domingo, fevereiro 16, 2014

 

Era uma vez o “solitário ermo”, ou Estórias do lugar da ponta delgada (1.1)


Serafim… – gritou exausta Maria de Fátima!
O pujante brado, misto de gemido de dor e clamor de alívio, foi o ponto final de um longo e difícil parto: o primeiro a acontecer no lugar da ponta delgada.
Serafim…Serafim… Serafim… voltava a ouvir-se, agora de forma repetida e arrastada. Era como se as paredes do algar que servia refúgio ao jovem casal, morada adoptada desde que chegaram aquelas paragens, propagando a exclamação da aliviada mãe, também dessem as boas vindas ao novo habitante do lugar.
Dissipado o eco fez-se um momento de silêncio, permitindo voltar a ouvir o habitual som do mar, em especial quando percorria, umas vezes calma outras furiosamente, aquela longa restinga até bater nos contrafortes da rocha onde, quatro ou cinco metros acima, a natureza vulcânica da ilha esculpira a gruta que abrigara Serafim e Maria de Fátima, acolhendo a partir de agora também o filho do casal.
Aproveitando a quietude da ocasião, não mais que um ápice embora não o parecendo, o jovem pai, também extenuado, fechou os olhos e iniciou uma oração, logo interrompida pelo primeiro choro do recém-nascido. Suspendendo a reza, ao reabrir os olhos Serafim pôde pela primeira vez contemplar o filho de corpo inteiro. Ali estava ele, aconchegado ao peito da mãe, ainda com os olhos fechados mas com a boca muito aberta, entretanto já liberto da maioria dos vestígios de tão rudimentar quão eremítico parto, atraindo o olhar embevecido de ambos os progenitores. Aquele fora o motivo da sua tão radical mudança de vida, autêntica aventura, fruto de uma decisão tomada sem grande ponderação, porém nada que, quatro meses passados, levasse ao arrependimento o casal fugitivo. Aquela era a razão de terem abandonado tudo e todos, deixado o razoável conforto da família, amigos e conhecidos; a causa da sua saída do já então promissor povoado onde cresceram e conceberam aquele filho. Ali estava a razão de se terem refugiado naquele ermo; da já visível transformação de um lugar que pelo seu esforço e determinação, em menos de meio ano, se tornara habitável: até aqui só para ambos, agora também para o seu filho, no futuro para os demais vindouros.

A.O. 151/02/2014; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado, incluindo o título)  

domingo, fevereiro 02, 2014

 

Sina nossa

                                                  Foto editada (recortada) a partir de um original do João Luís Raposo
Um amigo – que estimo, embora por o contraditar amiúde me chame “inimigo de estimação” – diz com frequência (neste caso com razão) que o nosso mal, dos açorianos, é deixar-mo-nos encantar pelo “falar à moda de Lisboa”. Diz tal para enfatizar as vezes que a mesma coisa, dita/feita por um de nós, açorianos, ou por “um de fora”, português por exemplo, é desdita no primeiro caso e quase sempre aceite com reverência no segundo. Mas di-lo também para acentuar um dos nossos, dos açorianos, mais comuns defeitos: a rivalidade – muito explorada e até estimulada por aqueles a quem interessa a nossa desunião – até entre os da mesma ilha, o que em regra nos leva a verrumar uns com os outros com tricas desnecessárias, por vezes imbecis, aparentando um sentimento tipo inveja, do género: “não poder ver uma camisa lavada ao vizinho”. Uma rivalidade invejosa que só nos conduz à submissão!
O bordão por ele usado para evidenciar esta espécie de situações tem sido: “ (…) pois então chamem um cozinheiro português!”. É um estribilho com origem numa “estória” contada por um amigo comum, a partir de um caso verídico, mais ou menos recente, ocorrido numa colectividade de raiz açoriana de uma das nossas maiores e mais importantes comunidades de emigrantes, cujo restaurante funcionou sempre menos bem – causando inclusive quezílias entre “os nossos” – até passar a ser explorado por um cozinheiro não açoriano, que de uma só cajadada “matou dois coelhos”: o restaurante já funciona bem; as zangas tiveram fim!
Lembrei-me deste caso no decorrer do último jogo no Estádio, onde um “ajudante de cozinha” só tinha olhos para repreender o treinador do “Santa Clara” quando do outro lado irregularidades do mesmo tipo (mas ainda mais exageradas) eram ignoradas. Resta dizer que se tratava do primeiro árbitro internacional açoriano, por sinal (quiçá tributo, bajulação. Coincidência?) o mesmo que na jornada anterior “inventou” uma escandalosa penalidade que, causando estranheza até aos adversários, custou caríssimo ao “Santa Clara”.

É a nossa sina. Por estas e outras: pois então chamem um cozinheiro português!

A.O. 01/02/2014; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado) 

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