terça-feira, dezembro 28, 2004

 

Dor profunda

Morreu o Sr. JOÃO CARREIRO E SILVA, e com ele, mais um importante naco do “Santa Clara” que desde criança aprendi a gostar!
Mais do que sócio, o Sr. João Carreiro e Silva tinha uma forte ligação familiar à génese do CLUBE DESPORTIVO SANTA CLARA. De facto, quando hoje se refere um CDSC fundado em 1921 – com o 31 Janeiro a enfeitar o ramalhete –, tal como antes, também leviana e abusivamente se escreveu que o clube havia sido fundado em 1920, o mais que isso evoca é a recordação dos “Campeonatos de Santa Clara”, uma renhida competição entre as lojas do bairro, uma delas; a do Sr. “Antoninho Carreiro”, nem mais nem menos que António José Carreiro e Silva, tio daquele que foi o sócio nº1 do CDSC nas últimas duas décadas. Da conjugação dos atletas do “team do Sr. Antoninho Carreiro” com os do seu principal rival – o “team” do Sr. João Travassos – nasceu o primeiro “Santa Clara”; o SANTA CLARA FOOT-BALL CLUB, que segundo crónicas da época equipava de azul e foi “instruído por um sportman das primeiras categorias”; o Alferes José Joaquim de Souza. Isso – tão e só – no Outono de 1922!
Quando – e se – um dia for feita a verdadeira história do CDSC, quer na galeria dos presidentes nados e criados no bairro – foi talvez o primeiro –, quer junto dos muitos filhos de Agua Retorta que engrandeceram o clube, onde quer que seja, o Sr. João Carreiro e Silva tem nela assegurado destacado lugar. Um verdadeiro SENHOR!
Do próprio. In Açoriano Oriental/Cónicas do Aquém

quinta-feira, dezembro 23, 2004

 

Marracho por “peixe rosa” (parte I)



O Victor, e o "peixinho" que "pescou" com uma picareta naquele sábado de Santa Clara

Sábado de Santa Clara, numa das primeiras horas de sol daquela manhã de fim de Verão, tal como havia ficado combinado a meio da semana depois da reunião da JOC, primeiro um, e logo depois o duo restante, cedo ficou reunido o grupo dos três que se haviam comprometido a ir apanhar lapas, cujo proveito da venda, como petisco na barraca do adro da igreja, reverteria a favor das festas.
Quando o João e o Manuel chegaram “à beira da rocha”, já o Victor, o mais velho e experimentado dos três naquelas lides, tinha decidido que com aquele tempo o melhor seria “ir mergulhar” para trás da Fabrica do Lory.
Sem dúvida, embora mais para o Victor do que para os outros dois, o calhau de Santa Clara não tinha segredos de maior. Se era para “ir às lapas” para trás da Fábrica do Lory, pois então qual o problema? Nenhum! Para além, claro, de ter de caminhar um pouco mais. Ir até ao Farol, e daí, mesmo junto ao muro de vedação daquela instalação industrial, descer até à beira mar, e procurar o pesqueiro que garantisse, depois do “mergulho”, uma entrada tranquila.
Difícil mesmo era despir, aclimatar o corpo praticamente nu ao ar fresco da manhã, e entrar na água. Depois dos primeiros dois ou três mergulhos, e apanhada que estivesse a primeira dúzia de lapas, logo o corpo aqueceria, só voltando a arrefecer passados trinta ou quarenta minutos, talvez até mesmo uma hora. Tudo dependeria do ritmo da apanha!
Combinado também havia ficado que o Manuel não iria “mergulhar”. Só o Victor e o João iam à água. O Manuel daria apoio. Nunca é demais ter alguém por perto, principalmente quando o mar encapelava e rebentava sobre as rochas, como tinha acontecido nas últimas semanas, sem que já amainasse completamente.
Foi o João o primeiro a despachar-se. Como quase sempre, aliás. E, já se preparava para entrar na água, quando viu uma barbatana ali próximo.
- Olha um marracho! - Gritou com um misto de espanto e medo.
- Porra. Já não vou para a água!
- Marracho! Qual marracho? Deves estar atoleimado. Um marracho não vem tão aqui para dentro - respondeu o Victor aproximando-se da borda água, para logo também gritar:
- Êpá! É mesmo um marracho.
- Possa! Temos de apanhar aquilo!
- O quê? Tu és é tolo. Vou é já vestir-me! - Retorqui-lhe o João.

Era de facto “um marracho”, e eles apanharam-no. Com uma picareta. Por incrível que pareça!


terça-feira, dezembro 21, 2004

 

Competência. E a falta que fez!

Após ter passado uma série de anos a criticar e denunciar o sistemático, e confrangedor, “fechar de olhos” de quem competia fiscalizar os actos da Direcção, não podia deixar de elogiar o Presidente da AG, quando este, pela primeira vez nos últimos anos, termina com a irregularidade “mãe” de muitas outras.
Estou convicto que se assim acontecesse desde que foi insistentemente chamada a atenção para esta e outras questões, o CDSC não estaria na desagradável situação em que hoje se encontra!
O que não fiz, como – dito e escrito – já insinuaram, foi elogiar o colectivo dos O. S. do Clube. Nunca o poderia fazer, sobretudo no que respeita ao Presidente da Direcção e ao seu adjunto; quanto ao primeiro, porque apesar de ter já despertado – “tarde e a más horas” – para as companhias que escolheu, não esqueço que é o principal responsável pela grave situação em que o clube se encontra. Sobre o segundo – e esperando que, quanto ao Santa Clara, o futuro não me volte a dar razão –, não retiro, nem uma vírgula, do que sobre ele já disse e escrevi. Com isso não deixo de reconhecer que nos actuais O.S. do CDSC existe gente séria, e muito empenhada em dar a volta à situação. Os resultados já estão à vista. Deus lhes dê saúde. Pena ser tarde, talvez tarde de mais!
Claro que reparei que o Sr. Presidente da AG tornou extensivo ao colectivo o elogio pessoal que lhe fiz. Ficou-lhe bem.
A mim é que não ficava!
PS: Morreu o Sr. João Carreiro e Silva. Por ele, para a semana voltarei ao “Santa Clara”!
Do próprio. In Açoriano Oriental/Cónicas do Aquém

quarta-feira, dezembro 15, 2004

 

DURO, MAS SENTIDO; com o devido respeito.

Memória (linguagem pouco cuidada, desabafo de café)
Não deixa de ser curioso: enquanto o PS foi poder da República o governo açoriano aceitou tudo, de colónia para baixo, recusando a verdade, justiça, decência, designadamente sobre o acordo de utilização de uma base militar que também beneficia – do lado português -financeiramente meia dúzia de bandidos, financiadores de partidos e canalhas. E é agora que vem falar, em Dezembro de 2004? Vão para «a puta que os pariu», pois não sei o que é pior se um povo que aceita tudo, se esta gente tirana, hipócrita, cínica e mentirosa que vê na ignorância alheia espaço para justificar o exercício de cargos públicos.
( Escumalha, será que esta gente gosta de ser enganada por escumalha, aqui no sentido de escória ?)
(e lembro-me dos cobardes que aceitaram trair a sua terra para não ofender os colonizadores, cobardes todos de joelhos, de cócoras).
(li as actas verdadeiras de 2000-2001 e nunca tive tanto orgulho, pois houve alguém que disse que primeiro que as alianças da maçonaria, do PS, do PSD, dos negócios, da máfia, estava o povo açoriano)
António João Correia. in RESISTIR http://resistir.blogspot.com

terça-feira, dezembro 14, 2004

 

A cada um, sua cruz

Ainda estão por aí – até nas estradas – resquícios da anterior, e eis que nos achamos, de novo, em campanha eleitoral.
Sou daqueles que pensa que, se o PR errou, fê-lo apenas por não ter resolvido o assunto, convenientemente, há quatro meses; uma coisa é Santana substituir Durão na liderança do PSD – fora do partido ninguém mais tinha nada a ver com o assunto –, outra, bem diferente como se viu, foi promovê-lo a Primeiro-ministro. Aí, as mazelas foram muito para além do PSD!
A justificação que encontro para a forma “facilitada” como o Jorge Sampaio permitiu a chegada de PSL à chefia do governo, só pode ter a ver com o desejo do PR esperar tudo, menos uma ponta final de mandato como aquela que a “taluda europeia” de José Barroso lhe proporcionou; sorte grande para um, e, literalmente, uma desagradável terminação para o outro! É que não será fácil a Sampaio livrar-se da penumbra de maquiavelismo que paira sobre todo o processo, sobretudo tendo em conta a ferrugenta época pré-socrática!
Santana Lopes, por sua vez, não defraudou “sua galera”. Espectáculo não faltou. O facto foi que em cada cinco foguetes ao ar, quatro caíam-lhe em cima, com Paulo Portas a ser, entre ambos, quem ganhou com o prolongar do arraial. Podiam ter poupado Victor Cruz. Que mais não fosse, por ainda recentemente, também arrastado por Pedro & Paulo, já ter tido o seu: - “Amanhã é um novo dia”!
Do próprio. In Açoriano Oriental/Cónicas do Aquém

quinta-feira, dezembro 09, 2004

 

