domingo, dezembro 09, 2012

Manuel Ferreira

Eu e o Senhor Manuel Ferreira, em Outubro de 2002 (como o tempo passa), quando lhe fui dar a conhecer as ruínas do "Catelinho de Santa Clara", estava então a ser finalizado o "As voltas que Santa Clara deu".

Faz hoje exactamente sete dias que o Senhor Manuel Ferreira - o Comendador Manuel Ferreira -, mui digno paladino da Açorianidade e estóico portador/guardião do testemunho da “Livre Administração dos Açores pelos Açorianos” desde o ocaso dos “velhos autonomistas” até à Autonomia conquistada com o 6 de Junho de 1975, fisicamente, deixou-nos. Partiu ficando, pois o legado que nos proporcionou fará com que Homem e Obra, agora para sempre fundidos, entre nós permaneçam!

Mais de três dezenas de títulos publicados e milhares de peças jornalísticas dispersas em vários periódicos – sempre bem fundamentadas, na sua grande maioria exigindo minuciosa preparação, algumas delas geradoras de forte polémica, bastas vezes dando origem a réplicas e tréplicas – dão bem a ideia da enorme capacidade de trabalho que Manuel Ferreira patenteava, facto ainda mais relevante tendo em conta que durante largo tempo acumulou as actividades jornalística e literária com as que realmente lhe garantiam subsistência. A si e aos seus! Um labor frenético que, acompanhado de austera disciplina e suportado por um sempre lúcido raciocínio e uma prodigiosa memória manteve praticamente até aos últimos tempos, deixando “como que esmirrado” quem, mesmo que com pouco mais da metade da sua idade e só o fazendo pontualmente, procurasse acompanhar tamanha energia e produtividade.

Da obra de Manuel Ferreira permitam-me, até também pela actualidade (num tempo de esbulho fiscal e “caça à multa”), aqui trazer o “Alevante da isca”, conto, histórico, com o qual, em 1948, ganhou, os Jogos Florais do Instituto Cultural de Ponta Delgada. A acção remonta a 1898, dois anos depois das Cortes ratificarem o hoje já mais que centenário “decreto de 2 de Março de 1895”. Além do “retrato” da Ponta Delgada de então que nos é proporcionado, onde, distintos personagens como o industrial João de Melo Abreu mas também outros bem mais humildes como o pescador santaclarense “João Viúva” são “apanhados na foto”, o uso de expressões como: “O pulha, com cara de tratador de porcos, anos antes destacado do continente para cá, como soldado raso e impedido do comandante da Guarda-fiscal (…)”, ou; “Lisboa só nos mandava daquelas encomendas!”, ou ainda; “Cães danados. – E fala-se em regalias…. em autonomias… – Qual autonomia, nem meia autonomia? – Nem na nossa casa uma pessoa manda!”, dão bem conta do que “ia na alma” do então jovem escritor, que, não obstante serem tempos de ditadura, além das criticas veladamente romanceadas, não se coibiu em lhes dar contexto e personalizar com o paragrafo com que remata o texto: “Daqui vou-me direito, sem mais conversas, tirar a minha licença de isqueiro…”.

Obrigado Manuel Ferreira. Um eterno bem-haja!

A.O. 08/12/2012; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado)

domingo, novembro 25, 2012

Negócios da china

Têm sido manchete recorrente notícias avulsas dando conta de um eventual interesse da República Popular da China nos Açores. Não estranho, até considero “boas notícias”!
O mais normal, facto confirmado ao longo de séculos, é a cobiça que os Açores suscitam à potência expansionista dominante num determinado momento. Foi assim com Portugal, com a Espanha, com Inglaterra, e mais recentemente com os EUA. Anormal seria o contrário. Como anómalo é também o facto de os açorianos serem, por regra, não obstante os riscos inerentes, quem menos lucra com “o negócio” em que terceiros os envolvem.
Mas as singularidades deste processo não se ficam por aí: é a FLAD ser sediada em Portugal quando podia (e devia) estar nos Açores; é a “renda da parcela da quinta” ser paga em “sucata bélica” quando os Açores tanto necessitam de investimento economicamente reprodutivo e/ou cultural e cientificamente consistente; é o assistir, sem contrariar (pelo menos de forma eficaz), à sistemática campanha de desvalorização da importância geoestratégica dos Açores, e mais, e mais, e mais...
Por tudo isso são “boas notícias” as que dão conta do interesse da China nos Açores. No mínimo – é da lei da oferta e da procura –, acrescenta valor!

Esclarecimento (O fim do Império) A.O. 15Nov2012

Sobre o assunto em epígrafe, as minhas primeiras palavras são de agradecimento. Surpreendeu-me tanta importância, para mais vinda de tão alargado, distinto e douto conjunto de personalidades. Um dos meus “vai lá saber-se porquê” fica assim mitigado. Muito obrigado!
Mas não é tudo. Não posso deixar passar os “delírios”: o dito meu (chamar-lhe-ia “delírio de colonizado”) e os de outrem. O que me é atribuído pretendo mantê-lo: não escondo que gostava de viver num país Livre e Independente chamado Açores (mais utópico é acreditar que o processo se faça pacificamente, tipo “divórcio de veludo” entre gente civilizada. Mas quero manter esta esperança!). Tal como os cabo-verdianos, nós, açorianos, temos também direito a ser “delirantes”! Sobre o “delírio imperial”, reitero: há muito de comum entre os que antes gritavam que Portugal ia do Minho a Timor e os que hoje o desejam, uno e indivisível, porém agora só do Minho ao Corvo.


A.O. 24/11/2012; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado)

segunda-feira, novembro 12, 2012

O fim do Império



Tinha planeado a minha vida de forma a hoje, Sábado (09.11.2012), poder ir assistir, na Universidade dos Açores, à dissertação: “Pensar Açores – o fim do Império”, proferida pelo Dr. José Almeida. Vá lá saber-se porquê (mas imagino: há temas e pessoas que causam urticária ao “zeladores da pátria”, sobretudo agora que o “império”, para além do retângulo ibérico, está reduzido aos Açores e à Madeira), notícias de última hora deram conta que o Dr. José Almeida já não incluiu o painel de palestrantes.

Passam os anos, modificam-se os arquétipos e paradigmas, mas fica quase inalterável o “delírio imperial” de uns quantos, que não obstante já pouco mais serem do que meros regentes por conta da Troika, quais “duquesas de Mântua” ou “Migueis de Vasconcelos”, tudo fazem para não perderem uma oportunidade de “puxar pelos galões” ou “arejar a farpela” de representantes do “dono da quinta”, uma "quinta" que desde há muito já deu provas de saber (e poder) viver sem tutelas que nada acrescentam, bem pelo contrário.

Há coisas que não mudam, ou mudando, o que se altera é muito pouco! Perante tanta inércia, tanta presunção e tanta desavergonhada representação – quem se pode esquecer da presença de Miguel Relvas na tomada de posse do novo Governo dos Açores? –, vá lá mais uma vez saber-se porquê, fica-me sempre a sensação que há quem ainda se inflame com o grito salazarento que nos impingiam em criança nas tardes de Mocidade Portuguesa, só que agora, passados todos estes anos, com menor amplitude. Dantes gritava-se: “Do Minho a Timor…. Portugal, Portugal, Portugal”. Agora, impelidos pelo mesmo desejo, porém impedidos de repetir a mesma coisa, parece que dão largas ao “delírio imperial” que os consome gritando em êxtase: “Do Minho ao Corvo … Portugal, Portugal, Portugal”.

A.O. 09/11/2012; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado)

sábado, outubro 27, 2012

Renovar sim, também as mentalidades

Duarte Freitas, agindo como quem ainda não percebeu parte importante do que acabou de acontecer, numa das suas primeiras aparições como candidato à sucessão de Berta Cabral, não encontrou melhor forma de afirmar o seu “espírito de missão”, senão, inspirando-se em Victor Gaspar. Que pena. Parece que não há forma de aprenderem, nem mesmo depois dos erros recentes.

É que, mais do que a excessiva austeridade provocada pelo incompetente desacerto do governo “Relvas/passista” que a partir de Portugal nos esmaga, sufoca e tudo faz para restringir ao mínimo a escassa autonomia já conquistada; mais do que a tentativa de extrapolar para todos os Açores (vá lá, excepto o Corvo) as práticas e estratégias políticas utilizadas no Concelho de Ponta Delgada, ainda por cima, quando estas já demonstravam visível desgaste; talvez mais (porque começou mais cedo) do que os vários “tiros nos pés” dados ao longo dos meses de Setembro e Outubro – atemorizar com o “resgate” Açores/Portugal para logo apontar quem melhor o podia renegociar e/ou “desfazer” / acenar com um n x 9 que antes de o ser já era um n x 8 / desembainhar o contraditório chorrilho de promessas que ouvimos, a última das quais (os 15.000 empregos) a fazer lembrar o pior da “era socrática” –; mais do que tudo isso, dizia e estou convencido, a recente derrota eleitoral, sobretudo a alargada margem que aquela consubstanciou, teve muito a ver com a terrível tendência que o PSD/A tem patenteado: aplaudir e louvar submissa e de forma seguidista os líderes do partido em Portugal.

Acredito na renovação. Aliás, mais ainda do que todos os outros motivos antes referidos, estou certo ter sido a renovação, muito propalada e não menos bem evidenciada no projecto de Vasco Cordeiro – em contraponto com o de Berta Cabral, não obstante o célebre “out door” dos figurantes – o verdadeiro “motor” da vitoriosa campanha que renovará a presidência do Governo dos Açores.

A renovação no PSD/A também é bem-vinda. Porém, não há renovação sem que, antes de tudo o mais, se renove as mentalidades (esperemos que o “tropeção de Duarte Freitas seja só isso mesmo: “um tropeção”).

Só com uma nova geração: arejada, descomplexada, desejosa de emancipação e capaz de aceitar o risco de encarar o mundo sem se agarrar às “pernas do papá”, os Açores podem também, um dia, renovando, emancipar-se.

Venham os mais jovens, cheguem sem peias nem teias: a Mátria açoriana agradece!

A.O. 27/10/2012; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado)


sexta-feira, outubro 12, 2012

Este ano, 7: No futuro, 70x7

Está patente em Santa Clara, no Centro Cívico e Cultural da freguesia (caso emblemático da gestão social e política do município de Ponta Delgada, que dá guarida e emprego aos que nas listas lideradas pela ex - presidente da CMPD perderam eleições nas suas freguesias e mantém cativa, como inquilina enjeitada, a Junta de Freguesia local), uma exposição de documentos, publicações, fotos e objectos, mostrando parte do muito que mudou em Santa Clara desde que se emancipou de São José, mas fazendo também, e simultaneamente, um retrato de Santa Clara desde 2005 a 2012.

“Sete anos, sete vidas”, patente ao público até dia 16 de Outubro (embora só nos dias úteis e entre as 18:00 e as 20:30), pretende com o seu título aludir à tenacidade em fazer nascer e manter a mais jovem freguesia urbana de Ponta Delgada e com o seu conteúdo mostrar a muita “obra” (mais humana do que material) feita em resultado de um mobilizador projecto de cidadania, pois como se sabe – mas nunca é demais repetir – os destinos da freguesia estão desde a primeira hora entregues a um grupo de cidadãos, intitulado “Santa Clara – Vida Nova”, que à margem dos partidos (mas não contra estes – só o PSD não entendeu o projecto), com grande dedicação e perseverança, reflectindo a forte identidade de Santa Clara, não se poupam a esforços para recuperar o tempo perdido (anos em que Santa Clara foi considerada, e tratada, como o “fundo do quintal de Ponta Delgada”).

Neste seu sétimo ano de vida, Santa Clara recebeu uma especial prenda, pois as suas contas, auditadas pelo Tribunal de Contas, passaram sem mácula, com o único reparo referindo a obrigatoriedade das mesmas serem publicadas no “website” da freguesia (o que de imediato foi efectuado).

“Renovação: avança uma nova geração” foi o lema de campanha usado para o segundo mandato de “Santa Clara – Vida Nova” à frente dos destinos de Santa Clara. Avançou mesmo uma nova geração! Mudaram as pessoas. O que ficou inalterável foi a competência o esforço e a dedicação emprestadas ao projecto, com a juventude – e a vitalidade que daí advém – do novo executivo apresentando-se como mais valia considerável.

Longos anos para Santa Clara.

A.O. 13/10/2012; “Cá à minha moda" (revisto e muito acrescentado, sobretudo com o que não pode ser publicado em dia de reflexão eleitoral)


sábado, setembro 29, 2012

“Ganda noia”!



Talvez porque não interesse dar grande visibilidade aos “pesos pesados” de cá – vá lá saber-se porquê?? –, e porque tampouco interessará – presumo ?? – cá trazer as “primas donas” portuguesas que, fosse outro o resultado da sua governação, aqui estariam dia sim, dia sim, coube a Marcelo Rebelo de Sousa (este mais discretamente porque parece “já não ter aço” para riscos desnecessários) e a Marques Mendes (mais voluntarioso, com menos a perder, mas pelos vistos muito mal informado) o suporte dado pelo PSD de Portugal ao PSD de Berta Cabral (dito Açores, agora só com oito ilhas. Foi-se o Corvo!).

É fácil agitar “bandeiras dos Açores”. É ainda mais fácil usar palavras que “caiem bem no ouvido”, tipo “primeiro os Açores e os açorianos”, difícil é ser-se coerente com estas “facilidades”. Trocar, a pedido, Duarte Freitas por Patrão Neves foi uma clara demonstração desta incoerência e de como cede rápido, deixando-se subjugar facilmente, a autoproclamada “negociadora difícil”. O mesmo aconteceu com a ambígua posição tomada a propósito da relvista pretensão de extinguir freguesias, com o “a cortar serão só as freguesias urbanas”, como se as realidades Lisboa e Ponta Delgada (ou Porto/Angra, Coimbra/Horta, etc. e tal) fossem para este e outros efeitos minimamente comparáveis!

Agora – a inoportunidade a isso obriga –, é mais que notória a preocupação em “descolar” (por vezes de forma tão primária que roça o ridículo) de Passos Coelho e da sua desastrosa desgovernação. Mas antes, e até recentemente, quando a maré era favorável e a onda surfável, os putativos méritos “relvas/passistas” foram explorados até à exaustão e os próprios, Relvas e Passos, ufanos e de “peito feito”, apresentados como autênticos ases de trunfo.

“Primeiro os Açores” é bem mais do que isso. Será, para já, acreditar na renovação e dar oportunidade a uma nova geração: uma geração que não esteja já esgotada; que apresente grande potencial para continuar a evoluir; que rompa com conservadorismos em desuso (independentemente do que rendem eleitoralmente); que aposte na modernidade e no futuro; que busque cada vez mais autonomia, mais autodeterminação.

Os Açores agradecem!

A.O. 29/09/2012; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado)

domingo, setembro 16, 2012

Pois, é no que dá.

Quando os dados estavam a ser lançados para começar “o jogo a sério”; com os “marqueteiros” de Passos Coelho já a darem os primeiros palpites (afora os milhafres descolorados os “brazucas” bem que recomendaram cuidado com as companhias: além “dos bonecos”, também na constituição da lista - digo eu???); com os devotos das medidas da TROIKA eufóricos, prevendo visíveis melhorias nas contas e até crescimento económico para o 2º semestre de 2012, vivia-se a época dos “beijos e abraços”; o tempo dos convites para tudo e mais alguma coisa.

Bem que a sabedoria popular avisa que “não nos devemos fiar em sapatos de defunto”! Mas há quem não resista, sobretudo não resistem aqueles que, por antigo e entranhado hábito, “surfam todas as ondas” que lhe dão jeito, mesmo quando a última os obriga a dar o dito por não dito em relação à penúltima.

Depois, foi o que se (vê e) está vendo: se até não há muito tempo Berta Cabral usava como trunfo eleitoral estar em melhor condição do que os demais para negociar com os relvas/passistas que desgovernam Portugal (levando por arrasto os Açores), agora que parece ter “caído o céu” sobre a cabeça de Passos Coelho – nada que não fosse esperado, embora para alguns desse jeito que os destroços aparecessem só “depois da vindima” – é impressionante, e cada vez mais desajeitada (por vezes até ridícula) a tentativa das hostes bertistas em se demarcarem dos executores do experimentalismo ultra liberal implementado em Portugal, solução até recentemente merecedora de muitas hossanas e das mais excelsas loas pela quase generalidade dos que apressadamente agora dela se demarcam. O desnorte é tal que, em jeito de descarte, a situação até já mereceu uma analogia desportiva do tipo: “é como se o Santa Clara fosse culpado pelo Benfica jogar mal!” Louvado seja Deus: como se os dirigentes do Santa Clara fossem eleitos nas listas do Benfica para as assembleias da Liga e as vedetas da Luz (dirigentes e jogadores) sistematicamente chamados, como “cabeças de cartaz”, para atrair público ao Estádio de São Miguel.

Pelo “andar da carruagem” um dia destes ainda veremos (à boleia da dita, como já aconteceu em tempos para aproveitar os holofotes focados em outros mais distintos), num qualquer palco dos Açores, Manuela Ferreira Leite rivalizando com Marcelo Rebelo de Sousa pelo papel de “estrela principal”.

“Pois alevá” (como diria Victor Cruz, avô)!


A.O. 15/09/2012; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado)


sábado, setembro 01, 2012

A notória diferença



Foi tal a surpresa causada pela presença do Pedro Moura na lista de Vasco Cordeiro que o alarido gerado (mais entre internautas, diga-se em abono da verdade) acabou relegando para segundo plano algumas das virtuosidades que representa a sua integração, tal como a de outros independentes, naquela lista. Pedro Moura para além de uma agradável surpresa foi também, inegavelmente, uma grande mais valia para a lista de Vasco Cordeiro. Tal como o será, estou convicto, na Assembleia Legislativa dos Açores! Mas, porque tal como acontece com Pedro Moura são de elevada qualidade e credibilidade os outros independentes com eleição garantida que renovam e refrescam aquela lista, todos eles em conjunto, e sobretudo aquilo que as suas presenças simbolizam como renovação e amplitude de representatividade sócio/política, é uma das grandes vantagens da lista de Vasco Cordeiro. É por exemplo este o caso de Graça Silva, outra competente, agradável e valiosa presença (menos mediática, até algo discreta, mas, e se calhar por isso mesmo, importantíssima) no topo da lista de Vasco Cordeiro. Porém, ainda muito mais relevante do que Graça Silva – de um lado – e Pedro Moura – no outro – é todo o vasto espaço que medeia um e outro, tal como o alargado leque político nele contido, onde muitos se sentem bem representados! E não tenhamos dúvidas, a marca geracional de cada um dos cabeças de lista – num dos casos apontando para o futuro e noutro para o passado – apresenta-se como aquilo que, indo além das condicionantes ideológicas e/ou atitudes de maior ou menor resistência ao sectarismo, também facilita e/ou dificulta a aceitação de opções mais arrojadas e abrangentes de abertura à sociedade, acentuando a diferença entre ambas as listas, com larga vantagem para a de Vasco Cordeiro.

Como se já não bastassem “as figuras de proa”, salvo escassas excepções, são também muitos dos outros integrantes de ambas as listas a fazer a notória diferença entre a via que pode conduzir a uma desejada renovação e o atalho que, apontando para uma alternância, fá-lo de forma regressiva, quase retrógrada.

A.O. 31/08/2012; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado)



domingo, agosto 19, 2012

Triste sina


Pior do que a “cruzada” (só em democracia já com quase quatro décadas) que desrespeitando a Declaração Universal dos Direitos Humanos continua a criar obstáculos – até constitucionais – à verdadeira “Livre Administração dos Açores pelos Açorianos”, pior ainda do que a actual manifesta tendência para castrar a escassa Autonomia conquistada desde o 25 de Abril para cá, pior do que tudo isso, dizia, só mesmo sermos governados por autênticas marionetes do ultra liberalismo internacional, que, por não existirem outros, apresentam como atributo de valor o facto de serem referidos como os “meninos bonitos” – sim, porque “bom aluno” é outra coisa – da “senhora mestre escola”.

O resultado está à vista. Apenas um ano volvido, são mais que muitas as fragilidades patenteadas por Passos Coelho para entregar a Garcia a carta que tanto prometeu. Como se já não bastasse o recente “estou-me lixando para as eleições”, esgar de verbo que pela oportunidade com que foi usado fez “mossa de tinir”, o homem na “rentrée” continuou desnorteado. Nem parecia que vinha de férias: mais pareceu uma retirada para repouso, por esgotamento!

As contradições começaram com a escolha do local. Passar da praça pública, tão ao gosto dos “relvas/passistas”, para um comício “in-door”, deu bem conta da insegurança das hostes. Também não era para menos: se as contínuas “trapalhadas” de Relvas e o ufano “encher de peito” que estas proporcionam a Portas já inquietavam qualquer um, é imaginar o que não fazem a quem já está fragilizado! Mas contradições a sério, aquelas que vão deixar marcas e serão muito recordadas, foram as em volta dos dois mais fortes “bitaites” daquela noite: “o fim da recessão anunciado já para 2013” e o “fim do regabofe”. O primeiro, mais não foi do que a tentativa de imitação (barata) de Sócrates. Só que em 2008 foi o “ajudante” Teixeira dos Santos o porta-voz e agora – sintomático! – os “ajudantes” tiveram que saltar a terreiro para minimizar os estragos da tirada do chefe. Bom, quanto ao segundo “bitaite”, só pode ter sido um momento de ironia mal conseguido. Fim do regabofe? E o Catorga? E as recentes nomeações na ARS do Norte?

Tenham dó!

A.O. 20/08/2012; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado)


domingo, agosto 05, 2012

Os eirós da Calheta de Pero de Teve



O antes, e um depois diferente da porcaria que lá está feita:
Mesmo não sendo para ficar como antes, podiam ao menos manter a enseada, o seu espelho de água e o uso da interessante muralha (que se mantém mas agora sem sentido). Mas, claro, não havia lugar para os "elefantes brancos", nem para os interesses privados que por regra são mais protegidos pelos decisores políticos do que o interesse público.  


De há uns anos a esta parte (digamos, grosso modo, uma dúzia deles), “meia volta, volta e meia”, quase sempre em período pré eleitoral mas sempre sem que se vá “até ao fundo da questão”, os “negócios” da Calheta de Pero de Teve “saltam para os jornais”.

Recordo-me de ir em criança, com outras crianças da altura (agora todas já na casa dos sessenta, mas que felizmente ainda estão por aí), para o ponto encontro do mar com varadouro poente do “porto da Calheta”, que quando a maré estava vazia, numas poças que recolhiam água salobra que de terra jorrava, se viam e apanhavam eirós. Aquela calheta, os seus dois varadouros, a confrontar com o tão austero quanto belo paredão (contendo diversos pontos de acesso ao natural “espelho de água” que a pequena enseada proporcionava), uma robusta construção que protegia as características casas que ali ainda existem transformando aquela histórica frente de mar numa zona muito pitoresca de Ponta Delgada, com tudo o mais que outrora fizera daquele local um dos importantes portos desta longitude da ilha, foram, de supetão, barbaramente entulhados e assim destruídos.

Este sim, foi o principal “crime” que vitimizou aquela zona: o primeiro, o “pai”, o originador de todos os outros “crimes” que se lhe seguiram. Os “elefantes brancos” depois ali plantados, que agora, e mais uma vez, dão azo a animada “esgrima política”, mais não são do que a natural – e pretendida – consequência daquele criminoso aterro. Um complexo emaranhado de interesses que umas vezes mais discretamente, outras nem por isso, parece que ainda não deixaram de alimentar os “eirós” e as “enguias” que empenhadamente contribuíram para a destruição do natural habitat dos verdadeiros (mas agora já lendários) eirós da Calheta de Pedro de Teve.

O processo de regeneração é lento (nem a mais velha democracia do mundo é exemplo de virtude) e é por isso que acredito que não basta mudar: há que RENOVAR. Só a renovação, nomeadamente a geracional e muito especialmente a das mentalidades, sobretudo ao nível das lideranças, é deveras regeneradora.
Como tudo seria mais fácil se isso não fosse, aparentemente, tão difícil de entender!

A.O. 06/08/2012; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado)