terça-feira, junho 22, 2010

 

Saramago

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Polémico? Sim, claro. Como poderia deixar de ser polémico quem, pensando tão bem e profundamente quanto ele não se coíbe de com enorme frontalidade nos fazer chegar o resultado das suas reflexões, fazendo-o, quer em discurso directo quer de forma romanceada com uma clareza e simplicidades impressionantes?
Coerente? Também, e muito. Quase se pode dizer: a coerência de toda uma vida! Uma coerência e integridade que são tão mais consideráveis quanto menor é a representatividade, na sociedade onde ele se inseria e vivemos, do grupo daqueles que partilham as suas convicções.
Radical? Talvez. O próprio Saramago o admitia. Mas a intransigência, sobretudo quando – e se – lucidamente sustentada, ficava muito melhor a Saramago do que aqueles, como ao "L' Osservatore Romano" (só para citar um exemplo de topo), que aproveitam a hora da morte do adversário para radicalizarem os seus ataques ao falecido.
Genial? Sim. Com certeza. E é este o Saramago que me interessa, e aquele que cuja memória permanecerá!
Cheguei até Saramago já muito tarde. Não o ignorava, pois desde que em Portugal e por tabela aqui nos Açores a liberdade de imprensa começou a fazer o seu caminho, Saramago era nome não passava despercebido, pelo menos nalguma imprensa. Mas, se não o ignorava, de obras como: “Manual de Pintura e Caligrafia”, “ Levantado do Cão”, “Memorial do Convento”, “O Ano da Morte de Ricardo Reis”, “A Jangada de Pedra” e “História do Cerco de Lisboa”, pouco mais conhecia do que o título, e as opiniões, avulsas, que delas alguns amigos tinham, de modo especial os mais identificados com “a cartilha comunista”, “catecismo” que encontravam transcrito em muitas das páginas de alguns destes títulos.
Foi Sousa Lara o grande responsável pela minha aproximação à obra de Saramago. O radicalismo do então Subsecretário de Estado da Cultura de Cavaco Silva, o seu prepotente espírito censório e a sua consumada reprovação da candidatura do “Evangelho Segundo Jesus Cristo” a Prémio Literário Europeu em 1992 empurraram-me com força para a aquisição do livro em causa. Foi o primeiro de muitos (quase todos). Depois deste, lido e relido como literatura de viagem numa das vezes que fui a Israel (e o usei como guia para alguns dos percursos), havia que recuperar o tempo perdido, constatando que pelo menos “Memorial do Convento” e “O Ano da Morte de Ricardo Reis” deram real conta do quanto havia até então perdido. Como imperdível (para mim o melhor) é também “Ensaio Sobre a Cegueira”, o primeiro comprado em 1ª edição, quando fresca ainda estava a sua tinta, e se apresenta como um representativo exemplo da enorme capacidade analítica, criativa e descritiva de Saramago.
Já encerrando o livro, tropeçando nas vírgulas que substituem pontos e são marca da escrita de Saramago, o autor, encarnando o médico, e respondendo à pergunta:
- “Por que foi que cegamos”, oferece-nos esta preciosa pérola:
“(…) Não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão, Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegámos, penso que estamos cegos, Cegos que vêem, Cegos que, vendo, não vêem.
Tem razão, e não há mais nada a dizer! Como não deixa de ter alguma razão quem disse: “não há palavras. Saramago levou-as todas”. Não foi bem assim, mas foi quase!
A última grande ironia de José Saramago foi ser cremado e mesmo assim permanecer entre os que têm direito a vida eterna. O que não deixa de ser um justo merecimento!

A.O. 22/06/10; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado)

terça-feira, junho 08, 2010

 

6 de Junho; e já lá vão 35 anos

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Exigiu-se Independência para os Açores, conquistou-se a autonomia com que nos governamos. Contudo, atenção, muita atenção: ao contrário do que muitos pretendem fazer constar, não foi aquela a primeira vez que nestas ilhas os anseios de Autodeterminação e Independência eclodiram. Esta é outra verdade quase sempre, e propositadamente, ignorada!
De então para cá muito mudou. Em 1975 dizia-se que os Açores não tinham condições de ser independentes, que nem “fábrica para fazer cuecas” possuíam, dependendo, até nisso, de Portugal para sobreviver. Santa ingenuidade. Como se não fosse a soberania, este bem de valor incalculável, a grande panaceia, e solução para transpor ou até eliminar dificuldades; basta olhar para o que se passa em Cabo Verde.
Podemos também olhar para Portugal: hoje, e, sem mais nada fazer do que só deixar passar o tempo, verifica-se como na “pátria mãe”, não obstante o número de “fábricas para fazer cuecas” que tem, ou que já teve, são enormes (tão ou mais graves do que os que teriam uns Açores Independentes) os problemas que apresenta para manter a sua própria soberania, se é mesmo que ainda a detém – recordo uma das últimas visitas do Primeiro Ministro de Portugal a Bruxelas, e da sua radical mudança de política e de discurso, a partir daí: “o mundo mudou”, passou então a dizer! Uma “mãe pátria” que, tal como outrora aconteceu com o Brasil e muito mais tarde com Angola, usa e abusa dos Açores, uma das duas “jóias da Coroa” que lhe restam do vasto Império, como mais valia negocial junto da UE, e dos EUA.
De então para cá – dizia eu – muito mudou, mas nem tudo mudou para melhor: não faltam, agora, portos, aeroportos, estradas e outras construções. Escasseia, isso sim, gente, sobretudo gente com a mesma têmpera daqueles que da terra, especialmente colocando-a produzir, tal como aconteceu com a laranja, conquistaram a nata da Europa.
Queiram ou não, o 6 de Junho de 1975 está para a autonomia dos Açores – e da Madeira – como 25 de Abril de 1974 para a democracia em Portugal!
Se não, vejamos: já após a Revolução dos Cravos, em Portugal, como se ainda fosse “o tempo da outra senhora”, o MAI da altura, preparava uma nova divisão administrativa do território transformando os Açores numa província – porventura adjacente –, que com outras oito parcelas (Madeira e mais cinco províncias em “terra firme”) corporizariam o projecto de regionalização ao tempo em curso, dotado de autonomia político administrativa. Só após o “6 de Junho”, e – por mais que desagrade a alguns – em consequência directa deste, se pensou ir mais além no que aos Açores e à Madeira dizia respeito. Mas os efeitos imediatos do “6 de Junho” não se ficaram por aí. Só após o “6 de Junho”, ainda “na ressaca” dos acontecimentos em Ponta Delgada, e usando a estratégia "de amansar" que tanto efeito tem e ainda hoje é muito adoptada e resulta, o Conselho da Revolução determina como medidas a implementar nos Açores, entre outras: a atribuição imediata de 100.000c ao Plano Pecuário dos Açores; um significativo apoio ao sector das pescas e conservas de peixe; a urgente cobertura médica do arquipélago; e até, imagine-se, a instalação de um Secretariado Regional da Banca.
Hoje para continuar a dar sentido ao 6 de Junho, há que olhar em frente e ser cada vez mais exigente: não ter de pedir licença para ensinar ao Povo a que pertencemos a nossa própria História, nela incluindo todos os 6 de Junho que precederam o de 1975, entre outros, o de 1 Março de 1821, ou o de 2 de Março de 1895; revoltarmo-nos contra leis que nos conotam com o fascismo por defendermos a independência da nossa terra; indignarmo-nos por nos impedirem de organizar em partidos aqui originários, único modo democrático de lutar, sem subtilezas, pelos nossos próprios interesses. E também, que haja coragem: já tarda a institucionalização do 6 de Junho, dar nome a uma rua é manifestamente muito pouco!

A.O. 08/06/10; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado)

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