terça-feira, junho 21, 2011

Porque hoje é 21 de Junho




No hemisfério Norte o 21 de Junho coincide em regra com o Solstício de Verão. Este ápice místico e mítico, ancestralmente relacionado com a pujança e fertilidade, mesmo depois de cristianizado, com "a bênção" de S. João Batista, continua encontrando na folia, nas fogueiras e no orvalho matinal, referências actuais para a sua celebração. O momento é também fonte de bons presságios, de abundância, e, remetendo para o “Sol Invictus”, vaticínio de vitória.
Há coincidências? Claro que as há! Mas não acredito que tenha sido simples coincidência – sobretudo tendo em conta o saber e a cultura de indivíduos como o Dr. Lúcio Agnelo Casimiro, o Capitão Eduardo Reis Rebelo e o Tenente João Joaquim Vicente Jr. – a escolha do dia 21 de Junho de 1927 para a realização da AG de fundação do Clube Desportivo Santa Clara, um processo que então já decorria há mais de um mês.
De facto, na sequência a expulsão do Santa Clara Foot-ball Club da Associação de Foot-bal de San Miguel (12/03/1927), e mesmo depois de o Sport Club Santa Clara ter sido aceite na AFSM como sucessor e continuador do “velho Santa Clara” (30/03/1927), um ilustre grupo de cidadãos de Ponta Delgada, procurando apaziguar e reunir as facções santaclaristas desavindas, empenhou-se competentemente na constituição e organização do “Santa Clara” que chegou aos nossos dias. Assim, depois de a 12 de Maio de 1927 ter sido nomeada uma Direcção Interina (Eduardo dos Reis Rebelo, João Joaquim Vicente Jr., Humberto Pacheco Botelho, Álvaro Pimenta dos Santos e José Cardoso), o estabelecimento do CDSC conheceu o seu ponto mais importante na AG que, sob a Presidência João Joaquim Vicente Jr., aprovou os Estatutos de Fundação da nova colectividade (21/06/1927), documento que obteve o Alvará do Governo Civil a 29 de Julho de 1927, e levou à eleição dos primeiros O.S. do clube (5/08/1927), que ficaram assim constituídos: AG – João Batista Rodrigues, Jacinto Medeiros de Sousa e Carlos Manuel Simões; Direcção – Eduardo Reis Rebelo, João Joaquim Vicente Jr., Humberto Pacheco Botelho, Álvaro Pimenta dos Santos, José Cardoso, Ivo José Custódio e Carlos Augusto Raposo; CF – Manuel Inácio de Sousa, Júlio César Ferreira Pacheco e Amável de Medeiros Casanova.
No entretanto o CDSC havia feito chegar à AFSM uma missiva solicitando a sua inscrição naquele organismo, carta de Maio de 1927, escrita e assinada pelo punho de Eduardo Reis Rebelo, e que referia clara e textualmente (os documentos e a atenção aos seus pormenores ajudam muito no dissipar das dúvidas): “Tendo-se fundado nesta cidade uma nova agremiação desportiva com o nome de «Clube Desportivo Santa Clara» pretende a mesma ser inscrita nessa Associação (…)”.
Para além dos “Santas Claras” filiados na Associação: o Santa Clara Foot-ball Club, o Sport Club Santa Clara e o Clube Desportivo Santa Clara, há ainda o fenómeno sócio desportivo “Santa Clara”, e, aí sim, com este podemos recuar - à vontade e de forma séria - uma década.
Remontam pelo menos ao “four July” de 1917 os “Campeonatos de Santa Clara”, com o ataque do U 155, a pronta resposta da tripulação do “Orion” afugentando o submarino alemão, e algumas das consequências daí advindas, condicionando uma das importantes “Desforras” daquele Verão.
Com “os americanos no Field Azores” o futebol em Santa Clara esmoreceu, para voltar a reaparecer, em força, em 1919.
Em 1920 “brilhou” o Sport Club Terror. Ainda em 1920, mas sobretudo durante 1921 (já com Joaquim de Sousa por perto) apareceu o Ginásio Club Micaelense / Instituto de Educação Física. No Verão de 1922 (também com Joaquim de Sousa no processo) a União Sportiva dos Empregados do Comércio transformou-se em Club União Sportiva. Só depois disso, em Outubro de 1922, e de novo beneficiando das boas graças de Joaquim de Sousa – ainda Alferes – o primeiro dos três “Santas Claras” federados fez a sua estreia, e fê-lo com vitória folgada: uns expressivos 4-0 sobre o “velho e temível Terror”.
Passados alguns meses, em Março de 1923, a Associação de Foot-ball de San Miguel dava também os primeiros passos. Tenho-o dito!

A.O. 21/06/2011; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado)

terça-feira, junho 07, 2011

2011: um 6 de Junho diferente


Saber Açores, nº55, Junho de 2004








6 de Junho: 1975, 1976, 1977, 1978 e sempre



Ontem (hoje quando escrevo) foi 6 de Junho – mais um, o 36º após o histórico 6 de Junho de 1975 –, por coincidência ou talvez não (no caso, mais do que o Divino Espírito Santo foi o Senhor Santo Cristo dos Milagres o determinante), um 6 de Junho cujo “day before” tenderá ofuscar-lhe, ainda mais, a visibilidade e dimensão que deveria ter, e não tem!
Na presente conjuntura, e em falta de “uma marca política açoriana” mais genuína (mas aglutinadora o suficiente para marcar posição), valha-nos a diferença horária, já que tem sido esta, mais do que a completa “mão cheia” de deputados por cá eleitos, o que nos Açores contribuiu de forma bem visível no condicionar da vida política portuguesa, sobretudo em dia de eleições. É a consolação dos subjugados: deixar Portugal suspenso durante uma hora. Adianta muito pouco, mas não deixa de ser uma consolação!
Quanto ao resto, nestes penedos, não obstante o variar da cor predominante no habitual 3x2, não existem – nem agora são de esperar – grandes diferenças. A não ser para os próprios, num dos casos, salvo erro, já com pelo menos dois recordes acumulados: o da antiguidade na função, e o de ser, actualmente, o único que deputou nos dois diferentes regimes. Tirado isso, e apesar da indiferença da maioria; da grande euforia de uns; da preocupação de outros; e da justificada tristeza de uns quantos (por uma unha negra Artur Lima não fez a diferença), no que de importante há para resolver, os avanços são poucos ou nenhuns. Se não vejamos:
Quase quatro décadas depois o “papão do fascismo” – como que por ironia do destino vertido em texto constitucional que se pretendia libertador – é ainda uma das alegações que continua a obstruir os açorianos de, por forma legal, lutarem pela sua total emancipação. Um escárnio! E a situação é de tal vilipêndio que chega ao ponto, passado todo este tempo, de não ser necessário andar nem procurar muito para se encontrarem, ainda, referências – até toponímicas – em louvor da “Revolução Nacional” de 1926, ou do “Estado Novo”. Porém, e à luz da actual Constituição Portuguesa, continua sendo fascista quem defende a Independência dos Açores. Parece anedota: é equivalente a fascismo defender a Independência dos Açores, mas, “democraticamente proibido” criar partidos açorianos. Isto, 37 anos após o 25 de Abril!
Por tudo isso, na falta de melhor e jogando pelo seguro, um VIVA para o fuso horário e outro para o anticiclone. Assim, quando, mais dia, menos dia, for inconstitucional, e logo proibido, que a hora dos Açores seja diferente da hora de Portugal, só nos restará o anticiclone: bem mais difícil de ser condicionado pela Constituição Portuguesa. Uma Constituição, dizem os entendidos, avançadíssima. Que permite quase tudo: aos políticos constituírem-se em casta prenhe de direitos e mordomias sem que a tal corresponda deveres e obrigações proporcionais; aos interesses instalados terem trocado o escudo pelo euro, mesmo sem consultar os óbvios e principais prejudicados; e, até, à “Troika”, governarem por procuração depois de terem obrigado os seus delegados a realizarem um acordo prévio, ao que parece, “assinado de cruz”. Uma Constituição exemplar como se vê, que só não permite uma coisa básica e fundamental: que o Povo dos Açores – e já agora o da Madeira – se organize politicamente tendo em vista a sua emancipação e total autodeterminação.
Só mesmo com um novo 6 de Junho, mas desta vez reivindicando conquistar Portugal.
Em 1975, gritando por Independência conseguimos uma “autonomiazinha”. Quem sabe se agora, ameaçando conquistar Portugal, não obtemos a Independência?




A.O. 07/06/2011; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado)

terça-feira, maio 24, 2011

Mar, submarinos e informação entretanto desclassificada


Nunca como nos últimos tempos – Cavaco Silva deu o mote, os seus obedientes seguidores encarregam-se de retransmitir a mensagem, e a campanha eleitoral em curso ajuda na sua amplificação – se tem falado tanto do mar. É o “novo nicho de mercado”; o mais recente “El Dourado” português; uma das fórmulas mágicas para o messiânico crescimento económico; aquele que será um dos caminhos para debelar o malfadado deficit; a solução para salvar Portugal da bancarrota, etc., e tal. O que não se diz, nem convém que muitos o saibam, é que quase todo este mar é Mar dos Açores. Sim Mar dos Açores! Como o ouro do Século XVI e XVII era do Brasil, e o petróleo, diamantes, algodão e muito mais, no século XX, de Angola!
Mar é fonte inesgotável de riqueza: pelos seus recursos – que são muitos para além da pesca –, mas sobretudo pelo seu valor geoestratégico, para mais quando se localiza no Atlântico Norte, a meio caminho entre a Europa e a América.
Se o valor estratégico do Mar dos Açores foi enorme no tempo do “dar novos mundos ao mundo”, por maioria de razão, muito superior se tornou à medida que a tecnologia foi evoluindo, que os recursos naturais foram escasseando, e o mundo ligando-se e interdependendo. E não pensem que é de agora: a globalização é tão ou mais velha “que a guerra de catorze”!
Aproveitem, já que actualmente Portugal tem na Chanceler Merkel uma governanta, e perguntem aos alemães – os mesmos que impingiram os submarinos e querem impingir os TGVs – porque mandaram em Julho de 1917 o U 155 bombardear Ponta Delgada? E, para garantir o contraditório, pois a “Troika” que governa Portugal também incluiu o FMI, perguntem também aos americanos, nos Açores desde 1917 – primeiro com uma base da US Navy implantada desde o porto de Ponta Delgada até aos confins de Santa Clara (que tal igualmente esmiuçar as trapalhadas que isso provocou com os ingleses?)-, e ainda hoje, como se sabe, com base nas Lajes, porque lhes interessam tanto os Açores?
Para nos defender (Açores) já não é: o submarino bombardeou, o Orion ripostou, mas há muito que a guerra acabou. Só o interesse continuou! Como alguém diria: “É a economia, estúpido”. Claro. Alias, cada vez mais claramente.
E aqui entra um documento de Agosto de 1975, outrora confidencial hoje razoavelmente disseminado (mas nunca é demais divulgá-lo – obrigado à “mão amiga” que mo enviou, “obrigando-me” a relê-lo), cujo conteúdo, que aponta para a viabilidade económica dos Açores como país soberano, apesar do óbvio era então – e assim procuram que continue sendo – desmentido. Aqui vão excertos do dito cujo:
1. DOCTOR NORMAN BAILEY AND EDMOND TONDU OF BKW ASSOCIATES, INC., WASHINGTON BASED MANAGEMENT CONSULTANT FIRM, ARE IN THE AZORES PERSUING ECONOMIC STUDY STARTED SEVERAL YEARS AGO AT REQUEST OF CAETANO GOVERNMENT. BAILEY SAYS FIRM NOW ATTEMPTING COMPLETE STUDY IN ORDER TO PERSUADE WHATEVER GOVERNMENT MAY EMERGE IN AZORES TO RETAIN FIRM AS ECONOMIC ADVISORS. BAILEY AND TONDU HAVE BEEN TALKING TO GOOD NUMBER OF PEOPLE IN PONTA DELGADA AND ANGRA. (…)
2. BAILEY BELIEVES AZORES ECONOMICALLY VIABLE AND PROFITABLE TO LISBON. HE DESCRIES PRESENT ECONOMIC RELATIONSHIP BETWEEN LISBON AND AZORES AS 18TH CENTURY MERCANTILISM.
(…) BAILEY AND TONDU BELIEVE THAT ECONOMICALLY AZORES WOULD BE BETTER OFF INDEPENDENT THAN AUTONOMOUS SINCE AUTONOMY WILL TAKE MONTHS TO ESTABLISH AND COULD BE REVOKED AT ANY TIME. IT THUS WOULD NOT PROVIDE STABILITY NECESSARY FOR INVESTMENT AND GROWTH.
3. BAILEYN CREDIT MANAGER OF BANCO PORTUGUESE DO ATLANTICO WHO DESCRIED RECENT IN DEPTH STUDY OF TOTAL COMMERCIAL AND FINANCIAL RELATIONSHIP BETWEEN AZORES AND CONTINENTAL PORTUGAL. REPORTEDLY GOP HAS NOT PERMITTED PUBLICATION OF STUDY WHICH CONCLUDED THAT CONTINENTAL PORTUGAL GAINS ABOUT 280 MILLION DOLLARS PER YEAR FROM AZORES.
Bom, o telegrama continua com outras tantas palavras, eu é que não tenho mais espaço!

A.O. 10/05/2011; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado)

quarta-feira, maio 11, 2011

Outros tempos, outras crises, os mesmos tiques coloniais







Se há coisa com que Portugal sabe lidar com à vontade e ligeireza – basta ler/ouvir os seus responsáveis: de ontem, de hoje e de amanhã – é a bancarrota!
Recuemos algumas “bancarrotas” atrás, para logo depois do “Grito do Ipiranga”, tempo em que Portugal ao perder o manancial vindo do Brasil que lhe permitia fartos “regabofes” – o ouro do Brasil está para o Convento de Mafra tal como o dinheiro da UE para os CCBs e outros luxos perfeitamente dispensáveis da última década do século XX e primeira do século XXI – garantiu a inevitabilidade do “em casa onde não há pão todos ralham e ninguém tem razão”, e logo uma guerra civil (1828/34), seguindo-se a esta um buraco que até final daquele século não mais parou de crescer.
É deste tempo, fruto do primeiro prelo instalado nos Açores, e escrito por Simão Soriano e Bernardo Sá da Nogueira – futuro Marquês de Sá da Bandeira, várias vezes ministro e também Chefe do Governo de Portugal (ambos então emigrados nos Açores, como nos deixou escrito Francisco Maria Supico) – a “Folhinha da Terceira”, em cujo índice de 1832 está bem detalhado o que sobrou do Império depois de “perdido" que estava o Brasil: “Arquipélago dos Açores”, “Arquipélago da Madeira”, Arquipélago de Cabo Verde”, “Bissau e Cacheu”, “Costa da Mina ou S. João Batista da Ajuda”, “Arquipélago da Guiné”, “Costa de Loango, ou Molento e Cabinda”, “Angola e Benguela”, “Governo de Moçambique”, “Estado da Índia”, “Costa da China ou Macau” e “Timor e Solor”.
Nesta mesma publicação, em tom benevolente, algo até galante, porém tipicamente colonialista, pode também ler-se: “O povo dos Açores é em geral de bela aparência, e de muita inteligência e habilidade; tendo as melhores qualidades para o serviço militar. Em breve tempo os Açoreanos aprendem as suas obrigações, são nelas cuidadosos, são asseados, subordinados e briosos (…)”. Não foram referidos, mas seria bom conhecer os termos de comparação, sobretudo no caso da segunda metade da citação.
Depois de descritos os nativos, há também referências ao território, feitas aliás de forma descomplexada (o complexo colonialista aumentou na proporção inversa à redução do Império. Agora é quase blasfemo chamar “Açores” e “Portugal” pelos seus nomes: não falta de imediato quem troque o “Portugal” por “Continente”, como se os Urais fossem logo ali entre Elvas e Badajoz). Atenda-se por exemplo a esta nota geográfica: “Da ilha de São Miguel ao Cabo da Roca, em Portugal, são 210 léguas”.
No documento não poderia faltar – e não faltou – a inventariação dos recursos com que a colónia tinha de nutrir a Capital do Império. E lá se especificava: “O solo destas ilhas é da maior fertilidade; (…) produzem grande quantidade de cereais e legumes de toda a espécie, de batatas, inhames, hortaliças, frutas, vinho e outros géneros: cria-se em grande abundância toda a sorte de gado e aves domésticas, fabrica-se manteiga e queijo, e há bastante lã. (…) Em alguns anos tem-se exportado dos Açores 140 a 150 mil caixas de laranja; 15 a 20 mil moios de cerais; (…); 15 a 20 mil pipas de vinho e aguardente, (…): além destes géneros principais exportam estas ilhas carne de porco, batatas-doces (...), assim como uma considerável quantidade de panos de linho para o Brasil”. Não era pouco, digo eu!
Mas, perdida que estava a grande mina do Império, por mais que espremessem as restantes possessões não houve como evitar o crescimento de uma dívida externa que com o aproximar do final do século XIX atingia já os 75% do PIB, originando assim a bancarrota de 1891 (nota: hoje a divida externa portuguesa é cerca de 100% do PIB).

Aqui nos Açores, por esta altura, adensava e ganhava músculo a campanha autonómico/independentista que culminou no decreto de 2 de Março de 1895, com o surto de desenvolvimento e industrialismo que se seguiu justificando – e merecendo – outra evolução que não o triste fim que lhe foi dado por Salazar, em Fevereiro de 1928, quando ensaiava os primeiros passos da longa ditadura com que nos subjugou.

A.O. 10/05/2011; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado)

quinta-feira, abril 28, 2011

Leão destinado a ganhar asas e voar alto




A propósito de uma discussão que de um momento para o outro ganhou enorme número de adeptos, importa dizer que se o CDSC decidir alterar o seu emblema (o que, a acontecer, só deverá ocorrer após cumpridos os trâmites estatutáriamente legais), não será a primeira vez que tal acontece pois o actual emblema remonta a meados do século passado (década de 50 do século XX), substituíndo aquele que lhe foi definido no momento da Fundação (21 Junho de 1927).


Assim:


Seguindo com rigor as regras heráldicas, o nº1, do Artigo 4º dos Estatutos de Fundação do Clube Desportivo Santa Clara, reza rigorosamente o seguinte;



“O emblema do Club é um leão vermelho em campo branco.”

quarta-feira, abril 27, 2011

O precioso valor da soberania





Numa altura destas, com Portugal de cócoras – entregue a quem o governe por manifesta incapacidade de se auto governar (dando razão a quem já na antiguidade clássica dizia que os lusitanos não eram capazes de se governar nem deixavam que os governassem) – e com os grandes responsáveis por se ter chegado a este “estado das coisas” digladiando-se de forma a garantirem para si e para os seus as migalhas dos despojos conseguidos à custa de sacrifícios da maioria que vão conseguindo espremer, duas notícias, recentes, permitem-nos encher o peito e respirar fundo confirmando que “filhos” humildes, trabalhadores e competentes, após se emanciparem, podem ser exemplo e oferecer apoio a um “pai” tirano, possessivo, sempre mais propenso a subjugar e explorar do que em ajudar os “filhos” a crescer e tornarem-se independentes, como seria sua obrigação.
Foram estas as notícias em causa:
Primeira. A repetida alusão do timorense Ramos Horta – desta vez alargando o âmbito dos “filhos benfazejos” ao Brasil e a Angola – à disponibilidade de Timor Lorosae comprar divida soberana portuguesa, em demonstração do quanto realmente vale a soberania, mesmo tratando-se de um pequeno país, no caso meia ilha, mas com um mar riquíssimo (o Mar é sempre muito rico, só é necessário que seja mesmo NOSSO).
Segunda: Uma interessante reportagem sobre Cabo Verde (TVI24 madrugada dentro, em noite de insónia), dando conta, não obstante o enorme esforço dispensado em encontrar e transportar a água para tal necessária, da vontade e do gosto em cultivar e fazer brotar da terra árida uma variedade de produtos, nomeadamente hortícolas, bens que noutras paragens, de solos férteis e água abundante, têm de chegar em contentores refrigerados após milhares de km feitos por terra, mar e ar: “coisas de gente rica”.
O problema é que estas duas notícias foram logo abafadas por muitas outras: “que a crise apareceu de supetão na noite de 23 para 24 de Março e sem ela não seria necessário FMI”, afirmam Sócrates e seus discípulos; “que o FMI já devia ter chegado há muito tempo”, dizem outros; “que o FMI só vem agravar ainda mais a situação”, indicam outros ainda; “que não é FMI, mas sim FEEF” também foi dito com a carismática certeza de quem nunca tem dúvidas e raramente se engana. Até, como que para contentar uns e outros, agora usa-se e abusa-se do eufemismo “troika”: ou não tivesse sido Washington um dos últimos destinos do périplo de vassalagem. Enfim, uma “confusão de narizes”, condizente com o: “em casa que não há pão, todos ralham e ninguém tem razão”.

Grave é que a mesma casa que já não consegue fazer chegar pão à mesa de muitos continua a proporcionar “croissants” e caviar a outros, alguns dos quais os directamente responsáveis pela carência e dificuldades de que a maioria padece: gente que facilmente se põe de acordo quando se trata de impor austeridade a terceiros, predisposição só comparável com a facilidade com que pactuam na defesa das mordomias que lhes garante, na hora e para o futuro, a tal mesa sempre farta.
Querem a minha opinião? O FMI chegou tarde a Portugal (se calhar não devia ter ido embora em 1983, ou pelo menos devia ser ele a “governar” os milhões que chegaram da UE, Euros desbaratados apenas em proveito de uns quantos para agora TODOS – no meio dos quais os tais “uns quantos” quase nem contam – pagarem tal desgoverno). “Governado” pelo FMI Portugal com certeza não abateria frotas para depois importar peixe; nem abandonava a terra para importar alimentos, sobretudo os frescos. Nem construía os milhares de km de estradas, muitos deles desnecessários e já carecendo de manutenção apesar do uso insuficiente para gerar rendimento necessário à sua conservação. Nem a Expo; nem todos aqueles Estádios para o EURO; nem projectava aeroportos e TGV’s que mesmo sem terem sido construídos já consumiram recursos suficientes para proporcionar trabalho e pão a quem não tem, e/ou aos que, mesmo tendo, andam já “de calças na mão” sem furos para que possam apertar mais o cinto. Tampouco haveria BPN e outras negociatas que prejudicaram milhões beneficiando meia dúzia!

A.O. 26/04/2011; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado)

terça-feira, abril 12, 2011

A festa continua





Chamam-lhe crise. Qual crise qual carapuça: festa é festa, e continua.

O fim-de-semana que passou foi disso bom exemplo. Festa em Matosinhos, e no Funchal. E que festas. Não sei se houve fogo-de-artifício no final, mas teatro – com excelentes encenações diga-se de passagem –, palcos bem compostos, luzes de ribalta muito bem dirigidas e focadas, coros afinados – Ana Gomes destoou, mas ainda bem, nada como haver alguém que quebre a monotonia, mesmo que seja a horas impróprias – e, até, nem faltaram jograis. Tanta festa – e as que estão para vir – mais não são do que uma nova “season de caça ao voto” a ter início. Só que começa a faltar público. Ou melhor dito: o público começa a ficar impaciente, a demonstrar descrença. E um público impaciente, descrente, sobretudo quando de “barriga vazia” é capaz de tudo, até de acabar com o espectáculo.

Dizem que a História não se repete. Não acredito: só a mesma água não passa duas vezes por baixo da mesma ponte! As guerras hoje são outras, mas também nisso a diferença não é muita: a La Lys dos nossos dias bem pode estar no Afeganistão ou na Líbia, com as trincheiras 1917 substituídas por “Hummeres” e F16”.

Quase um século depois, pelo menos ao nível da tão maquiavélica quanto interesseira disputa partidária; da miserável cifra com que se enuncia o PIB – já com zeros à esquerda –; e até da ameaça de “banca rota”, são muitas as semelhanças entre os tempos de hoje e as próximas e/ou correspondentes décadas do século XX.

Oxalá que estas se esgotem por aqui pois Sidónios e Antónios são perfeitamente dispensáveis!

Para não lembrar coisas ruins, voltemos então “às festas” e àquilo que de positivo se possa, ou não, delas retirar.

Desconfio daquela exagerada unidade de Matosinhos. Não comparando, pareceu-me as declarações de apoio indefectível que as direcções dos clubes de futebol costumam fazer na ante véspera da “chicotada psicológica” com que justificam a dispensa do treinador. Quer-me parecer que “mais jogo menos jogo” – e nisso os maus resultados não costumam perdoar – vai haver mudança de comando, e, quase apostaria, o substituto será um dos mais exuberantes dos efectivos apoiantes do “actual treinador”. Uma coisa é certa, não há “toque a reunir”, nem excelência de marketing comunicacional, que esconda as muitas falhas e contradições que já corroem o grupo: desmentir de um dia para o outro o “esgotado” Ministro das Finanças foi só mais um episódio.

Mas como há disputa entre festas, a do Funchal não quis ficar atrás, e entre, outras trouxe uma novidade: o modelo “Ilhas do Canal”.

Boa. Agora que João Jardim colocou uma etapa intermédia entre a “Autonomia Constitucional” e o “Estado Federado” resta aguardar para ver o desenvolvimento dos próximos episódios. Para já, Passos Coelho ou não percebeu ou então fez-se desentendido: “o PSD não tem uma visão desconfiada das autonomias, nem nenhuma reserva quanto ao seu aprofundamento”, disse, como se fosse a primeira vez que do PSD se tenha ouvido tal . Uma novidade!

No que à evolução de autonomia diz respeito, nada como ser claro: pedir Independência.

E nisso os Açores já vão na dianteira. Até quero crer que a nomeação do novo representante da Republica Portuguesa – um Embaixador, para mais, com experiência considerável pois foi ele o responsável pela transição da última parcela do “ex-império” para fora da esfera da soberania portuguesa – é um bom prenúncio.

Costuma dizer-se que as crises são também tempo de oportunidades: há que saber aproveitá-las.

A.O. 12/04/2011; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado)

terça-feira, março 29, 2011

Santa Clara, “Mata da Doca”, Campo Açores


Recorte do "Sport dos Açores", 1924 ............"Mata da Doca", ainda com as araucárias

Santa Clara Foot-ball Club, Out 1922........ Sport Club Santa Clara (?1927?)

Clube Desportivo Santa Clara 1948/49........ Equipa das Cancelas (Loja do Capinha) 1972

Santa Clara não foi só “o berço” de Ponta Delgada. Embora em outro patamar, foi também “creche” e “jardim-de-infância” do futebol micaelense. Disso nos deu conta António Kopke Ayalla, em 1924, nas páginas do “Sport dos Açores”, Semanário Desportivo Ilustrado do qual foi director, ao remeter para 1895, nas “pedreiras da doca” (Mata da Doca, mais tarde Campo Açores), os primeiros jogos de futebol com bola apropriada. O luxuoso objecto, uma câmara-de-ar esférica revestida com pedaços de a couro bem cosidos uns aos outros, naqueles derradeiros anos do século XIX mandado vir de Inglaterra pelo “Padre James” do Colégio Fisher, tinha acabado de chegar à ilha para gáudio do próprio António Kopke Ayalla (filho de um, e parente próximo de outro, dos responsáveis pela construção do porto de Ponta Delgada) e de outros jovens alunos daquele estabelecimento de ensino, pioneiros entre nós na prática da modalidade. Um quarto de século depois de Santa Clara ter sido palco daqueles que foram os primeiros pontapés num cautchú em São Miguel, quando entretanto o Campo Açores já havia deixado de ser local de acantonamento “dos americanos” que passaram os últimos tempos da I Grande Guerra em Ponta Delgada (Fevereiro de 1918/Setembro de 1919), viviam-se então quer nas “Cancelas da Doca” quer na “Mata da Doca” alguns dos momentos altos dos “Campeonatos de Santa Clara”, o Campo Açores saltou de novo para as primeiras páginas por via do muito mediatizado desafio efectuado pelo team brasileiro, com o Sport Club Terror, com fortes afinidades a Santa Clara, assumindo as “honras da casa”.

O jogo brasileiros vs açorianos deu origem a um soberbo texto (CA 28 de Novembro de 1920) assinado por Bruno Dennis – possível pseudónimo de alguém próximo de Diniz Moreira da Motta, talvez Rolando Viveiros, mas com grande probalidade Agnelo Casimiro – cuja leitura é imperdível.

Ora vejamos:

.“Domingo. O burguês deixa os asfaltos…

Lembrou-nos Heine.

Dia lindo, ar fresco e lavado, luz doirada convidando-nos à acção. Quebre-se no dia do Senhor a monotonia pungente do viver angustioso destes tempos, dando tréguas às suas preocupações constantes: o futuro da família, da nação, da sociedade! …

E como o Correio dos Açores tivesse anunciado um desafio de foot-ball entre Brazileiros e Micaelenses – excelente pretexto – enveredamos pela Rua Formosa além.

Desapareceram as antigas Pedreiras da Doca?

Por sobre aqueles montículos pitorescos, coleando pelos vales, em cima das esplanadas, bordando veredas e caminhos, estendendo-se cerrado o arvoredo, que entremeia e tece os ramos, numa confusão imensa de folhagens, matiza os seus verdes diferentes e derrama gratamente, por sobre a terra que o nutre, uma sombra protectora e amiga.

Dum deserto fez-se um bosque! Por entre as pedras brotaram acácias e pinheiros; o antigo solo abrasado ostenta hoje carvalhos, engélias, araucárias, rubínias, piteiras… e sobre aquela terra vermelha e tórrida, que escaldava, que feria a vista, estendeu-se um tapete verde de relva fresca e tenra, que nos descansa a retina…

Quanto podem o entusiasmo de um homem, o escorregar vagaroso do tempo, e o forte viço das plantas! No meio do parque – seu coração – espraiando-se largamente como arena imensa de um coliseu atlântico o Campo Açores. Plano, nivelado, extenso, presta-se magnificamente a todos os jogos, a todos os desportos: tennis, foot-ball, croquet, bilro barra, gymkanas, corridas de velocidade, de resistência, de bicicleta, concursos hípicos, etc.

A um canto, joga-se, muito mal, o Association. Brazileiros e Micaelenses disputam com ardor quem levará a palma da indisciplina, desorientação e falta de sangue frio, qualidades essenciais para aquele jogo, e que ele tanto desenvolve, quando bem dirigido…

Apesar, porém, de todas as incorrecções e faltas, sempre era um protesto vivo contra a atrofiante civilização actual, que condena ao sedentarismo, amolece as funções, fazendo-lhes perder a tenacidade e o vigor, e priva o corpo do ar e do sol.

Como nos lembraram então os ginásios da Grécia, vastos parques em que rijos efebos, nus, tostados pelo sol, alegres de saúde, se exercitavam com entusiasmo nas palestras, sob a clara luz do dia, enquanto outros, já retemperados pelo exercício, se refrescavam no balneário, esfregando-se com estrigil, lubrificando-se com óleos suaves, e mais longe, outros ainda, lestos e contentes, com a boa disposição que segue a hidroterapia, manejavam com subtileza a dialéctica, avançando altas teorias e conceitos profundos ou equilibrando com agilidade sofismas argutos e delicados… !

Tais instituições formavam os mais belos cérebros, sustentados pelos mais nobres corpos, que a Humanidade tem visto! Sabe-se o resultado obtido no ginásio de Reims pelo grande Hébert...


Denis Mota acariciava este plano; mas não se limitavam a isso os seus projectos. Desejava traçar ali avenidas de rodagem, arruamentos para peões, veredas e atalhos nos sítios mais íngremes, propunha-se desbastar o arvoredo, semeado assim compacto com intuitos de protecção e para obviar as recusas tão frequentes das plantas mais delicadas, introduzindo depois espécies mimosas e belas, mas de resistência menor. Ajardinaria uns dois ou três pontos deixando o resto na sua rudeza de mata, convidando às excursões e aos piqueniques.

Junto à casa do Século XX abrir-se-ia um lago (a cargo do mar enche-lo), e construir-se-ia uma piscina. Uns barquinhos, montes de areia aqui e além, algumas redouças e outros brinquedos eram destinados às crianças…

Assim haviam de passar algumas horas de bom ar, paz e simplicidade aqueles a quem a Vida não permitisse gozar o campo nos meses de verão.


O estabelecimento do seu Parque da Alegria (assim tencionava chamar-lhe); a organização da Praia de São Roque, aproveitando a variante da estrada nacional entre São Roque e o Pópulo (chegou a expropriar os terrenos precisos), que viria a proporcionar a Ponta Delgada as vantagens de uma praia, que o acaso verdadeiramente lhe destinou; o aproveitamento da energia da Ribeira dos Tambores, feito paralelamente com a construção da estrada da Ribeira Quente (serviço que deixou começado) – tais foram as três últimas ideias que lhe inflamaram o coração altruísta.

“É o meu testamento à minha terra”, disse uma vez, com um sorriso triste nos olhos de veludo.

Dentro de poucos dias, expirava…” .


Este é, ou não um autêntico hino à “Mata da Doca”, ao Campo Açores, e, claro, a Diniz Moreira da Motta?

A.O. 29/03/2011; “Cá à minha moda" (revisto e muito, muito acrescentado)

terça-feira, março 15, 2011

Nem sempre o Carnaval são só três dias




Este foi um Carnaval diferente. Não, não me refiro ao carismático assalto que já acontecia vai para duas dezenas de anos, algures no Pico da Pedra, que este ano não se realizou. Aludo sim a um Carnaval longo, extenso demais, cuja também excepcional quaresma, esta sim, foi de três dias: a Quarta-feira cinzenta, do desagravo; a Quinta-feira tagarela, da censura; a Sexta-feira dolorosa, de mais um PEC. Ainda bem que logo de seguida houve um Sábado libertador, de protesto, de manifestação, de alegria. Aleluia! Levemos a preceito as três epístolas desta liturgia pós carnavalesca. Primeira. A da Quarta-feira do desagravo. Vindo de um pré vitoriano, que de si próprio dizia não ler jornais, nunca ter dúvidas e raramente se enganar, confesso que até concordei com a resenha. O que já não entendo foi a demora de Sua Excelência o Presidente da Republica dos portugueses em chegar àquelas conclusões. É que, bem vistas as coisas, nos últimos tempos (o último ano e meio, vá lá) a grande diferença verificada não foi ao nível da condição económica, nem de governação, mas sim na da sua situação pessoal: de pré candidato, antes, de candidato, depois, e agora de PR eleito. Quer dizer – mesmo que como conclusão precipitada: a preocupação de S. Excelência com os limites dos sacrifícios exigidos ao “pagode” (agora e antes) foi/é bem menos importante do que aquela que dedicou à sua estratégia eleitoral. Será que valerá a pena nascer duas vezes? Segunda. A da Quinta-feira tagarela. O resultado era fácil de adivinhar. Nem espantou que a ocasião fosse bem aproveitada para mais uma vez nos impingirem as putativas vantagens de ter um predestinado na chefia do governo. Já cansa, e ninguém acredita. A surpresa, esta, chegou no dia seguinte, quando, desta vez sem que o tempo funcionasse como amortecedor da incongruência, se fez jus a uma sentença desde há muito aceite pelo “futebolês”: “o que hoje é verdade amanhã pode ser mentira”. E foi! Terceira. A da Sexta-feira de mais um PEC. E neste corrupio, em louvor do Anjo (que como se sabe não têm sexo) Merkel, entidade agora mais venerada que Nossa Senhora das Dores em época Quaresmal, sem compaixão nem vergonha (como se na véspera se não tivesse “vendido” um mundo cor-de-rosa), eis que nos mandam apertar mais furos num cinto já a um palmo da fivela. Acabar com as mordomias de uns quantos, com o regabofe de outros tantos, com os privilégios e desperdícios de tantos mais, NÃO, porque não dá jeito! Cortar às cegas em quem já tem pouco, e fazer pagar caro quem já tem mais mês que ordenado, SIM, e a eito! A aleluia chegou no Sábado. É certo que o protesto no imediato vai resolver pouco, mas consola a alma. Estão “à rasca”, mas parvos não são.

São inquietos e irrequietos. Ainda bem. Sabem que ganham uns precários “quinhentos” quando outros da sua idade, quais Ruis Pedros Soares, só por serem servis e obedientes ganham cem vezes mais. Tal como sabem, também, que não é o “surfar a sua onda”, nem o comunicar por “facebook”, aquilo que pode levar outros agora tão prontos a identificarem-se com a genuína indignação que os move. Estão “à rasca”, mas parvos não são.

Começam a descobrir as virtudes da participação, da acção, da contestação, e fizeram-no de forma extraordinariamente empenhada, civilizada, com altíssimos níveis de tolerância e pedagogia. Estão “à rasca”, mas parvos não são.

Situam-se muito mais próximos da cidadania altruísta do que partidocracia ambiciosa, egoísta e calculista que está na origem do actual estado de coisas. E isto é bom. É muito bom. Mau será se estes sinais não forem convenientemente interpretados.


A.O. 15/03/2011; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado)

terça-feira, março 01, 2011

Mar dos Açores: uma das chaves para a nossa independência




Com a Universidade dos Açores como palco, e “Os Açores na estratégia do mar – perspectivas económicas e de segurança” como tema, o Mar dos Açores andou recentemente de novo na berlinda. Não obstante a numerosa assistência, “casa cheia” não deixou de evidenciar significativas ausências. Algumas “de peso”! É que falar dos Açores não significa necessariamente fazer a sua defesa, nem são “os outros” aqueles que, usando e abusando da atitudes paternalistas, nos devem impingir aquilo que supostamente julgam ser o melhor (para eles) para nós.
Nos Açores nada muda como o tempo. Pena é que há coisas que nem mesmo o tempo as mude!
Desde a terceira década do século XV plataforma geoestratégica para exploração e submissão de uns e outros, agora que das Índias já não vêem especiarias, nem do Brasil ouro e madeiras preciosas, tampouco das possessões africanas “mão de obra escrava”, petróleo e diamantes, aproxima-se o momento de nos Açores o desaforo também acontecer ao nível da exploração dos recursos inorgânicos, minerais e outros.
Não me canso de repetir, mas nestas ocasiões – eu que prefiro, e procuro sempre que possível, o caso de Cabo Verde – é o exemplo de Timor Lorosae que me ocorre. Um exemplo que ganha especial significado, agora, quando aquele antigo território português, um jovem país altamente carenciado, ainda a dar os primeiros passos, passou como que por milagre de frágil “meia ilha” dependente a potencial comprador de divida soberana portuguesa. Quem é que se recorda de em Timor, enquanto esteve sob posse portuguesa, ouvir falar no petróleo que sob o seu mar existia?
Não interessava falar disso, e, interessando, era só a alguns.
Aqui nos Açores não é muito diferente. A nossa posição geoestratégica tem sido sistematicamente subvalorizada, não é que seja esta a real situação, mas porque importa não tornar evidente o muito que Portugal ganha “por nossa conta”, para com isso poderem persistir e ampliar o mito de que são os impostos dos portugueses aquilo que nos sustenta.
A verdade é que a importância geopolítica e estratégica dos Açores tem um valor incalculável, grandeza que nem Portugal, por inépcia, dela beneficia convenientemente!
Alguém poderá quantificar o valor de ter portos e aeroportos seguros a um terço da distância entre a costa ocidental da Europa a costa oriental da América do Norte? Neste contexto, quanto não vale a posição privilegiada dos Açores no apoio às comunicações marítimas e aéreas do Atlântico Norte? Ou ainda, quanto vale controlar o enorme espaço aéreo e marítimo que nos rodeia, correspondente, sem sombra de dúvidas, à maior ZEE da União Europeia?
Só as respostas a estas questões, sobretudo quando comparadas com o PIB/Açores, contribuiriam para desfazer mitos que a muitos interessa perpetuar.
Mas esta é apenas uma parte.
Agora – começa a ser mais comummente conhecido o que desde há muito se fala em surdina – não é só a posição geoestratégica dos Açores aquilo que está a ser alvo de cobiça e domínio neo-colonial. Com a enorme extensão marítima dos Açores acolhendo um património natural único, e as suas profundezas repletas de recursos cujo valor aumenta a cada dia que passa, é também a mais valia incalculável que representam os direitos soberanos sobre esta riqueza: o prospectar, explorar, conservar e gerir o dito “petróleo dos Açores” – o nosso mar, o seu fundo e respectivo subsolo (com isso fazendo render recursos de capital importância) –, aquilo que nos permite encarar com optimismo a sustentabilidade de um país livre e independente: os Açores.
Ou não fossem estes préstimos só sublimados por uma nação soberana, tal como acontece agora com Timor!

A.O. 01/03/2011; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado)