quarta-feira, março 12, 2014

Os primeiros a chegar, para ficar, ao lugar da ponta delgada

 


Serafim… –  gritou exausta Maria de Fátima!
O pujante brado, misto de gemido de dor e clamor de alívio, foi o ponto final de um longo e difícil parto: o primeiro a acontecer no lugar da ponta delgada.
Serafim…Serafim… Serafim… voltava a ouvir-se, agora de forma repetida e arrastada. Era como se as paredes do algar que servia refúgio ao jovem casal, morada adoptada desde que chegaram aquelas paragens, propagando a exclamação da aliviada mãe, também dessem as boas vindas ao novo habitante do lugar.
Dissipado o eco fez-se um momento de silêncio, permitindo voltar a ouvir o habitual som do mar, em especial quando percorria, umas vezes calma outras furiosamente, aquela longa restinga até bater nos contrafortes da rocha onde quatro ou cinco metros acima a natureza vulcânica da ilha esculpira a gruta que abrigara Serafim e Maria de Fátima, acolhendo a partir de agora também o filho do casal.
Aproveitando a quietude da ocasião, não mais que um ápice embora não o parecendo, o jovem pai, também extenuado, fechou os olhos e iniciou uma oração, logo interrompida pelo primeiro choro do recém-nascido. Suspendendo a reza, ao reabrir os olhos Serafim pôde pela primeira vez contemplar o filho de corpo inteiro. Ali estava ele, aconchegado ao peito da mãe, ainda com os olhos fechados mas com a boca muito aberta, entretanto já liberto da maioria dos vestígios de tão rudimentar quão eremítico parto, atraindo o olhar embevecido de ambos os progenitores. Aquele fora o motivo da sua tão radical mudança de vida, autêntica aventura, fruto de uma decisão tomada sem grande ponderação, porém nada que, quatro meses passados, levasse ao arrependimento o casal fugitivo. Aquela era a razão de terem abandonado tudo e todos, deixado o razoável conforto da família, amigos e conhecidos: a causa da sua saída do já então promissor povoado, onde cresceram e conceberam aquele filho. Ali estava a razão de se terem refugiado naquele ermo; da visível transformação de um lugar que pelo seu esforço e determinação em menos de meio ano se tornara habitável, até aqui só para ambos, agora também para o seu filho, no futuro para os demais vindouros. 

Com o primeiro natal do “solitário ermo” coincidindo com o equinócio da Primavera, aquele dia ficaria marcado nas suas vidas, literalmente com sangue, suor e lágrimas. Entretanto a noite chegava, também ela singular: a primeira desde que Serafim e Maria de Fátima se haviam fixado no lugar da ponta delgada em que já não contavam apenas um com o outro.
As noites daquele Inverno, além de frias e quase sempre adereçadas com o assustador barulho das vagas de sudoeste, tinham sido longas. Compridas porque se seguiam a um dia curto para o muito a fazer, infindáveis pelo desconforto de dormir no rude estrado que lhes servia de leito, mal abrigados, ali paredes-meias com a entrada do desafogado algar onde se refugiaram. Fora a extensão destas noites de inverno o que lhes permitia pensar muito naquilo que havia para fazer nos dias vindouros, nisso incluindo o estabelecer dos nomes a dar ao filho ou filha que estava para chegar. A escolha dos nomes, pelo menos dos dois primeiros dos vários filhos que desejavam ter, tinha sido o tema mais presente no pouco tempo livre até ali existente, por regra o início da noite. A bem da verdade, estes há muito estavam escolhidos, com as conversas tidas só consolidando as opções já feitas. De facto os jovens amantes, ainda no povoado de origem, olhando o mar ou o ilhéu que do oceano se erguia à sua frente, um cenário que os inspirou e incentivou para a fuga que mais tarde ocorreria, logo que confirmada a gravidez de Maria de Fátima iniciaram a escolha dos nomes a dar aos seus descendentes. Fátima e Serafim facilmente ganharam consenso: Serafim por já ser o nome do pai, tal como do avô e de todos os primogénitos daquele ramo familiar, o clã galego dos Serafíns que agora nos Açores davam continuidade à longa experiência marítimo/piscatória acumulada ao abrigo da costa Oeste do Cabo Finisterra; Fátima por ser um dos nomes da mãe, Maria de Fátima, reabilitando o singelo nome da bisavó, Fatimah, a “moura encantada” que tantos corações tinha despedaçado logo que se tornara mulher, já nos Açores, onde aportara inserida na família que a adoptara em Portugal, ainda menina, recém chegada de Ceuta.

