terça-feira, julho 19, 2011

 

Promover os Açores e os açorianos





Fotos: Só a primeira é minha (Curva dos Carvalhos, Sete Cidades, "Volta à Ilha S. Miguel", início da década de 70)
As três seguintes são do João Luís Raposo, a última foi "roubada" no FB (A Bandeira).


[Mesmo quando a foto não a capta, há sempre uma outra bandeira a ondular ao vento, hasteada mais alto]

O automobilismo, de forma muito especial o “Sata Rally Açores” – onde já vai a “Volta à Ilha de São Miguel”? – tem sido um eficaz meio de promoção dos Açores e dos açorianos.
Há uma estratégia de gestão de espectáculos, tipo aquela em regra utilizada no universo circense onde não obstante os artistas serem provenientes de vários quadrantes do Globo a origem da Companhia fica sempre associada à dos seus empresários, que se levada ao extremo, consome recursos sem deixar sementes que germinem no futuro. No Circo, que tem a sua raiz na itinerância, isso até faz algum sentido. Mas é exemplo que não pode nem deve – como alguns defendem – ser extrapolado para outras áreas. Importar “artistas” (o mesmo se aplica aos outros profissionais do “métier”), geralmente com grande esforço e dispêndio de meios, para fazer algum sentido deve exigir que estes, de qualquer modo – de preferência obedecendo a um plano previamente delineado – contribuam para ajudar a “fazer crescer” aqueles que por cá despontam, enriquecendo-os com o seu saber e aptidão, potenciando assim a valorização e promoção dos recursos e capacidades endógenos/nas. No mínimo, há que garantir que a sua passagem e/ou permanência venha estimular, e desenvolver, análogas competências locais. O automobilismo nos Açores tem sido um bom exemplo disso!
Já passaram aos anais da História os pioneiras desempenhos de Toste Rego, Labieno Machado, Faria e Maia, e, até, Raul Mendonça, todos eles ao volante dos carros com que faziam o seu “dia a dia”.
Numa fase subsequente, de transição algo longa, foram surgindo mais uns quantos entusiastas da modalidade, alguns deles dotados de elevadas capacidades, pilotos que inseridos noutros contextos, com certeza, teriam ido bastante mais além. Destes, pela sua longevidade na prática da modalidade, mas também porque é aquele que melhor fez a ponte entre os “históricos” e os actuais, permitam-me destacar o Horácio Franco.
Hoje estamos decididamente numa outra era, e nesta o Ricardo Moura tem patenteado grande classe, exibindo-se, mesmo quando fora dos Açores, a um nível que mostra o quanto ele mereceu a oportunidade que conquistou, demonstrando também que, se porventura tivesse sido desobstruída mais cedo a “janela de oportunidade” que merecidamente agarrou, maior ainda poderia ser o brilhantismo com que promove Açores e açorianos.
Neste sentido a última edição do “Sata Rally Açores” foi um bom exemplo disso: em primeiro do Grupo N, um açoriano – Ricardo Moura –, e também em primeiro mas do Grupo A, um escalão mais baixo (mas não menos interessante nem competitivo), outro açoriano – Paulo Maciel –, que sem dar a mínima hipótese à concorrência (muito melhor apetrechada do que ele no que à máquina diz respeito), foi inexcedível.
Sem com isso pretender desmerecer o brilhante desempenho do Ricardo Moura, é impossível não dar realce especial à excelente prestação do Paulo Maciel, que, em crescendo e de forma tão consistente quanto regular, vem construindo uma carreira já a merecer – diria mesmo exigir – mais e melhores apoios, e em consequência a possibilidade de competir noutros palcos (talvez mesmo a um nível superior).
Se o “Sata Rally Açores” foi mais uma vez um bom veículo de promoção dos Açores, as participações do Ricardo Moura e do Paulo Maciel – que me perdoem outros – honraram os Açores, e encheram de orgulho os açorianos.


