terça-feira, maio 25, 2010

 

Falhar na segunda, fugir à terceira



Há momentos que podem marcar toda uma vida, ou carreira. São por regra ocasiões em que alguém, ora por não saber avaliar a hora certa para sair em grande (perceber quando não tem capacidade de acrescentar mais ao desígnio / quando já não é factor de progresso, ou de diferença em relação ao passado), ou, no outro extremo, quando interrompe abruptamente um projecto, abandonando-o antes do tempo, fugindo assim à pressão e à responsabilidade do cumprimento de objectivos contratados, como, ao que parece, está a acontecer com o ainda treinador do CDSC, Prof. Vítor Pereira.
É pena que assim seja.
Pena porque macula sobremaneira o trabalho positivo por ele desenvolvido nas duas épocas que passou no CDSC. Pena porque representa “um passo atrás” no trajecto de pessoas e instituições que se empenham estoicamente por uma “nova ordem” para o futebol. Pena porque retira credibilidade ao que foi pelo próprio Vítor Pereira, dito e repetido várias vezes no final da época 2008/09, quando os métodos da “velha ordem” vingaram perante os que dizia defender, tendo na altura feito a apologia da força do trabalho em detrimento das “outras forças”.
Até pessoalmente sinto pena: pena por mim, que acreditei no projecto; pena pelo CDSC, que dado o esforço feito merecia ver concluído o propósito, e com sucesso; mas também pena por Vítor Pereira, que independentemente do que possa vir a acontecer, e dos sucessos que ainda venha a obter, foi claramente o grande – para não dizer único – responsável pelo não cumprimento dos objectivos definidos, e quem, esgueirando-se sorrateiramente a meio do processo, não só inviabiliza uma forte possibilidade de cumprir completamente os desafios com que se comprometeu (apresentando-se depois como um verdadeiro vencedor), como, ainda, ao fugir – mesmo que para a frente –, não deixa de “dar parte de fraco”, saindo como um vencido.
O Vítor Pereira da primeira época (2008/09) encantou. Com as enormes restrições orçamentais do CDSC soube construir uma equipa jovem, ambiciosa, que praticou bom futebol, patenteando exibições em casa – em especial na primeira volta – que agradaram e cativaram os adeptos e simpatizantes. Apenas houve um “se não”: foi muito além das expectativas, handicap que com o decorrer do tempo se haveria de revelar complicado de ultrapassar!
O Vítor Pereira da segunda época (2009/10) falhou. Por pouco, mas falhou: as exibições em casa não conseguiram o brilho das da época anterior, faltando fulgor, capacidade de risco e um bom "plano B" - sobretudo para as equipas que nos estudaram e por isso não as conseguimos surpreender -, sobejando desperdício (defensivo e ofensivo) e passividade; a estabilidade emocional do grupo não evoluiu, repetindo-se, nos momentos chave, a “tremideira” que já se verificara – embora mais compreensivelmente – na época anterior; faltaram três ou quatro pontos, escassos quando comparados com os excessivos dezasseis perdidos em casa, porém os determinantes.
O Vítor Pereira da terceira época (2010/11), ao que parece, “vai fugir”. E é pena!
Só espero que não se repita um “Manuel Fernandes II” (o Santa Clara ser o veiculo promovedor, ficando o promovido com fartas vantagens e o promotor com consideráveis prejuízos), já que, pelo que se vai lendo, de um “Paulo Sérgio II” (terminar a época com a cabeça noutro clube, lesando significativamente o clube a que ainda está vinculado, no mínimo, negligenciando a programação e planeamento da época que se aproxima) já ninguém nos livra.

ps – Escrito na manhã de sexta-feira, 21 de Maio de 2010 (assim me pediram no AO por a segunda-feira limite ser "o feriado da pombinha"), quando tudo ainda pode acontecer, ou não estivéssemos no universo que originou a já popular sentença, um dia ditada por Pimenta Machado: “no futebol o que hoje é verdade, amanhã pode ser mentira!”.
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A.O. 25/05/10; “Cá à minha moda" (ligeiramente acrescentado)

terça-feira, maio 11, 2010

 

Mário Soares, Cabo Verde e Açores

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São célebres a “gaffes” de Mário Soares, tal como foi também célebre o seu observar visionário, e a sua capacidade de antecipar acontecimentos, embora muitas das soluções encontradas não fossem as mais adequadas. “Gaffes” e originalidades à parte, Mário Soares continua polémico, como aconteceu recentemente no colóquio “Vozes da Revolução: Guerra Colonial e Descolonização”, no ISCTE, com a descabida e tardia revelação: "Eu sempre achei que Cabo Verde não deveria ter sido independente, não assisti à independência de Cabo Verde por isso mesmo".
Não posso concordar com Mário Soares. Nisto, como noutras coisas, estamos nos antípodas. Cabo Verde, felizmente, é já independente. Tal como o deveriam ser, também: os Açores, a Madeira e as Canárias. E determinante aqui não é o facto de Cabo Verde ser ou não África, que a ter em conta aquilo que Mário Soares diz que pensava, o não seria propriamente. Determinante sim é, para os arquipélagos do Atlântico Norte, que o incalculável valor da sua soberania é aquilo que mais pode contribuir para os desenvolver, fazer progredir, e, consequentemente, garantir melhores condições de vida aos habitantes de nações tão singulares, e valiosas, como os quatro arquipélagos macaronésicos.
É indiscutível que “o factor autonomia”, de 1975 para cá, trouxe aos Açores – e à Madeira – um indubitável desenvolvimento. Mas, mesmo sem recorrer a sofisticados estudos comparativos, só por má fé se não admite que Cabo Verde, neste mesmo período, em termos relativos – as potencialidades dos Açores e de Cabo Verde são incomparavelmente diferentes, tal como diferente, também para pior, era em 1975 o ponto de partida de Cabo Verde em relação aos Açores –, progrediu mais que os Açores.
Cabo Verde tem percorrido um invejável percurso, com os cabo-verdianos mostrando-se orgulhosos por viverem num país independente; um dos mais jovens do mundo, e o único dos PALOP, africano, em que a vida das populações melhorou após a independência. Não seria necessário muito mais para demonstrar as vantagens “do factor independência”. Mas há mais, bastante mais. Cabo Verde, apesar da mísera herança dos cinco séculos de dominação portuguesa (falta de luz eléctrica, de esgotos, de estradas e de escolas, com as poucas existentes apresentando um elevado défice de condições e professores), e não obstante a sua condição de deserdado pela mãe natureza (com falta de água potável, escassez de terra arável, com tudo isso causando uma enorme dependência de bens alimentares), é hoje, e cada vez mais, um país promissor, que ao invés da maioria dos seus congéneres africanos, tem revelando uma gestão eficiente e reprodutiva dos apoios internacionais que recebe, fazendo disso a chave do seu sucesso, um êxito que persevera. Vejamos: Ainda recentemente o Índice da Liberdade de Imprensa (RSF) colocou Cabo Verde entre os 50 países do Mundo com maior liberdade de imprensa (44º lugar), isso, enquanto Portugal, no mesmo período, descia do 16º para o 30º lugar. Significativo. E este é só mais um exemplo!
Por cá, Açores, onde para alguns as semelhanças com Cabo Verde ficam só pelo facto de também sermos um arquipélago desabitado quando os portugueses aqui chegaram – para outros, nem isso! –, só por estarmos mais a Norte, e porque a nossa mestiçagem é claramente mais europeia do que africana, fomos vítimas daqueles que em 1975 transpuseram o “Muro de Berlim” para o Atlântico.
Mas, acredito, melhores dias advirão!


A.O. 11/05/10; “Cá à minha moda"

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