terça-feira, março 16, 2010

 

Lusitânia: aproveitar para recordar


Emblemas originais; USEC/CUS (1921/22), S. C. Lusitânia (1922), CDSC (1927), realçando-se a curiosidade de os dois clubes com afinidades ao Sporting, o União Sportiva e o Lusitânia, apresentarem uma águia (em rigor, um açor) no emblema, e aquele que seria mais tarde delegação do Benfica, um leão.

As últimas notícias, felizmente, reforçam a confiança de quantos alimentam a esperança do Sport Clube Lusitânia vir a encontrar uma saída para a dramática situação em que o se viu envolvido nos últimos anos. Uma esperança que, pelo menos no meu caso, é inversamente proporcional à vontade de ver esquecidos (o que mais quero é vê-los disseminados) os ensinamentos a retirar das graves consequências do desvario, da irresponsabilidade, do oportunismo, da leviandade, e até, como no caso do Santa Clara já se provou, da vigarice e do roubo, males que assolaram num passado recente – deixando marcas, vícios e hipóteses de trapaça para as quais não vai faltando quem persista no aproveitar – os dois principais emblemas desportivos dos Açores. Esbulho com alguns autores materiais já identificados, mas muitos, muitos mesmo, autores morais, cúmplices, e/ou outros responsáveis, gente que continua fingindo nenhum comprometimento ter tido no processo com a mesma desfaçatez com que, durante anos a fio, mantiveram “ouvidos moucos” aos avisos à navegação que alguns – poucos diga-se de passagem – nunca deixaram de emitir.
E porque a trapaça e intrujice é sempre reprovável – não só quando se trata de bens fiduciários –, nunca é demais recordar que a honra e glória das instituições provém, em regra, da longevidade do seu percurso, dos êxitos que as mesmas acumulam ao longo deste, mas também da seriedade e verdade com que se pauta e escreve o seu historial.
Os factos são factos, e ao contrário do que por vezes se diz, repetir uma mentira nunca a transforma em verdade. Bem pelo contrário, o prolongar de qualquer farsa retira sempre credibilidade a quem insistir em mantê-la, bem como espaço de manobra aos que, por estarem de boa fé, apenas necessitam obter o conhecimento necessário que lhes permita corrigir os efeitos de uma mentira intencionalmente imposta, o que nunca devia ter acontecido, e, sobretudo agora, não faz qualquer sentido manter. Aqui fica um naco de história.
Aproximava-se a primavera do ano de 1922 quando o grupo dirigente do Instituto de Educação Física deu início aos melhoramentos no Campo Açores, recinto onde em Maio daquele mesmo ano, por ocasião das festas do Senhor Santo Cristo, se haveria de disputar uns célebres jogos entre micaelenses e terceirenses, sendo o grupo visitante, orientado por Bernardo Noronha, dirigido por Clemente Pamplona assim constituído: Machado Ávila, Jorge Soeiro Borges - Capitão -, Machado Freitas, Antóio Tavares, Alvaro Silva, José Pimentel, Amadeu Simões, Santos Nascimento, Malequiades Silveira, Tomaz da Silva, Correia de Lima, Inácio Pereira e Ferreira Neves. No grupo dos micaelenses, entre muitos outros (José Tavares, Jaime da Costa, José da Costa, Torrão, Manuel Rodrigues, Pereira Gomes, Manuel de Jesus - o madeirense -, Moisés, António da Cunha, Eduardo Costa, Egídio Costa e Alberto Castro), encontrava-se o jovem alferes José Joaquim de Souza, então já referido como “distinto sportsman” e à época responsável no IEF pelo futebol. Retribuindo a visita ocorrida no mês anterior, em Junho de 1922, por ocasião das festas de S. João de Angra, os “micaelenses” deslocam-se à Terceira, onde no Campo do Relvão tiveram lugar os jogos de futebol programados para a “desforra” das copiosas derrotas que os "terceirenses" averbaram no Campo Açores. Por esta altura (22 Junho de 1922), quiçá em consequência destes acontecimentos, mas com certeza como corolário da grande movimentação futebolística naquele e nos anos imediatamente anteriores verificada um pouco por todos os Açores, nasce o Lusitânia. Pouco depois, no início de Agosto de 1922, em Assembleia-geral para tal convocada, a União Sportiva dos Empregos do Comércio (USEC) alterou a sua designação para Clube União Sportiva (CUS). Na ocasião, José Joaquim de Souza, que entretanto já havia rompido com o IEF, tornara-se uma importante peça da organização futebolística do CUS. Alguns meses depois, no início de Outubro de 1922, mais uma vez com José Joaquim de Souza como pólo dinamizador, aconteceu a apresentação pública do Santa Clara Foot-ball Club, o primeiro dos “Santa Clara” com expressão fora do bairro. Só muitos anos depois aparece o Sport Club Santa Clara, e mais tarde ainda, entre a Primavera e o Verão de 1927, apadrinhado pelo Capitão Eduardo Reis Rebelo e alguns dos seus amigos e companheiros de armas (tenente João Joaquim Vicente Jr., João Baptista Rodrigues, Lúcio Agnelo Casimiro, Manuel Inácio de Sousa, Amável de Medeiros Casanova, e outros), nasce então Clube Desportivo Santa Clara, o terceiro e último dos “Santa Clara” federados, e aquele que chegou aos nossos dias.

Sei que estas, tal como outras, noutras ocasiões proferidas, são verdades incómodas. Porém são verdades!

A.O. 16/03/10; “Cá à minha moda" (Revisto e acrescentado)



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