terça-feira, abril 12, 2011

A festa continua





Chamam-lhe crise. Qual crise qual carapuça: festa é festa, e continua.

O fim-de-semana que passou foi disso bom exemplo. Festa em Matosinhos, e no Funchal. E que festas. Não sei se houve fogo-de-artifício no final, mas teatro – com excelentes encenações diga-se de passagem –, palcos bem compostos, luzes de ribalta muito bem dirigidas e focadas, coros afinados – Ana Gomes destoou, mas ainda bem, nada como haver alguém que quebre a monotonia, mesmo que seja a horas impróprias – e, até, nem faltaram jograis. Tanta festa – e as que estão para vir – mais não são do que uma nova “season de caça ao voto” a ter início. Só que começa a faltar público. Ou melhor dito: o público começa a ficar impaciente, a demonstrar descrença. E um público impaciente, descrente, sobretudo quando de “barriga vazia” é capaz de tudo, até de acabar com o espectáculo.

Dizem que a História não se repete. Não acredito: só a mesma água não passa duas vezes por baixo da mesma ponte! As guerras hoje são outras, mas também nisso a diferença não é muita: a La Lys dos nossos dias bem pode estar no Afeganistão ou na Líbia, com as trincheiras 1917 substituídas por “Hummeres” e F16”.

Quase um século depois, pelo menos ao nível da tão maquiavélica quanto interesseira disputa partidária; da miserável cifra com que se enuncia o PIB – já com zeros à esquerda –; e até da ameaça de “banca rota”, são muitas as semelhanças entre os tempos de hoje e as próximas e/ou correspondentes décadas do século XX.

Oxalá que estas se esgotem por aqui pois Sidónios e Antónios são perfeitamente dispensáveis!

Para não lembrar coisas ruins, voltemos então “às festas” e àquilo que de positivo se possa, ou não, delas retirar.

Desconfio daquela exagerada unidade de Matosinhos. Não comparando, pareceu-me as declarações de apoio indefectível que as direcções dos clubes de futebol costumam fazer na ante véspera da “chicotada psicológica” com que justificam a dispensa do treinador. Quer-me parecer que “mais jogo menos jogo” – e nisso os maus resultados não costumam perdoar – vai haver mudança de comando, e, quase apostaria, o substituto será um dos mais exuberantes dos efectivos apoiantes do “actual treinador”. Uma coisa é certa, não há “toque a reunir”, nem excelência de marketing comunicacional, que esconda as muitas falhas e contradições que já corroem o grupo: desmentir de um dia para o outro o “esgotado” Ministro das Finanças foi só mais um episódio.

Mas como há disputa entre festas, a do Funchal não quis ficar atrás, e entre, outras trouxe uma novidade: o modelo “Ilhas do Canal”.

Boa. Agora que João Jardim colocou uma etapa intermédia entre a “Autonomia Constitucional” e o “Estado Federado” resta aguardar para ver o desenvolvimento dos próximos episódios. Para já, Passos Coelho ou não percebeu ou então fez-se desentendido: “o PSD não tem uma visão desconfiada das autonomias, nem nenhuma reserva quanto ao seu aprofundamento”, disse, como se fosse a primeira vez que do PSD se tenha ouvido tal . Uma novidade!

No que à evolução de autonomia diz respeito, nada como ser claro: pedir Independência.

E nisso os Açores já vão na dianteira. Até quero crer que a nomeação do novo representante da Republica Portuguesa – um Embaixador, para mais, com experiência considerável pois foi ele o responsável pela transição da última parcela do “ex-império” para fora da esfera da soberania portuguesa – é um bom prenúncio.

Costuma dizer-se que as crises são também tempo de oportunidades: há que saber aproveitá-las.

A.O. 12/04/2011; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado)

terça-feira, março 29, 2011

Santa Clara, “Mata da Doca”, Campo Açores


Recorte do "Sport dos Açores", 1924 ............"Mata da Doca", ainda com as araucárias

Santa Clara Foot-ball Club, Out 1922........ Sport Club Santa Clara (?1927?)

Clube Desportivo Santa Clara 1948/49........ Equipa das Cancelas (Loja do Capinha) 1972

Santa Clara não foi só “o berço” de Ponta Delgada. Embora em outro patamar, foi também “creche” e “jardim-de-infância” do futebol micaelense. Disso nos deu conta António Kopke Ayalla, em 1924, nas páginas do “Sport dos Açores”, Semanário Desportivo Ilustrado do qual foi director, ao remeter para 1895, nas “pedreiras da doca” (Mata da Doca, mais tarde Campo Açores), os primeiros jogos de futebol com bola apropriada. O luxuoso objecto, uma câmara-de-ar esférica revestida com pedaços de a couro bem cosidos uns aos outros, naqueles derradeiros anos do século XIX mandado vir de Inglaterra pelo “Padre James” do Colégio Fisher, tinha acabado de chegar à ilha para gáudio do próprio António Kopke Ayalla (filho de um, e parente próximo de outro, dos responsáveis pela construção do porto de Ponta Delgada) e de outros jovens alunos daquele estabelecimento de ensino, pioneiros entre nós na prática da modalidade. Um quarto de século depois de Santa Clara ter sido palco daqueles que foram os primeiros pontapés num cautchú em São Miguel, quando entretanto o Campo Açores já havia deixado de ser local de acantonamento “dos americanos” que passaram os últimos tempos da I Grande Guerra em Ponta Delgada (Fevereiro de 1918/Setembro de 1919), viviam-se então quer nas “Cancelas da Doca” quer na “Mata da Doca” alguns dos momentos altos dos “Campeonatos de Santa Clara”, o Campo Açores saltou de novo para as primeiras páginas por via do muito mediatizado desafio efectuado pelo team brasileiro, com o Sport Club Terror, com fortes afinidades a Santa Clara, assumindo as “honras da casa”.