...E também isso

Um "Choque de gerações"*... e peras

Joel: bem vindos ao CDG, o programa dos pensadores, artistas e jovens intelectuais Açoreanos. Hoje vamos falar de Lech Walesa. Miguel, o que pensas sobre o Walesa???
Miguel: Personagem pioneira e marcante. É Polaco. Tem bigodes. Gosta de salsichas e passa muito tempo sem lavar os dentes.
Joel: E, Mário, do ponto de vista teorico-filosofico vanguardista, o que se pode dizer acerca de Walesa?
Mario: Acho que foi uma pessoa impoooooorrtanntissiiimmaaa. É um homem do dever. Renunciou o ser quando percebeu aos 14 anos que 14 horas e 2 da tarde não são tempos idênticos.
Joel: E, Barata, o que me dizes acerca do Lech?
Barata: Um sindicalista mafioso, que teve, indiscutivelmente, um papel crucial na dissolução das nomenclaturas tirânicas do comunismo. Vi-o uma vez em Barcelona a comer um hot dog com a sua namorada finlandesa. Tinha um casaco Burberry e, assim de repente, sem os bigodes, até parecia uma versão polaca do Paulo Portas (estou a brincar..riso contido)
Mário: Sim, porque o Walesa, aparece no momento fulcral da transição civilizacional ,cultural e pluridimensional da transição da eeesssqueeerda para a dirreeeeiita neo liberal insensível e indiferente. Li isto nos anúncios da danone. Chocou-me. Senti arrepios nos peitos dos pés. Miguel: Mas acho que não é disto que se deve falar. O Walesa trabalhou num think thank em Washington. Foi uma experiência marcante para ele. É urgente considerar esta dimensão da sua complexa personalidade política. Era responsável pelos peixes tropicais. Alimentava-os sempre a horas. Um funcionário exemplar.
Mª. Graça: Tenho uma amiga Holandesa que o entrevistou o Lech na prisão. Levou-lhe uns splifs para ver se ele se descontraia e falava da sua conturbada vida política. Ficou a conhece-lo muito bem.
TODOS: CONTA LÁ!!!!
Mª. Graça: É obvio que a minha amiga de Leiden, que é jornalista, só estava interessada na historia do Walesa. Mas o Walesa, que já não via mulheres há alguns anos, fazia referencias subliminais constantes ao Eros polaco e às teorias de Freud sobre os efeitos nefastos da acumulação de energias sexuais.Pediu à minha amiga que lhe enviasse um vídeo porno Brasileiro. Quando foi interrogado acerca das lutas históricas do Solidarinost Walesa respondeu: “A malta só queria chatear o Jaruselski, e sacar mais umas salsichas!”
TODOS: COMO??? Meu Deus, não pode ser. A política não pode ser reduzida a algo tão leviano, tão mundano.
Lech Walesa (em videophone de Varsóvia) :Pois, sim, mas, já provou umas salsichas Polacas?? Gostaria de vos enviar algumas!!!!
Todos: uuhhhhhh Como?
Luciano Barcelos: OLÁ RAPAZIADA!!!
Joel: Mas, ó Luciano, tu não fazes parte deste programa!!!!
Luciano Barcelos: Mas eu quero! Quero muito! Se não conseguir escrevo uma carta de protesto para o Ministro da Republica. Fiu correspondente em Ho Chi Min city e tenho muitas coisas interessantes para vos contar.
Joel: Mas o CDG é uma produção independente!
Aaaiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii
Mª. Graça: QUE HORROR O JUIZ CAIU DO TERCEIRO ANDAR!!!!!!
Joel: Não te preocupes, ele não quer ser incomodado.
Miguel: Estudos estatísticos revelam que as profissões com maior incidência de insanidade mental são os Psicólogos, os Juizes, os dentistas, os contabilistas e os enfermeiros......
Mário: Uuufa uufa
Barata: PORRA! Será que alguém me ajuda a levantar o Juiz???
Durão Barroso: Meus caros/as, por favor respondam ao vosso confrere Europeu que está na linha!!!!
Mário: Sim, envie lá as salsichas. Vamos fazer um barbeque e o Sr Walesa está convidado. Nada de camisas com flores. Só Armani e Dominguez, por favor!
Lech Walesa: Obrigado, mas não posso ir. Sofro de hemorróidas.
Durão Barroso: Temos muitos bons médicos em Portugal
Lech Walesa: Mas o Papa é Polaco!D Barroso: Sim, um verdadeiro Europeu
Lech Walesa: Barroso, tens um nariz enorme e tens que cortar o cabelo. Usas L´Oreal=???
Joel: Mas o que é que se está a passar?? O nosso programa está ser sequestrado pela globalização.
Durão Barroso: Como ?? Como???
Lech Walesa: Ó Barroso, nem tocas nas nossas salsichas até recebermos os nossos fundos estruturais.
Durão Barroso: Aprovamos ontem um subsidio para os bigodes Europeus de qualidade.
Miguel: Foi um processo complexo, mas a lógica da negociata finalmente sobrepôs-se a lógica da negociata. É assim que se constrói a personalidade estratégica Europeia.
Mário: Não concordo! A personalidade já existe. Está aqui, lá, por detrás destas palavras inúteis, está no implícito, no tácito, ali, por aqui, debaixo, invisível, é como o super homem, está por todo o lado, connosco e convosco..isto choca-me
Miguel: uuhhh????
Joel: Onde???
Mário: Isto irrita-me. Magoa-me, o neo-liberalismo selvagem, o semáforo da minha rua, a minha vizinha Gertrudes, a quinta das celebridades...afinal, a nossa identidade comum existe aqui, ali, e por todo o lado...está omnipresente!
Mª. Graça: Estes filósofos são todos troblidoooss!!!!!
Lech Walesa no ódio de estimação (via videophone): RUSSOS!! RUSSOS!!!!
Miguel: Compreensível, os Russos roubaram toda a vodka polaca nos anos 40 e 50.
Joel: Mas, Miguel, achas que esta é uma razão suficientemente forte para justificar este ódio??
Miguel: Alem disso, os Russos roubaram o stock de palitos dos Polacos.
Joel: Agora tudo faz sentido.
Lech Walesa: E AS SALSICHAS?????!!!!
Durão Barroso: Olhe, envie algumas aqui para a comissão. O Italiano adora salsichas e sempre podemos mandar algumas para o parlamento.
Lech Walesa: Ah. Durão logo vi que usavas L´Oreal. Sabes, gosto muito de ti, especialmente quando falas Francês!!!
Durão Barroso: Sim, obrigado, sou irresistível!
Lech Walesa: E os nossos fundinhos????
...
No fim de tudo isso, depois de cinco "encores", alguém, na primeira fila, "partido de rir", grita:
Ei ZeKe, tu és o melhor meu, tu é que devias ir ao CDG.
Vou lançar uma campanha Ezequiel ao CDG já!!!
.
.
Ezequiel. In http://fogotabrase.blogspot.com/. Comentários do post de "Mais um Choque" de 07/12/2004
* Choque de Gerações : RTP/Açores, Terças Feiras. Com repetição no dia seguinte!


 

Gostaria de ter escrito isso ...

Natal Tribal

Se não fosse a compensação dos feriados da época também me libertarem de outras obrigações penosas, detestava o Natal! Em absoluto. Quer pelo seu espírito, quer pelo que realmente é. Postais de Natal. Prendas de Natal. Almoços e jantares de Natal. Visitas de Natal. Um nunca mais acabar de obrigações que, como dizia, só são algo suportáveis pelo facto de existirem outras que desaparecem. E as coisas tendem a piorar. De ano para ano. Se pensar nos postais, há uns anos safava-me apenas com meia dúzia deles. O mesmo com as prendas e almoços e jantares, que também aumentaram exponencialmente. Só as visitas é que se mantêm, talvez por serem menos contamináveis pelo vírus do consumismo. Quando damos por nós, estamos outra vez perdidos entre luzes e cânticos. De Natal. Num rodopio de compras e comidas. De Natal. Debitando palavras e votos de felicidade. De Natal. Sempre, ou quase sempre, em circuito fechado. Apenas ao nosso nível. Entre as nossas relações pessoais ou profissionais. Não contribuindo nada, ou quase nada, para melhorar nada. Só colocando entre parênteses, por umas horas ou por uns dias, aquilo que se retomará logo de seguida. Exactamente como antes. Continuando a dar o nosso contributo para o curso inexorável deste mundo de contrastes, cada vez maiores fossos, entre afortunados e deserdados. Como insistem em mostrar-nos as estatísticas. Por nossa culpa. Por nossa infinita culpa. Por continuarmos a assobiar para o ar, sossegando a consciência com estas horas ou estes dias do ano de espírito de Natal. Tribal.
Francisco Botelho. In "http://entramula.blogspot.com"


terça-feira, dezembro 07, 2004

 

Constância

Noutro tempo, em outras circunstâncias, seria com um “apito negro” – cor do basalto – que enchia, hoje, esta coluna. Não quero! Vou continuar resistindo, calado. Mesmo que, para assim proceder, tenha que ocupar o espírito doutra forma, regra geral bem mais sadia. Por exemplo: lendo quase de uma só tirada as “Farpas” do Eça de Queirós que Maria Filomena Mónica recentemente nos proporcionou, e cujo parcial proveito, aproveito, para “ainda em quente”, convosco partilhar.

“Portugal, não tendo princípios, ou não tendo fé nos seus princípios, não pode propriamente ter costumes. Com uma política de acaso, com uma literatura de retórica e de cópia, com uma legislação desorganizada, não se pode deixar de ter uma moralidade decadente.
Fomos outrora o povo do caldo da portaria, das procissões, da navalha e da taberna. Compreendeu-se que esta situação era um aviltamento da dignidade humana: fizemos muitas revoluções para sair dela. Ficámos exactamente em condições idênticas. O caldo da portaria não acabou. Não é como outrora uma multidão pitoresca de mendigos, beatos, ciganos ladrões, caceteiros, carrascos, que o vai buscar alegremente, ao meio-dia, cantando o Bendito; é uma classe inteira que vive dele, de chapéu alto e paletó.
Este caldo é o Estado. (…)”


Eça mantém-se actual. Há de facto coisas que não se alteram. Para melhor; claro!
Mais palavras para quê? Talvez apitos. Negros!
Do próprio. In Açoriano Oriental/Cónicas do Aquém

segunda-feira, dezembro 06, 2004

 

Com a devida vénia

Excertos de entrevista a Antero de Quental

O que é feito de si?
Bem, apenas digo que não é verdade que tenha comprado um andar no Cacém, máquina de bronzear, Fiat Uno e que ande a ler livros do Lobo Antunes. De relevante apenas o facto de ter pedido desculpas ao tolo do António Castilho (dizem-me que agora é fiscal do tribunal de contas). O resto é a vida.
Segue o movimento literário em Portugal?
Sim o Cesariny e o Luiz Pacheco mandam-me recortes dos jornais. O Eusébio, que era do Benfica, também me manda cópias das novidades poéticas.
Mas continua em actividade?
Sim, mas em territórios modernos. Seguindo exemplos de sucesso,
penso até gerir uma associação de utilidade pública, género clube de futebol ou uma empresa de construção civil que trabalhe em exclusividade para entidades públicas.
Disse futebol?
Claro. O governo dá-me uns milhões do orçamento (nunca fiscalizado) e eu gasto com casas de alterne, algumas drogas, políticos, despesas de campanhas eleitorais, alimento a pior escumalha que existe na ilha, vou nas procissões católicas, apareço na televisão(também são pagos pela manjedoura), arranjo emprego para as amantes, para os amantes dos amigos, aldrabões, deputados, cornos, chulos, homens de bem, padres, médicos, advogados, engenheiros, arquitectos, empresários, pedintes, funcionários públicos, caixeiros, eu sei lá, sou um gestor moderno, um cavaleiro andante, meto-me nesta trampa toda e tenho resultados, aquilo que se chama sucesso. Talvez regional, mas êxito. Até fui condecorado e tratam-me por excelência.
Não percebo...
Oiça, tentei aquilo que se sabe. Não resultou. Ninguém lê poesia, tenho uma sepultura em cima de um centro comercial (nem o cemitério pouparam), o povo e os políticos brutos e rascas..., eu estava deprimido e pensei: se estes gajos conseguem isto, então eu também sei fazer igual. O próximo passo é a hotelaria com fundos públicos e talvez o negócio dos casinos. Aliás, tenho sociedade com o Camilo Pessanha, António Nobre e o Mário de Sá Carneiro (o Junqueiro disse que sim mas está um pouco doente).
E o que vão fazer?
Olhe, vamos abandonar esta treta da poesia.... de uma vez por todas, e tratar da vida. Da vida ! Falámos bem do governo, os gajos dão dinheiro. Estamos em silêncio, os gajos dão dinheiro. Pagamos algumas coisas, mais dinheiro. Nem temos que passar recibo, ninguém fiscaliza. Eles dão e nós damos uma percentagem para as campanhas: é futebol, turismo, construção civil, consultadorias, publicidade, o raio que os parta. Até pagamos a jornalistas, artistas, homens da cultura, gente de opinião. Uma verdadeira democracia....Não, não é ironia, é apenas aquilo em que a minha terra se tornou.
E a poesia ?
Não sei. Juro que não sei.
António João Correia. in RESISTIR http://resistir.blogspot.com


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