sábado, março 29, 2014

 

Sair “de gatas”


Já farta a troca de galhardetes que por ai anda: “saída limpa” vs “saída cautelar”. Este tema cansa, aborrece, satura, além do mais porque todos já percebemos que a haver uma qualquer saída, seja ela qual for – e quando for –, tenderá sempre ser uma “saída rasteira”, “de gatas”, se não “de rastos”!
Eles – não nós, Eles – gastaram “à farta”: betonando auto-estradas a eito (actualmente “às moscas”); construindo estádios a esmo (alguns agora com pouco ou nenhum uso e já em degradação, por falta de manutenção); criando bancos para se servirem, a si e aos seus cúmplices e amigos (negociatas onde Eles ontem ganharam para hoje pagarmos nós), enfim, distribuindo entre si um manancial de fundos europeus, dinheiro que agora nos obrigam – a nós, não a Eles – a pagar. Eles gastaram “à bruta”, mas dizem que fomos nós “quem viveu acima das nossas posses”. Dizem isso, pregando e impondo austeridade, uma “austeridade redentora”, que nos redimirá, dizem Eles, pois Eles, ao que parece, não carecem de redenção!
É sempre assim com gente que nunca se engana. Gente que raramente têm dúvidas! Não se enganaram antes (presunção e água benta…) e cegamente continuam sem ter dúvidas. Não duvidam que “a salvação” está na austeridade, no empobrecimento, nos salários baixos (já a menos de 50% da média europeia)! Outros foram (e vão) avisando que sendo a austeridade necessária, esta austeridade massiva, radical, excessiva, não trará solução. Mas Eles dizem que não! Que querem mais. Insistem! E fazem-no não obstante os recentes dados do INE confirmarem como estão errados. Indicadores da pobreza e das desigualdades sociais que reabilitam cenários do “Salazarismo”, arquétipos que até a Marcelo Caetano – bem mais sensível a estas desigualdades do que as marionetas que a mando dos gurus do “Capitalismo Cientifico” actualmente governam Portugal – incomodou, levando-o a iniciar a sua correcção.
O drama é que, queiramos ou não – sou dos que não quer – dependemos deste país mal governado, vergado, esmagado, um esmagamento que o leva a esmagar-nos mais ainda, não fossemos nós, Açores e Madeira, as suas últimas colónias!
Temos de sair desta subjugação: quanto mais cedo melhor. Limpinho.

A.O. 29/03/2014; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado, incluindo o título) 
http://www.acorianooriental.pt/artigo/sair-de-gatas

sábado, março 15, 2014

 

O Novo Império mete água




Parece que há um Portugal novo, à laia do Portugal do Estado Novo.
Não, não é só o facto de após tantos anos Portugal se voltar a organizar enriçado num presidente, numa maioria e num governo, todos afinados pelo mesmo diapasão, germânico, quiçá mesmo ariano, que em união nacional lá vai cantando e rindo, levando-nos, levando-nos sim, de encontro à engrenagem do trapiche que nos irá espremer até sacar a última gota, de tudo, até do suco vital. Mais do que este emaranhado de interesses pouco recomendável (o “velho desígnio” sempre inspirou pouca confiança, confirmando-se agora a sua perigosidade, agravada por os protagonistas estarem a léguas da integridade política e consistência democrática do seu criador: Sá Carneiro), mais até do que o consequente autoritarismo, insensível, que lhe está associado, este Portugal novo, tal como o do Estado Novo, começa também a tornar evidentes os seus tiques despóticos, centralistas, neocolonialistas e até saudosistas da “grandeza imperial” a que muitos parecem ainda atados.
A recente apresentação do “novo mapa de Portugal”, do “Portugal do Mar”, com a pirosa mise en scène que o envolveu, foi disso exemplo eloquente. Como que se já não bastasse a falácia geofísica da dita “extensão da plataforma continental”, toda aquela cena nos remeteu para o Portugal salazarista, o tal Portugal “do Minho a Timor”, com Províncias Ultramarinas e Ilhas Adjacentes, sujeito a um regime que logo na escola primária iniciava a sua doutrinação imperial/colonialista, para tal ostentando mapas cujo objectivo mais não era do que impingir as “grandezas” de um país decadente, “orgulhosamente só”, supostamente disposto a deixar-se levar por tretas como: “soldados e marinheiros vitoriosos ou mortos”, tal como aconteceu no caso da Índia, ou: “rapidamente e em força”, logo depois, tratando-se de Angola.
Propaganda e manias de grandeza que parecem jamais ter fim, agora já que não em terra firme, no mar, Atlântico Norte adentro, com uma suposta plataforma continental, elástica, ajeitando-se para “cercar”, mais ainda, os Açores e a Madeira.
A estes senhores já só lhes falta também dizer, assumidamente: “Temos uma doutrina e somos uma força”!
A.O. 15/03/2014; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado, incluindo o título) 

quarta-feira, março 12, 2014

 

Os primeiros a chegar, para ficar, ao lugar da ponta delgada

 


Serafim… –  gritou exausta Maria de Fátima!
O pujante brado, misto de gemido de dor e clamor de alívio, foi o ponto final de um longo e difícil parto: o primeiro a acontecer no lugar da ponta delgada.
Serafim…Serafim… Serafim… voltava a ouvir-se, agora de forma repetida e arrastada. Era como se as paredes do algar que servia refúgio ao jovem casal, morada adoptada desde que chegaram aquelas paragens, propagando a exclamação da aliviada mãe, também dessem as boas vindas ao novo habitante do lugar.
Dissipado o eco fez-se um momento de silêncio, permitindo voltar a ouvir o habitual som do mar, em especial quando percorria, umas vezes calma outras furiosamente, aquela longa restinga até bater nos contrafortes da rocha onde quatro ou cinco metros acima a natureza vulcânica da ilha esculpira a gruta que abrigara Serafim e Maria de Fátima, acolhendo a partir de agora também o filho do casal.
Aproveitando a quietude da ocasião, não mais que um ápice embora não o parecendo, o jovem pai, também extenuado, fechou os olhos e iniciou uma oração, logo interrompida pelo primeiro choro do recém-nascido. Suspendendo a reza, ao reabrir os olhos Serafim pôde pela primeira vez contemplar o filho de corpo inteiro. Ali estava ele, aconchegado ao peito da mãe, ainda com os olhos fechados mas com a boca muito aberta, entretanto já liberto da maioria dos vestígios de tão rudimentar quão eremítico parto, atraindo o olhar embevecido de ambos os progenitores. Aquele fora o motivo da sua tão radical mudança de vida, autêntica aventura, fruto de uma decisão tomada sem grande ponderação, porém nada que, quatro meses passados, levasse ao arrependimento o casal fugitivo. Aquela era a razão de terem abandonado tudo e todos, deixado o razoável conforto da família, amigos e conhecidos: a causa da sua saída do já então promissor povoado, onde cresceram e conceberam aquele filho. Ali estava a razão de se terem refugiado naquele ermo; da visível transformação de um lugar que pelo seu esforço e determinação em menos de meio ano se tornara habitável, até aqui só para ambos, agora também para o seu filho, no futuro para os demais vindouros. 

Com o primeiro natal do “solitário ermo” coincidindo com o equinócio da Primavera, aquele dia ficaria marcado nas suas vidas, literalmente com sangue, suor e lágrimas. Entretanto a noite chegava, também ela singular: a primeira desde que Serafim e Maria de Fátima se haviam fixado no lugar da ponta delgada em que já não contavam apenas um com o outro.
As noites daquele Inverno, além de frias e quase sempre adereçadas com o assustador barulho das vagas de sudoeste, tinham sido longas. Compridas porque se seguiam a um dia curto para o muito a fazer, infindáveis pelo desconforto de dormir no rude estrado que lhes servia de leito, mal abrigados, ali paredes-meias com a entrada do desafogado algar onde se refugiaram. Fora a extensão destas noites de inverno o que lhes permitia pensar muito naquilo que havia para fazer nos dias vindouros, nisso incluindo o estabelecer dos nomes a dar ao filho ou filha que estava para chegar. A escolha dos nomes, pelo menos dos dois primeiros dos vários filhos que desejavam ter, tinha sido o tema mais presente no pouco tempo livre até ali existente, por regra o início da noite. A bem da verdade, estes há muito estavam escolhidos, com as conversas tidas só consolidando as opções já feitas. De facto os jovens amantes, ainda no povoado de origem, olhando o mar ou o ilhéu que do oceano se erguia à sua frente, um cenário que os inspirou e incentivou para a fuga que mais tarde ocorreria, logo que confirmada a gravidez de Maria de Fátima iniciaram a escolha dos nomes a dar aos seus descendentes. Fátima e Serafim facilmente ganharam consenso: Serafim por já ser o nome do pai, tal como do avô e de todos os primogénitos daquele ramo familiar, o clã galego dos Serafíns que agora nos Açores davam continuidade à longa experiência marítimo/piscatória acumulada ao abrigo da costa Oeste do Cabo Finisterra; Fátima por ser um dos nomes da mãe, Maria de Fátima, reabilitando o singelo nome da bisavó, Fatimah, a “moura encantada” que tantos corações tinha despedaçado logo que se tornara mulher, já nos Açores, onde aportara inserida na família que a adoptara em Portugal, ainda menina, recém chegada de Ceuta.

sábado, março 01, 2014

 

Era uma vez o “solitário ermo” (II - estirpe), ou Estórias do lugar da ponta delgada (1.2)


Com o primeiro natal do “solitário ermo” coincidindo com o equinócio da Primavera aquele dia ficaria marcado nas suas vidas, literalmente com sangue, suor e lágrimas. Entretanto a noite chegava, também ela singular: a primeira desde que Serafim e Maria de Fátima se haviam fixado no lugar da ponta delgada em que já não contavam apenas um com o outro.
As noites daquele Inverno, além de frias e quase sempre adereçadas com o assustador barulho das vagas de sudoeste, tinham sido longas. Compridas porque se seguiam a um dia curto para o muito a fazer, infindáveis pelo desconforto de dormir no rude estrado que lhes servia de leito, mal abrigados, ali paredes-meias com a entrada do desafogado algar onde se refugiaram. Fora a extensão destas noites de inverno o que lhes permitia pensar aquilo que havia para fazer nos dias vindouros, nisso incluindo o estabelecer dos nomes a dar ao filho ou filha que estava para chegar. A escolha dos nomes, pelo menos dos dois primeiros dos vários filhos que desejavam ter, tinha sido o tema mais presente no pouco tempo livre até ali existente, por regra o início da noite. A bem da verdade, estes há muito estavam escolhidos, com as conversas tidas só consolidando as opções já feitas. De facto os jovens amantes, ainda no povoado de origem, olhando o mar ou o ilhéu que do oceano se erguia à sua frente, um cenário que os inspirou e incentivou para a fuga que depois ocorreria, logo que confirmada a gravidez de Maria de Fátima iniciaram a escolha dos nomes a dar aos seus descendentes. Fátima e Serafim facilmente ganharam consenso: Serafim por já ser o nome do pai, tal como do avô e de todos os primogénitos daquele ramo familiar, o clã galego dos Serafíns que agora nos Açores davam continuidade à longa experiência marítimo/piscatória acumulada ao abrigo da costa Oeste do Cabo Finisterra; Fátima por ser um dos nomes da mãe, Maria de Fátima, reabilitando o singelo nome da bisavó, Fatimah, a “moura encantada” que tantos corações tinha despedaçado logo que se tornara mulher, já nos Açores, onde aportara inserida na família que a adoptara em Portugal, ainda menina, recém chegada de Ceuta.

A.O. 011/03/2014; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado, incluindo o título) 

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