terça-feira, junho 08, 2010

 

6 de Junho; e já lá vão 35 anos

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Exigiu-se Independência para os Açores, conquistou-se a autonomia com que nos governamos. Contudo, atenção, muita atenção: ao contrário do que muitos pretendem fazer constar, não foi aquela a primeira vez que nestas ilhas os anseios de Autodeterminação e Independência eclodiram. Esta é outra verdade quase sempre, e propositadamente, ignorada!
De então para cá muito mudou. Em 1975 dizia-se que os Açores não tinham condições de ser independentes, que nem “fábrica para fazer cuecas” possuíam, dependendo, até nisso, de Portugal para sobreviver. Santa ingenuidade. Como se não fosse a soberania, este bem de valor incalculável, a grande panaceia, e solução para transpor ou até eliminar dificuldades; basta olhar para o que se passa em Cabo Verde.
Podemos também olhar para Portugal: hoje, e, sem mais nada fazer do que só deixar passar o tempo, verifica-se como na “pátria mãe”, não obstante o número de “fábricas para fazer cuecas” que tem, ou que já teve, são enormes (tão ou mais graves do que os que teriam uns Açores Independentes) os problemas que apresenta para manter a sua própria soberania, se é mesmo que ainda a detém – recordo uma das últimas visitas do Primeiro Ministro de Portugal a Bruxelas, e da sua radical mudança de política e de discurso, a partir daí: “o mundo mudou”, passou então a dizer! Uma “mãe pátria” que, tal como outrora aconteceu com o Brasil e muito mais tarde com Angola, usa e abusa dos Açores, uma das duas “jóias da Coroa” que lhe restam do vasto Império, como mais valia negocial junto da UE, e dos EUA.
De então para cá – dizia eu – muito mudou, mas nem tudo mudou para melhor: não faltam, agora, portos, aeroportos, estradas e outras construções. Escasseia, isso sim, gente, sobretudo gente com a mesma têmpera daqueles que da terra, especialmente colocando-a produzir, tal como aconteceu com a laranja, conquistaram a nata da Europa.
Queiram ou não, o 6 de Junho de 1975 está para a autonomia dos Açores – e da Madeira – como 25 de Abril de 1974 para a democracia em Portugal!
Se não, vejamos: já após a Revolução dos Cravos, em Portugal, como se ainda fosse “o tempo da outra senhora”, o MAI da altura, preparava uma nova divisão administrativa do território transformando os Açores numa província – porventura adjacente –, que com outras oito parcelas (Madeira e mais cinco províncias em “terra firme”) corporizariam o projecto de regionalização ao tempo em curso, dotado de autonomia político administrativa. Só após o “6 de Junho”, e – por mais que desagrade a alguns – em consequência directa deste, se pensou ir mais além no que aos Açores e à Madeira dizia respeito. Mas os efeitos imediatos do “6 de Junho” não se ficaram por aí. Só após o “6 de Junho”, ainda “na ressaca” dos acontecimentos em Ponta Delgada, e usando a estratégia "de amansar" que tanto efeito tem e ainda hoje é muito adoptada e resulta, o Conselho da Revolução determina como medidas a implementar nos Açores, entre outras: a atribuição imediata de 100.000c ao Plano Pecuário dos Açores; um significativo apoio ao sector das pescas e conservas de peixe; a urgente cobertura médica do arquipélago; e até, imagine-se, a instalação de um Secretariado Regional da Banca.
Hoje para continuar a dar sentido ao 6 de Junho, há que olhar em frente e ser cada vez mais exigente: não ter de pedir licença para ensinar ao Povo a que pertencemos a nossa própria História, nela incluindo todos os 6 de Junho que precederam o de 1975, entre outros, o de 1 Março de 1821, ou o de 2 de Março de 1895; revoltarmo-nos contra leis que nos conotam com o fascismo por defendermos a independência da nossa terra; indignarmo-nos por nos impedirem de organizar em partidos aqui originários, único modo democrático de lutar, sem subtilezas, pelos nossos próprios interesses. E também, que haja coragem: já tarda a institucionalização do 6 de Junho, dar nome a uma rua é manifestamente muito pouco!

A.O. 08/06/10; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado)



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