terça-feira, dezembro 30, 2008

 

Entre Natal e Ano Novo


Neste tempo de cruéis hipocrisias e oportunas filantropias, regressei ao “Jantar do Bispo”.
Como nestes dias de rotinas alteradas eu mantenho as minhas, foi no sítio de costume – após o café de costume, lido que estava, como de costume, o jornal do dia, e quando, já pronto para minutos depois, à hora certa, aprazada, iniciar o trabalho previamente combinado – que um acaso me proporcionou o bom reencontro.
Não contava – não lhe era habitual – com a demora a que o parceiro de jornada me sujeitou. Males que vêem por bem, pois, irrequieto com a espera, reparei que sobre a mesa grande, encimando uma pilha de outros livros, estava o “Contos Exemplares”, de Sophia, onde se desfruta o “manjar”, que não canso repetir. Na hora, para consumir a delonga, mais não pretendia do que lhe dar uma outra rápida “passagem de olhos”. Mas, quiçá atendendo à quadra, ou por ser tão compacto o manancial de génio ali ao dispor, a minha atenção, como que teleguiada por entre aquela poética prosa, retinha-se invariavelmente em excertos que ganhavam especial relevo, realçando, com polida crueza, “a careca nua” de uns quantos.
Anotei. Partilho:

Sobre o justo mas desalinhado pároco;
(…) a fome escrita na sua cara não era hereditária, mas sim voluntária. Ele rejeitara o seu lugar entre os ricos e tomara o seu lugar entre os pobres.”

Do pedante e entufado patrono;
“Estas notícias não entusiasmavam o Dono da Casa. Porque ele costumava dizer: «Todo o poder vem de Deus». E pensava que um padre devia por isso respeitar todo o poder estabelecido e respeitar o dinheiro e a importância social, expressões do poder.”
“Ele tinha uma fé firme e sem dúvidas, baseada não nos Evangelhos, que nunca lera, mas sim na sua boa educação e no seu respeito pelas coisas estabelecidas.”
“ E sobretudo – ai!, sobretudo – os retratos do Dono e da Dona da Casa, rosados e estilizados, sentados num cadeirão torcido, ao lado de um jarrão da China, contrastavam amargamente com os retratos secos e sombrios dos antepassados. Mas o Dono da Casa não dava por este contraste e gostava de se ver, rosado como um fiambre (…)” “E também os quadros ali expostos tinham mudado de proprietário juntamente com as casas e as quintas. Os quadros, porém, além de mudarem de proprietário, tinham mudado também de descendência.”


Voz da plebe, rude, genuína;
– Nos tempos que correm – disse a cozinheira – já não há Deus nem o Diabo. Há só pobres e ricos. E salve-se quem puder.”

***

Já agora, socrasticamente falando, aqui ficam votos de boa navegação pelo “Cabo das Tormentas”, e que rapidamente alcanceis a boa esperança.

A.O. 30/12/08; “Cá à minha moda” (Revisto e muito acrescentado)



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