O jogo brasileiros vs açorianos deu origem a um soberbo texto (CA 28 de Novembro de 1920) assinado por Bruno Dennis – possível pseudónimo de alguém próximo de Diniz Moreira da Motta, talvez Rolando Viveiros, mas com grande probalidade Agnelo Casimiro – cuja leitura é imperdível.

Ora vejamos:

.Domingo. O burguês deixa os asfaltos…

Lembrou-nos Heine.

Dia lindo, ar fresco e lavado, luz doirada convidando-nos à acção. Quebre-se no dia do Senhor a monotonia pungente do viver angustioso destes tempos, dando tréguas às suas preocupações constantes: o futuro da família, da nação, da sociedade! …

E como o Correio dos Açores tivesse anunciado um desafio de foot-ball entre Brazileiros e Micaelenses – excelente pretexto – enveredamos pela Rua Formosa além.

Desapareceram as antigas Pedreiras da Doca?

Por sobre aqueles montículos pitorescos, coleando pelos vales, em cima das esplanadas, bordando veredas e caminhos, estendendo-se cerrado o arvoredo, que entremeia e tece os ramos, numa confusão imensa de folhagens, matiza os seus verdes diferentes e derrama gratamente, por sobre a terra que o nutre, uma sombra protectora e amiga.

Dum deserto fez-se um bosque! Por entre as pedras brotaram acácias e pinheiros; o antigo solo abrasado ostenta hoje carvalhos, engélias, araucárias, rubínias, piteiras… e sobre aquela terra vermelha e tórrida, que escaldava, que feria a vista, estendeu-se um tapete verde de relva fresca e tenra, que nos descansa a retina…

Quanto podem o entusiasmo de um homem, o escorregar vagaroso do tempo, e o forte viço das plantas! No meio do parque – seu coração – espraiando-se largamente como arena imensa de um coliseu atlântico o Campo Açores. Plano, nivelado, extenso, presta-se magnificamente a todos os jogos, a todos os desportos: tennis, foot-ball, croquet, bilro barra, gymkanas, corridas de velocidade, de resistência, de bicicleta, concursos hípicos, etc.

A um canto, joga-se, muito mal, o Association. Brazileiros e Micaelenses disputam com ardor quem levará a palma da indisciplina, desorientação e falta de sangue frio, qualidades essenciais para aquele jogo, e que ele tanto desenvolve, quando bem dirigido…

Apesar, porém, de todas as incorrecções e faltas, sempre era um protesto vivo contra a atrofiante civilização actual, que condena ao sedentarismo, amolece as funções, fazendo-lhes perder a tenacidade e o vigor, e priva o corpo do ar e do sol.

Como nos lembraram então os ginásios da Grécia, vastos parques em que rijos efebos, nus, tostados pelo sol, alegres de saúde, se exercitavam com entusiasmo nas palestras, sob a clara luz do dia, enquanto outros, já retemperados pelo exercício, se refrescavam no balneário, esfregando-se com estrigil, lubrificando-se com óleos suaves, e mais longe, outros ainda, lestos e contentes, com a boa disposição que segue a hidroterapia, manejavam com subtileza a dialéctica, avançando altas teorias e conceitos profundos ou equilibrando com agilidade sofismas argutos e delicados… !

Tais instituições formavam os mais belos cérebros, sustentados pelos mais nobres corpos, que a Humanidade tem visto! Sabe-se o resultado obtido no ginásio de Reims pelo grande Hébert...


Denis Mota acariciava este plano; mas não se limitavam a isso os seus projectos. Desejava traçar ali avenidas de rodagem, arruamentos para peões, veredas e atalhos nos sítios mais íngremes, propunha-se desbastar o arvoredo, semeado assim compacto com intuitos de protecção e para obviar as recusas tão frequentes das plantas mais delicadas, introduzindo depois espécies mimosas e belas, mas de resistência menor. Ajardinaria uns dois ou três pontos deixando o resto na sua rudeza de mata, convidando às excursões e aos piqueniques.

Junto à casa do Século XX abrir-se-ia um lago (a cargo do mar enche-lo), e construir-se-ia uma piscina. Uns barquinhos, montes de areia aqui e além, algumas redouças e outros brinquedos eram destinados às crianças…

Assim haviam de passar algumas horas de bom ar, paz e simplicidade aqueles a quem a Vida não permitisse gozar o campo nos meses de verão.


O estabelecimento do seu Parque da Alegria (assim tencionava chamar-lhe); a organização da Praia de São Roque, aproveitando a variante da estrada nacional entre São Roque e o Pópulo (chegou a expropriar os terrenos precisos), que viria a proporcionar a Ponta Delgada as vantagens de uma praia, que o acaso verdadeiramente lhe destinou; o aproveitamento da energia da Ribeira dos Tambores, feito paralelamente com a construção da estrada da Ribeira Quente (serviço que deixou começado) – tais foram as três últimas ideias que lhe inflamaram o coração altruísta.

“É o meu testamento à minha terra”, disse uma vez, com um sorriso triste nos olhos de veludo.

Dentro de poucos dias, expirava…” .


Este é, ou não um autêntico hino à “Mata da Doca”, ao Campo Açores, e, claro, a Diniz Moreira da Motta?

A.O. 29/03/2011; “Cá à minha moda" (revisto e muito, muito acrescentado)

terça-feira, março 15, 2011

Nem sempre o Carnaval são só três dias




Este foi um Carnaval diferente. Não, não me refiro ao carismático assalto que já acontecia vai para duas dezenas de anos, algures no Pico da Pedra, que este ano não se realizou. Aludo sim a um Carnaval longo, extenso demais, cuja também excepcional quaresma, esta sim, foi de três dias: a Quarta-feira cinzenta, do desagravo; a Quinta-feira tagarela, da censura; a Sexta-feira dolorosa, de mais um PEC. Ainda bem que logo de seguida houve um Sábado libertador, de protesto, de manifestação, de alegria. Aleluia! Levemos a preceito as três epístolas desta liturgia pós carnavalesca. Primeira. A da Quarta-feira do desagravo. Vindo de um pré vitoriano, que de si próprio dizia não ler jornais, nunca ter dúvidas e raramente se enganar, confesso que até concordei com a resenha. O que já não entendo foi a demora de Sua Excelência o Presidente da Republica dos portugueses em chegar àquelas conclusões. É que, bem vistas as coisas, nos últimos tempos (o último ano e meio, vá lá) a grande diferença verificada não foi ao nível da condição económica, nem de governação, mas sim na da sua situação pessoal: de pré candidato, antes, de candidato, depois, e agora de PR eleito. Quer dizer – mesmo que como conclusão precipitada: a preocupação de S. Excelência com os limites dos sacrifícios exigidos ao “pagode” (agora e antes) foi/é bem menos importante do que aquela que dedicou à sua estratégia eleitoral. Será que valerá a pena nascer duas vezes? Segunda. A da Quinta-feira tagarela. O resultado era fácil de adivinhar. Nem espantou que a ocasião fosse bem aproveitada para mais uma vez nos impingirem as putativas vantagens de ter um predestinado na chefia do governo. Já cansa, e ninguém acredita. A surpresa, esta, chegou no dia seguinte, quando, desta vez sem que o tempo funcionasse como amortecedor da incongruência, se fez jus a uma sentença desde há muito aceite pelo “futebolês”: “o que hoje é verdade amanhã pode ser mentira”. E foi! Terceira. A da Sexta-feira de mais um PEC. E neste corrupio, em louvor do Anjo (que como se sabe não têm sexo) Merkel, entidade agora mais venerada que Nossa Senhora das Dores em época Quaresmal, sem compaixão nem vergonha (como se na véspera se não tivesse “vendido” um mundo cor-de-rosa), eis que nos mandam apertar mais furos num cinto já a um palmo da fivela. Acabar com as mordomias de uns quantos, com o regabofe de outros tantos, com os privilégios e desperdícios de tantos mais, NÃO, porque não dá jeito! Cortar às cegas em quem já tem pouco, e fazer pagar caro quem já tem mais mês que ordenado, SIM, e a eito! A aleluia chegou no Sábado. É certo que o protesto no imediato vai resolver pouco, mas consola a alma. Estão “à rasca”, mas parvos não são.

São inquietos e irrequietos. Ainda bem. Sabem que ganham uns precários “quinhentos” quando outros da sua idade, quais Ruis Pedros Soares, só por serem servis e obedientes ganham cem vezes mais. Tal como sabem, também, que não é o “surfar a sua onda”, nem o comunicar por “facebook”, aquilo que pode levar outros agora tão prontos a identificarem-se com a genuína indignação que os move. Estão “à rasca”, mas parvos não são.

Começam a descobrir as virtudes da participação, da acção, da contestação, e fizeram-no de forma extraordinariamente empenhada, civilizada, com altíssimos níveis de tolerância e pedagogia. Estão “à rasca”, mas parvos não são.

Situam-se muito mais próximos da cidadania altruísta do que partidocracia ambiciosa, egoísta e calculista que está na origem do actual estado de coisas. E isto é bom. É muito bom. Mau será se estes sinais não forem convenientemente interpretados.


A.O. 15/03/2011; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado)

terça-feira, março 01, 2011

Mar dos Açores: uma das chaves para a nossa independência




Com a Universidade dos Açores como palco, e “Os Açores na estratégia do mar – perspectivas económicas e de segurança” como tema, o Mar dos Açores andou recentemente de novo na berlinda. Não obstante a numerosa assistência, “casa cheia” não deixou de evidenciar significativas ausências. Algumas “de peso”! É que falar dos Açores não significa necessariamente fazer a sua defesa, nem são “os outros” aqueles que, usando e abusando da atitudes paternalistas, nos devem impingir aquilo que supostamente julgam ser o melhor (para eles) para nós.
Nos Açores nada muda como o tempo. Pena é que há coisas que nem mesmo o tempo as mude!
Desde a terceira década do século XV plataforma geoestratégica para exploração e submissão de uns e outros, agora que das Índias já não vêem especiarias, nem do Brasil ouro e madeiras preciosas, tampouco das possessões africanas “mão de obra escrava”, petróleo e diamantes, aproxima-se o momento de nos Açores o desaforo também acontecer ao nível da exploração dos recursos inorgânicos, minerais e outros.
Não me canso de repetir, mas nestas ocasiões – eu que prefiro, e procuro sempre que possível, o caso de Cabo Verde – é o exemplo de Timor Lorosae que me ocorre. Um exemplo que ganha especial significado, agora, quando aquele antigo território português, um jovem país altamente carenciado, ainda a dar os primeiros passos, passou como que por milagre de frágil “meia ilha” dependente a potencial comprador de divida soberana portuguesa. Quem é que se recorda de em Timor, enquanto esteve sob posse portuguesa, ouvir falar no petróleo que sob o seu mar existia?
Não interessava falar disso, e, interessando, era só a alguns.
Aqui nos Açores não é muito diferente. A nossa posição geoestratégica tem sido sistematicamente subvalorizada, não é que seja esta a real situação, mas porque importa não tornar evidente o muito que Portugal ganha “por nossa conta”, para com isso poderem persistir e ampliar o mito de que são os impostos dos portugueses aquilo que nos sustenta.
A verdade é que a importância geopolítica e estratégica dos Açores tem um valor incalculável, grandeza que nem Portugal, por inépcia, dela beneficia convenientemente!
Alguém poderá quantificar o valor de ter portos e aeroportos seguros a um terço da distância entre a costa ocidental da Europa a costa oriental da América do Norte? Neste contexto, quanto não vale a posição privilegiada dos Açores no apoio às comunicações marítimas e aéreas do Atlântico Norte? Ou ainda, quanto vale controlar o enorme espaço aéreo e marítimo que nos rodeia, correspondente, sem sombra de dúvidas, à maior ZEE da União Europeia?
Só as respostas a estas questões, sobretudo quando comparadas com o PIB/Açores, contribuiriam para desfazer mitos que a muitos interessa perpetuar.
Mas esta é apenas uma parte.
Agora – começa a ser mais comummente conhecido o que desde há muito se fala em surdina – não é só a posição geoestratégica dos Açores aquilo que está a ser alvo de cobiça e domínio neo-colonial. Com a enorme extensão marítima dos Açores acolhendo um património natural único, e as suas profundezas repletas de recursos cujo valor aumenta a cada dia que passa, é também a mais valia incalculável que representam os direitos soberanos sobre esta riqueza: o prospectar, explorar, conservar e gerir o dito “petróleo dos Açores” – o nosso mar, o seu fundo e respectivo subsolo (com isso fazendo render recursos de capital importância) –, aquilo que nos permite encarar com optimismo a sustentabilidade de um país livre e independente: os Açores.
Ou não fossem estes préstimos só sublimados por uma nação soberana, tal como acontece agora com Timor!

A.O. 01/03/2011; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado)

terça-feira, fevereiro 15, 2011

O estado a que isto chegou


"Clike" sobre a imagem para a aumentar
.
1 – Cavaqueira em dia
C
avaco ganhou. Bom para ele. A questão é que, atendendo à fragilidade da sua vitória, ainda estou por perceber o entusiástico alvoroço com que alguns a celebraram.
Quer os muitos milhões de elitores que pura e simplesmente ignoraram os dramáticos apelos de Cavaco para irem às urnas, quer, sobretudo, a escassíssima margem com que foi conseguida uma vitória por regra fácil, em condições normais – julgo eu – recomendariam mais preocupação do que gáudio. Não faltaram porém impulsivos festejos. Custa a perceber! Ou, aliás, perceber, percebe-se: houve que aproveitar, mesmo tratando-se de uma vitória de Pirro!
Daquela noite, para além de um discurso de vitória embebido em bílis, ficaram ainda outras duas fortes impressões.
Primeira: a convicção de que se metade dos votos em branco tivesse ido parar à “cartola de um qualquer coelho” o fadário cavaquista não ficava resolvido logo ali.
Segunda: a imagem quixotesca de uns eufóricos “vivas ao PSD”, deixando atónito um parceiro de empreitada – não de partido – ali tido como mero figurante.
.
2 – Matadouro: insistir no presente envenenado
F
inalmente o tribunal decidiu. Felizmente a decisão não foi favorável a quem se prontificou oferecer aquilo que não tinha a certeza lhe pertencer. Por sinal, os mesmos que, por outro lado, teimam em não “abrir mão” naquilo que por direito podem, e devem!
Tão ou mais esquisito foi assistir ao insistir nas “ofertas envenenadas”. Bondade não é com certeza! Assim fora, e bem mais fácil do que instigar “boas vontades alheias” seria mimosear ofertando aquilo que é desejado (o Centro Cultural de Santa Clara e a forma como é gerido), ou, simplesmente, cumprir aquilo que há muito anda a ser adiado: a questão da 2ª Rua de Santa Clara (é só mais um exemplo).
A requalificação da zona do “Matadouro”, uma área bem maior do que parece, é muito importante para Santa Clara. Importante e urgente. Claro que não será outro “Açores Arena” aquilo que mais falta faz à freguesia. Resolver "o Matadouro” deverá ser também uma oportunidade para intervir urbanisticamente em Santa Clara (é bom não esquecer que a Canada da Carreira do Tiro só é “beco sem saída” porque entronca com "o Matadouro”), e a ocasião não pode ser negligenciada!
.
3 – Com este Estado nem depois da morte há paz
V
ai ficar conhecida como a “idosa da Rinchoa”. A senhora faleceu, depois dela faleceram também os seus fiéis companheiros de solidão: um cão e dois pássaros, amigos que a acompanharam para além do fim, num degredo pós morte que durou quase uma década. O que só por si já foi desumano o quanto baste, ganhou ainda maior impiedade ao conhecerem-se as razões que levaram à descoberta do cadáver.
- Os vizinhos estranharam a ausência da senhora, procuraram as autoridades. As Polícias amesquinharam a preocupação demonstrada: o Estado falhou!
- Os familiares igualmente deram pela falta da parente desaparecida. Procuraram quem de direito. A Justiça ignorou-os: o Estado voltou a falhar!
- Os impostos também foram parar a uma porta há muito fechada, procurar quem os liquidasse. Os mortos não abrem a correspondência, mas isso não deteve as Finanças: a casa foi para a penhora; a sua venda foi efectuada; os impostos foram pagos – sem que devolvessem à falecida a parte remanescente –, e só então a cidadã até ali ignorada, depois de passar por contribuinte incumpridora, foi finalmente encontrada. Os cobradores de impostos não falharam. O Estado, este, mais uma vez, falhou. E de que maneira. Vá de retro séquito cego, cruel e hediondo.
Há quem lhe chame Estado Social. Eu cá digo que é o estado a que isso chegou!

A.O. 15/02/2011; “Cá à minha moda" (revisto e ligeiramente acrescentado)

terça-feira, fevereiro 01, 2011

O 31 Janeiro e o Clube Desportivo Santa Clara



Quatro dos seis paineis que podem ser visitados no Aeroporto João Paulo II integrando a mostra: Santa Clara . Século XXI - 75 Anos no Nº21 da Travessa dos Mártires da Pátria (hoje Rua Comandante Jaime de Sousa)
Clikando aumentam

A 31 Janeiro de 1935, depois de, qual caracol, o Clube Desportivo Santa Clara durante os seus primeiros oito anos de vida ter ocupado outras tantas sedes, foi oficialmente inaugurada, no nº21 da então Travessa dos Mártires da Pátria – hoje Rua Comandante Jaime de Sousa – aquela que desde então se mantém como a sede do actual maior clube de futebol dos Açores.
Se a coincidência de oito anos / oito sedes dá uma média de ocupação correspondente a uma sede por ano, a realidade é bem diferente do que à primeira vista aparenta, pois a permanência efectiva do Clube Desportivo Santa Clara em cada uma das sedes por onde passou variou de pouco mais de um mês (Rua do Brum; Junho e Julho de 1927, e Rua de Lisboa; Junho e Julho de 1931) a mais de 24 meses (Rua Luís Soares de Sousa; Julho de 1927 a Novembro de 1929, e 2ª Rua de Santa Clara; Março de 1932 a Maio de 1934).
Para uma melhor compreensão desta itinerância, aqui fica a relação cronológica detalhada das sedes usadas pelo Clube Desportivo Santa Clara ao longo dos seus primeiros oito anos de vida:
Rua do Brum, 38 (Junho e Julho de 1927); Rua Luís Soares de Sousa, 41 (de Julho de 1927 a Novembro de 1929); Travessa da Conceição – em partilha com a LDM (Novembro de 1929 a Junho de 1931); Rua de Lisboa – em partilha com o Sport Club Santa Clara (Junho e Julho de 1931); Rua Direita de Santa Clara (de Julho de 1931 a Março de 1932); 2ª Rua de Santa Clara (de Março de 1932 a Maio de 1934); Rua Machado dos Santos, 43 (de Maio a Dezembro de 1934) e Travessa dos Mártires da Pátria, 21 (inaugurada oficialmente a 31 Janeiro de 1935).
Em 1936, no ano seguinte, naquela em que pela primeira vez no Clube Desportivo Santa Clara se associou o 31 de Janeiro a um aniversário, em brilhante festa que reuniu ilustres convidados, foi comemorado o primeiro aniversário da “nova sede”: fez ontem exactamente 75 anos!
*
Outra importante celebração de “bodas de diamante” no Clube Desportivo Santa Clara ocorrerá ainda durante este ano, a 25 Junho, altura em que decorrerão os 75 anos da eleição do Sr. Diniz José da Silva, terceiro presidente da Direcção do Clube Desportivo Santa Clara, um nordestense de rija tempera que dando continuidade à longa passagem do Capitão Eduardo Reis Rebelo pela direcção do clube (1927/1935) e à do Dr. Alberto Paula de Oliveira que se lhe seguiu (1935/36), apesar de receber o Clube Desportivo Santa Clara numa difícil situação financeira, com “vistas amplas” e grande capacidade de gestão e organização, rasgando horizontes, foi o principal responsável pela abertura que o já então clube de futebol dos Açores com maior número de associados passou a dar a outras actividades para além das desportivas – Excursões, Música, Dança –, dotando-o de hábitos e meios com os quais foi possível mais tarde criar um importante grupo dramático, e com o Teatro, resistir, subsistir, e até reforçar-se, enfrentando os difíceis tempos que se seguiram, numa altura em que até a Associação de Futebol se refugiou na sede do Clube Desportivo Santa Clara, nela ficando como inclina para além de Julho 1942 / Abril 1945, período em que o futebol oficial esteve inactivo em São Miguel.
Usando recorrentemente como bordão de oratória apelos à Verdade e à Justiça, é de Diniz José da Silva, inserta numa publicação do Clube Desportivo Santa Clara distribuída aos sócios na década de sessenta a propósito de um dos aniversários, uma frase que tenho sempre presente nestas ocasiões:
(…) Não é tarefa difícil falar do Santa Clara. E não o é, porque a sua história poderia dar, à vontade, matéria para mais de um livro, desde que quem o quisesse escrever partisse desta premissa: VERDADE E A JUSTIÇA”.
Por integrar desde a primeira hora as hostes do Clube Desportivo Santa Clara, e por ter acompanhado mais ou menos de perto a vida dos dois “Santa Claras” antes do Clube Desportivo Santa Clara filiados na Associação de Futebol, é fácil perceber como Diniz José da Silva sabia do que falava, e o quanto tinha razão – o que se mantém!

A.O. 01/02/2011; “Cá à minha moda" (revisto e ligeiramente acrescentado)

terça-feira, janeiro 18, 2011

Negócios soberanos




Recentemente, Sócrates e Teixeira dos Santos, ambos ufanos, quase eufóricos – ainda não chegou o PEC que os obrigue a cortar em gestão de imagem e “spin doctors” –, revezaram-se em antena publicitando o “grande sucesso” do dia: a colocação de 1.250 Milhões de euros da divida soberana portuguesa – e, agora sim, vem a parte pior – negócio sujeito a uma taxa de juro de pouco menos de 7% ao ano (6,71% em rigor). A ambos os “caixeiros-viajantes” – governar por estes tempos tem sido pouco mais do que “correr atrás do prejuízo” – só lhes faltou chamar à operação “sucesso estrondoso”. Detonação, de facto, não faltou! Nem irá faltar num futuro próximo, já que aquela foi só uma ínfima parcela – menos de 0,5% – das largas dezenas de Milhões que terão de ser “vendidos” proximamente. A garantia do “sucesso” pomposamente anunciado passou por negociar com a China, em condições que vão muito para além da taxa de juro, mais de 90% do “bolo” leiloado, ficando por dizer, apesar do muito “tempo de antena” ocupado – a uns só compete anunciar a parte boa da notícia –, que com juros àquele nível o “sucesso” vai consumir parte significativa, se não o todo, do efeito obtido no OE por alguns dos sacrifícios impostos. É, como quem diz: “cortar no pão para entregar ao ladrão”. Critérios!
O “road show” português, entretanto, trocando o Extremo Oriente pelo Médio Oriente, aterrou recentemente no Qatar.
Vá lá saber-se porquê a minha memória, recuando umas décadas, recuperou outro “negócio soberano”, este sim, tendencialmente de sucesso, mas que, entre outras, por questões de respeito pela soberania (a dos Açores), não se efectuou. Tratava-se da “troca de água por petróleo”: uma das hipóteses discutidas na segunda reunião da FLA em Paris para o financiamento da Independência dos Açores, processo apadrinhado por uma importante entidade financeira Árabe, que aplicava uma pequena parte dos Biliões de dólares então disponibilizados. Segundo o catecismo anti-independência que circulava, na época, Portugal era um país poderosíssimo, quase uma potência, quase auto-suficiente, e os Açores, coitadinhos – nunca interessou valorizar os seus recursos e potencialidades: a sua posição geoestratégica, o seu imenso e rico mar, a fertilidade do seu solo, etc., etc. –, tal como ainda hoje alguns os continuam considerando, apenas um sorvedouro dos tidos por infindáveis expedientes que Portugal encontra e usa. Para os “catequizados” – então também ufanos –, claro, a “troca de água por petróleo” era só uma hipérbole separatista – nem sabem como custa imenso ter razão antes do tempo!
Troca de água por petróleo é tema que também me ocorre sempre que avisto o minarete da Mesquita de Lisboa (isto, ainda relacionado com o que atrás escrevi: lembrando-me de mais alguns dos detalhes da proposta vinda do Golfo Pérsico), ou, quando por aqui se apela ao consumo dos produtos açorianos. É que, neste caso, muito mais do que outros produtos, tipo o leite, é da água que me lembro em primeiro lugar (em tempos, explorando um estabelecimento comercial, quando a já então única água engarrafada açoriana não estava no mercado, por me recusar a vender outra, oferecia água da torneira como forma de me manifestar). E lembro-me dela – cada vez mais cara e escassa – porque são muitos os milhões litros de água potável nos Açores que, todos os dias, correm para o mar, quando são também muito significativos os milhões de litros de água que têm de atravessar o atlântico para chegar às nossas mesas. Ignorar isso – e/ou permitir que se adquirem nascentes para proteger “o negócio” – é pactuar com o desperdício económico em causa, tanto maior quanto o é o elevado valor da “pegada ecológica” que lhe está associada (as embalagens, na melhor das hipóteses, têm que fazer a viagem de regresso). Eh, minudências minhas!

A.O. 18/01/2011; “Cá à minha moda" (revisto, acrescentado e com o título alterado)

terça-feira, janeiro 04, 2011

O “Marquês Jácome Correia”


O "Campo de Jogos Marquês de Jácome Correia" (Norte/Sul), em Janeiro de 1946, ainda antes de ser inaugurado.


Duas imagens do "Campo de Jogos Marquês de Jácome Correia" (Sul/Norte) , na tarde de 27 Janeiro de 1946, durante o jogo que se seguiu à cerimónia de inauguração.
.
O “velhinho” Marquês Jácome Correia comemorará este mês – no próximo dia 27 – sessenta e cinco anos de existência.
Claro que não me refiro ao homem. Este, o Sr. Marquês de facto, de seu nome Aires Jácome Correia, falecera em Genebra – 21 Outubro de 1937 – cerca de um dezena de anos antes do dia em que, com o nome de “Campo de Jogos Marquês Jácome Correia”, abriu ao público o recinto desportivo que veio marcar uma nova era no futebol micaelense.
Na altura, em Ponta Delgada, viviam-se tempos difíceis, com quase todas as actividades – e o futebol particularmente – a sentirem ainda as consequências da II Grande Guerra, que entretanto terminara, mas não sem deixar fortes mazelas.
A prática do futebol oficial, que estivera interrompida desde Junho de 1942, recomeçara recentemente, em Abril de 1945, mas a cidade continuava carecida de um recinto condigno para jogar e ver os espetáculos de futebol já que ao “Campo Açores”, entretanto de novo disponibilizado, além das exíguas condições que sempre oferecera, passaram a acrescer outras dificuldades, nomeadamente, as muitas condicionantes ao seu uso devido à exploração das “Pedreiras da Doca” que entrementes voltara a ganhar actividade por via da construção da Avenida Marginal, que se anunciava para breve.
É oportuno recordar que haviam sido o avolumar das dificuldades colocadas durante o primeiro semestre de 1942 pela Junta Autónoma dos Portos no utilizar do “Campo Açores”, somadas ao fim do uso do “Campo do Liceu” - onde já com o Ginásio a ser construído se iniciara as obras das quais resultariam o seu novo “Campo de Jogos” - o que, conjugadas com as demais contrariedades da época, levara a tão longo jejum na prática oficial do futebol em São Miguel.

Mas, iniciado que estava aquele ano de 1946, a carência de instalações apropriadas para a prática do futebol estava prestes a terminar.
Assim, cuidadosamente preparada pela Associação de Futebol de Ponta Delgada, às 14:30 do dia 27 de Janeiro de 1946, em jogo que colocou frente a frente duas selecções locais, uma denominada “Selecção de São Miguel” e a outra “Selecção de Ponta Delgada” - ambas constituídas por atletas que representavam os cinco clubes a disputar o “Campeonato Distrital” daquela época - foi então inaugurado o Campo de Jogos “Marquês Jácome Correia”.

Para que conste, e conforme registava a convocatória resultante da reunião de Direcção da AFPD efectuada a 23 de Janeiro de 1946, os atletas participantes no acontecimento foram os que se seguem. Integrando a equipa denominada “Selecção de São Miguel”: Armando Goyanes (GR), Tomas Azevedo, Manuel Salsa, José de Sousa, Fernando Ferreira, Hélder Miranda, Artur Sousa (Garalha), Renato Pereira (Genina), Carlos Azevedo (Talefa), João Vicente (Ratana) e José Garcia. E na de “Ponta Delgada”: Manuel Cristiano da Costa (GR), Henrique de Medeiros, Alberto Ferreira, Fernando Branco (Fernando Madeira), Humberto Correia, Duarte Lopes, José de Sousa Teixeira, João de Deus, Reinaldo Simões, António Duarte e José Vicente. O lote dos suplentes, comum a ambas as equipas, foi o seguinte: Hugo Machado, Pedro Ventura, José Botelho, José Valentim, Fernando Simões de Almeida e Edmundo Batista.
Para o total deste grupo, entre “Selecção de São Miguel”, “Selecção de Ponta Delgada” e respectivos suplentes, o Clube Desportivo Santa Clara contribuiu com mais de onze jogadores. A saber:
Manuel Cristiano da Costa-GR, Henrique de Medeiros, Fernando Ferreira, José Botelho, Fernando Branco (Fernando Madeira), Artur Sousa (Artur Garalha), Renato Pereira (Genina), José Garcia, João Vicente (Ratana), José Valentim e José Vicente.
Quanto ao “Jácome Correia”, já há muito que se foram as “castiças” tascas – uma em cada canto, e cada qual afecta a um diferente clube – que o ornamentavam e completavam; Há muito tempo também que o “popular Albano” deixou de ser o seu principal zelador; Do pregão “quem quer morrer” com que o não menos popular “Caracol” anunciava gelados e outras guloseimas, já poucos se lembram; E nem mesmo a “barraquinha Esquimó” resistiu. Mas, sessenta e cinco anos depois, ampliado, renovado e adaptado às circunstâncias actuais, o “velhinho”, embora agora desconsiderando o Clube Desportivo Santa Clara que tanta vida lhe deu, continua desempenhando o importante papel que lhe foi destinado em Janeiro de 1946.
A.O. 04/01/2011; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado)

terça-feira, dezembro 21, 2010

O fim do mundo em cuecas







Tenham medo. Muito medo.
Não. Não tem nada a ver com o veto de S. Exa. o Representante da República Portuguesa aqui nos Açores. Com isso podemos nós bem. Podemos bem melhor com o veto de S. Exa. do que com a descriminação remuneratória de uns quantos – cada vez em maior número – funcionários da República Portuguesa que à laia privilegiados representantes coloniais, vêem para estas ilhas fruir douradas comissões de serviço.
Tenham medo. Muito medo. Mas não das queixas de falta de solidariedade Açores vs Portugal de muitos mais – parte deles inexplicavelmente entre nós (é incrível como tudo serve de arma de arremesso político-partidário) – que se esquecem que este mesmo Portugal não foi solidário com outros, nomeadamente aqueles a quem, no Oriente, espoliou das especiarias e do seu comércio, ou na América do Sul, do ouro e de outras preciosidades, e em África, de diamantes, petróleo e do muito mais. Um Portugal ao qual agora pouco mais resta do Império Colonial do que os Açores, o valor geoestratégico, e a imensidão e riqueza do seu mar, o que só por si torna insignificante aquilo que alguns dizem serem os “milhões que para cá são enviados para os açorianos poderem sobreviver” (veja-se como o mar de Timor permite a um país "paupérrimo" solidarizar-se com Portugal, "chegando-se à frente" para comprar divida soberana portuguesa!).
Tenham medo, muito medo, mas não das balelas. Balela por balela, tenham medo sim, porque já faltam menos de dois anos para aquele que muitos dizem ser o fatídico 21 de Dezembro de 2012: resultado da colisão de um asteróide com a Terra, dizem uns. Estranho alinhamento da Terra, Sol e um buraco negro existente no centro da nossa galáxia, invulgar orientação da qual resultará a alteração do campo magnético da Terra com consequências dramáticas, dizem outros. Do abandono da sua orbita por parte do planeta verde, que assim, errante, iniciará um longo e desregulado percurso pelo Universo, referem outros ainda. E, como nem todos são assim tão pessimistas, há também aqueles que apontam para 22 de Dezembro de 2012 o dia da chegada dos extraterrestres, o que não será obrigatoriamente uma má notícia.
E é de ter medo sim, porque estes anúncios de fim do mundo não provêm de apenas uma fonte: desde as antigas filosofias chinesas sobre concepções do mundo contidas em “I Ching” aos argumentistas da série “Ficheiros Secretos”; da Sibyl da Roma Clássica ao Nostradamus da Idade Média; dos astrónomos Maias a Einstein – saltando Merlin e outros profetas (incluindo os dos últimos dias) – têm sido muitos a profetizá-lo e são muitas as coincidências entre as profecias.
Tenham portanto medo. Tanto quanto o que tenho, sobretudo agora, tranquilo que estou, depois de ter encontrado no 21 de Dezembro de 2012 assunto para terminar com a angústia que desde o final do Domingo p.p. sentia por se aproximar o 21 de Dezembro de 2010 (data de publicação desta coluna, sem eu ter assunto para ela).
Por mim, e por agora, já está.
Quanto à eficácia do veto de S. Exa., julgo que ainda antes do fim de 2010 a poderemos aferir.
Mais difícil será para conhecer a forma como Portugal irá adiar a “banca rota” que há séculos o assola. Para tal há que esperar um pouco mais: talvez no segundo trimestre de 2011 já saibamos se o FMI deixa que outros façam aquilo que ele gosta e sabe fazer.
Bem. Sobre o fim do mundo – no que às cuecas diz respeito, ficará, talvez, para outra ocasião –, bom, esta é a melhor parte, até porque, dizem outros profetas e sábios, nesta altura, em Portugal, a economia já está a recuperar. Profecias!
Daqui a dois anos veremos se é para rir ou chorar por mais.

A.O. 12/21/10; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado)

terça-feira, dezembro 07, 2010

O bom é não dar Cavaco





Cada vez mais me convenço que Cavaco Silva tem um sério – e já antigo – problema com os Açores. Questão velha e complicada. Nada que se resolva com oportunas mini férias no arquipélago, ou comitivas arrebanhadas a contra gosto quando ainda se engolem sapos, que mesmo escorregadios, deixam marcas visíveis por muito tempo. Há mesmo quem diga que o problema é tão velho que remonta ao célebre Congresso da Figueira da Foz – consequência de um “erro táctico” de Mota Amaral. Mas, como dizia a outra, “isso para agora não interessa nada”!
Interessa, isso sim, é não deixar de exercitar a memória. Para não recuar muito regressemos ao Verão de 2008:
A 31 Julho de 2008, em consequência das negociatas de Oliveira e Costa e seus amigos – tudo “boa gente” como os considerava o então ainda Conselheiro de Estado, Dias Loureiro –, já o BPN era um sério candidato a ensopar as largas centenas de milhares de Milhões de €uros que tanto ajudaram no agravar da situação de que todos (uns mais que outros claro, pois cortar 10% na remuneração do Presidente da República Portuguesa não é nada quando comparado com um corte de 200 ou 300 €uros no rendimento de uma família carenciada ou até mesmo remediada), mas TODOS, somos agora vítima. Tal como, por esta mesma altura, as transferências para “off shores” e o “fantasma Banco Insular” já haviam levado o Banco de Portugal a decretar a necessária auditoria interna ao BPN!.
Mas estes eram assuntos que dada a sua insignificância em nada justificavam interromper um qualquer período de férias. O Estatuto dos Açores, e o terrível precedente que ele incorporava (terrível, mas não tão assustador que justificasse a apreciação preventiva do TC), isso sim: E não só justificou a interrupção das férias, como, tal como se pôde assistir com espanto e pasmo, também exigiu aquela tão mediática quanto dramática comunicação feita no pino da “silly season” 2008!
Agora também, no Outono de 2010 (dois anos e quatro meses depois), não foi muito diferente:
* A PT, em clara manobra de fuga ao fisco, prepara-se para antecipar a distribuição do dividendo?
- Eh …, isso é de somenos importância!
* São cada vez mais evidentes as manobras para que seja criado um regime de excepção que contemple o pessoal (de preferência os melhor remunerados) do sector empresarial do Estado?
- Eh …, para quê embarcar em populismos. Isto são “peanuts”!
* Nos Açores vão ser criadas compensações para que três ou quatro milhares de funcionários públicos (da parte inferior da pirâmide salarial) contornem as restrições impostas pelo Governo de Portugal!
- Espera aí! O quê? Onde? Nos Açores? Não podem! Isto é uma discriminação gravíssima. É inconstitucional. Viola o princípio da equidade, pois não se podem distinguir as pessoas em função do lugar onde habitam (nestas alturas lembro-me sempre dos cabo-verdianos)! E a corte aplaude. Tomara: sabem por experiência própria que nem sempre é conveniente querer ser “Povo Açoriano”. O que a mesma corte parece não saber é que determinadas pessoas respeitam mais quem lhes “bate o pé” do que aqueles que se desfazem em vénias e salamaleques. E o exemplo não está muito longe: basta ver como é poupado, e até “acarinhado”, quem que um dia imortalizou o “Sr. Silva”!

Em jeito de rodapé (bem que o podia evitar, mas fazê-lo não seria “à minha moda”) resta acrescentar que tenho muitas reservas quanto à justiça da proposta de Carlos César que está na origem de toda esta polémica. O que não posso deixar de apoiar, incondicionalmente, é que aqui, nos Açores, devemos ser NÓS, Povo Açoriano, a mandar.
E todos os passos dados neste sentido serão sempre poucos!

A.O. 12/07/10; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado)