terça-feira, setembro 14, 2010

 

30 Anos depois Medeiros Cabral continua a causar surpresa


No exacto dia em que o homenageado, caso se mantivesse em nosso convívio, completaria cinquenta e cinco anos de idade, o auditório do Centro Cívico e Cultural de Santa Clara tornou-se pequeno – é imaginar como seria se lá estivessem todos os que entretanto, por um ou outro motivo, lamentaram não ter ido – para receber os muitos familiares, amigos e antigos vizinhos que não quiserem deixar de estar presentes na sessão de entrega à família do distinguido o Galardão “Honra de Santa Clara”, cuja atribuição fora unanimemente aprovada pela Assembleia de Freguesia de Santa Clara por ocasião do trigésimo aniversário do seu falecimento.
Casa cheia, e com uma audiência que estimulada pela agradável interpretação de um clássico de Heitor Vilas Lobos, pouco depois estava completamente conquistada, e deliciada, com a qualidade das comunicações proferidas.
Abriu a sessão Tomaz Borba Vieira, que, sem deixar de recordar o nobre carácter do agraciado, centrou a sua dissertação na genialidade de uma obra, naturalmente pouco vasta, mas já indelevelmente registada nos anais da História da Arte dos Açores. Antes de terminar, reforçando a ideia de se criar em Santa Clara um espaço que evoque o artista e contribua para uma melhor divulgação da sua obra, num gesto que foi efusivamente aplaudido, Tomaz Vieira ofereceu à Junta de Freguesia de Santa Clara um precioso espólio documental que a mãe de Medeiros Cabral, vai para trinta anos, lhe havia entregue. Seguiu-lhe Urbano, que após recordar como ele e o homenageado se conheceram na Escola Secundária Domingues Rebelo, tal como as exposições em que ambos participaram naquele mesmo estabelecimento de ensino nos primeiros anos da década de setenta, leu um documento da autoria do galardoado, no qual Medeiros Cabral, o artista, questionado por Zé Manuel Cabral, o cidadão, explicava com detalhe o simbolismo de cada uma das telas do tríptico “A História”. Depois foi a vez de Emanuel Jorge Botelho, emocionado e a todos emocionando com o retrato escrito do Zé Manuel Cabral que apresentou, concluindo a sublinhar o sentimento de perda e saudade, que aquela ausência ainda causa. Por fim usou da palavra Carmélio Rodrigues, primo, cúmplice, alguém que com ele partilhou além do mais, a casa de família na 1ª Rua de Santa Clara, onde foi “desencantar”, para ali mostrar, um conjunto de objectos pessoais do homenageado, entre os quais alguns dos livros em que na época o artista se suportou, mostrando também uma interessante peça, dada a sua fragilidade como que milagrosamente ainda intacta, obra que dispondo em perspectiva três placas de vidro, acopla na menor a figuração do cérebro para na maior representar a imagem de uma boca, deixando a placa do meio, apesar de transparente, simbolizando a entropia: numa alusão clara às dificuldades, ou maquinações, que a comunicação encontra desde a fonte até ao destinatário!
Nem de propósito. Se o serão foi sério, profundo, rico na divulgação de recordações, conhecimento e repleto de emoção, no dia seguinte apresentou-se ficção. Nem dava para acreditar, e isso, mesmo depois de ir ao “site” oficial da CMPD ler e confirmar! Sendo erro já o tinham corrigido, se ainda não fizeram, deve ser estratégia. À Goebbels, na esperança de surfando uma qualquer Onda, repetir, repetir, repetir, até se confundir com a verdade. Sinceramente, não havia necessidade!

A.O. 14/09/10; “Cá à minha moda" (revisto e ligeiramente acrescentado)



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