segunda-feira, dezembro 06, 2004

 

Com a devida vénia

Excertos de entrevista a Antero de Quental

O que é feito de si?
Bem, apenas digo que não é verdade que tenha comprado um andar no Cacém, máquina de bronzear, Fiat Uno e que ande a ler livros do Lobo Antunes. De relevante apenas o facto de ter pedido desculpas ao tolo do António Castilho (dizem-me que agora é fiscal do tribunal de contas). O resto é a vida.
Segue o movimento literário em Portugal?
Sim o Cesariny e o Luiz Pacheco mandam-me recortes dos jornais. O Eusébio, que era do Benfica, também me manda cópias das novidades poéticas.
Mas continua em actividade?
Sim, mas em territórios modernos. Seguindo exemplos de sucesso,
penso até gerir uma associação de utilidade pública, género clube de futebol ou uma empresa de construção civil que trabalhe em exclusividade para entidades públicas.
Disse futebol?
Claro. O governo dá-me uns milhões do orçamento (nunca fiscalizado) e eu gasto com casas de alterne, algumas drogas, políticos, despesas de campanhas eleitorais, alimento a pior escumalha que existe na ilha, vou nas procissões católicas, apareço na televisão(também são pagos pela manjedoura), arranjo emprego para as amantes, para os amantes dos amigos, aldrabões, deputados, cornos, chulos, homens de bem, padres, médicos, advogados, engenheiros, arquitectos, empresários, pedintes, funcionários públicos, caixeiros, eu sei lá, sou um gestor moderno, um cavaleiro andante, meto-me nesta trampa toda e tenho resultados, aquilo que se chama sucesso. Talvez regional, mas êxito. Até fui condecorado e tratam-me por excelência.
Não percebo...
Oiça, tentei aquilo que se sabe. Não resultou. Ninguém lê poesia, tenho uma sepultura em cima de um centro comercial (nem o cemitério pouparam), o povo e os políticos brutos e rascas..., eu estava deprimido e pensei: se estes gajos conseguem isto, então eu também sei fazer igual. O próximo passo é a hotelaria com fundos públicos e talvez o negócio dos casinos. Aliás, tenho sociedade com o Camilo Pessanha, António Nobre e o Mário de Sá Carneiro (o Junqueiro disse que sim mas está um pouco doente).
E o que vão fazer?
Olhe, vamos abandonar esta treta da poesia.... de uma vez por todas, e tratar da vida. Da vida ! Falámos bem do governo, os gajos dão dinheiro. Estamos em silêncio, os gajos dão dinheiro. Pagamos algumas coisas, mais dinheiro. Nem temos que passar recibo, ninguém fiscaliza. Eles dão e nós damos uma percentagem para as campanhas: é futebol, turismo, construção civil, consultadorias, publicidade, o raio que os parta. Até pagamos a jornalistas, artistas, homens da cultura, gente de opinião. Uma verdadeira democracia....Não, não é ironia, é apenas aquilo em que a minha terra se tornou.
E a poesia ?
Não sei. Juro que não sei.
António João Correia. in RESISTIR http://resistir.blogspot.com




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