A.O. 19/07/2011; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado)

terça-feira, julho 05, 2011

 

Açorianos vs ingleses: a primeira vinda da RAF a Ponta Delgada


Foto (imprensa da época) da equipa da RAF, e brazões dos dois Esquadrões RAF que em 1945 e 1946 estiveram nos Açores


Hoje em dia já são poucos aqueles que podem testemunhar – ou se recordam – do que era, nos Açores, disputar uma partida de futebol após uma longa viagem de barco. Tempos houve em que com alguma regularidade (anual) as disputas entre equipas de diferentes ilhas, de forma especial entre as de São Miguel, Terceira e Faial, só se faziam após longas horas de navegação, não sendo assim tão raras as ocasiões em que o jogo se realizava logo após o desembarque. Recuando um pouco mais no tempo, o mesmo também aconteceu com a disputa de jogos entre açorianos e madeirenses, e, embora ainda mais raramente, e com viagens mais difíceis e longas, há também os casos das viagens marítimas de alguns clubes portuguesas aos Açores, e de outros tantos açorianos a Portugal. São disso primeiros exemplos a vinda aos Açores do “Casa Pia” (em 1921, então Campeão de Lisboa em título), e a ida do Clube Desportivo Santa Clara (em 1935, já Pentacampeão Micaelense: uma notícia anunciando-o em Portugal como “Campeão Açoriano” em título despoletou uma polémica de enorme grandeza) para a alargada digressão durante a qual defrontou, ainda no Campo das Amoreiras, o S. L. Benfica, naquele ano Campeão de Portugal (derrota por 11-2, com 4-2 ao intervalo).
O transporte aéreo veio facilitar, e muito, o intercâmbio desportivo (não obstante ainda hoje em dia as viagens serem apontadas como forte handicap), datando de 1945 a primeira vez que o futebol, nos Açores, usou o avião como meio de transporte.
De facto, completam-se esta semana 66 anos sobre a data em que uma equipa da Royal Air Force, vinda da Terceira, aterrou em São Miguel expressamente para disputar dois jogos de futebol.
A iniciativa – numa primeira fase fruto de contactos estabelecidos entre a Direcção do Clube Desportivo Santa Clara e o Delegado Marítimo Britânico em Ponta Delgada – que depois de cuidadas e diplomáticas diligências acabou rapidamente passando para o âmbito da Associação de Futebol de Ponta Delgada, obrigou a organização de duas selecções locais, “Os prováveis” e “Os possíveis”, esta última maioritariamente constituída por jogadores do CDSC: Mariano de Sousa, Manuel Pedro, Manuel de Sousa (Americano), Artur de Sousa (Garalha), João Vicente (Ratana) e José Vicente. Integraram ainda “Os possíveis”: João Maciel, Alírio Fontes, Manuel Azevedo, Tomás Azevedo (Talefa), todos do Micaelense Futebol Club, e António Duarte do Marítimo Sport Club.
Na equipa “Os prováveis” destacavam-se: Armando Goyanes, Manuel Salsa, Bento Macedo, Manuel Maria, Reinaldo Simões, Alberto Ferreira, Hélder Miranda, Humberto Correia, João Casanova, João de Medeiros e Norberto Pacheco. Uma e outra contavam ainda, como suplentes, com: José Pacheco, Manuel Luís, Carlos Lopes, Hugo Correia Machado e Francisco da Costa Santos.
A equipa da RAF valia desportivamente quase tanto quanto o valor tecnológico do meio de transporte que utilizou, integrando-a os seguintes jogadores: Harrison, Burton, Grant, Potter, Nudle, Gilloney, Nuncie, McAnally, Bowers, Mitter e Lambert, sendo os cinco últimos todos jogadores profissionais, e Lambert, para além de profissional, um dos notáveis internacionais ingleses de então.
O resultados dos dois jogos disputados – 6/1 no da estreia contra “Os possíveis”, e 2/0 dois dias depois contra “Os prováveis” – espelharam bem a diferença do futebol patenteado por ambas as partes, rezando as crónicas que foi João Maciel, e as suas espectaculares defesas, o que mais contribuiu para o aparente equilíbrio do derradeiro e mais aguardado jogo.

A.O. 05/07/2011; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado)

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