quarta-feira, maio 11, 2011

 

Outros tempos, outras crises, os mesmos tiques coloniais







Se há coisa com que Portugal sabe lidar com à vontade e ligeireza – basta ler/ouvir os seus responsáveis: de ontem, de hoje e de amanhã – é a bancarrota!
Recuemos algumas “bancarrotas” atrás, para logo depois do “Grito do Ipiranga”, tempo em que Portugal ao perder o manancial vindo do Brasil que lhe permitia fartos “regabofes” – o ouro do Brasil está para o Convento de Mafra tal como o dinheiro da UE para os CCBs e outros luxos perfeitamente dispensáveis da última década do século XX e primeira do século XXI – garantiu a inevitabilidade do “em casa onde não há pão todos ralham e ninguém tem razão”, e logo uma guerra civil (1828/34), seguindo-se a esta um buraco que até final daquele século não mais parou de crescer.
É deste tempo, fruto do primeiro prelo instalado nos Açores, e escrito por Simão Soriano e Bernardo Sá da Nogueira – futuro Marquês de Sá da Bandeira, várias vezes ministro e também Chefe do Governo de Portugal (ambos então emigrados nos Açores, como nos deixou escrito Francisco Maria Supico) – a “Folhinha da Terceira”, em cujo índice de 1832 está bem detalhado o que sobrou do Império depois de “perdido" que estava o Brasil: “Arquipélago dos Açores”, “Arquipélago da Madeira”, Arquipélago de Cabo Verde”, “Bissau e Cacheu”, “Costa da Mina ou S. João Batista da Ajuda”, “Arquipélago da Guiné”, “Costa de Loango, ou Molento e Cabinda”, “Angola e Benguela”, “Governo de Moçambique”, “Estado da Índia”, “Costa da China ou Macau” e “Timor e Solor”.
Nesta mesma publicação, em tom benevolente, algo até galante, porém tipicamente colonialista, pode também ler-se: “O povo dos Açores é em geral de bela aparência, e de muita inteligência e habilidade; tendo as melhores qualidades para o serviço militar. Em breve tempo os Açoreanos aprendem as suas obrigações, são nelas cuidadosos, são asseados, subordinados e briosos (…)”. Não foram referidos, mas seria bom conhecer os termos de comparação, sobretudo no caso da segunda metade da citação.
Depois de descritos os nativos, há também referências ao território, feitas aliás de forma descomplexada (o complexo colonialista aumentou na proporção inversa à redução do Império. Agora é quase blasfemo chamar “Açores” e “Portugal” pelos seus nomes: não falta de imediato quem troque o “Portugal” por “Continente”, como se os Urais fossem logo ali entre Elvas e Badajoz). Atenda-se por exemplo a esta nota geográfica: “Da ilha de São Miguel ao Cabo da Roca, em Portugal, são 210 léguas”.
No documento não poderia faltar – e não faltou – a inventariação dos recursos com que a colónia tinha de nutrir a Capital do Império. E lá se especificava: “O solo destas ilhas é da maior fertilidade; (…) produzem grande quantidade de cereais e legumes de toda a espécie, de batatas, inhames, hortaliças, frutas, vinho e outros géneros: cria-se em grande abundância toda a sorte de gado e aves domésticas, fabrica-se manteiga e queijo, e há bastante lã. (…) Em alguns anos tem-se exportado dos Açores 140 a 150 mil caixas de laranja; 15 a 20 mil moios de cerais; (…); 15 a 20 mil pipas de vinho e aguardente, (…): além destes géneros principais exportam estas ilhas carne de porco, batatas-doces (...), assim como uma considerável quantidade de panos de linho para o Brasil”. Não era pouco, digo eu!
Mas, perdida que estava a grande mina do Império, por mais que espremessem as restantes possessões não houve como evitar o crescimento de uma dívida externa que com o aproximar do final do século XIX atingia já os 75% do PIB, originando assim a bancarrota de 1891 (nota: hoje a divida externa portuguesa é cerca de 100% do PIB).

Aqui nos Açores, por esta altura, adensava e ganhava músculo a campanha autonómico/independentista que culminou no decreto de 2 de Março de 1895, com o surto de desenvolvimento e industrialismo que se seguiu justificando – e merecendo – outra evolução que não o triste fim que lhe foi dado por Salazar, em Fevereiro de 1928, quando ensaiava os primeiros passos da longa ditadura com que nos subjugou.

A.O. 10/05/2011; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado)



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