sábado, março 01, 2014

Era uma vez o “solitário ermo” (II - estirpe), ou Estórias do lugar da ponta delgada (1.2)


Com o primeiro natal do “solitário ermo” coincidindo com o equinócio da Primavera aquele dia ficaria marcado nas suas vidas, literalmente com sangue, suor e lágrimas. Entretanto a noite chegava, também ela singular: a primeira desde que Serafim e Maria de Fátima se haviam fixado no lugar da ponta delgada em que já não contavam apenas um com o outro.
As noites daquele Inverno, além de frias e quase sempre adereçadas com o assustador barulho das vagas de sudoeste, tinham sido longas. Compridas porque se seguiam a um dia curto para o muito a fazer, infindáveis pelo desconforto de dormir no rude estrado que lhes servia de leito, mal abrigados, ali paredes-meias com a entrada do desafogado algar onde se refugiaram. Fora a extensão destas noites de inverno o que lhes permitia pensar aquilo que havia para fazer nos dias vindouros, nisso incluindo o estabelecer dos nomes a dar ao filho ou filha que estava para chegar. A escolha dos nomes, pelo menos dos dois primeiros dos vários filhos que desejavam ter, tinha sido o tema mais presente no pouco tempo livre até ali existente, por regra o início da noite. A bem da verdade, estes há muito estavam escolhidos, com as conversas tidas só consolidando as opções já feitas. De facto os jovens amantes, ainda no povoado de origem, olhando o mar ou o ilhéu que do oceano se erguia à sua frente, um cenário que os inspirou e incentivou para a fuga que depois ocorreria, logo que confirmada a gravidez de Maria de Fátima iniciaram a escolha dos nomes a dar aos seus descendentes. Fátima e Serafim facilmente ganharam consenso: Serafim por já ser o nome do pai, tal como do avô e de todos os primogénitos daquele ramo familiar, o clã galego dos Serafíns que agora nos Açores davam continuidade à longa experiência marítimo/piscatória acumulada ao abrigo da costa Oeste do Cabo Finisterra; Fátima por ser um dos nomes da mãe, Maria de Fátima, reabilitando o singelo nome da bisavó, Fatimah, a “moura encantada” que tantos corações tinha despedaçado logo que se tornara mulher, já nos Açores, onde aportara inserida na família que a adoptara em Portugal, ainda menina, recém chegada de Ceuta.

A.O. 011/03/2014; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado, incluindo o título) 

domingo, fevereiro 16, 2014

Era uma vez o “solitário ermo”, ou Estórias do lugar da ponta delgada (1.1)


Serafim… – gritou exausta Maria de Fátima!
O pujante brado, misto de gemido de dor e clamor de alívio, foi o ponto final de um longo e difícil parto: o primeiro a acontecer no lugar da ponta delgada.
Serafim…Serafim… Serafim… voltava a ouvir-se, agora de forma repetida e arrastada. Era como se as paredes do algar que servia refúgio ao jovem casal, morada adoptada desde que chegaram aquelas paragens, propagando a exclamação da aliviada mãe, também dessem as boas vindas ao novo habitante do lugar.
Dissipado o eco fez-se um momento de silêncio, permitindo voltar a ouvir o habitual som do mar, em especial quando percorria, umas vezes calma outras furiosamente, aquela longa restinga até bater nos contrafortes da rocha onde, quatro ou cinco metros acima, a natureza vulcânica da ilha esculpira a gruta que abrigara Serafim e Maria de Fátima, acolhendo a partir de agora também o filho do casal.
Aproveitando a quietude da ocasião, não mais que um ápice embora não o parecendo, o jovem pai, também extenuado, fechou os olhos e iniciou uma oração, logo interrompida pelo primeiro choro do recém-nascido. Suspendendo a reza, ao reabrir os olhos Serafim pôde pela primeira vez contemplar o filho de corpo inteiro. Ali estava ele, aconchegado ao peito da mãe, ainda com os olhos fechados mas com a boca muito aberta, entretanto já liberto da maioria dos vestígios de tão rudimentar quão eremítico parto, atraindo o olhar embevecido de ambos os progenitores. Aquele fora o motivo da sua tão radical mudança de vida, autêntica aventura, fruto de uma decisão tomada sem grande ponderação, porém nada que, quatro meses passados, levasse ao arrependimento o casal fugitivo. Aquela era a razão de terem abandonado tudo e todos, deixado o razoável conforto da família, amigos e conhecidos; a causa da sua saída do já então promissor povoado onde cresceram e conceberam aquele filho. Ali estava a razão de se terem refugiado naquele ermo; da já visível transformação de um lugar que pelo seu esforço e determinação, em menos de meio ano, se tornara habitável: até aqui só para ambos, agora também para o seu filho, no futuro para os demais vindouros.

