terça-feira, dezembro 20, 2011

Recordar: “Xalim”


"Xalim" e o irmão mais velho (Zé Henrique), antes de um CDSC vs "Oliveirenses", Agosto de 1982;
"Xalim" na sede do CDSC, Maio de 2008.

Sem andar muito longe da verdade é possível afirmar que o “Xalim” foi um dos últimos valiosos frutos do grande e proveitoso “viveiro de futebolistas” em que Santa Clara se transformou ao longo de quase todo o século XX.
De facto, Santa Clara, beneficiando dos espaços livres que existiam, quer junto da sua orla marítima, quer, em especial, dentro do perímetro da “Mata da Doca”, acabou desempenhando um papel muito importante no desenvolvimento do futebol micaelense. Recintos, uns mais improvisados que outros, não faltavam. Só à beira mar, desde o “largo da eira” (mais ou menos onde hoje está o farol, já esteve uma peça que os EUA instalaram em 1917 e antes de um e da outra também lá estiveram os moinhos de vento) até “ao Calço”, já próximo dos “Tanques do Óleo”, com este último campo tendo uma das suas linhas laterais coincidindo com os carris da “locomotiva da doca”, contavam-se pelo menos três. Também os havia na “Mata da Doca”, com o “Campo Açores” à cabeça, mais uns quantos na sua lateral nascente e, ainda – a partir dos anos 60 –, também o “ring do Patronato”. Se não faltavam locais para a prática do futebol, também não faltava quem os utilizasse, sobretudo ao fim-de-semana, em especial ao sábado à tarde, altura em que se verificavam autênticas enchentes, com filas de espera aguardando vez, em consecutivos “perdidos/rua”.
Carlos Silveira, ou “Xalim”, como ficou conhecido para o futebol, integrou ainda uma geração (a última) que obteve usufruto das condições que desde início do século XX fizeram de Santa Clara um fenómeno sócio-desportivo considerável: uma geração que ainda assistiu às últimas edições (versão anos 60/70) dos “Campeonatos de Santa Clara”, então renhidamente disputados pelas equipas do “Calço” das “Cancelas” e do “Farol”, grupos que integrando atletas mais tarde insubstituíveis nas primeiras linhas do CDSC (por exemplo: “Capinha”, Costa Pedro e “Malaco”- com estes dois últimos o “Xalim” haveria, mais tarde, de integrar “onze titulares”), por aqueles anos ocupavam o lugar das que na segunda e terceira década do século XX, patrocinadas pelas “Lojas de Santa Clara”, precederam o futebol organizado em São Miguel; geração que, e sobretudo, pôde ainda, interagir, conviver, herdar vivências e aprender com autênticas centelhas futebolísticas locais, como o “Mestre Artur Garalha” – para referir apenas um exemplo –, que, no caso em concreto do “Xalim”, além de referência, acabou tendo também uma importância capital na sua carreira desportiva.
Desde cedo revelando-se um futebolista bem dotado, ainda muito jovem o “Xalim” passou de assistente ou participante de segundo plano nas clássicas maratonas futebolísticas do “Campo Açores” e do “ring do Patronato”, para figura de primeiro plano nos juniores do CDSC. Foi ainda enquanto júnior, em situação de recurso – a equipa estava a disputar uma prova na Madeira e o guarda-redes titular lesionou-se –, que Xalim passou desempenhar as funções em que se distinguiu.
Era então “Mestre Artur Garalha” o treinador da equipa de juniores, e, conhecendo os dotes que o “miúdo” revelava para a função sempre que para tal era chamado nos “clássicos perdidos/rua” das tardes de sábado, confiou-lhe a guarda das redes naquela excepcional situação.
Foi o início de uma brilhante carreira: “Xalim” rapidamente passou dos juniores à equipa principal – já o CDSC disputava a III divisão série E –, distinguindo-se também no “Os Oliveirenses” (a parte da história mais difícil de contar), ganhando igualmente grande notoriedade na LASA – Liga Norte-americana – já que, passando ao lado do que noutras condições poderia ter sido uma grande carreira, cedo emigrou para os EUA, onde reside.


A.O. 20/12/2011; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado)

quarta-feira, dezembro 07, 2011

Gordura não falta: desde toucinho a tutano




Fartaram-se de falar em “cortar nas gorduras”. Como tema de discurso pré eleitoral o “cortar nas gorduras” foi – e é – assunto sempre presente e conveniente.
Falar, falam – e continuam –, porém quando chega a “hora da verdade” é o que se vê: só o músculo é sacrificado, comprimido, retalhado. Os golpes entraram pela carne dentro. A muitos, à maioria, já atingiram o osso. Só as gorduras, em alguns casos autêntico “toucinho de quatro dedos”, continuam por aí a medrar doentiamente sem que ninguém lhes toque (ou, quando tocam, é com “muito jeitinho” e ainda mais “respeitinho”).
É ver como o chorume por alguns acumulado durante a época de engoda – o BPN é só um exemplo; o mais pungente – continua bem conservado, nalguns casos a secar ao sol, noutros em salmoura, mas sempre resguardado e completamente isento dos cortes pré anunciados. O mesmo já não acontece com o Subsídio de Natal de muitos, da maioria, a quem, sem dó nem piedade – nem as preocupações legais e constitucionais que noutras ocasiões são pretextos para tudo e mais alguma coisa, até para ajudar a ilibar vigaristas e charlatães – já os “chupam até ao tutano”!
É ver a enorme cerimónia com que abordam a possibilidade do agravamento fiscal de alguns artigos de luxo e/ou provenientes de importações supérfluas, sem que o mesmo aconteça quando se trata de bens de primeira necessidade – alimentação e saúde (medicamentos incluídos) são só dois exemplos; os mais comuns – para os mais desfavorecidos, a quem, sem dó nem piedade, já “chupam o tutano”!
Foi ver como nos entreteram com manobras de diversão – ir para a tomada de posse de “scooter”, ou dar publicidade às viagens do PM em classe económica são só dois exemplos; os mais vistosos –, quando na prática pouco mudou, inclusive, logo na primeira oportunidade, um carro topo de gama substituiu a humilde motorizada do “show”.
Gordura também é – ou era – regular e moralizar os contratos leolinos em que assentam as Parcerias Público Privadas, assunto sobre o qual, agora, pouco ou nada se adianta. De facto as PPP’s não são “gordura”, são “toucinho-do-céu”!
Mas, dos mais recentes, o melhor exemplo do falar em “cortar gorduras” para que o pretendido seja chegar com a faca até ao osso – e tudo feito com enorme hipocrisia, como o demonstra a carta enviada às freguesias, se já não bastasse o televisivo sorrisinho cínico – é a “passos/relvista” proposta de reforma para a Administração Local!
Não são necessários documentos verdes, ou livros brancos, para se saber que são as Câmaras Municipais – algumas, autênticos mini governos, ninho de vícios e corrupção, fonte de prebendas, um santuário para prosélitos, afilhados e protegidos – e o conglomerado de Empresas Municipais que pariram recentemente, o grande sorvedouro dos recursos destinados ao Poder Local. Como é público, só as Empresas Municipais (cujo numero em concreto é desconhecido) já acumulam milhares de milhões de euros de divida. Aí sim, há “toucinho” com fartura para cortar e retalhar. É porém pelas Juntas de Freguesia, o músculo, que pretendem começar. Sintomático!
*
“Chupar até ao tutano” é também aquilo que Portugal anda a fazer com os Açores. Agora até o custo das evacuações de emergência feitas nos Açores pela FAP são, como já foi dito, para facturar aos Açores! Triste sina a nossa (açorianos): ocupam-nos o território, por aqui pouco ou nada fazem além de estorvar e enriquecer, para logo nos obrigarem a pagar (sempre caro e com juros) a pouca utilidade que proporcionam.
E que tal fazer um “encontro de contas” com o valor da renda?
A preços de mercado (perguntem à TROIKA) ficaríamos (nós, os Açores e os açorianos) a ganhar, e muito.
Mas isso merece outro tratamento!

A.O. 06/12/2011; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado)

quarta-feira, novembro 23, 2011

É no que dá ir a jogo com “duques”


Duque de "Relvas"


E, como que a ignorância – diabolicamente manipulada – fosse coisa apreciável, lá tentaram mais uma vez “fazer a cabeça” dos portugueses, desta feita, anunciando pomposamente que “missão histórica” da RTP/Açores já está cumprida!
O disparate foi de tal monta (o Relatório, no seu todo e não só nas escassas linhas que aos Açores e Madeira disseram respeito) que nem mesmo “amigos” e correligionários se furtaram a fazer duras críticas, alguns deles, inteligente e oportunamente, dando pública e notória nota das suas divergências: a disputa eleitoral que se aproxima a isso obriga (não é sensato colocar os ovos todos na mesma cesta).
Mas o Adjunto Relvas, embora com cada vez mais dificuldade em esconder as suas despóticas tendências, usando o Mogadouro para comparar o que é incomparável, lá continuou a sua impetuosa senda neocolonialista.
É caso para dizer:
Com certeza que Sua Ex.ª. sabe que não se pode circular, por via ordinária, entre Ponta Delgada, Angra do Heroísmo e Horta. Mas – pelo menos assim parece – já não é tão certo que SEXA tenha a concreta noção do quanto estão geograficamente afastados entre si os açorianos de Vila Nova do Corvo dos de Vila do Porto, burgos que, distam um do outro quase tantas milhas marítimas quantas aquelas que separam os Açores de Portugal.
Mas há outras questões sobre as quais ficam sérias dúvidas. Por exemplo:
- Terá Sua Ex.ª. consciência que, mesmo tendo os “seus meninos” escrito que a “missão histórica da RTP/Açores” já estava cumprida, ainda há, nos Açores, quem, não obstante pagar as respectivas taxas, não tenha direito a usufruir – por falta de cobertura minimamente decente – daquele serviço?
- Terá Sua Ex.ª. conhecimento que, nos Açores, o Serviço Público de televisão é muito mais do que “o serviço de promoção pública de quem num determinado momento está no poder”?
- Saberá Sua Ex.ª. que, nos Açores, a rádio desempenha há mais de setenta anos a “sua missão histórica”, sem que ninguém tenha ainda dado conta que a mesma – a “missão história” em causa – possa por isso alguma vez ser dispensada?
Sinceramente. Não tenho dúvidas que o actual momento até pode justificar muita coisa, mas não pode justificar tudo!
Pode e deve justificar alguma contenção e grande racionalização: não pode, nem deve, justificar destruição!
Pode e deve justificar um maior esforço de justiça e equidade: não pode, nem deve, justificar cinismo, cobardia, exploração, colonialismo e desonestidade!
É que a “Troika” e os seus ditames parecem tudo justificar. Tudo, desde que as vítimas estejam na base e não no topo da pirâmide social: bastará ver como o realce dado àquilo que se dizem ser os custos de funcionamento da RTP/Açores (e RTP/Madeira) não tem paralelo no que diz respeito ao que se continua a gastar com os “chefões” e as vedetas do universo da RTP SA!
E não é só quanto à RTP que o cinismo dos “Relvas” e “Relvinhas” se revela e confirma. Também a dita Reforma Administrativa, que por imperativo da “Troika” – dizia-se – iria acabar com não sei quantos Municípios e Empresas Municipais, expõe a “valentia” dos que sempre se apresentam fortes e vigorosos para com os mais humildes, mas perfeitamente inofensivos perante os poderosos. Os lóbis “cerraram fileiras” e logo as “exigências da Troika” quanto ao número de Câmaras Municipais, de Empresas Municipais e do excessivo número funcionários municipais (dirigentes, vereadores a tempo inteiro e trabalhadores das E.M.) – tomara, é por aí que se começam a acomodar os “amiguinhos” – saíram “milagrosamente” de cena.
Protegidos “os poderosos”, sobrou para as Juntas de Freguesia – de novo a base da pirâmide –, cujos custos de funcionamento praticamente não tem representatividade no OE. Temos portanto as Juntas de Freguesia, e não os verdadeiros sorvedouros de dinheiros públicos, como “alvos a abater”.
“Pega valente”!


A.O. 22/11/2011; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado)

sábado, novembro 12, 2011

Pois é... “não se ponham a pau”, não!



Incomoda-me muito menos assistir à forma “mandona” e prepotente como a chanceler Merkel e o presidente Sarkozy tratam os “seus pares” europeus, do que – sobretudo quando acomanhado da indiferença dos que lhes são mais próximos e deles até se dizem seus amigos –, presenciar, ouvir, ou pura e simplesmente apenas admitir terem existido as tão ufanas quanto autoritárias sentenças dos recém chegados “salvadores da pátria”, alguns deles (não tão poucos assim), autênticos “salazarzinhos”, pretensos aprendizes da arte de bem subjugar.
Como é habitual nestas ocasiões, com excepção dos mais poderosos (ou daqueles que ao passarem pelo poder poderosos também se tornaram, pelo menos perante a Justiça: lista que cresce a cada dia que passa), “tudo o que mexe leva”. Para os novos “pais da pátria” (e nisso até o outro - o Salazar “à sério”- se preocupava em parecer mais justo) parece ser mais fácil “sacar” 50% de um salário mínimo a quem ganha pouco mais de 600€/mês, do que retirar uma pensão vitalícia, de milhares de €/mês, que outra origem não teve do que o desempenho, temporário (que quando mais breve fora, tanto melhor teria sido), de um cargo político. Como mais fácil também parece ser sobretaxar um bem de primeira necessidade, tipo água e luz, quando se desfazem em cerimónias para taxar bens de luxo, ou rendimentos privilegiados.
Mas não se pense ser só a este nível que se assiste à enorme degradação da vida democrática, pelo menos tal como a temos conhecido nas últimas três para quatro décadas. É que este afã autoritário nem as instituições poupa. Tal como as Autonomias (dos Açores e da Madeira – das quais nem sou grande defensor: em especial para os Açores ambiciono muito mais), que têm atraindo sobre si fortes e nefastas agressões.
Para não ir mais longe (nem recuar muito):
- Quem já se esqueceu das “corajosas”, “justas”, “muito bem fundamentadas” e “exemplarmente dialogantes” sentenças do Ministro Miguel Relvas, aquando da sua reunião com os deputados eleitos para o Parlamento Açoriano, sobre a “RTP/A, janela”?
- Ou ainda mais recentemente, quando, como se já não existisse Governo dos Açores, Órgãos de Poder Local são directamente contactados pelo Governo de Portugal, para lhes ser pedido parecer sobre a “Reforma da Administração Local”, como se esta, nos Açores, não fosse competência NOSSA.
“Inconstitucionalidades” existem muitas, para todos os gostos e “feitios”. Com os Açores como pano de fundo, algumas, como já testemunhamos, até provocaram interrupções de férias e exigiram cerimoniosos e avultados “temos de antena”. Porém, para outras, não faltarão “orelhas moucas”. Podem ter a certeza!
Por tudo isso, nestes dias, tenho-me lembrado, e muito, daquele sermão proferido por um pastor luterano, em pleno nazismo, que, mais coisa menos coisa, assim rezava:
“Um dia vieram e levaram o meu vizinho judeu. Não sendo judeu, não me incomodei. No seguinte vieram e levaram outro vizinho, que era comunista. Não sendo eu comunista, também não me incomodei. Ao terceiro dia vieram de novo e desta vez levaram um vizinho católico. Como não era católico, voltei a não me incomodar. Ao quarto dia levaram-me: já não havia mais ninguém para reclamar!”
Não, “não se ponham a pau”, não!


A.O. 08/11/2011; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado)






quarta-feira, outubro 12, 2011

Mais um aniversário: o sexto


Parece que foi ontem, mas entretanto já passaram seis anos sobre a eleição dos primeiros Órgãos Autárquicos de Santa Clara, o culminar de um longo processo (“a luta” durou meio século) iniciado pelo incontornável Padre Fernando “de Santa Clara” em meados da década de cinquenta do século XX, percurso ora dinâmico, ora silencioso – e também silenciado –, que, como se viu, bem semeado que foi, e por ter sido sempre devidamente alimentado pela férrea perseverança dos santaclareses, frutificou.
Seis anos parecem poucos (quando comparado com o muito que Santa Clara mudou para melhor neste mesmo período), mas, e sobretudo tendo em conta as pretensões daqueles que reverenciando os poderosos não vacilam quando se trata de esmagar os mais fracos (vejam como eles já deixaram de falar em acabar com Municípios – e respectivas gastadoras empresas municipais - e agora só falam de Juntas de Freguesia. Há empresas municipais que gastam mais, e servem menos, do que todas as Juntas de Freguesia do respectivo Município!), e as “nuvens negras” com que se alimentam e dopam, meia dúzia de anos é já tempo suficiente para apresentar um bem representativo balanço.
Ora vejamos (só o mais “grado”, para não nos dispersarmos com pormenores):
Quem não se lembra da “Príncipe do Mónaco”, de como aquela nobre via de Ponta Delgada era, e de como agora está (desde “as Cancelas” até ao Ramalho”)?
E quem se pode esquecer da enorme “armadilha” que constituía o entroncamento na saída da “envolvente a Ponta Delgada”, agora substituído pela “Rotunda Vida Nova” (assim já é habitual chamar-lhe), que a Norte da “Príncipe do Mónaco”, entre o mais, ordena e disciplina a passagem de veículos em direcção a Santa Clara, em especial o grande fluxo de transito pesado originado pelo Porto de Ponta Delgada?
E do degradante baldio, autêntica “sala de chuto a céu aberto” em que estava transformado o que restava da “Mata da Doca”, zona que hoje, reabilitada, se metamorfoseou no pitoresco, ameno, frondoso e agradável “Jardim Padre Fernando”?
Ou do velho “Caminho Velho do Ramalho”, antes impróprio até para peões, mas já – embora ainda não concluído –, completamente melhorado, com passeios e espaços de estacionamento, que assim irá proporcionar mais conforto aos seus utentes e residentes?
Mais podia já estar feito (recordo a 2ª Rua de Santa Clara e a Rua do João do Rego: birras, teimosias e as naturais complicações o impedem) e mais terá de ser feito (do “Matadouro” o pior já passou, e para os “Tanques do Óleo” o 2013 já está a chegar), mas o que já está resolvido permite apresentar um balanço com resultados altamente positivos.
Porém não é só o que está à vista aquilo que valoriza este balanço. No seu “Deve” e “Haver”, para além das coisas, há também que salientar o projecto e as pessoas. De forma especial estas últimas, que são principal activo a valorizar nesta, e em muitas outras prestação de contas. Neste sentido, nunca é demais repetir que a gestão da Freguesia de Santa Clara assenta num projecto de cidadania, não subordinado aos habituais interesses político-partidários – ou, dito de outra forma, colocando sempre muito acima destes os reais interesses de Santa Clara (que pena alguns, uma minoria felismente, não perceberem isso!) –, um desígnio de participação cívica, de mobilização, de proximidade e grande interacção com a comunidade, e cujos resultados já são perfeitamente visíveis: é assim com a elevada participação na discussão dos problemas nucleares da freguesia; assim é quando há que mobilizar para chamar a atenção e agitar consciências sempre que a freguesia é discriminada ou vítima de falsas promessas; assim foi para minimizar, e praticamente tornar residual um grave problema de tráfico de estupefacientes que, às claras, e durante largos anos, incomodou e envergonhou toda a comunidade; assim tem sido, e será, na organização e promoção de variadas acções, eventos que honrando Santa Clara extravasam as fronteiras de Ponta Delgada e dos Açores. E tudo com conta, peso, medida e endividamento ZERO: esta é que é esta!
Parabéns!
A.O. 11/10/2011; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado)

quarta-feira, setembro 28, 2011

Faltou o cartaz de boas vindas




Fazendo lembrar “velhos tempos”, de forma especial os da transição da década de 20 para a de 30 do século XX, começa a ganhar embalagem um pesado “rolo compressor”, ultra-centralista, que outra finalidade não tem do que esmagar a escassa autonomia entretanto conseguida. Tal como no advento do “Estado Novo”, a crise e os seus fantasmas estão a transformar-se no combustível ideal deste “espremedor”, um comburente que fica fortemente aditivado quando para além do mais a mescla é amparada por governantes portugueses com propensão autoritária.
Ultimamente – nalguns casos servindo de útil manobra de diversão com o intuito de relegar para segundo plano questões bem mais graves – não têm faltado demonstrações do imperial funcionamento da “trituradora”. A pretensão de transformar a RTP/Açores (a "RDP/A" tem sido pouco referida mas é também alvo de similar esmagamento) em janela “seja lá do que for”, tal como a oportunidade e a forma com que a “sentença” foi proferida, são disso bom exemplo.
Muitos outros exemplos não faltam, rivalizando em numero e espectacularidade com as, anormalmente frequentes, demonstrações de ignorância sobre a realidade dos Açores (e da Madeira) a que vamos assistindo com espanto, sobretudo quando oriundas de donde menos se esperaria. A recente visita para exibição de soberania, tal como o farto conjunto de patacoadas que gerou, não constituiu excepção a esta regra. Aliás, o oportuno passeio de um séquito de mais de meia centena de cortesãos e cortesãs às “Ilhas da Coesão”, que, como convinha, não poderia deixar de terminar em Ponta Delgada (“não tivesse Natália Correia sido cremada e, com certeza, no sábado passado não pararia de andar às voltas no caixão”, escreveu e tem dito, de forma mordaz, mas com graça, pessoa amiga), só foi excepção aos sacrifícios e à contenção de custos que por via da crise são constantemente recomendados e exigidos (aos outros). Claro que como não podia deixar de ser – está nos manuais: embora o Império devolva sempre menos do que aquilo que da parcela retira, as “ofertas” de contrapartida deverão ser feitas de modo a manter a aparência de que, não fora o ocupante, a “feitoria” jamais garantiria a sua subsistência –, à laia de justificação prévia foi dito que a pomposa viagem serviria para promover os Açores e os seus produtos.
Trocando o sério pelo irónico, resta dizer que os Açores foram de facto promovidos:

- Santa Cruz da Graciosa ganhou, de um momento para o outro, uma catedral;

- Os portugueses ficaram a saber que as vacas açorianas conseguem sorrir;

- E, até, o generoso “Queijo de São Jorge”, mesmo que reduzido a apenas dois quilos (foi o que se chamou fazer o "queijo de peso” perder peso) ganhou tempo de antena.

Faltou apenas – com grande pena minha – um merecido cartaz de boas vindas. Qualquer coisa do tipo: Obrigado Sr. Presidente: pelas suas birras, pelos seus vetos. / Desculpe lá se alguma vez teve de interromper férias por nossa causa. / Na próxima, não se esqueça, traga também os Loureiros, os Costas e todos aqueles amigos que nos estão a obrigar a “tapar um buraco” igual ou ainda maior do que o da Madeira. / Volte sempre (de preferência a expensas suas).


A.O. 27/09/2011; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado)

terça-feira, setembro 13, 2011

Anthero de Quental (18/04/1842 – 11/09/1891)


Solar do Bom Despacho, Rua direita do Ramalho, Santa Clara - Ponta Delgada - Açores
Propriedade pertencente à famíla de Antero de Quental, e por ele muito visitada

Casa onde nasceu Antero de Quental. Rua do Castilho, São Sebastião - Ponta Delgada - Açores

Por ser o nosso maior, porque nunca é demais recordar Antero, permitam-me que, com sua e vossa licença, o convoque aqui para este espaço.
Antecipadamente agradecido.
Ponta Delgada, 11 de Setembro de 2011

Excertos da carta autobiográfica enviada a Wilhelm Storck, Maio de 1887

“Nasci nesta ilha de São Miguel descendente de uma das mais antigas famílias dos seus colonizadores, em Abril de 1842.

(…)
Dela saiu, no século XVII. O Padre Bartolomeu de Quental, varão douto e de grandes virtudes, fundador, em Portugal, da Congregação do Oratório, e cujos sermões ainda hoje podem ser lidos com alguma utilidade. Meu avô, André da Ponte de Quental, foi da roda de Bocage, e, segundo o testemunho deste, poeta nada vulgar; infelizmente, nada resta das suas composições porque as não escrevia. A sua reputação morreu com ele.
(…)
Morrerei, depois de uma vida moralmente tão agitada e dolorosa, na placidez de pensamentos tão irmãos das mais íntimas aspirações da alma humana, e, como diziam os antigos, na paz do Senhor! – Assim o espero.”
Fotobiografia, INCM, Abril de 1986

E três sonetos mais ou menos a eito:

O Palácio da Ventura

Sonho que sou um cavaleiro andante.
Por desertos, por sóis, por noite escura,
Paladino do amor, busca anelante
O palácio encantado da Ventura!

Mas já desmaio, exausto e vacilante,
Quebrada a espada já, rota a armadura...
E eis que súbito o avisto, fulgurante
Na sua pompa e aérea formosura!

Com grandes golpes bato à porta e brado:
Eu sou o Vagabundo, o Deserdado...
Abri-vos, portas d'ouro, ante meus ais!

Abrem-se as portas d'ouro, com fragor...
Mas dentro encontro só, cheio de dor,
Silêncio e escuridão - e nada mais!

Sonho oriental

Sonho-me às vezes rei, n’alguma ilha,
Muito longe, nos mares do Oriente
Onde a noite é balsâmica e fulgente
E a lua cheia sobre as águas brilha…

O aroma da magnólia e da baunilha
Paira no ar diáfano e dormente …
Lambe a orla dos bosques vagamente,
O mar com finas ondas de escumilha…

E enquanto eu na varanda de marfim
Me encosto, absorto n’um cismar sem fim,
Tu, meu amor, divagas ao luar,

Do profundo jardim pelas clareiras,
Ou descalça debaixo das palmeiras,
Tendo aos pés um leão familiar.

Aspiração

Meus dias vão correndo vagarosos,
Sem prazer e sem dor parece
Que o foco interior já desfalece
E vacila com raios duvidosos.

É bela a vida e os anos são formosos,
E nunca ao peito amante o amor falece...
Mas, se a beleza aqui nos aparece,
Logo outra lembra de mais puros gozos.

Minha alma, ó Deus! a outros céus aspira:
Se um momento a prendeu mortal beleza,
É pela eterna pátria que suspira...

Porém, do pressentir dá-ma a certeza,
Dá-ma! e sereno, embora a dor me fira,
Eu sempre bendirei esta tristeza!


A.O. 13/09/2011; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado)

(um destes dias, após me decidir por quais, coloco mais um ou dois sonetos do "santo")

sexta-feira, setembro 09, 2011

terça-feira, agosto 30, 2011

Os mesmos tiques de sempre




Portugal não é um país pequeno, diziam então.
Também posso dizer: nem os Açores serão!



Em tempo de “vacas gordas”, mesmo quando artificialmente engordadas, há um conjunto de “tiques”, reveladores de outros tantos preconceitos – no caso, mais do que isso, são claras manifestações neo-coloniais –, que com maior ou menor dificuldade conseguem ser disfarçados. Porém, quando a crise “bate à porta” – o fazer “cair máscaras”, tal como o “aguçar do engenho”, são das poucas vantagens das crises – sobejam, por vezes surpreendendo, as grandes revelações. Muitas delas insólitas!
Não há muito tempo, no decorrer de uma entrevista ao actual Ministro das Finanças de Portugal, a jornalista – Judite Sousa, se não estou em erro – instou o ilustre entrevistado a “ter mãos neles”. “Eles” eram o Governo dos Açores e da Madeira, Órgãos de Governo Próprio, meia volta/volta e meia tidos ou confundidos com uma simples autarquia, vezes sem conta referidos como Órgãos de Poder Local, e, porventura vingasse a vontade de alguns, “qualquer coisa” a ser completamente subjugada (umas vezes pela disciplina partidária outras pelo emaranhado do quadro politico/legislativo, pois importante mesmo é que sejam “autónomos”, mas não muito. Basta que conste!).
Em abono da verdade deve dizer-se que o governante em causa, não obstante a forma tendenciosamente dirigida como a questão lhe foi colocada, não amesquinhou, ainda mais, o Estatuto de Autonomia, forma de Lei que ao invés de progredir, de se consolidar e valorizar, tem sentido enormes dificuldades em se libertar das grilhetas que, de uma ou de outra forma, insistem em colocar-lhe. A mesma verdade manda também dizer que Alberto João Jardim se tem farto de dar trunfos aos adversários das autonomias: uma pena, porque aquele estilo destemido, e o correspondente “falar grosso”, fazem falta. Bom, mas deixemos a Madeira para os madeirenses!
Quanto aos Açores, nunca é demais lembrar a quem finge insistentemente esquecer, que ao contrário do que alguns gostam de fazer crer, é – e de maneira geral sempre foi – muito maior a contribuição daqui originária para “o grande império” do que aquilo que dele, “império” (em formato grande ou minúsculo), reciprocamente, aos Açores chega. Monta que apesar de tudo poderia aumentar substancialmente não fora a forma aparentemente displicente – há que disfarçar para melhor “vender por baixo da mesa” – com que “o senhorio” negoceia a justa valia da “enorme quinta do meio do Atlântico” com os senhores do “mercado internacional”.
Exemplos não faltam, com um dos últimos, a acontecer já no advento da crise de 2008, fazendo dos Açores, “a insignificante autarquia” – vejam lá se escolheram Lisboa, ou até mesmo Beja? – palco onde Durão Barroso (acompanhado de Bush, Blair e Aznar) se colocou “em bicos de pés” perante o Mundo e a Europa. Ele ainda hoje tira disso dividendos, para os Açores, além dos riscos, ficaram apenas as imagens!
Pior do que as crises que fazem vacas emagrecer são as crises de crescimento, e com estas os Açores têm uma má relação. Diria mesmo que a Autonomia dos Açores quando atinge a idade madura em vez de se fortalecer, “é deitada ao chão” (a Autonomia, não evoluindo, tende a apodrecer). Foi assim com Salazar (finais da década de 20, inicio da de 30 do século XX, com o fim da moeda própria anunciando o “golpe de misericórdia”. Eram também tempos de crise!) e assim, de novo, tentarão que seja. Sinais não faltam: é a crise; é a condescendência aos estilos autoritários (o consulado de Sócrates foi disso inusitado paradigma); e, “last but not the least”, uma conveniente troika: um Presidente, um Governo, uma Maioria (em estreia após “o tempo da velha senhora”).
“Aguçar o engenho”, sim. “Botar sentido”, também!



A.O. 30/08/2011; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado)


quarta-feira, agosto 17, 2011

Conveniências, conluios: há quem lhes chame coincidências


Outras Troikas, que com trocas e baldrocas criaram a aprofundaram o buraco BPN



A "instalação Bidão", a ganhar "patine" para se candidatar ao "CMC Niemeyer"


Fotos "roubadas" na net, a do "Bidão" no FB do João Raposo

Existem assuntos sobre os quais, por mais que prometa a mim mesmo não voltar a eles, atazanam-me de tal forma que quando dou por mim já falhei ao prometido.
Seguem-se dois bons exemplos:
1 – O BPN, que apesar de parecer já antigo, porque se reinventa, torna-se inesgotável – com cada fase mais bizarra do que a anterior – mantendo-se sempre actual!
Onde é que vão as centenas de M€ que Miguel Cadilhe pediu (em forma de aval) para dar solução ao assunto? Quantos mil M€, no entretanto, já ali foram “enterrados”? De Miguel Cadilhe – tire-se-lhe o chapéu, pois não fora ele a “agitar o lodo daquele pântano”, talvez hoje nem os “casos de polícia” (que se irão eternizar qual Casa Pia e outros que tais) existissem – já nem se fala. Não descansaram enquanto o não neutralizaram. Como já não se fala de Victor Constâncio, o ineficaz “fiscalizador”, promovido que foi, e agora no BCE, à distância, melhor do que nunca para continuar a “ver a banda passar”. Teixeira dos Santos vai pelo mesmo caminho. Só do BPN, mesmo depois de mudar de nome, dificilmente se poderá deixar de falar. Nacionalizaram o que era “doloroso” deixando “escapar” o que podia valer alguma coisa (a SLN), como quem diz, à descarada: o Passivo pagam todos, os Activos é para “eles se abotoarem”. O problema aqui – que não é de somenos importância – é quem são “eles”: um qualquer “desgraçado” falha um pagamento e logo lhe penhoram a conta bancária, a casa, e o mais que houver. Mas Dias Loureiro, por exemplo, já não tem bens (em seu nome) que possam servir de garantia para o normal desenrolar da investigação em curso. Agora, para “rematar o ramalhete”, a reprivatização segue os mesmos moldes. O que não presta foi de novo repartido por TODOS, para ALGUÉM – e nunca alguém é só alguém – comprar “chicha” pelo preço “da uva mijona”! “Tolos a dar, espertos a aceitar”, não custa entender. A questão é que, ou há quem saiba explicar tudo isso muito bem, ou não convencem – ninguém – que isto “não está tudo ligado”!
2 – Quem diria que a requalificação da 2ª Rua de Santa Clara, uma promessa eleitoral de Setembro de 2005 – “Estou certa que com a requalificação que defendemos e que iremos desenvolver desde a rotunda de Santa Clara até ao inicio desta via, quer a freguesia de Santa Clara quer a própria Relva não mais serão as mesmas.”-, ainda para mais quando associada a uma provocação logo depois muito difícil de digerir – “Esperamos agora que o Governo possa também cumprir a promessa de requalificação da Avenida Príncipe do Mónaco (…).”–, e ao longo dos tempos sempre reforçada com um – “cumprimos o que prometemos” –, o que como se vê, infelizmente, não se aplica a todos, passado todos estes anos estivesse ainda por cumprir?
Um conjunto de “azares” e burocracias, dizem, está na origem deste crónico incumprimento. “Azares” sucessivos, digo eu, que por mero acaso (ou não), ao que parece, só acontecem em Santa Clara. Coincidências! Noutros locais, e para outros destinatários, não faltam empenhos, esforços que chegam ao ponto de “contornar” o PDM, ou a desmanchar e refazer o que foi recentemente feito! Só para a 2ª Rua de Santa Clara não há “mãos à obra” neste "Concelho Feliz" que lhe valham. Coincidências! E as coincidências ficam por aqui, agora, porque não é tempo de referir outras “coincidências”.
Consequência de sucessivos “azares” e burocracias não será com certeza, também, a prolongada “distracção” que votou ao abandono os “bidões” colocados para sinalizar a derrocada da “Rocha da Nordela”. Velhos, enferrujados, podres, carregados de lixo, passados cinco anos eles lá continuam. Para a segurança do local contribuem pouco – está provado –, o que não deixam de ser, feliz ou infelizmente, é um forte de sinal de desmazelo (só muito recentemente minimizado com uma "limpeza" de ocasião) e do óbvio incumprimento de promessas recorrentemente anunciadas, para logo serem adiadas. Seis anos. É muito tempo! Como seria se todos fossem assim?

A.O. 16/08/2011; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado)