terça-feira, dezembro 07, 2004

 

Constância

Noutro tempo, em outras circunstâncias, seria com um “apito negro” – cor do basalto – que enchia, hoje, esta coluna. Não quero! Vou continuar resistindo, calado. Mesmo que, para assim proceder, tenha que ocupar o espírito doutra forma, regra geral bem mais sadia. Por exemplo: lendo quase de uma só tirada as “Farpas” do Eça de Queirós que Maria Filomena Mónica recentemente nos proporcionou, e cujo parcial proveito, aproveito, para “ainda em quente”, convosco partilhar.

“Portugal, não tendo princípios, ou não tendo fé nos seus princípios, não pode propriamente ter costumes. Com uma política de acaso, com uma literatura de retórica e de cópia, com uma legislação desorganizada, não se pode deixar de ter uma moralidade decadente.
Fomos outrora o povo do caldo da portaria, das procissões, da navalha e da taberna. Compreendeu-se que esta situação era um aviltamento da dignidade humana: fizemos muitas revoluções para sair dela. Ficámos exactamente em condições idênticas. O caldo da portaria não acabou. Não é como outrora uma multidão pitoresca de mendigos, beatos, ciganos ladrões, caceteiros, carrascos, que o vai buscar alegremente, ao meio-dia, cantando o Bendito; é uma classe inteira que vive dele, de chapéu alto e paletó.
Este caldo é o Estado. (…)”


Eça mantém-se actual. Há de facto coisas que não se alteram. Para melhor; claro!
Mais palavras para quê? Talvez apitos. Negros!
Do próprio. In Açoriano Oriental/Cónicas do Aquém



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