terça-feira, dezembro 04, 2007

 

Acordar e cair na realidade


Deambulava calmamente por uma marginal bonita, muito desafogada, bem desenhada, sobretudo pensada para servir e dar prazer aos cidadãos enquanto peões. Éramos – eu e quem me acompanhava – só mais três indivíduos entre os muitos que, tranquilos, livres e convenientemente afastados da “selva automóvel”, por ali também passeavam. Nem todos, como nós, lá estavam de férias e apenas fruindo o prazer de um fim de tarde. A maioria, gente com ar de quem tinha acabado um dia de trabalho ou transitava de um, para outro local de labuta, de forma especial os pais que passeavam crianças acabadas de sair da escola, davam a nítida sensação daquela ser a sua rotina diária. Todos porém reflectiam o agrado daquele momento de descompressão, do muito verde que os rodeava, dos confortáveis equipamentos públicos existentes (parques infantis sem conta) e da cómoda tranquilidade que deve poder ter quem sabe que a zona está servida por uma eficaz rede de transportes públicos, modo de a qualquer momento os levar de regresso a casa, ou, em alternativa, a um parque de estacionamento periférico. Nem o persistente chuvisco, e algum frio que se sentia, impediam aquele agradável bulício!
Despertei (só na minha cabeça ainda vagueavam recordações da curta, e muito recente, passagem por Bilbau)! Afinal estava já em Ponta Delgada, caminhando ansiosamente numa marginal congestionadíssima de tráfego automóvel, completamente sufocada por obras; as últimas das quais, para trazer ao centro ainda mais veículos.
Dá pena ver que o nosso desenvolvimento continua fazendo-se por cópia daquilo que outros, entretanto, já identificaram como errado. “Convidar” automóveis para o centro da cidade, tal como “alisar” orlas marítimas, só até meados do século XX foi sinónimo de progresso.

A. O. 04/12/07; “Cá à minha moda”



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