terça-feira, outubro 12, 2010

 

Um marinheiro poeta a vogar entre os Rosais e Santa Clara






Vital Silveira Cardoso, ou “Mestre Vital” como é conhecido em Santa Clara e entre pares no âmbito dos misteres a que caprichosa e competentemente se dedica ou dedicou, é senhor de uma vida preenchida de forma tão fértil que o difícil é concentrarmo-nos na sua faceta de poeta popular agora revelada em “Versejando”, livro de poemas apresentado no passado sábado, dia 09 Outubro de 2010, por ocasião da cerimónia de encerramento das comemorações do 5º aniversário da Freguesia de Santa Clara.
Radicado em Santa Clara desde meados da década de 60 do século XX, quando ainda, recém-casado, acabara de iniciar uma fulgurante carreira como marinheiro – tornando-se aos 27 anos no mais jovem Contramestre da Marinha Mercante –, Santa Clara rapidamente o adoptou, e foi lá que nasceram e cresceram os seus filhos, e aonde à sua volta, entre familiares e amigos, juntou mais uns quantos patrícios. Era, mais uma vez, Santa Clara a cumprir o seu destino. E não podia ser de outra maneira: não fosse a localidade, desde os seus primórdios, terra de embarcadiços, local de partidas e chegadas, chão que ensopou muitas lágrimas em horas de abalada, mas também terreno sempre propício a acolher, acarinhar e integrar quem vindo de outras paragens o escolheu para se fixar. Fora assim com aqueles que a meados do século XV, vindos de Vila Franca, por lá assentaram arraiais dando origem a Ponta Delgada. Assim foi também, a partir de meados do século XIX, aquando da construção do porto artificial de Ponta Delgada. Assim continuou sendo nos primeiros anos do século XX, com o surto de industrialização que a cidade conheceu e Santa Clara acolheu. Assim continua e continuará a ser, pois está na sua génese: a grande diferença é que enquanto até ao século XIX, com Vila Franca como centro e origem, foram Água Retorta, a Nascente, e a Bretanha, a Poente, o limite natural da imigração, a partir do século XX este âmbito, alargando-se, passou primeiro também às outras ilhas dos Açores, para depois se estender ao resto do mundo.
Mas regressemos a “Mestre Vital”: o músico, o marinheiro, o poeta, que, não obstante o seu carácter discreto e um tanto ou quanto distante, aqui e ali, sempre foi possível ouvir arrancando deliciosos trinados ao seu bandolim ou contando histórias sobre as muitas viagens e quase outras tantas aventuras que o navegar entre as ilhas lhe proporcionou. Excepcional mesmo, quase um privilégio, era – e é – escutá-lo a recitar a sua própria poesia, à qual uma pausada e muito musical entoação, associada ao sotaque jorgense que nunca perdeu, acrescentam especial singularidade.
Nostálgica e sofrida na abordagem dos temas mais íntimos, a poesia do “Mestre Vital” mostra-se atenta, perspicaz, e até interventora quando trata questões de ordem social, não se furtando à crítica das injustiças mais iminentes. Poesia a que também não lhe falta uma vertente agradavelmente irónica e divertida, sobretudo no retratar os usos e costumes açorianos das diversas ilhas.Em “Versejando” só fica apresentada uma ínfima parte do interessante espólio poético de Vital Silveira Cardoso. Poemas que agora, depois de escritos e editados, mesmo perdendo algum do encanto que a oralidade – sobretudo a do autor – lhes confere, vão com certeza poder chegar a um maior número de pessoas, fazendo justiça a uma poesia peculiar não merecia continuar ignorada, e a um genuíno e sensível poeta popular, até aqui, praticamente anónimo.


A.O. 12/10/10; “Cá à minha moda" (revisto e ligeiramente acrescentado)



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