segunda-feira, outubro 13, 2008

Sinal dos tempos



Roubados: aqui e aqui

Cheguei a pensar ser apenas impressão minha, mas quanto mais se fala no assunto, e sobretudo à medida que o tempo passa, é cada vez mais notória a falta de entusiasmo, senão mesmo a apatia, que perpassando todo o pré período oficial que lhe foi destinado, continua instalada pelo menos nestes primeiros dias da campanha propriamente dita.
Não é que sinta saudades de ver as ruas entulhadas de cartazes tipo “arraial saloio”. O que acho grave é que eliminado o espalhafato superficial – que é de saudar –, o tempo, o dinheiro e as energias que aí se poupam não tivessem sido dirigidas ao essencial; coisas tão simples como confrontar, debatendo ou simplesmente ir anunciando, o que as diferentes forças políticas concorrentes incluem, e as diferencia, nos seus programas eleitorais. Isto sim; é de lamentar!
Tão ou mais grave ainda, é que não fora os tempos de antena – que não entram nos orçamentos de campanha – quase que ficávamo-nos pelo “Melhor é possível” ou pelo “Que bom é ser açoriano” e seus sucedâneos, se a isso, ingénua ou franciscanamente, não quisermos associar o celebérrimo KIT.
Certo, certo é que cada vez mais se nota a crescente indiferença reinante; nem parece que só faltam dez dias para “a festa da democracia”, entretanto – comportamento gera comportamento – como que transformada numa calculista e burocrática rotina, com a qual, salvo raras e honrosas excepções, apenas têm contribuído para que, "mudando qualquer coisinha", o tempo se encarregue de fazer com que tudo fique na mesma!

Neste campeonato desigual, onde o “círculo de compensação” veio trazer algum alento aos menos poderosos, são naturalmente os “grandes” que mais gastam e desperdiçam. Mais gastam; porque só o somatório dos seus orçamentos ronda os 3MEuros. E desperdiçam; porque não é necessário ser profissional deste “metier” para se dar conta que, numa hora destas, tanto J. Sócrates como Manuela F. Leite para além de dispensáveis, são claros empecilhos para quem cá está.
Com justiça, o mesmo não se pode dizer das minúsculas formações partidárias que se esforçam por aproveitar “os restos”. Destes, para o bem e para o mal, mas assumidamente com grande desassombro, no rácio efeitos/meios destaca-se o MPT – Partido da Terra, isto, ainda antes da última “ajuda”; o “caso SATA”.

Jornal de Capanha - Ao 9/10/2008 e 13/10/2008 (revisto e ligeiramente acrescentado)

terça-feira, outubro 07, 2008

Dias de Melo

Tinha pouco mais de dez anos, frequentava o então primeiro ano do antigo “ciclo preparatório” da Escola Industrial e Comercial de Ponta Delgada, na ocasião, funcionando em edifício adaptado para tal ao fundo de uma pequena quinta paredes meias com o Jardim José do Canto, quando tive o privilégio de conhecer, no desempenho do seu mester, o professor “baleeiro”.
Tal como eu, muitos, estou certo, foram os alunos por ele indelevelmente marcados pela forma simples, prática e à vontade, com que connosco tratava e nos confrontava com a língua e a literatura portuguesas enquanto meigamente trincava a boquilha do cachimbo que mantinha, quase permanentemente – muito do tempo apagado – no canto esquerdo da boca (“O fumo do meu cachimbo” era só para os jornais). Isto para além da sua característica voz: um acentuado sotaque picoense; palavras ditas de forma muito pausada; timbre rouco, nem sempre fácil de entender e com uma sonoridade que parecia resultar da enorme caixa de ressonância por onde o verbo passava, como que indeciso, por estar melhor destinado para a escrita do que para a fala. Talvez por isso, entre nós, alunos, e de forma mais carinhosa do que ofensiva, lhe chamávamos “Fanfan”.

Na falta de palavras melhor adequadas, permitam-me usar as do próprio para aqui deixar este humilde registo em memória de quem, de forma magistral, descreveu, também em verso, substantiva parte dos Açores, e da vida dos açorianos:

AS ILHAS DOS AÇORES

(…)

As pérolas do Atlântico
Muita gente lhes chamou
São o resto da Atlântida
Que neste mar se esfumou.

Este grande continente
Que há muito sossobrou
Levou consigo toda a gente
Nem um habitante escapou.

Diz-se que esse povo guerreiro
Muitos povos massacrou
Que Deus do mundo inteiro
O destruiu e castigou

Restam estas nove ilhas
Eram os pícaros das serras
Encontradas pelos navios
Que buscavam novas terras.


(…).

Ou, já num registo mais próximo daquele que todos conhecemos; o da habitual, e militante, intervenção social:

O BALEEIRO ENGANADO

Minha vida foi baleeiro
Nesta maldita Calheta
Mas em vez de dinheiro
Saiu-me foi uma peta

Mentiram os armadores
mentiram os oficiais
mentiram os trancadores
motoristas e arrais.

Neste sarilho de enganos
também eles são enganados
mentem há muitos anos
mas nunca serão saciados.


VINTE ANOS DEPOIS – RESCALDO DE UMA VIDA

(…)

Eu sou filho de baleeiros
e neto de pescadores
nesta vida os primeiros
nestes mares dos Açores

Deram vida à Freguesia
deram vida aos Açores
quando por aí só havia
miséria com seus horrores

Pescando peixe do fundo
baleias por todo o mar
buscaram por todo o mundo
uma vida para nos dar

Esta vida foi roubada
com bem poucos sentimentos
por uma tão vil cambada
de vis porcos bem nojentos

E quando eu lhes dizia
que era bom acautelar
o que era da freguesia
não se deixava roubar

Faziam troça de mim
olhando muito a sorrir
mas ficavam todos assim
e agora?…querem fugir

(…)
Abril de 1972
Continua a hipocrisia

não recebam os Judas

A. O. 07/10/08; “Cá à minha moda” (Revisto e muito acrescentado)

domingo, setembro 28, 2008

quarta-feira, setembro 24, 2008

Permitam-me a pergunta…


- Que grande desassossego terá havido ontem para que este meu humilíssimo blog, local onde em regra não passam mais de 20 diferentes visitantes diários, tenha, de um momento para o outro, atraído mais do quádruplo das atenções habituais?

terça-feira, setembro 23, 2008

Momento KitKat



Kit “Governo dos Açores”:

Já recebi o meu. Gostei. Só que ainda não o abri. Nem o faço tão cedo. É que, do que mais gostei, foi da tampa da caixinha, onde, um “antes morrer livres do que em paz sujeitos” em fundo, dá devido realce a: GOVERNO DOS AÇORES.
Não há Povo Açoriano, mas há Governo dos Açores! Por enquanto, pois estou certo já ter faltado mais para que algum neocolonialista empertigado repare nalguma grave inconstitucionalidade que a frase possa conter, obrigando ao seu “arquivamento”.

“Kat_urrice”:

O Matadouro Frigorífico e Industrial de Ponta Delgada, hoje um repugnante amontoado de ruínas, foi nos seus tempos áureos – certamente ajudado pela propaganda do Estado Novo –, “um dos melhores em qualquer parte do mundo”. Não obstante isso, nem meio século durou!
Antes dele, no mesmo local, e durante mais de três quartos de século, funcionou o “velho” matadouro de Santa Clara, uma instalação mais modesta, que a partir de Abril de 1886 passou a substituir, com vantagem, o barracão para o mesmo efeito existente no centro de Ponta Delgada, naquilo que então se denominava “Calhau da Matriz” – hoje, algures por baixo da Avenida Infante Dom Henrique, ligeiramente para poente da Praça Gonçalo Velho.
Perante este encurtar dos ciclos de vida útil (do melhor que há em qualquer parte do mundo), ocorreu-me:
- Que tal, mesmo que o horizonte temporal não vá além do próximo quarto de século, mas sobretudo sem recorrer a doses maciças de betão, ordenar – e limpar – a orla marítima de Santa Clara tendo como balizas, exactamente, as “Cancelas da Doca” e as dantescas ruínas do matadouro?
Santa Clara agradecia, a ponta delgada e rasa também, e estou absolutamente convencido que, sem grandes dispêndios, facilmente ali se recriaria, natural e espontaneamente, uma tradicional e muito apetecível zona balnear que só o lixo desaconselha e os tetrápodes camuflam.
A. O. 23/09/08; “Cá à minha moda” (Revisto e acrescentado)



sexta-feira, setembro 19, 2008

O Kit “Governo dos Açores”

Já recebi o meu Kit. Gostei, e não entendo o alvoroço que fazem à volta da distribuição, democrática, desta prendinha pré eleitoral. Afinal o Kit vai chegar a casa de cada um de nós, tornando-se assim, talvez, no único mimo de campanha com vida útil superior a um dia – é este, mais ou menos, o tempo que duram os aventais, panfletos e outro lixo (as tshirts duram um pouco mais) – entregue massivamente ao “peixe miúdo”, pois os outros regalos, os substanciais, vão directamente para “os tubarões” (e nisto, poder e oposição com possibilidade de um dia vir a ser poder, em pouco ou nada diferem).
Gostei sim. Muito. Só que ainda não abri a caixinha, nem a abro tão cedo. Tenho medo de ver frustradas as minhas expectativas, e logo arrepender-me. Deixar de gostar!
É que, do que mais gostei, foi do destaque: GOVERNO DOS AÇORES.
Não há Povo Açoriano – não dá dinheiro pelo que dizem! –, mas há Governo dos Açores. Bem bom. Por enquanto, digo eu. Porque quando algum neocolonialista mais empertigado reparar – será por isso que nos “spots” publicitários o locutor diz invariável e complexadamente “Governo Regional dos Açores”, e não, simplesmente, Governo dos Açores? – vamos com certeza assistir a mais um qualquer veto proverbial, logo seguido das solidariedades alaranjadas que, como já vai sendo costume, nestas coisas lhe fazem sempre alargado coro!

Claro que gostei também do “Antes morrer livres do que em paz sujeitos”. Mas esta, convenhamos, é uma proposição já consolidada desde a primeira campanha autonómica.
Governo dos Açores, pelo contrário, é afirmação bem mais recente, que há que começar a divulgar, e interiorizar; não venha para aí mais um qualquer Salazar e a retire, tal como o outro fez com a moeda!
Façam como eu. Coloquem a caixinha em local de destaque. Olhem para ela sempre que puderem. Leiam: GOVERNO DOS AÇORES. Habituem-se. Habituemo-nos!

sexta-feira, setembro 12, 2008

Um açoriano à conquista de Portugal


Um artista açoriano esconde-se em museus portugueses para, clandestinamente, pendurar os seus quadros e assim mostrar o fruto da sua criação.

Quer saber mais? Compre ou consulte a “Sábado” desta semana.

terça-feira, setembro 09, 2008

Cantigas ao desafio


Em Abril de 1886, 25 anos após o início da construção do porto artificial da cidade, inaugurou o matadouro Municipal de Ponta Delgada, então uma instalação bem mais modesta do que aquela que, reconstruída e completamente remodelada, surgiu em meados do século XX como exemplo de avanço tecnológico e arrojo arquitectónico, e que agora se apresenta como uma miserável ruína que a todos, especialmente aos santaclarenses, envergonha e incomoda.
A 7 de Maio de 2008, mais ou menos de surpresa, o “Matadouro de Santa Clara” foi mote de uma “desgarrada” da qual, mais do que as inflamadas palavras que a animou, interessa sim conferir a pratica seguida até aqui – e a que irão seguir?! – pelas entidades envolvidas na demanda pela posse do obsceno destroço em que se transformou aquele antigo sinal de modernidade.
Na ocasião, ficou a ideia que os santaclarenses serão soberanos na escolha do destino a dar àquele espaço. Seria bom que assim fosse. Veremos se assim será, até porque aquela zona pode ser a ancora, e/ou o aprimorado remate, da urgente e necessária ordenação da orla marítima de Santa Clara, que apesar de tudo, é a única em Ponta Delgada a manter o seu perfil natural (mais ou menos original), inserindo-se neste, ainda, a “ponta delgada e rasa”, que deu a Ponta Delgada o seu nome.
Porém, e porque os “senhores do poder”, ao contrário do que nos pretendem fazer crer, continuam a existir – e não de modo muito diferente ao que, destemidamente, em 1968 o Padre Fernando denunciou –, não estou convencido da generosidade ali subitamente manifestada: é que não há nada melhor do que umas quantas toneladas de betão – no caso de Santa Clara, perfeitamente dispensáveis – para conciliar determinados interesses (veja-se o caso da Calheta de Pêro Teive). Também por isso temo que o melhor proveito para os santaclarenses não coincida com o das partes ali em disputa.

A. O. 09/09/08; “Cá à minha moda” (Revisto e acrescentado)

terça-feira, agosto 26, 2008

AUTONOMIA & autonomia

Ainda os portugueses (atletas - naturalizados inclusive -, dirigentes, comentadores e público em geral), na sua olímpica bipolar esquizofrenia, ora carpiam mágoas ora comemoravam eufóricos os resultados de Pequim, já as atenções futebolísticas se focavam na estreia de Carlos Queirós, em jogo tido como fácil, contra uma selecção onde uma das estrelas ganha a vida como carpinteiro.
Por mim, futebol à parte, prefiro analisar este Portugal vs Ilhas Faroé por um outro prisma: o das autonomias quando o são de facto; quando “a pátria mãe” não tem medo da evolução autonómica; e quando a emancipação pode acabar acontecendo, naturalmente.
As ilhas Faroé, ou “Ilhas das ovelhas” ("dos carneiros", teimosos mas seguidistas, ou "das vacas", com sua irritante passividade bovina, seria bem pior), com apenas 47.000 habitantes – 16.000 dos quais fixados em Streymox, a maior e mais populosa das 18 ilhas do arquipélago –, embora aspirem e façam por isso, não são um país independente, mas sim, ainda e só, uma região autónoma. Com uma autonomia que paulatinamente se tem alargado e consolidado; autonomia em cujo horizonte se perfila a independência, mas, por enquanto, só e apenas, uma Autonomia (desde 1948, logo com 60 anos, quando a dos Açores, no papel, tem quase o dobro desta idade).
Imaginando o dia em que, tal como aconteceu antes do jogo com as Ilhas Feroé, poderei ver futebolistas portugueses perfilados perante a Bandeira Açoriana ao som do nosso Hino, logo pensei na oportunidade que o Presidente da Republica Portuguesa com certeza não desaproveitaria para dar trabalho ao Tribunal Constitucional, e/ou promulgar mais um veto!
Passado o devaneio, ocorreu-me a seguinte questão:
- Mas afinal, para Portugal, não seria mais honroso defrontar (mesmo tendo de se colocar em sentido frente à Bandeira dos Açores) uma sua Região Autónoma em lugar da congénere dinamarquesa? Para mais, quando no mesmo dia, as equipas principais dos Reinos da Dinamarca e de Espanha se defrontavam, assim como que conferindo a Portugal o estatuto de comunidade autónoma espanhola.
Eu cá acho que sim!

A. O. 26/08/08; “Cá à minha moda” (Revisto e acrescentado)

terça-feira, agosto 12, 2008

Se com Soares foi o que foi, de Cavaco esperavam o quê?










Os Açores, ou melhor, as ditas inconstitucionalidades contidas na mais recente reforma do Estatuto regulador da acanhada autonomia com que nos sujeitam e amansam, versão que de tão irresoluta deixou cair o “Povo Açoriano” a troco de conseguir ser aprovada por unanimidade – em dois parlamentos; nos Açores e em Portugal, o que, como se viu, de pouco ou nada serviu! –, foi o mote do mais recente “tabu” de Cavaco Silva.
Ainda calado, já na mímica dos primeiros momentos da aparição de S. Exa. o PR dos portugueses se adivinhava que dali coisa boa não viria; é que a sua inopinada e pré anunciada comunicação ao país, dele (porque o meu; os Açores, era ali claramente o alvo a abater), nem os seus próprios compatriotas entusiasmou e interessou. Aliás, aquilo pareceu mais um recado enviado para alguns, do que propriamente uma mensagem à plebe; foi como que a reacção, dorida, à primeira vez em que o T.C. não se pronunciou, como lhe é habitual, de forma clara contra os interesses dos Açores, mesmo quando, com a súplica, mais não se pretende do que uma delicada mini dose.
Depois do que se tem assistido, presumo que a montanha apenas vai parir um rato; o Sr. Eng. tudo faz para que os seus correligionários, mesmo os de cá, refreiem a “briga” com o Sr. Prof. Doutor, e os prosélitos deste último, após os “tiros nos pés” dados - alguns por antecipação como M. Ferreira Leite, aqui nos Açores (rico apoio ao PSD/A), logo secundada, lá, por um característico drible de J. B. Mota Amaral, que tal como Mário Soares pareceu ter-se esquecido de 1986, com ou sem gravata preta e óculos escuros - recorrem a esforçadas 2ªs linhas para “corrigir a mão”.
Por mim, já que de nada serve implorar o que só por conquista se obtém, recolocava a questão do “Povo Açoriano”. Não dá dinheiro, dizem, mas se é bom ser açoriano, pois então façam-LHE justiça!


A. O. 12/08/08; “Cá à minha moda” (Revisto, ligeiramente acrescentado e título integral)
A foto foi "assapada" um destes dias no Sapo, e, as caricaturas, algures na net (já não sei bem onde!)