domingo, março 17, 2013

 

Actual (hoje como ontem)


No meio de uma sociedade indiferente, que se atrofia e definha com as intermináveis espoliações do fisco, nunca é demais um estímulo.
Temos sido demasiadamente brandos. E não basta o protesto de hoje, porque a sangria foi grande; é necessário que não deixemos os governos provocar a seu talante as hemorragias continuadas. Façamos a homostase de uma vez para sempre para que não dêem connosco na sepultura.
O Povo Açoriano, (…), precisa de saber as causas da sua degenerescência, os motivos das suas angustias, as razões da sua fraqueza. Degeneramos, porque nos esgotam com impostos; sofremos, porque não temos tido energia para repelir imposições; somos fracos, porque queremos, porque não há coesão política, porque não nos unimos nas horas de combate e porque temos a ingenuidade de acreditar em promessas do poder central.
(…)
Os governos portugueses há mais de vinte anos que deixaram de desempenhar o papel sublime, a que os obriga a ascensão às culminâncias do poder. Esqueceram-se as noções antigas de economia e moralidade, diminuindo dia a dia o respeito pela lei. As garantias de liberdade foram sofismadas, a podridão de costumes e de caracteres determinou as lutas apaixonadas de uma política demente, resultando de tudo isso o desprezo pelas imunidades populares. Hoje para ser ministro basta saber minar como toupeiras, farejar como cães e ter reputação de talento superior. A experiência, porém, vai demonstrando que para bem governar mais vale o escrúpulo da honradez impoluta do que as transcendências de um talento fenomenal.
Os açorianos estão fartos de discursos e de deficits, de promessas e de asneiras. Parece que o país chegou à inverosímil mas real colisão de ter mais gente talentosa que honrada! É de temer que neste evolucionar da espécie, o cérebro venha a queimar com as suas fosforências as flores delicadas da consciência humana…


Para os que ainda o não notaram – embora ao revisitar “Questões Açorianas” não me saiam da cabeça um sem número de iluminados e predestinados “salvadores da pátria” do Século XXI –, os trechos atrás transcritos, não obstante a sua quase integral actualidade, são da autoria de Gil Mont’Alverne de Sequeira e datam de 24 de Julho de 1891 (quatro anos depois mudou qualquer coisinha). 

A.O. 16/03/2013; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado e com outro título) 



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