domingo, outubro 10, 2004

 

A Mata da Doca, ou, Parque Diniz da Motta

(…)

Desapareceram as antigas Pedreiras da Doca!
Por sobre aqueles montículos pitorescos, colocado pelos vales em cima das esplanadas, bordando veredas e caminhos, estende-se, cerrado, o arvoredo q’ entremeia e tece os ramos, numa confusão imensa de folhagens, matiza os seus verdes diferentes e derrama, gratamente, por sobre a terra que o nutre, uma sobra protectora e amiga.
Dum deserto fez-se um bosque! Por entre as pedras brotaram acácias e pinheiros; o antigo solo abrasado ostenta hoje carvalhos, angélias, araucárias, rubínias, piteiras …e sobre aquela terra vermelha e tórrida, que escaldava, que feria a vista, estendeu-se um tapete verde de relva húmida e tenra que nos descansa a retina.
Quanto podem o entusiasmo de um homem, o escorregar vagaroso do tempo e o forte viço das plantas!
No meio do parque – seu coração – espairando-se largamente como a arena de um coliseu titânico – O Campo Açores. Plano, nivelado, extenso, presta-se magnificamente a todos os jogos, a todos os desportos: tennis, foot-ball, croquet, birlo, barra, gyncanas, corridas de velocidade, de resistência, de bicicleta, concursos hípicos etc. (…)

(…) Diniz da Motta acariciava este projecto; mas não se limitavam a isso os seus projectos. Desejava traçar ali avenidas de rodagem, arruamentos para peões, veredas e atalhos nos sítios mais íngremes. Propunha-se desbastar o arvoredo, semeado assim compacto com intuitos de protecção e para obviar às recusas tão frequentes das plantas mais delicadas, introduzindo depois espécies mimosas e belas mas de resistência menor. Ajardinaria uns dois ou três pontos, deixando o resto na sua rudeza de mata, convidando às excursões, aos piqueniques.
Junto à casa do Século XX abrir-se-hia um lago (a cargo do mar enche-lo), e construir-se-hia uma piscina. Uns barquinhos, montes de areia aqui e além, algumas redoiças e outros brinquedos eram destinados às crianças…
Assim haveriam de passar algumas horas de bom ar, paz e simplicidade aqueles a quem a Vida não permitisse gozar o campo nos meses de verão.
O estabelecimento do seu Parque da Alegria (assim tencionava chamar-lhe); a organização da Praia de S. Roque, aproveitando a variante da Estrada Nacional entre S. Roque e o Pópulo (chegou a expropriar os terrenos precisos), que viria a proporcionar a Ponta Delgada as vantagens de uma praia, que o acaso verdadeiramente lhe destinou; o aproveitamento da Ribeira dos Tambores, feito paralelamente com a construção da estrada da Ribeira Quente (serviço que deixou começado), – tais foram as três últimas ideias que lhe inflamavam o coração altruísta “É o meu testamento à minha terra”, disse uma vez, com um sorriso nos olhos de veludo.
Dentro de poucos dias expirava…

Bruno Diniz
28 – XI – 1920.



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