quinta-feira, janeiro 26, 2006

 

Abater árvores, derrubar matas, destruir a alegria; eis a lei do betão e companhia


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"Roubada aqui"

Enriçado numa dura e um tanto ou quanto extraordinária fase de muito trabalho, e, como se isso já não fosse o suficiente, completamente “entalado” entre o sentido do dever e de uma enorme vontade de nada fazer, deixei fugir a oportunidade de ver, ao vivo, a apresentação do manifesto; “A Árvore e a Floresta”, uma singular parceria de dois amigos que muito estimo, perante os quais, sobretudo à sua cultura – é impressionante a simplicidade com que a transmitem – e invulgar competência, nunca me canso de fazer vénias.
Só pela imprensa acompanhei o evento, tendo a referência que foi feita a Dinis Moreira da Mota – um dos grandes vultos da nossa história, praticamente injustiçado pela memória colectiva, em parte, também devido à sombra causada por outra “enorme” figura; Aristides Moreira da Mota, seu irmão –, atendendo à forma directa como a obra daquele visionário engenheiro “se mistura” com uma parte do trabalho que tenho entre mãos, acabando por reforçar a obrigação – já o tinha prometido a alguns – de promover a publicação de um texto “perdido” num dos primeiros números do Correio dos Açores, ainda em 1920.
Pois ele, finalmente, aqui vai:

Domingo. O burguês deixa os asfaltos…

Lembrou-nos Heine.
Dia lindo, ar fresco e lavado, luz doirada convidando-nos à acção. Quebre-se no dia do Senhor a monotonia pungente do viver angustioso destes tempos, dando tréguas às suas preocupações constantes: o futuro da família, da nação, da sociedade! …
E como o Correio dos Açores tivesse anunciado um desafio de foot-ball entre Brazileiros e Micaelenses – excelente pretexto – enveredamos pela Rua Formosa além.

Desapareceram as antigas Pedreiras da Doca?
Por sobre aqueles montículos pitorescos, coleando pelos vales, em cima das esplanadas, bordando veredas e caminhos, estendendo-se cerrado o arvoredo, que entremeia e tece os ramos, numa confusão imensa de folhagens, matiza os seus verdes diferentes e derrama gratamente, por sobre a terra que o nutre, uma sombra protectora e amiga.
Dum deserto fez-se um bosque! Por entre as pedras brotaram acácias e pinheiros; o antigo solo abrasado ostenta hoje carvalhos, engélias, araucárias, rubínias, piteiras… e sobre aquela terra vermelha e tórrida, que escaldava, que feria a vista, estendeu-se um tapete verde de relva fresca e tenra, que nos descansa a retina…
Quanto podem o entusiasmo de um homem, o escorregar vagaroso do tempo, e o forte viço das plantas!
No meio do parque – seu coração – espraiando-se largamente como arena imensa de um coliseu atlântico o Campo Açores. Plano, nivelado, extenso, presta-se magnificamente a todos os jogos, a todos os desportos: tennis, foot-ball, croquet, bilro barra, gymkanas, corridas de velocidade, de resistência, de bicicleta, concursos hípicos, etc.
A um canto, joga-se, muito mal, o Association. Brazileiros e Micaelenses disputam com ardor quem levará a palma da indisciplina, desorientação e falta de sangue frio, qualidades essenciais para aquele jogo, e que ele tanto desenvolve, quando bem dirigido…
Apesar, porém, de todas as incorrecções e faltas, sempre era um protesto vivo contra a atrofiante civilização actual, que condena ao sedentarismo, amolece as funções, fazendo-lhes perder a tenacidade e o vigor, e priva o corpo do ar e do sol.
Como nos lembraram então os ginásios da Grécia, vastos parques em que rijos efebos, nus, tostados pelo sol, alegres de saúde, se exercitavam com entusiasmo nas palestras, sob a clara luz do dia, enquanto outros, já retemperados pelo exercício, se refrescavam no balneário, esfregando-se com estrigil, lubrificando-se com óleos suaves, e mais longe, outros ainda, lestos e contentes, com a boa disposição que segue a hidroterapia, manejavam com subtileza a dialéctica, avançando altas teorias e conceitos profundos ou equilibrando com agilidade sofismas argutos e delicados… ! Tais instituições formavam os mais belos cérebros, sustentados pelos mais nobres corpos, que a Humanidade tem visto! Sabe-se o resultado obtido no ginásio de Reims pelo grande Hébert...

Denis Mota acariciava este plano; mas não se limitavam a isso os seus projectos. Desejava traçar ali avenidas de rodagem, arruamentos para peões, veredas e atalhos nos sítios mais íngremes, propunha-se desbastar o arvoredo, semeado assim compacto com intuitos de protecção e para obviar as recusas tão frequentes das plantas mais delicadas, introduzindo depois espécies mimosas e belas, mas de resistência menor. Ajardinaria uns dois ou três pontos deixando o resto na sua rudeza de mata, convidando às excursões e aos piqueniques.
Junto à casa do Século XX abrir-se-ia um lago (a cargo do mar enche-lo), e construir-se-ia uma piscina. Uns barquinhos, montes de areia aqui e além, algumas redouças e outros brinquedos eram destinados às crianças…
Assim haviam de passar algumas horas de bom ar, paz e simplicidade aqueles a quem a Vida não permitisse gozar o campo nos meses de verão.

O estabelecimento do seu Parque da Alegria (assim tencionava chamar-lhe); a organização da Praia de São Roque, aproveitando a variante da estrada nacional entre São Roque e o Pópulo (chegou a expropriar os terrenos precisos), que viria a proporcionar a Ponta Delgada as vantagens de uma praia, que o acaso verdadeiramente lhe destinou; o aproveitamento da energia da Ribeira dos Tambores, feito paralelamente com a construção da estrada da Ribeira Quente (serviço que deixou começado) - tais foram as três últimas ideias que lhe inflamaram o coração altruísta. “É o meu testamento à minha terra”, disse uma vez, com um sorriso triste nos olhos de veludo.
Dentro de poucos dias, expirava…
Bruno Denis (presumo que seja pseudónimo de alguém próximo) 28-XI-1920


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Piqueniques na "Mata da Doca"; fotos cedidas pela Elsa Santos, uma delas incluída no seu livro:
"Santa Clara: um tempo de festa"
Edição da SREEFP 2002.



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