A.O. 151/02/2014; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado, incluindo o título)  

domingo, fevereiro 02, 2014

Sina nossa

                                                  Foto editada (recortada) a partir de um original do João Luís Raposo
Um amigo – que estimo, embora por o contraditar amiúde me chame “inimigo de estimação” – diz com frequência (neste caso com razão) que o nosso mal, dos açorianos, é deixar-mo-nos encantar pelo “falar à moda de Lisboa”. Diz tal para enfatizar as vezes que a mesma coisa, dita/feita por um de nós, açorianos, ou por “um de fora”, português por exemplo, é desdita no primeiro caso e quase sempre aceite com reverência no segundo. Mas di-lo também para acentuar um dos nossos, dos açorianos, mais comuns defeitos: a rivalidade – muito explorada e até estimulada por aqueles a quem interessa a nossa desunião – até entre os da mesma ilha, o que em regra nos leva a verrumar uns com os outros com tricas desnecessárias, por vezes imbecis, aparentando um sentimento tipo inveja, do género: “não poder ver uma camisa lavada ao vizinho”. Uma rivalidade invejosa que só nos conduz à submissão!
O bordão por ele usado para evidenciar esta espécie de situações tem sido: “ (…) pois então chamem um cozinheiro português!”. É um estribilho com origem numa “estória” contada por um amigo comum, a partir de um caso verídico, mais ou menos recente, ocorrido numa colectividade de raiz açoriana de uma das nossas maiores e mais importantes comunidades de emigrantes, cujo restaurante funcionou sempre menos bem – causando inclusive quezílias entre “os nossos” – até passar a ser explorado por um cozinheiro não açoriano, que de uma só cajadada “matou dois coelhos”: o restaurante já funciona bem; as zangas tiveram fim!
Lembrei-me deste caso no decorrer do último jogo no Estádio, onde um “ajudante de cozinha” só tinha olhos para repreender o treinador do “Santa Clara” quando do outro lado irregularidades do mesmo tipo (mas ainda mais exageradas) eram ignoradas. Resta dizer que se tratava do primeiro árbitro internacional açoriano, por sinal (quiçá tributo, bajulação. Coincidência?) o mesmo que na jornada anterior “inventou” uma escandalosa penalidade que, causando estranheza até aos adversários, custou caríssimo ao “Santa Clara”.

É a nossa sina. Por estas e outras: pois então chamem um cozinheiro português!

A.O. 01/02/2014; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado) 

sábado, janeiro 18, 2014

Representante,não: Embaixador, sim!

Ao iniciar estas linhas não resisto – a propósito (e creio não ser o único em o achar) –, mais uma vez, em evocar Manuel Ferreira e o seu “Alevante da Isca” (que reporta a um “6 de Junho” ocorrido a 22 de Maio de 1898), em concreto nas seguintes passagens:
“Lisboa só nos mandava daquelas encomendas!”
(…)
- Não há direito! Não há consciência! Cães danados! E fala-se em regalias…em autonomias…
- Qual autonomia, nem meia autonomia? Nem na nossa casa uma pessoa manda!”
(…)
“Desse no que desse (…) Era girar direito ao Paço, ao Governador. Chamá-lo à fala, a bem ou a mal, pelo braço ou pelas golas da casaca, se fosse preciso, e retratar-lhe a tratada, as coisas ditas pelos seus nomes, de caras, sem papas na língua, alto e a bom som. Senhor Governador: pão, pão! Senhor Governador: queijo, queijo! O povo quer isto e aquilo, não quer isto e aqueloutro! Basta de fosquinhas, Senhor Governador… Com autonomias ou meias autonomias, basta de roubalheiras …”
(…)
Transcrito isso, é com agrado que se dá conta da quase unanimidade existente à volta da “condenação” ao extemporâneo arbítrio do “Donatário Catarino”. Um consenso que se deseja – pelo menos sempre que em causa estejam questões lesa Autonomia (desta escassa autonomia!) – não seja só e apenas um “golpe de rins” ao jeito do interesse político/partidário (português) da ocasião. É que a Autonomia – atenção que não mudei, para a aceitar, no mínimo, quero-a MUITO PROGRESSIVA pois anseio a Autodeterminação! – não é um “bem perdurável”, é do tipo que se não se consolida e aprofunda, mais cedo do que tarde dissipa-se! Nem é obtida por oferenda – ninguém dá nada a ninguém –, só por conquista! E a história prova-o. O “Estado Novo” fez o que fez ao que então restava da autonomia consagrada pelo decreto de 2 de Março (1895), e com a velocidade com que “isso” está a andar para trás corre-se o risco de não se ficar pelo 24 de Abril (1974), chegando ao 22 de Fevereiro (1933) se não mesmo ao 28 de Maio (1926).
Por estas e outras sinto uma inveja benigna dos irmãos cabo-verdianos: como nós sujeitaram-se aos Donatários e depois aos Governadores, mas daí passaram para um Governo Próprio, verdadeiramente SEU, dispensando “Ministros da República” e mais ainda “Representantes”.
Embaixadores sim! De parte a parte; como iguais; como irmãos. Como filhos, concedo: desde que maiores, Livres e Emancipados! 

A.O. 18/01/2014; “Cá à minha moda" (revisto e bastante acrescentado) 

sábado, janeiro 04, 2014

Gato por lebre

Foto "roubada" aqui: https://www.facebook.com/photo.php?fbid=10201061679296095&set=a.1488333220249.2061711.1591514390&type=1&theater

Um catarino afrontamento, tão desagradável quanto a velha e mediática expressão que aquele súbito alardeio recordou, remeteu-nos para meados da década de oitenta do século passado, relembrando um célebre “gato por lebre” e o “crash” bolsista português que aquela imprevidente “tirada” ajudou a compelir. Mas não foi só. Como que animado por um efeito sequencial o catarino suplício recordou também uns quantos outros “gatos por lebre” mais recentes, e até, pelo menos, duas “lebres por gato” que, dispendiosa, descarada e desenvergonhadamente alguns se esforçam a branquear se não mesmo em as fazer esquecer.
Vejamos estes casos: “Gato por lebre” logo pareceu a célebre cena gaga em que um abrutalhado mastigar de bolo-rei funcionou como descortês forma de fugir a uma pergunta menos conveniente; também só pode ser “gato por lebre”, digo eu, o sucessivo servir de muleta a um governo obcecado em levar por diante uma política ultraliberal, isto sobretudo depois de, passado apenas um ano, do mesmo amparo ter vindo o amplificar das vozes que preveniam para a “espiral recessiva” que esta mesma política ameaçava despoletar; “gato por lebre” é da mesma forma a manifesta e repetida preocupação tida com a entrada em vigor em Janeiro de um OE que, além das reiteradas dúvidas sobre a sua constitucionalidade, desta feita até arranca já necessitado de rectificação. Mas se há os “gatos por lebre” também não faltam as “lebres por gato”: Em contraponto com a “previdente” recomendação do Outono de 1987, foi uma clara “lebre por gato” o que entre 2001 e 2003 resultou da rentabilíssima aquisição e venda das acções SLN/BPN; e não pode deixar de ser “lebre por gato” quando, ao contrário do que se passou com o orçamento de Portugal, no caso dos Açores, não é tida em conta a preocupação com o facto de haver, ou não, orçamento a tempo e horas!
Mas é na flexibilidade do critério – total desarticulação, diria –, que varia conforme as conveniências, onde melhor se vê “gato por lebre”: atenda-se à tolerância dos dias de hoje com o OE vs a intransigência (para com o Estatuto dos Açores) que até levou a interromper férias para fazer a inusitada comunicação do Verão de 2008. 
A muito se obrigam os neocolonialistas quanto aos Açores! 

