quarta-feira, março 14, 2012

Terá sido do zapping?




No fim de tarde, início de noite, do passado Domingo, com a atenção repartida entre as notícias que passavam em diversos canais e o “Estado de Graça” da Maria Rueff e os demais “estadistas” que a acompanham naquele horário, não pude deixar de andar espreitando, embora com intermitência, a homilia semanal do Prof. Marcelo. Fi-lo porque tinha uma enorme curiosidade a satisfazer: saber se também ele iria exigir a retratação dos responsáveis pelo tal anuário que, enganando a Exma. Presidente da Câmara Municipal de Ponta Delgada, levaram-na a anunciar “boas novas” que depois se verificou não serem assim tão boas, e, sobretudo, serem muito diferentes das que haviam sido anunciadas. Admito ter sido de tanto “zapping”, mas, confesso, a esta parte (a correcção da notícia que segundo um qualquer critério colocava a CMPD em primeiro lugar num qualquer “ranking”) eu não assisti.
Porém, como que em contrapartida, vi e gostei das duas fortes “chibatadas” que o Prof. Marcelo desferiu no Prof. Cavaco. Não é que tenha saudades de José Sócrates. Até acho que está muito bem onde está – em Paris, melhorando o seu currículo académico – e que foi tempo perdido o seu 2º mandato. Só que também acho ter sido uma pena que a mudança não tenha acontecido para melhor. É que, como com imenso saber já dizia José Régio: “ [mudar] para melhor, está bem, está bem / para pior já basta assim”. E, como se viu – se vê e sente na pele –, para melhor nada mudou: a não ser as moscas!
Bom. Mas sem ter conseguido dar pela correcção da notícia sobre o tal “ranking”, ficou ainda mais evidente o registo das “chibatadas”, em especial a forma como com elas, a seu jeito – e bem –, o Professor, interrogando-se, também nos interrogou:
- Quando por parte do primeiro-ministro Sócrates se verificou uma deslealdade institucional, para mais, algo com um nível de gravidade que nunca ocorrera nos trinta anteriores anos de Democracia, será muito difícil (ou talvez não) entender o porquê do Presidente da República, então, não ter agido em conformidade.
E não se ficou por aqui. Rematando o assunto, Marcelo Rebelo de Sousa logo de seguida acrescentou, “ao decidir manter silêncio acerca de uma deslealdade dita como de grande gravidade, Cavaco Silva transmite a ideia de que no futuro, e perante um caso idêntico, não demite nenhum Governo”.
No que a demissões possa dizer respeito, longe de mim – oh santa ingenuidade – esperar do actual Presidente da Republica Portuguesa que faça com o actual Governo de Portugal (e não é que não merecesse!) aquilo que não fez com o anterior. Mas, e contrariando o que aconteceu com a notícia sobre o tal “ranking”, não posso deixar de dar razão – “carradas dela” – à análise que o Professor Marcelo Rebelo de Sousa fez ao procedimento do actual Presidente da Republica Portuguesa: pelo que devia fazer e não fez; pelo que devia dizer e não disse. Convinha-lhe (acrescento eu), pois não se pode esquecer que, por muito menos, em pleno Verão, interrompendo férias, ele não se conteve, e foi feita aquela inusitada comunicação. Não, na altura não estava em causa a “mais grave deslealdade institucional dos últimos 30 anos”. Nem a “Independência dos Açores”, infelizmente (digo eu).

A.O. 13/03/2012; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado)

terça-feira, fevereiro 28, 2012

Zeca Afonso, 25 anos depois





Só o tempo passa.
Parece ter sido ontem, quando logo depois do memorável concerto proporcionado por Zeca Afonso em Lisboa, num longo e também inesquecível serão, alguém que desde há muito acompanhava de perto o iconográfico baladeiro, relembrando alguns momentos do evento que ali estava ainda muito presente, enfatizava o esforço do cantor em superar as suas dificuldades, pois já se encontrava muito debilitado fisicamente.
Quatro anos depois, a 23 Fevereiro de 1987, Zeca Afonso deixava-nos. Partiu o homem, o poeta, o músico. Mas ficou a sua memória, a sua obra, a sua música, e com ela a forte e profunda mensagem que a mesma contém e integra. Ficou, e, por incrível que pareça, volvidos todos estes anos, continua actual: casos há, a fazer hoje tanto ou mais sentido do que aquele que fazia quando foi pensada, escrita, dita e cantada!
Como acontece com todos – ou quase todos – os visionários, Zeca Afonso pagou caro, nada recebeu em troca, e até pouco fruiu da saudável aragem que soprou após se terem esboroado as penosas barreiras que ajudou a derrubar. O que talvez Zeca Afonso nunca imaginasse – neste sentido ganhou, pelo menos a tal foi poupado – é que a sua obra, edificada com propósito de dar combate a uma ditadura já então contando quase quatro décadas, se mantivesse com tão grande actualidade outro tanto tempo depois de destituída “a velha senhora”.
Dá muito que pensar a contemporaneidade de, por exemplo, os “Vampiros”. Ora vejamos:

“No céu cinzento sob o astro mudo
Batendo as asas pela noite calada
Vêm em bandos com pés veludo
Chupar o sangue fresco da manada.

Se alguém se engana com seu ar sisudo
E lhes franqueia as portas à chegada
Eles comem tudo, eles comem tudo
Eles comem tudo e não deixam nada.

A toda a parte chegam os vampiros
Poisam nos prédios poisam nas calçadas
Trazem no ventre despojos antigos
Mas nada os prende às vidas acabadas.

São os mordomos do universo todo
Senhores à força mandadores sem lei
Enchem as talhas, bebem vinho novo
Dançam a ronda no pinhal do rei.

No chão do medo tombam os vencidos
Ouvem-se os gritos na noite abafada
Jazem nos fossos vítimas dum credo
E não se esgota o sangue da manada.

Se alguém se engana com seu ar sisudo
E lhes franqueia as portas à chegada
Eles comem tudo, eles comem tudo
Eles comem tudo e não deixam nada.”




A.O. 28/02/2012; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado)

quinta-feira, fevereiro 16, 2012

Loas, lérias e sussurros perversos



Carlos César, Presidente do Governo dos Açores, escolheu Santa Clara para dizer que não existem freguesias a mais nos Açores. Como em política não há coincidências, e tendo o desígnio sido proferido por ocasião da inauguração de uma importante beneficiação na freguesia – a necessária, muito reclamada e desde há muito aguardada requalificação da “Rua Direita do Ramalho” –, a sua mensagem foi também, sem dúvida nenhuma, um sinal de reconhecimento ao muito e bom trabalho desenvolvido em Santa Clara desde que a localidade se afirmou como freguesia: realidade que “entra pelos olhos adentro” de todos – até mesmo daqueles que muito se empenham para que assim não fosse –, e é prova de como a proximidade, a tolerância, a actuação persistente e empenhada, sobretudo (como acontece no caso de Santa Clara) quando devidamente enquadradas num consistente projecto de cidadania activa, podem fazer milagres. Basta lembrar como era Santa Clara em 2005 e comparar com o que é Santa Clara hoje para constatar “o milagre” em tão pouco tempo realizado, prodígio que, não fora a “2ª Rua da Teimosia” – ou Via Marginal dos “bidãs” (nome que também lhe assenta bem) –, seria ainda mais notável.
Num outro registo – o da submissão (no caso dupla submissão) –, Berta Cabral, Presidente da Câmara Municipal de Ponta Delgada, escolheu o Carnaval para, a propósito de uma tolerância de ponto, que lhe era conveniente mas não queria que fosse entendida como afronta ao Primeiro-ministro de Portugal, mostrar uma oportuna subordinação ao Presidente do Governo dos Açores. Também aqui não existem coincidências (nem “Batalha de Limas” ou “ressaca” de Baile no Coliseu que o justifique), e não sendo coincidência tampouco é um bom sinal. Sobretudo quando o “Rolo Compressor Centralista”, hoje conduzido com os tiques autoritários que se conhecem, e que a cada dia que passa se manifestam com maior sobranceria, tem ao seu volante operadores que competem entre si pelo título de “campeão da insensibilidade social” ou da “arrogância política”, cujo exemplo máximo é o Ministro Relvas.
Hoje mais do que nunca – e de forma preferencial assegurando uma transmissão de testemunho geracional – a afirmação identitária dos Açores não pode ser tida como uma conveniência politica da ocasião, mas sim, e obrigatoriamente, como uma convicção, uma causa, um nobre dever a cumprir!
Os tempos que correm não diferem muito dos vividos em finais da década de 20 inicio da de 30 do século XX, e, é sabido, como, em pouco tempo, o “Rolo Compressor Centralista” colocado em marcha na época por António Oliveira Salazar, nuns casos esmagou, noutros seduziu e/ou absorveu muitos, uns quantos mesmo entre aqueles que ainda poucos anos antes andavam tão empolgados com projectos de aprofundamento da autonomia dos Açores.

Outro sinal dos tempos foi o sussurro feito pelo Ministro das Finanças de Portugal ao ouvido do “patrão” europeu. Se dúvidas haviam ficaram praticamente dissipadas. Há uma estratégia: passa por espremer e fazer sangrar quase até à última gota, para depois, o mais próximo possível das eleições, uma qualquer folgazinha poder ser dada “à laia de rebuçado”. Resta saber se os estrategas resistem, e, resistindo estes, se as vitimas desta estratégia, depois de “sangradas até ao limite”, sobreviverão com alguma utilidade?

A.O. 14/02/2012; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado)

quarta-feira, fevereiro 01, 2012

Jogo de espelhos com imagens invertidas



Na vida em geral, e na política em especial – sobretudo nesta, até porque, em política, os erros e/ou as mordomias de uns poucos são pagos com o “sangue suor e lágrimas” de muitos –, não há nada pior do que corrigir uma ou um conjunto de acções/intenções menos acertadas ou completamente erradas, com outra, ou outras tantas, de sentido diametralmente oposto. É do mais elementar bom senso emendar o que quer que seja gradualmente, por aproximações sucessivas, avançando no sentido daquele que foi entendido ser o “novo rumo”. Nunca de supetão! Já diz o povo que “quem muito arrocha pouco aperta”. É sabedoria popular, e, tenho a certeza, não será quaisquer Troikas e toikistas, Relvas e relvistas, uns e outros mais ou menos amparados pelo seu serviçal exército de fulanos e beltranos, quem, mesmo numa hora destas, contrarie o rifão popular.
Os sinais, tal como o rol de contradições que os realçam, já são visíveis!
“Trocando por miúdos”:
Sim. Já poucos suportavam o excessivo optimismo socrático que até recentemente nos foi “vendido”: também por isso, tornou-se desejada, se não mesmo inevitável, a mudança. O que não era espectável, nem há Troika que o justifique – por mais que o repitam para parecer verdade –, é que a correcção da “ilusão socrática” possa ser feita recorrendo à “terapia Relvas/passista”, um culto pelo empobrecimento que mais do que austero é miserabilista, castrador da confiança e da esperança, comprovadamente eficaz na transformação do mau em péssimo!
Sim. Não obstante a eficaz equipa de comunicação contratada para promover “a ilusão socrática”, foram os muitos “gatos” que não conseguiram passar por “lebre” (um só exemplo: o novo aeroporto de Lisboa e as suas localizações) o que mais ajudou a desmontar “um altar” corrompido por outras questões menores (de novo um só exemplo: a célere licenciatura de Domingo à tarde). O que não era espectável – pelo menos em tão curto espaço de tempo –, é que a “terapia Relvas/passista”, dando o dito por não dito e desde cedo afogueada pela troca de uns por outros (na EDP um António de Almeida por um Eduardo de Almeida, Catorga, de seu último nome, e na Administração das AdP uma colocaçãozita para os apaniguados Manuel Frexes e Álvaro Castelo-Branco), rapidamente esquecesse as “gorduras do Estado”, os “custos intermédios”, as grandes negociatas – e seus beneficiários – tipo PPP’s, BPN’s e BPP’s, para, em seu lugar, atacar com sofreguidão aqueles que já só têm osso. Ossos mal nutridos, nalguns casos a definharem até serem encontrados como cadáver depois de durante anos se terem arrastando a fazer “esticar” os parcos meios de subsistência com que sobreviveram (rendimentos mensais cujos valores chegam a ser a centésima parte dos auferidos por quem, não o devendo fazer, descaradamente, diz que cerca de 10.000 euros/mês são insuficientes para cobrir as suas despesas).

Pior só mesmo os reflexos que aqui (aos Açores) nos chegam “destes espelhos”: os pretextos que “a crise” proporciona para estrangular a escassa Autonomia no entretanto conquistada, sobretudo quando vindos de quem tem, e cultiva, tendências autoritárias (nunca será demais recordar os autoritarismos anteriores, nomeadamente aquele que em situação similar até com a moeda açoriana acabou). Os reflexos “destes espelhos”, que cegam, são tão ou mais perigosos quando mais submissa for a relação político-partidária entre os detentores do poder em Portugal e os seus “afins” nos Açores.
Uma subserviência que, por vezes (e para alguns), até admite entregar os dedos desde que lhes seja permitido “brilhar com os anéis”.
Há que resistir!

A.O. 31/01/2012; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado)

terça-feira, janeiro 03, 2012

Santa Clara: História e Identidade para dar e vender



Vai para 432 anos - quase meio milénio antes desta “Troika” e seus cavaleiros (sem esquecer as amazonas) mandar ou recomendar o que quer que seja - que D. Pedro de Castilho, a autoridade de então, determinou a criação de uma terceira freguesia para Ponta Delgada: nada mais, nada menos que Santa Clara. A decisão foi tomada decorria o ano de 1580, e, sobre o assunto, com os habituais detalhes, o incontornável Gaspar Frutuoso deixou escrito para a posteridade: “a terceira freguesia, novamente feita, de Santa Clara, antes de ser acrescentada, tinha sessenta e dois fogos e almas de confissão duzentas e noventa e sete, das quais eram de comunhão duzentas e três.” No ano seguinte, a 22 de Setembro, de visita à paroquial de Santa Clara, exigua ermida que haveria de ser causa e pretexto para “as voltas que Santa Clara deu”, o mesmo D. Pedro de Castilho achou por bem acrescentar a freguesia de Santa Clara para Nascente, até à Rua da Cruz.
Depois de mais de um século e uma série de peripécias, terminada que foi finalmente a construção de uma nova igreja – evocando São José –, em 1714 foi mudada para esta a sede da paróquia e alterada, de Santa Clara para São José, a denominação da 3ª freguesia constituída em Ponta Delgada, já então contando mais de 130 anos.
Sob a protecção do orago original, a instituidora das “damas pobres”, Santa Clara, subsistiu no entanto um singelo curato, à volta do qual não só Santa Clara continuou a enriquecer a sua História como os santaclarenses o forte sentimento identitário que sempre os caracterizou: prova disso é que Santa Clara, mesmo como curato, para os santaclarenses nunca deixou de ser “a sua freguesia”.
A construção do porto de Ponta Delgada e a transformação sócio-cultural que esta empreitada veio trazer ao povoado só contribuiram para a afirmação da identidade dos santaclarenses, uma marca de carácter que saiu imensamente reforçada, na transição do século XIX para o século XX, em consequência do polo industrial que, construído o porto, escolheu Santa Clara para se instalar.
Já bem entrados no século XX, o futebol e os vários “santas claras” que ajudaram a modalidade a desenvolver e a afirmar-se em Ponta Delgada – e nos Açores – demonstram mais uma vez a forte identidade dos santaclarenses. Como o demonstra também, já em meados do século XX, um interessante texto de Lopes de Araújo (pai) com o sugestivo título: “Santa Clara – a aldeia dentro da cidade”.
Foi esta singularidade dos santaclarenses que o “Padre Fernando” soube agregar e mobilizar na tentativa de restaurar o estatuto de freguesia que Santa Clara já tivera e perdera. Numa primeira fase não foi possível ir além do que promover o curato a paróquia – eram “os temos de Salazar” -, mas a seriedade, coragem, determinação e coerência do Padre Fernando, tal como a forte identidade dos santaclarenses, vingou (que falta fazem os discursos de lideranças sérias e coerentes: comparem o que dizem hoje sobre Santa Clara os mesmos que, à cerca de seis anos, aproveitando boleia “na onda” que outros formaram, diziam e escreviam o que ainda se pode ler sobre a criação da freguesia). Vingou, “e cá está para o que der e vier”!
História Santa Clara tem. Identidade também. Se é uma freguesia rural ou urbana (o que serão: São Roque, Fajã de Baixo, Fajã de Cima e Relva?) logo se verá!
Está provado como os santaclarenses do pouco fazem muito, todos o vêem e podem testemunhar (o que não acontece, por exemplo, quando se constituem Empresas Municipais, que pouco mais fazem do que “desorçamentar” e dar guarida a amigos e apaniguados).
Portanto: Viva Santa Clara. Longa vida para Santa Clara!

A.O. 03/01/2012; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado)

terça-feira, dezembro 20, 2011

Recordar: “Xalim”


"Xalim" e o irmão mais velho (Zé Henrique), antes de um CDSC vs "Oliveirenses", Agosto de 1982;
"Xalim" na sede do CDSC, Maio de 2008.

Sem andar muito longe da verdade é possível afirmar que o “Xalim” foi um dos últimos valiosos frutos do grande e proveitoso “viveiro de futebolistas” em que Santa Clara se transformou ao longo de quase todo o século XX.
De facto, Santa Clara, beneficiando dos espaços livres que existiam, quer junto da sua orla marítima, quer, em especial, dentro do perímetro da “Mata da Doca”, acabou desempenhando um papel muito importante no desenvolvimento do futebol micaelense. Recintos, uns mais improvisados que outros, não faltavam. Só à beira mar, desde o “largo da eira” (mais ou menos onde hoje está o farol, já esteve uma peça que os EUA instalaram em 1917 e antes de um e da outra também lá estiveram os moinhos de vento) até “ao Calço”, já próximo dos “Tanques do Óleo”, com este último campo tendo uma das suas linhas laterais coincidindo com os carris da “locomotiva da doca”, contavam-se pelo menos três. Também os havia na “Mata da Doca”, com o “Campo Açores” à cabeça, mais uns quantos na sua lateral nascente e, ainda – a partir dos anos 60 –, também o “ring do Patronato”. Se não faltavam locais para a prática do futebol, também não faltava quem os utilizasse, sobretudo ao fim-de-semana, em especial ao sábado à tarde, altura em que se verificavam autênticas enchentes, com filas de espera aguardando vez, em consecutivos “perdidos/rua”.
Carlos Silveira, ou “Xalim”, como ficou conhecido para o futebol, integrou ainda uma geração (a última) que obteve usufruto das condições que desde início do século XX fizeram de Santa Clara um fenómeno sócio-desportivo considerável: uma geração que ainda assistiu às últimas edições (versão anos 60/70) dos “Campeonatos de Santa Clara”, então renhidamente disputados pelas equipas do “Calço” das “Cancelas” e do “Farol”, grupos que integrando atletas mais tarde insubstituíveis nas primeiras linhas do CDSC (por exemplo: “Capinha”, Costa Pedro e “Malaco”- com estes dois últimos o “Xalim” haveria, mais tarde, de integrar “onze titulares”), por aqueles anos ocupavam o lugar das que na segunda e terceira década do século XX, patrocinadas pelas “Lojas de Santa Clara”, precederam o futebol organizado em São Miguel; geração que, e sobretudo, pôde ainda, interagir, conviver, herdar vivências e aprender com autênticas centelhas futebolísticas locais, como o “Mestre Artur Garalha” – para referir apenas um exemplo –, que, no caso em concreto do “Xalim”, além de referência, acabou tendo também uma importância capital na sua carreira desportiva.
Desde cedo revelando-se um futebolista bem dotado, ainda muito jovem o “Xalim” passou de assistente ou participante de segundo plano nas clássicas maratonas futebolísticas do “Campo Açores” e do “ring do Patronato”, para figura de primeiro plano nos juniores do CDSC. Foi ainda enquanto júnior, em situação de recurso – a equipa estava a disputar uma prova na Madeira e o guarda-redes titular lesionou-se –, que Xalim passou desempenhar as funções em que se distinguiu.
Era então “Mestre Artur Garalha” o treinador da equipa de juniores, e, conhecendo os dotes que o “miúdo” revelava para a função sempre que para tal era chamado nos “clássicos perdidos/rua” das tardes de sábado, confiou-lhe a guarda das redes naquela excepcional situação.
Foi o início de uma brilhante carreira: “Xalim” rapidamente passou dos juniores à equipa principal – já o CDSC disputava a III divisão série E –, distinguindo-se também no “Os Oliveirenses” (a parte da história mais difícil de contar), ganhando igualmente grande notoriedade na LASA – Liga Norte-americana – já que, passando ao lado do que noutras condições poderia ter sido uma grande carreira, cedo emigrou para os EUA, onde reside.


A.O. 20/12/2011; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado)

quarta-feira, dezembro 07, 2011

Gordura não falta: desde toucinho a tutano




Fartaram-se de falar em “cortar nas gorduras”. Como tema de discurso pré eleitoral o “cortar nas gorduras” foi – e é – assunto sempre presente e conveniente.
Falar, falam – e continuam –, porém quando chega a “hora da verdade” é o que se vê: só o músculo é sacrificado, comprimido, retalhado. Os golpes entraram pela carne dentro. A muitos, à maioria, já atingiram o osso. Só as gorduras, em alguns casos autêntico “toucinho de quatro dedos”, continuam por aí a medrar doentiamente sem que ninguém lhes toque (ou, quando tocam, é com “muito jeitinho” e ainda mais “respeitinho”).
É ver como o chorume por alguns acumulado durante a época de engoda – o BPN é só um exemplo; o mais pungente – continua bem conservado, nalguns casos a secar ao sol, noutros em salmoura, mas sempre resguardado e completamente isento dos cortes pré anunciados. O mesmo já não acontece com o Subsídio de Natal de muitos, da maioria, a quem, sem dó nem piedade – nem as preocupações legais e constitucionais que noutras ocasiões são pretextos para tudo e mais alguma coisa, até para ajudar a ilibar vigaristas e charlatães – já os “chupam até ao tutano”!
É ver a enorme cerimónia com que abordam a possibilidade do agravamento fiscal de alguns artigos de luxo e/ou provenientes de importações supérfluas, sem que o mesmo aconteça quando se trata de bens de primeira necessidade – alimentação e saúde (medicamentos incluídos) são só dois exemplos; os mais comuns – para os mais desfavorecidos, a quem, sem dó nem piedade, já “chupam o tutano”!
Foi ver como nos entreteram com manobras de diversão – ir para a tomada de posse de “scooter”, ou dar publicidade às viagens do PM em classe económica são só dois exemplos; os mais vistosos –, quando na prática pouco mudou, inclusive, logo na primeira oportunidade, um carro topo de gama substituiu a humilde motorizada do “show”.
Gordura também é – ou era – regular e moralizar os contratos leolinos em que assentam as Parcerias Público Privadas, assunto sobre o qual, agora, pouco ou nada se adianta. De facto as PPP’s não são “gordura”, são “toucinho-do-céu”!
Mas, dos mais recentes, o melhor exemplo do falar em “cortar gorduras” para que o pretendido seja chegar com a faca até ao osso – e tudo feito com enorme hipocrisia, como o demonstra a carta enviada às freguesias, se já não bastasse o televisivo sorrisinho cínico – é a “passos/relvista” proposta de reforma para a Administração Local!
Não são necessários documentos verdes, ou livros brancos, para se saber que são as Câmaras Municipais – algumas, autênticos mini governos, ninho de vícios e corrupção, fonte de prebendas, um santuário para prosélitos, afilhados e protegidos – e o conglomerado de Empresas Municipais que pariram recentemente, o grande sorvedouro dos recursos destinados ao Poder Local. Como é público, só as Empresas Municipais (cujo numero em concreto é desconhecido) já acumulam milhares de milhões de euros de divida. Aí sim, há “toucinho” com fartura para cortar e retalhar. É porém pelas Juntas de Freguesia, o músculo, que pretendem começar. Sintomático!
*
“Chupar até ao tutano” é também aquilo que Portugal anda a fazer com os Açores. Agora até o custo das evacuações de emergência feitas nos Açores pela FAP são, como já foi dito, para facturar aos Açores! Triste sina a nossa (açorianos): ocupam-nos o território, por aqui pouco ou nada fazem além de estorvar e enriquecer, para logo nos obrigarem a pagar (sempre caro e com juros) a pouca utilidade que proporcionam.
E que tal fazer um “encontro de contas” com o valor da renda?
A preços de mercado (perguntem à TROIKA) ficaríamos (nós, os Açores e os açorianos) a ganhar, e muito.
Mas isso merece outro tratamento!

A.O. 06/12/2011; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado)

quarta-feira, novembro 23, 2011

É no que dá ir a jogo com “duques”


Duque de "Relvas"


E, como que a ignorância – diabolicamente manipulada – fosse coisa apreciável, lá tentaram mais uma vez “fazer a cabeça” dos portugueses, desta feita, anunciando pomposamente que “missão histórica” da RTP/Açores já está cumprida!
O disparate foi de tal monta (o Relatório, no seu todo e não só nas escassas linhas que aos Açores e Madeira disseram respeito) que nem mesmo “amigos” e correligionários se furtaram a fazer duras críticas, alguns deles, inteligente e oportunamente, dando pública e notória nota das suas divergências: a disputa eleitoral que se aproxima a isso obriga (não é sensato colocar os ovos todos na mesma cesta).
Mas o Adjunto Relvas, embora com cada vez mais dificuldade em esconder as suas despóticas tendências, usando o Mogadouro para comparar o que é incomparável, lá continuou a sua impetuosa senda neocolonialista.
É caso para dizer:
Com certeza que Sua Ex.ª. sabe que não se pode circular, por via ordinária, entre Ponta Delgada, Angra do Heroísmo e Horta. Mas – pelo menos assim parece – já não é tão certo que SEXA tenha a concreta noção do quanto estão geograficamente afastados entre si os açorianos de Vila Nova do Corvo dos de Vila do Porto, burgos que, distam um do outro quase tantas milhas marítimas quantas aquelas que separam os Açores de Portugal.
Mas há outras questões sobre as quais ficam sérias dúvidas. Por exemplo:
- Terá Sua Ex.ª. consciência que, mesmo tendo os “seus meninos” escrito que a “missão histórica da RTP/Açores” já estava cumprida, ainda há, nos Açores, quem, não obstante pagar as respectivas taxas, não tenha direito a usufruir – por falta de cobertura minimamente decente – daquele serviço?
- Terá Sua Ex.ª. conhecimento que, nos Açores, o Serviço Público de televisão é muito mais do que “o serviço de promoção pública de quem num determinado momento está no poder”?
- Saberá Sua Ex.ª. que, nos Açores, a rádio desempenha há mais de setenta anos a “sua missão histórica”, sem que ninguém tenha ainda dado conta que a mesma – a “missão história” em causa – possa por isso alguma vez ser dispensada?
Sinceramente. Não tenho dúvidas que o actual momento até pode justificar muita coisa, mas não pode justificar tudo!
Pode e deve justificar alguma contenção e grande racionalização: não pode, nem deve, justificar destruição!
Pode e deve justificar um maior esforço de justiça e equidade: não pode, nem deve, justificar cinismo, cobardia, exploração, colonialismo e desonestidade!
É que a “Troika” e os seus ditames parecem tudo justificar. Tudo, desde que as vítimas estejam na base e não no topo da pirâmide social: bastará ver como o realce dado àquilo que se dizem ser os custos de funcionamento da RTP/Açores (e RTP/Madeira) não tem paralelo no que diz respeito ao que se continua a gastar com os “chefões” e as vedetas do universo da RTP SA!
E não é só quanto à RTP que o cinismo dos “Relvas” e “Relvinhas” se revela e confirma. Também a dita Reforma Administrativa, que por imperativo da “Troika” – dizia-se – iria acabar com não sei quantos Municípios e Empresas Municipais, expõe a “valentia” dos que sempre se apresentam fortes e vigorosos para com os mais humildes, mas perfeitamente inofensivos perante os poderosos. Os lóbis “cerraram fileiras” e logo as “exigências da Troika” quanto ao número de Câmaras Municipais, de Empresas Municipais e do excessivo número funcionários municipais (dirigentes, vereadores a tempo inteiro e trabalhadores das E.M.) – tomara, é por aí que se começam a acomodar os “amiguinhos” – saíram “milagrosamente” de cena.
Protegidos “os poderosos”, sobrou para as Juntas de Freguesia – de novo a base da pirâmide –, cujos custos de funcionamento praticamente não tem representatividade no OE. Temos portanto as Juntas de Freguesia, e não os verdadeiros sorvedouros de dinheiros públicos, como “alvos a abater”.
“Pega valente”!


A.O. 22/11/2011; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado)

sábado, novembro 12, 2011

Pois é... “não se ponham a pau”, não!



Incomoda-me muito menos assistir à forma “mandona” e prepotente como a chanceler Merkel e o presidente Sarkozy tratam os “seus pares” europeus, do que – sobretudo quando acomanhado da indiferença dos que lhes são mais próximos e deles até se dizem seus amigos –, presenciar, ouvir, ou pura e simplesmente apenas admitir terem existido as tão ufanas quanto autoritárias sentenças dos recém chegados “salvadores da pátria”, alguns deles (não tão poucos assim), autênticos “salazarzinhos”, pretensos aprendizes da arte de bem subjugar.
Como é habitual nestas ocasiões, com excepção dos mais poderosos (ou daqueles que ao passarem pelo poder poderosos também se tornaram, pelo menos perante a Justiça: lista que cresce a cada dia que passa), “tudo o que mexe leva”. Para os novos “pais da pátria” (e nisso até o outro - o Salazar “à sério”- se preocupava em parecer mais justo) parece ser mais fácil “sacar” 50% de um salário mínimo a quem ganha pouco mais de 600€/mês, do que retirar uma pensão vitalícia, de milhares de €/mês, que outra origem não teve do que o desempenho, temporário (que quando mais breve fora, tanto melhor teria sido), de um cargo político. Como mais fácil também parece ser sobretaxar um bem de primeira necessidade, tipo água e luz, quando se desfazem em cerimónias para taxar bens de luxo, ou rendimentos privilegiados.
Mas não se pense ser só a este nível que se assiste à enorme degradação da vida democrática, pelo menos tal como a temos conhecido nas últimas três para quatro décadas. É que este afã autoritário nem as instituições poupa. Tal como as Autonomias (dos Açores e da Madeira – das quais nem sou grande defensor: em especial para os Açores ambiciono muito mais), que têm atraindo sobre si fortes e nefastas agressões.
Para não ir mais longe (nem recuar muito):
- Quem já se esqueceu das “corajosas”, “justas”, “muito bem fundamentadas” e “exemplarmente dialogantes” sentenças do Ministro Miguel Relvas, aquando da sua reunião com os deputados eleitos para o Parlamento Açoriano, sobre a “RTP/A, janela”?
- Ou ainda mais recentemente, quando, como se já não existisse Governo dos Açores, Órgãos de Poder Local são directamente contactados pelo Governo de Portugal, para lhes ser pedido parecer sobre a “Reforma da Administração Local”, como se esta, nos Açores, não fosse competência NOSSA.
“Inconstitucionalidades” existem muitas, para todos os gostos e “feitios”. Com os Açores como pano de fundo, algumas, como já testemunhamos, até provocaram interrupções de férias e exigiram cerimoniosos e avultados “temos de antena”. Porém, para outras, não faltarão “orelhas moucas”. Podem ter a certeza!
Por tudo isso, nestes dias, tenho-me lembrado, e muito, daquele sermão proferido por um pastor luterano, em pleno nazismo, que, mais coisa menos coisa, assim rezava:
“Um dia vieram e levaram o meu vizinho judeu. Não sendo judeu, não me incomodei. No seguinte vieram e levaram outro vizinho, que era comunista. Não sendo eu comunista, também não me incomodei. Ao terceiro dia vieram de novo e desta vez levaram um vizinho católico. Como não era católico, voltei a não me incomodar. Ao quarto dia levaram-me: já não havia mais ninguém para reclamar!”
Não, “não se ponham a pau”, não!


A.O. 08/11/2011; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado)






quarta-feira, outubro 12, 2011

Mais um aniversário: o sexto


Parece que foi ontem, mas entretanto já passaram seis anos sobre a eleição dos primeiros Órgãos Autárquicos de Santa Clara, o culminar de um longo processo (“a luta” durou meio século) iniciado pelo incontornável Padre Fernando “de Santa Clara” em meados da década de cinquenta do século XX, percurso ora dinâmico, ora silencioso – e também silenciado –, que, como se viu, bem semeado que foi, e por ter sido sempre devidamente alimentado pela férrea perseverança dos santaclareses, frutificou.
Seis anos parecem poucos (quando comparado com o muito que Santa Clara mudou para melhor neste mesmo período), mas, e sobretudo tendo em conta as pretensões daqueles que reverenciando os poderosos não vacilam quando se trata de esmagar os mais fracos (vejam como eles já deixaram de falar em acabar com Municípios – e respectivas gastadoras empresas municipais - e agora só falam de Juntas de Freguesia. Há empresas municipais que gastam mais, e servem menos, do que todas as Juntas de Freguesia do respectivo Município!), e as “nuvens negras” com que se alimentam e dopam, meia dúzia de anos é já tempo suficiente para apresentar um bem representativo balanço.
Ora vejamos (só o mais “grado”, para não nos dispersarmos com pormenores):
Quem não se lembra da “Príncipe do Mónaco”, de como aquela nobre via de Ponta Delgada era, e de como agora está (desde “as Cancelas” até ao Ramalho”)?
E quem se pode esquecer da enorme “armadilha” que constituía o entroncamento na saída da “envolvente a Ponta Delgada”, agora substituído pela “Rotunda Vida Nova” (assim já é habitual chamar-lhe), que a Norte da “Príncipe do Mónaco”, entre o mais, ordena e disciplina a passagem de veículos em direcção a Santa Clara, em especial o grande fluxo de transito pesado originado pelo Porto de Ponta Delgada?
E do degradante baldio, autêntica “sala de chuto a céu aberto” em que estava transformado o que restava da “Mata da Doca”, zona que hoje, reabilitada, se metamorfoseou no pitoresco, ameno, frondoso e agradável “Jardim Padre Fernando”?
Ou do velho “Caminho Velho do Ramalho”, antes impróprio até para peões, mas já – embora ainda não concluído –, completamente melhorado, com passeios e espaços de estacionamento, que assim irá proporcionar mais conforto aos seus utentes e residentes?
Mais podia já estar feito (recordo a 2ª Rua de Santa Clara e a Rua do João do Rego: birras, teimosias e as naturais complicações o impedem) e mais terá de ser feito (do “Matadouro” o pior já passou, e para os “Tanques do Óleo” o 2013 já está a chegar), mas o que já está resolvido permite apresentar um balanço com resultados altamente positivos.
Porém não é só o que está à vista aquilo que valoriza este balanço. No seu “Deve” e “Haver”, para além das coisas, há também que salientar o projecto e as pessoas. De forma especial estas últimas, que são principal activo a valorizar nesta, e em muitas outras prestação de contas. Neste sentido, nunca é demais repetir que a gestão da Freguesia de Santa Clara assenta num projecto de cidadania, não subordinado aos habituais interesses político-partidários – ou, dito de outra forma, colocando sempre muito acima destes os reais interesses de Santa Clara (que pena alguns, uma minoria felismente, não perceberem isso!) –, um desígnio de participação cívica, de mobilização, de proximidade e grande interacção com a comunidade, e cujos resultados já são perfeitamente visíveis: é assim com a elevada participação na discussão dos problemas nucleares da freguesia; assim é quando há que mobilizar para chamar a atenção e agitar consciências sempre que a freguesia é discriminada ou vítima de falsas promessas; assim foi para minimizar, e praticamente tornar residual um grave problema de tráfico de estupefacientes que, às claras, e durante largos anos, incomodou e envergonhou toda a comunidade; assim tem sido, e será, na organização e promoção de variadas acções, eventos que honrando Santa Clara extravasam as fronteiras de Ponta Delgada e dos Açores. E tudo com conta, peso, medida e endividamento ZERO: esta é que é esta!
Parabéns!
A.O. 11/10/2011; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado)