já “as obras da doca” haviam começado, e, só depois da doca, o dia do Decreto chegou!
Imagino com gente desta como seria hoje? É que, muito mais do que “a doca” – e
uma autonomia de decreto – há tanto em causa nos nossos dias: até o próprio mar!E a carta continuava, tal como outras que se lhe seguiram, revelando mais “negócios de Estado”.
AO. 14/03/2015; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado)
sexta-feira, fevereiro 27, 2015
Gregos vs “Troikanos”
A mãe pátria da democracia – o berço de Clístenes
e Péricles – chegou-se à frente e, à Syriza, colocou uma pedra na engrenagem que
vê a austeridade como panaceia para todos os males de uma UE coxa e falha de
líderes capazes de realizar alguns dos seus mais nobres objectivos: desenvolvimento sustentável assente em crescimento
económico; combate à exclusão social; solidariedade e respeito mútuo entre os
povos; erradicação da pobreza.
Como sempre, na ausência de lideranças com
envergadura, aparecem as "marionetes", gente incapaz de evitar, por exemplo, o “peso
das botas” da Sra. Merkel ou “a chibata” do Sr. Schauble. Se o recente “bater de pé” dos helénicos vai mudar a
situação, não sei. Só por si temo até que não! Fica porém a esperança de se ter
aberto uma brecha na “frente alemã”, contribuindo para transformar esta “nuvem
negra”, austera e já fazendo lembrar velhos tempos, em algo que reponha o sonho,
traga ânimo, confiança: que nos volte a sintonizar com Beethoven e o seu "Hino à Alegria". Se é estreita a frincha conseguida
pela Grécia? Sim, é! Mas também, não tendo sido a acção dos pequenos
grupos de resistência o que determinou o fim da penúltima ocupação germânica, o
seu contributo e coragem foi uma grande ajuda para a expulsão dos invasores.
Mantêm-se
o imperial sonho de alguns em dominar a Europa e o Mundo. Frustradas que foram
as tentativas do século XX (1914/18 e 1939/45), o século XXI começou praticamente com uma
terceira, sem recorrer a armas convencionais, claro, mas trocando-as por outra:
o poder do Euro/Marco. A arma é diferente mas a arrogância e determinação de
quem a usa recorda os déspotas do passado (só que agora sem o mini bigode). As recentes
provocações do Sr. Schauble, até adjectivando de irresponsável o Povo Grego
(eleitores e eleitos) são disso demonstração. Outro “todo-poderoso” daquelas
bandas também começou por tratar com semelhante desdém os judeus e outras minorias.
Tudo acabou como se sabe, não sem que, antes, mesmo já próximo do fim, também fossem
vistos “meninos bem comportados” extasiados, porque fotografados ao lado do
líder; o querido, o louvado, o idolatrado fuhrer!
AO. 28/02/2015; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado)
AO. 28/02/2015; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado)
sexta-feira, fevereiro 13, 2015
O prometido é devido
Planta do Forte de S. Pedro
"O Forte e a Cidade", pág. 44, de
José M. Salgado Martins (Edição Letras Lavadas, 2012).
Recortes da cópia de um documento notarial de 1925 preparando a venda do "Castelinho de Santa Clara" e do Forte de São Pedro.
Foto aérea da zona do Forte de São Pedro (à esquerda), vendo-se ao centro a respectiva igreja.
Ponta Delgada: Vandalismo ou Desenvolvimento, pág. 46, de
Carlos Falcão Afonso (Edição CMPD, 2006).
Óleo sobre tela (Júlio Gomes de Menezes) onde se vê junto ao mar a muralha Poente do Forte de São Pedro.
História dos Açores II, pág. 153, de
Carlos Melo Bento (Edição do Autor, 1995).
O meu amigo Fernando de Jesus, nascido em
São Pedro (logo, naturalmente, marítimista e portista fervoroso) mas
“naturalizando” santaclarense por casamento, vai já para meio século,
desafiou-me a escrever sobre o forte que existiu na sua freguesia, paredes-meias com o qual, disse-me,
os avós possuíam a casa onde ele nasceu e viveu até ao início da década de
cinquenta, altura em que a construção da avenida obrigou a demolir a residência
da família – que ele gostaria de poder localizar e rever – tal como aconteceu a outras
na mesma zona. Esta não é “a minha lavra” (fosse para as bandas “Loeste” e,
talvez, lhe pudesse ser mais útil), mas como há coisas que estão ligadas… aqui vai
disso:
"O Forte e a Cidade", pág. 44, de
José M. Salgado Martins (Edição Letras Lavadas, 2012).
Recortes da cópia de um documento notarial de 1925 preparando a venda do "Castelinho de Santa Clara" e do Forte de São Pedro.
Foto aérea da zona do Forte de São Pedro (à esquerda), vendo-se ao centro a respectiva igreja.
Ponta Delgada: Vandalismo ou Desenvolvimento, pág. 46, de
Carlos Falcão Afonso (Edição CMPD, 2006).
Óleo sobre tela (Júlio Gomes de Menezes) onde se vê junto ao mar a muralha Poente do Forte de São Pedro.
História dos Açores II, pág. 153, de
Carlos Melo Bento (Edição do Autor, 1995).
Em 1925, o notário Tavares de Carvalho,
de Lisboa, preparou a venda do “Castelinho de Santa Clara” (então avaliado em
2.320 escudos) e do Forte de São Pedro (bem mais valioso). O documento notarial (cuja cópia devo ao meu saudoso e bom amigo
Comendador Manuel Ferreira) dá
com detalhe as confrontações do Forte de São Pedro: Norte, adro da igreja de S.
Pedro; Sul, mar; Leste, Rua do Castelo, Henrique Joaquim Botelho e Travessa do
Calhau; Oeste, Dr. Luís Bernardo Leite Athayde. Para ajudar a esmiuçar o
assunto recomendo uma interessante fotografia aérea da zona, publicada no livro
do Dr. Carlos Falcão Afonso (“Ponta Delgada. Vandalismo ou Desenvolvimento?”, pág. 46)
e a planta do Forte de São Pedro inserta no livro do Coronel José Manuel Salgado Martins (“O Forte e
a Cidade”, pág. 44), conjunto de documentos que nos dão uma minuciosa percepção
do local, com a foto oferecendo pormenores das residências em volta do castelo,
onde, quiçá, poderá ser possível localizar a casa dos antecessores do meu
prezado amigo.
Ficam para outras calendas as deliciosas
“estórias” – reveladas pelo Fernando – sobre o “Ti Mané Miola” e o contrabando que fazia em
volta da casa de sua avó, a “Tia Laurinha”, não podendo eu deixar de dar registo
de que, mesmo que mais pequeno (só três canhoneiras enquanto o de São Pedro tinha sete) o
“Castelinho de Santa Clara” – honra seja feita a “Santa Clara – Vida Nova”, já
que a 1ª versão do PDM ignorava-o, convidando ao seu arrasamento – ainda lá
está, enquanto do Forte de São Pedro restam apenas ilustrações.
Pois, Fernando, aqui fica um início para a meada. Agora é segui-la!
AO. 14/02/2015; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado)
domingo, fevereiro 01, 2015
80 anos: uma vida
Em Maio de 1934, cumprindo a penúltima etapa da
peregrinação encetada logo no seu primeiro mês devida (nos primeiros sete anos de existência o CDSC passou por sete
diferentes sedes), o Clube Desportivo Santa Clara instalou-se num edifício com
muito boas condições, localizado no “coração de Ponta Delgada” (esquina da Rua
Machado dos Santos com a Rua Híntze Ribeiro: até recentemente a sede do Micaelense Futebol Clube). Um
acordo – que por pouco não deu em fusão – com a SPER (Sociedade Promotora da
Educação e Recreio) permitiu uma facilidade que, não fora a perspicácia de
Manuel Inácio de Sousa, logo ali poderia ter descaracterizado aquele que já então
dava passos significativos para um dia vir a ser o maior clube de futebol dos
Açores (na época de 1933/34 o CDSC acumulou o seu 5º título consecutivo de campeão:
1 da LDM e 4 da AFPD).
Avaliada a situação, com uma congregação de esforços
– uma das que mais tarde levaria António Horácio Borges (um homem do MFC) a
proferir e eternizar a célebre frase: “o Santa Clara é o retrato da alma popular,
um milagre de vontade” –, ainda antes do final de 1934 já o CDSC estava
a efectuar as obras e adaptações para, a 31 Janeiro de 1935, ser oficialmente
inaugurada a sede que, de então até hoje, nunca mais deixou de ocupar.
No ano seguinte, já com o Dr. Alberto Paula de
Oliveira na presidência – substituindo o Capitão Reis Rebelo, primeiro
presidente do CDSC (1927/1935) –, com pompa e circunstância foi celebrado o
primeiro aniversário da “Nova Sede”. O brilhantismo da festa, tal como o de
outras que se lhe seguiram, anos mais tarde (1949), acabou gerando o equívoco ainda hoje não completamente dissipado que confunde a data da inauguração da
sede, 31 Janeiro de 1935, com a data de fundação do CDSC (remetida para o ano
de 1921, depois de antes também serem referidos os anos de 1919 e 1920, em todos os
casos enredando o CDSC com o “fenómeno Santa Clara”, a origem dos “Campeonatos
de Santa Clara”, no qual as equipas das “lojas” do bairro se defrontavam renhidamente
em regime de “desafio vs desforra”).
80anos, uma vida. Razão suficiente para repetir: “a
nossa casinha, apesar de velhinha, é sempre a nossa casinha”!
Com os melhores cumprimentos,
Senhor MeloAO. 31/01/2015; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado)
sábado, janeiro 17, 2015
OLD PDL_1: O “Calhau da Areia”
1 - Esquisso mostrando o perfil do "Calhau da Areia" antes dos aterros efectuados para a .......passagem das "locomotivas da doca".
1.1 - Localização do "Castelinho" (atenda-se à distancia entre este e a linha de água).
2 - Planta mostrando o perfil do "Calhau da Areia" na década de cinquenta.
2.1 - Localização do "Castelinho" (atenda-se à distancia entre este e a linha de água).
2.2 - Zona onde estava o "Cunhal da maré".
3 - Foto do "Calhau da Areia" na década de sessenta.
3.1 - Pormenor do "Cunhal da Maré".
4 - Foto do "Calhau da Areia" na década de oitenta.
5 - Foto do "Calhau da Areia" hoje.
A histórica enseada ainda lá está. Os habitantes locais chamam-na “Calhau da Areia”. Porém, areia, hoje, é pouca ou nenhuma a existente naquela antiga cala. Mas as diferenças não estão só na actual inexistência de areia. Se compararmos o que agora lá se pode observar com as descrições que desde o século XVI existem do local outras alterações são identificadas: a começar pelo seu perfil, antes uma cavada goleta entrando terra dentro até aos contrafortes do “Castelinho”, hoje uma elíptica alongada. Ao longo dos tempos, sobretudo a partir de meados do século XIX, com a construção do porto artificial de Ponta Delgada, vários aterros transformaram a sua forma original. Nem o “Cunhal da Maré”, imponente penedo que qual farol assinalava o zóster com melhor acessibilidade e mais protegido daquele anco, conseguiu resistir: foi mais uma - ainda recente - terraplanagem, para sobre ela alicerçar a inútil etar que lá se está a degradar, que o enterrou! Da primordial calheta apenas o seu comprimento se não alterou. Ela lá está, com a dimensão de antanho, espartilhada entre as duas pontas que sempre a definiram: a dos Algares, ou dos Aringas, a Nascente, a Delgada, ou de Santa Clara, a Poente. Duas extremidades pouco altas, progressivamente afundando-se mar adentro, que, basálticas que são, ao longo dos séculos se mantiveram firmes, determinando o início e fim da baía. Pequena, porém historicamente rica: Foi nela que desembarcavam os habitantes de Vila Franca, então Capital, quando para aquela zona vinham à caça de porcos bravios; Depois dos caçadores, e seguindo-lhes as pisadas, por aquela enseada chegaram também os primeiros habitantes a fixarem-se nesta latitude da ilha; Foi ainda naquele portinho que desde os primórdios varavam seus barcos os pescadores do pequeno núcleo populacional que está na origem da actual maior e mais importante cidade dos Açores!
Em Santa Clara, do “Calhau da Areia” até à Nordela, deverá
estar a única parcela da costa da cidade que ainda mantém, quase inalterável,
o recorte e as características que tinha, quando, em finais do século XV, por
lá se fixaram os primeiros habitantes do lugar da ponta delgada.
Que assim se
mantenha!
AO. 17/01/2015; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado)
domingo, janeiro 04, 2015
2015
Sem querer entrar em concorrência com os
muitos “Zandingas” habituais desta quadra, confesso que, como já há muito não
acontecia comigo, é grande a minha convicção de, finalmente, o “Ano Novo” poder
vir a ser melhor que o “Ano Velho”!
Não. Não é que tenha “embarcado” na
propaganda daqueles que não obstante ainda recentemente dizerem “se estar a
lixar para as eleições”, agora, dopados pelo frenesim pré eleitoral, até dizem terem-se já dissipado as “nuvens negras” que eles próprios, contra tudo e contra
todos, obcecadamente, se encarregaram de escurecer o mais possível (e não fora
o Tribunal Constitucional, ainda maior seria o negrume!).
Não. Definitivamente não “embarquei”, nem
“embarco”, na tão cínica quanto enganosa “cantiga” do desafinado duo “Pedro & Paulo”, sonambulamente dirigido a partir do palácio de Belém.
Esta minha
convicção – a de, finalmente, podermos vir a ter um “Ano Novo” melhor do que o
finado – é fundamentada numa premissa simples: depois de dois “anos horribillis”
difícil será vir, logo de seguida, um terceiro ainda pior! O grave é se a lei
das probabilidades não funciona! E os primeiros sinais não foram nada encorajadores:
não foi que Ponta Delgada atrasou-se na entrada do ano? Atrasada e envolta em
nevoeiro! E logo tudo isso a acontecer no ano em que, e tal como a minha
convicção apontava, era grande a vontade para encontrar uma réstia de
optimismo.
Bom. Ignoremos os presságios. Até porque
o dia um já passou, hoje é dia três, amanhã será Domingo, e para principiar
tivemos logo um feriado, uma Sexta e um Sábado, tudo de enfiada.
Que tenham TODOS um ano com muita saúde, próspero e feliz. Mas, não se esqueçam, isso só vai lá se cada fizer a sua parte! BOM ANO.
Que tenham TODOS um ano com muita saúde, próspero e feliz. Mas, não se esqueçam, isso só vai lá se cada fizer a sua parte! BOM ANO.
AO. 03/01/2015; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado)
domingo, dezembro 21, 2014
Os prós dos contras
Há ocasiões em
que me lembro imediatamente de Manuel Ferreira, em especial o seu “O ALEVANTE
DA ISCA”, sem nunca me cansar de transcrever passagens como: “Lisboa só nos mandava daquelas encomendas!”
/ “Qual autonomia, nem meia autonomia?
Nem na nossa casa uma pessoa manda!”.
Vem isso a
propósito do último “Prós e Contras”, programa que nos seus tempos áureos
praticamente nos ignorou, mas agora, desgastado no formato e degradado nas
audiências, tal como a maioria dos circos e/ou bandas POP nas mesmas
circunstancias, vê fora da “Capital do Império” – no caso, numa das últimas
colónias – o modo de ganhar folgo e sobrevivência. Valha-nos que, como quase
sempre, nem tudo foi mau. As intervenções do Presidente do Governo dos Açores, em especial a de abertura,
roçaram o brilhantismo (viu-se que se preparou bem), dando boa imagem do
próprio, do cargo e dos Açores. O mesmo se pode dizer da intervenção do Ex
Reitor da Universidade dos Açores, Prof. Dr. Machado Pires, cuja “lição” foi também de grande nível.
Não obtendo a minha total concordância, há também que considerar as mensagens
do Dr. Álvaro Monjardino (sempre inteligente, mas estou cada vez mais
impenetrável ao seu discurso bairrista e português/dependente), em especial
quando recordou que os portugueses nos deixaram aqui, só de nós se lembrado
para, depois, virem cobrar impostos; ou quando comparou o alargamento do
território marítimo – do nosso mar: o Mar dos Açores – ao “Mapa Cor-de-rosa”,
chamando a atenção para a necessidade de o ocupar (para Álvaro Monjardino, de forma
portuguesa/dependente, para mim, cada vez mais sob nosso – dos açorianos – exclusivo
controlo!).
De resto foi o resto (que
mal ficaram outros bairristas!? / E que dizer do cenário montado em Angra?). Excluindo, claro, a referência ao
Dr. José de Almeida e com ela, implicitamente ao processo de total emancipação
dos Açores, que continua actual, não uma “estória” com 40 anos, como foi
referido. Mesmo que convidados à última da hora e após vários recados
(alguns muito directos), estavam presentes independentistas. Foi pena que, sobre
o assunto INDEPENDÊNCIA, não lhes fosse dada a palavra, ao invés de sobre este assunto ela ter sido
atribuída ao congressista açor-americano Tony Cabral: isto sim, no mínimo, merecia um protestativo vigoroso agitar
de bandeiras: das nossas!
AO. 20/12/2014; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado)
domingo, dezembro 07, 2014
José de Almeida: a obra e o sonho
A ignorância de
muitos e a conveniência de outros tantos tem dado a ideia que a “INDEPENDÊNCIA
DOS AÇORES” é CAUSA recente, pós 25 Abril. É falso! Mais aproximado da verdade
será dizer que foram as consequências do 25 de Abril – que não só a chegada da Democracia
(uma democracia, “à portuguesa”, que até impede a constituição de partidos pró independência
nos Açores) – e a histórica e corajosa acção do Dr. José de Almeida o que democratizou
a “CAUSA INDEPENDÊNCIA DOS AÇORES”, trazendo até ao povo o que antes fora só uma
“QUESTÃO” das elites.
Hoje já é
consensual dizer que sem José de Almeida e a sua integra, coerente, frontal e
corajosa defesa da INDEPENDÊNCIA DOS AÇORES, nem esta escassa autonomia de que
alguns tanto se orgulham teríamos. Isto, sim, é verdade! Mas verdade também é
que a “CAUSA” de José de Almeida não foi a autonomia, sim a INDEPENDÊNCIA!
Será – já o era
de uns tempos a esta parte – grande a falta que o Dr. José de Almeida irá fazer
ao processo de Total Emancipação dos Açores. O seu carisma; as suas inatas
capacidades de liderança; o seu histórico percurso; a sua profunda cultura e
consistente preparação para o cargo; a sua grande capacidade de gerar
consensos; a sua enorme integridade pessoal, tal como a imensa coragem e
frontalidade com que sempre defendeu a “CAUSA”, muito dificilmente poderão ser
igualadas. Mas a sua OBRA ficou. O mais difícil está feito! Há que saber dar
continuidade, e, tal como rezam as escrituras, e foi lembrando em oração
fúnebre perante o seu féretro, “a semente só germina depois de morta e lançada
à terra”!
O sonho do Dr.
José de Almeida – “assistir em vida à INDEPENDÊNCIA DOS AÇORES” – não se
realizou! Mas nem todos os sonhos são para realizar. Muitos deles são só e
apenas para “comandar a vida”, com a aspiração de INDEPENDÊNCIA DOS AÇORES
comandando quase por completo a vida de José de Almeida. Convenhamos, perante tão
importante desiderato é quase sempre assim. Lembro, apenas por proximidade
arquipelágica, Amílcar Cabral: Ele também não assistiu ao “grande dia”, mas isso
não impediu de Cabo Verde ser hoje um país independente!
AO. 06/12/2014; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado)
sábado, novembro 22, 2014
1923/1975: os outros campeonatos dos primeiros 50 anos da AFPD.
A Associação de Futebol deu os
seus primeiros passos em 1923: era a “Associação” a dar os primeiros passos e a
I Republica os derradeiros.
Logo em 1923/24 (há coisas que
são como o célebre anúncio: “vêm de longe”), tendo como protagonistas os Drs.
Francisco Luís Tavares e Lúcio Agnelo Casimiro, começaram as demandas
sociopolíticas. Mas então, porque com o tempo iria endurecer, foi mesmo só isso:
luta política! Na altura estava muito acesa a querela entre os “velhos
republicanos” e os conservadores, muitos deles então ainda monárquicos, sendo que
foram os mais conservadores quem depois acabaria por condicionar quase tudo e
todos: também, logicamente, e quase por completo, os primeiros 50 anos de vida da
Associação de Futebol!
Ao longo da década de vinte – 1924
/ 1930 –, e sobretudo depois do 28 de Maio de 1926, novamente com o Dr. Lúcio
Agnelo Casimiro encabeçando a falange que já então ganhava cada vez maior
preponderância, este confronto político conheceu outro protagonista, o Dr. Jeremias
da Costa, que muito a custo conseguiu manter a então AFSM como baluarte de
democratas e “velhos republicanos”. Também por isso, em 1929/30, o Dr. Agnelo
Casimiro chegou mesmo a criar um organismo alternativo à Associação de
Futebol, com Ponta Delgada assistindo a dois campeonatos, que procuravam, cada
um deles, “abafar” o outro. Do lado da "Associação", e dos “velhos republicanos”,
ficaram o Club União Sportiva; o Sport Club Santa Clara – mantendo-se fiel ao posicionamento do
“Santa Clara Velho”; o Operário Sport Club (da Federação Operária de Ponta
Delgada); e o Micaelense Foot-ball Club. E do lado da Liga Desportiva Micaelense
– foi este o nome do organismo criado pelo Dr. Agnelo Casimiro – e daqueles que
a partir de 1931 iriam passar a controlar, quase completamente, os
acontecimentos por longos anos, ficaram o Clube União Micaelense e o Clube Desportivo Santa Clara, juntando-se a estes o
“Estrela” e o “Artista”, clubes da Ribeira Grande, antecessores do Ideal e do
Águia. Esta “revolta” terminou em Agosto de 1930, com a chegada a Ponta Delgada
de um Comunicado da Federação Poprtuguesa de Futebol, assinado pelo punho do histórico Ribeiro dos Reis, que
ameaçando de exclusão o CUM e o CDSC colocou um ponto final à estratégia da
LDM.
A “Revolução das Ilhas”, em 1931,
fracassando no seu objectivo de derrubar o Estado Novo, entre nós teve como
consequência a “decapitação” dos últimos “velhos republicanos” que estiveram na
liderança da Associação de Futebol, os, Dr. Castanheira Lobo e Tenente Luís Lacerda
Nunes.
A partir daí acabaram-se as “veleidades
democráticas”, e, sempre que estas se esboçavam, lá aparecia uma “mão firme”: com
o Sr. Horácio Teves sendo chamado a estas funções por várias vezes.
Tal como o regime, a vida da Associação
de Futebol entrou então numa fase de quase perfeita tranquilidade, só suspensa
pela interrupção da prática do futebol entre 1942 e 1945, o que aconteceu sobretudo
por falta de recintos desportivos, mas também porque a II Grande Guerra atingia
então o seu apogeu.
Com o recomeço do futebol federado em São Miguel uma nova
geração chegou à liderança da AFPD, foram os casos o Dr. Carlos Bettencourt,
embora por pouco tempo – custou-lhe ser apoiante do Movimento Unitário Democrático
e, por tal, viu dificultada a tarefa de conseguir reunir os apoios (CMPD e
JAPPD) para a obter o necessário recinto desportivo –, do Dr. Fernando Costa
Matos, do Arq. Francisco Quintanilha, entre outros. Mas será o Sr. António
Horácio Borges, com os quinze mandatos que entre os anos de 1955 e 1972
efectuou como Presidente – muitos deles consecutivamente –, quem, mais do que
fazer o “ressurgimento do futebol local” (foi este o que António Horácio Borges
atribuiu ao projecto que se propôs dinamizar e executar) acabou levando a cabo
uma verdadeira revolução no futebol de São Miguel.
Na transição da década de 60 para
a de 70, coincidindo com a “primavera marcelista” e com a aproximação da “nova
era” que já se prenunciava, Eduardo Pereira Duarte foi eleito presidente da
AFPD, deixando também ele bem visível a sua marca. Com Eduardo Pereira Duarte
foi a vez da “revolução” chegar à vida administrativa e financeira da Associação
de Futebol, sendo o seu desempenho muito bem acolhido pela imprensa da época,
que publicou e elogiou os relatórios de contas e actividade dos seus mandatos.
A inauguração do Aeroporto de
Ponta Delgada (na Nordela) e, em consequência disso, a decisão de se não
construir o Estádio Distrital na “Mata da Doca”, em Santa Clara, obrigou Eduardo
Pereira Duarte a procurar rapidamente outra solução, logo montando, dinamizando
e levando a cabo, a campanha de angariação de fundos que se tornou decisiva para
construção do Estádio na “Estrada da Ribeira Grande”, ainda hoje, o mais
importante palco de futebol em
São Miguel.
Já quando o calendário mostrava
1974, a greve dos árbitros, primeiro, e a chegada de Ted Smith, depois, (onde
isto nos levaria: Ted Smith foi anunciado como indo do "Estoril" para o Irão, mas,
como que conduzido pela “mão invisível do Tio Sam”, apareceu quase de surpresa em Ponta Delgada )… Escrevia
então que a greve dos árbitros e a chegada de Ted Smith a Ponta Delgada já anunciavam
claramente o que estava a chegar.
Pouco antes de Abril de 1974 João
Gago da Câmara chegou à presidência da AFPD, sendo ele o presidente em funções,
mas não em presença – fora detido em consequência do 6 de Junho de 1975 –
quando terminou a última época dos primeiros 50 anos de vida da Associação de Futebol.
Foi “tão quente aquele verão” que
a importante efeméride, o meio século de existência da AFPD, começada a preparar
por António Horácio Borges quase uma década antes com a disputa das taças
aniversário da AFPD, passou despercebida!
....
Tal como já aconteceu com o Sr. Rolando Viveiros, outros presidentes
merecem sair da penumbra em que os colocaram. Alguns foram mesmo ostracizados (como
foi os casos dos Drs. Francisco Luís Tavares, Duarte Castanheira Lobo e Tenente
Luís Lacerda Nunes), podia-se (devia-se), começar por estes. Fica a sugestão! AO. 22/11/2014; “Cá à minha moda" (revisto e muito, muito acrescentado)
sábado, novembro 08, 2014
Referendo sim, mas…
Quer o referendo realizado na Escócia, quer aquele que, na Catalunha, os
“espanhóis” tudo fazem para evitar que se cumpra, devem ser casos a acompanhar
com mais tempo e maior detalhe do que aqueles que a eles têm sido habitualmente
dedicados.
O caso escocês é exemplar. Não só porque nunca “uma derrota” foi tida por tão
vitoriosa, mas, e sobretudo, porque a mais velha democracia do mundo, afora as
suas deficiências, continua sendo exemplo de boas práticas democráticas, em
especial quando comparada com Espanha e Portugal, seus “velhos” e principais
competidores na demanda pelo mundo, quando se tratou de construir um Império. Diferente é o caso catalão: ou, aliás, o esforço que “Castela” está efectuado
para que o Referendo na Catalunha não se realize (passe o exagero, lembra o que
se passou, embora em sentido contrário, no Leste da Ucrânia: prepotência
imperial!). O desenrolar do processo dá bem nota de como continuam deixando
marca as ditaduras que, praticamente até ao último quartel do século XX, se
mantiveram a sudoeste dos Pirenéus. Um estigma tanto mais profundo quanto mais se
avança para ocidente na península. É que, apesar de tudo, os catalães – tal
como os bascos, galegos, canarinos e outros –, embora agora aparentemente impedidos
de se manifestarem em referendo secessionista, já há muito “ganharam” o direito
de democraticamente fazerem a defesa das suas aspirações independentistas.
Outra, para pior, é – e permanece, após já quase meio século de alguma democracia – a
sorte dos Povos Açoriano e Madeirense, a quem esta pretensão não só lhes está
vedada como é equiparada a fascismo!
Numa democracia civilizada e madura, tal como a inglesa, o Referendo é o
instrumento ideal para aferir a vontade emancipalista de um Povo. Mas, antes
deste, outros passos tiveram necessariamente de ser dados: a organização
política dos que defendam este desiderato é um deles (o que até na Espanha já é
permitido).
Não consentir a criação de partidos defensores da Independência dos Açores
(e da Madeira) é um dos sinais de como é curta, frágil e insegura a Democracia
Portuguesa. Será ainda culpa de Salazar?
AO. 08/11/2014; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado)