A.O. 04/01/2014; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado) 

sábado, dezembro 21, 2013

Passos pesado


Não, não se trata de para aqui trazer a decana das bandas de rock cá do sítio, meritória e tenazmente liderada pelo Tony Pimentel, os: “Passos Pesados”. E não o é, não porque esta o não merecesse mas porque, aqui e agora, Passos pesado é, digo eu, o “retrato” do estado de espírito do Primeiro-ministro de Portugal que, impreparado, obcecado e claramente “comandado” pelo escol ultra liberal experimentalista que o tem cativo, insiste em testar os limites da Constituição que em tempos se propunha alterar (e urge alterar, mas para permitir "Partidos Açorianos" e deixar de considerar "fascistas" aqueles que defendem a Independência dos Açores e da Madeira), mas que no entretanto mais não faz do que a tentar “esgaçar” . E fá-lo insistente e repetidamente!
Passos pesado, pesadíssimo, em especial quando comparado com o seu vice, líder do partido que garante uma maioria cumplicemente especada em Belém (dos pasteis, não da Palestina), um “Pálim” que a cada dia se apresenta mais leve, levíssimo, tão frívolo que até “dá festa” a fim de inaugurar um qualquer relógio em contagem decrescente para o que ele diz ser o fim do ciclo de protectorado, quando todos – incluindo o próprio – sabem que, adjectivado de “Resgate II”, “Cautelar I” ou do que quer que seja, a decrescente contagem irá continuar, logo já em números negativos, ao longo de mais tantos dias quantos possam conter, no mínimo, uma década.
O Passos pesado foi mais uma vez reprovado, afundado com mais um chumbo, desta feita de forma unânime, sem deixar dúvidas a ninguém que não a si próprio e a alguns dos seus. Chumbo pesadíssimo, corolário de uma colecção de chumbos sem igual, o que em condições normais exigiria o assumir das devidas consequências.
Valham-nos as “forças de bloqueio” que, por mais estranho que pareça, também têm valido a Passos, o pesado. A ele e ao seu governo, na medida em que, como é comummente aceite, o penúltimo chumbo contribuiu fortemente para atenuar a austeridade tida por eles como redentora, proporcionando os indicadores ditos de “inversão de ciclo” que tanto têm excitado “os meninos rabinos”: pesados e levinhos!
E, porque eles são como São Tomé, só espero que a dose de austeridade agora impedida com o chumbo “Pb13/0” continue a contribuir para melhorar os índices que tanto os lisonjeia.

A.O. 21/12/2013; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado) 

domingo, dezembro 15, 2013

Um presépio inesquecível


                             Para mais informação: https://www.facebook.com/freguesiadesantaclara?fref=ts

Quando as memórias de infância se enredam com presépios, para além daquele que se fazia lá em casa; quase sempre no mesmo canto, quase igual de um ano para o outro e com “bonecos” tal como “casinhas” já usados pelas gerações anteriores, recordo sempre em simultâneo outros três: o “da Ribeira Grande”; pelo encanto dos movimentos resultantes da sua arcaica mecanização ao que acrescia o prazer do longo passeio que proporcionava. O “da Igreja de São Pedro”; pela juvenil sensação de aventura que se sentia ao entrar na longa “caverna” que a arte o engenho e a muita imaginação do Padre Baptista criava para ao longo dela instalar as cenas bíblicas que o completavam. E o “da Fábrica do Açúcar”; o mais vezes visitado, já que “estava mesmo ali ao virar da esquina”, literalmente!
O grande impulso para o revisitar acontecia quase espontaneamente ao passar no portão principal (alguns metros a Poente do actual). Ultrapassado este, já em frente da “velha balança” era possível ver, localizado à direita dos tanques de descarga da beterraba o amplo armazém que acolhia o objecto daquela impetuosa visita, em cujo interior, como que por um passe de mágica, se “fazia noite”. Rapidamente ficávamos presente um encenado firmamento, quase tão escuro como o breu, onde sobressaíam as muitas estrelas cujo brilho garantia a escassa iluminação ali existente. Um agradável aroma a verdura picada acentuava o despertar dos sentidos que a ausência de luminosidade já havia convocado, para, quando menos se esperava, o forte clarão de um simulado relâmpago iluminar toda a área, revelando e/ou realçando pormenores até ali encobertos. Desaparecidos de cena os coriscos e respectivos clarões, com o regresso à penumbra chegava também um ruidoso fingido trovão, após o qual, sonorizado pela zoada de água a correr, um compacto conjunto de fios brilhantes pendentes, cintilando, criavam a ilusão de uma chuvada torrencial. O tempo passava num ápice. Por vezes até se perdia o primeiro filme da matiné do Coliseu.
…
A propósito: Inspirado no “Presépio da Fábrica do Açúcar” a partir de amanhã estará patente ao público o “Presépio de Santa Clara”. Visite-o!  

A.O. 07/12/2013; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado) 


Ai, ai, ai… não fosse o Império …

Tal como em tempos idos, hoje também em época amargurada pelo autoritarismo, pela emigração e por abundante miséria e fome, um dos recorrentes compensatórios “efes”, no caso o do Futebol (o de Fado anda agora mais erudito mas outros ainda continuam a atenuar muitas mágoas e aflições), permitiu recentemente a um alargado número dos súbditos do ex-império alguma tão narcótica quanto efémera alegria. Ao longo de algumas horas até esqueceram a Troika e os incompetentes “Migueis de Vasconcelos” que no protectorado a representa, uns e outra obstinadamente levando a cabo uma destruidora experiência neoliberal que só aos seus olhos é virtuosa.
Foi tal a euforia que, mesmo só quanto ao futebol, até ficou esquecido que o recente êxtase só aconteceu porque, na altura certa, não houve querer – e talvez saber – (facilitar e deixar tudo para a última hora: eis outra marca idiossincrática dos "Tugas") para conseguir o apuramento directo. Mas, como quase sempre “há males que vêm por bem”, o “Play-off” consagrou Cristiano Ronaldo. O Portugal vs Suécia cedo se transformou num Ronaldo vs Ibrahimovic e logo num Ronaldo vs Messi com foros de Reino de Castela vs Republica da Catalunha. Até a uma segunda mão do patético Joseph Blatter vs “Comandante” se assistiu, tudo acabando – pelo menos para já – num global confronto Coca/Pepsi. Grande CR7!
Pelo menos por algum tempo “os restos do Império” (sim, os restos do Império: e não me refiro só ao Pepe, também ao Bruno Alves, Nani, Varela, William Carvalho, Bruma, Cristiano Ronaldo e Rúben Micael) se sobrepuseram à Troika e a todos os troikanos! Aliás, bem representativo da “herança imperial” é o facto de na lista dos melhores marcadores ao serviço da Selecção Portuguesa aparecerem por ordem crescente: o moçambicano Eusébio, e em exequo (pelo menos por enquanto) o açoriano Pauleta e o madeirense Ronaldo, este último bem posicionado para, tal como o “Pantera Negra”, por muitos e bons anos estar habilitado a ser o melhor de todos. 
Com alguma pena minha, claro, pois, mesmo gostando de Poncha, continuo preferindo Vinho de Cheiro com Laranjada a Coca-Cola!

A.O. 23/11/2013; “Cá à minha moda" (revisto e acrescentado) 

domingo, novembro 10, 2013

Regressar a Santa Clara

                               
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A ida era sempre mais apressada. Volvida a esquina do Carvão logo se deparava com a rectilínea Rua de Lisboa, ou Formosa, já que este nome em tempos também tivera e assim ainda era conhecida. Moderna, pavimentada, com generosos passeios, ponteados por modestos mas bonitos e eficazes candeeiros, muito fluída para a época (desde que se não estivesse em época de laboração da Fábrica do Açúcar), num triz chegávamos ao Largo 2 de Março: à cidade, que segundo a gíria só ali começava.
O regresso fazia-se com outra pausa. Por baixo, mais junto ao mar, pela “Santa Clara velha”, calcorreando um sinuoso percurso, antiquíssimo: com mais de quinhentos anos. Percorrendo-o, mesmo que inconscientemente trilhava-se História, que, ora mais remota ora mais coeva, se sentia presente a cada passo dado numa via então maioritariamente de terra batida.
Era dupla a esquina de referência na volta: a do Hospital e a da não menos memorável farmácia a ele anexa! O Castelo de S. Brás não passava despercebido, porém, sendo verdade que quer um quer outro fossem “paredes meias” com a arcaica Rua de Santa Clara – mais tarde dividida em Rua Teófilo Braga e Primeira Rua de Santa Clara (esta última com indecisões de identidade que ainda hoje persistem e se testemunham na esquina da Rua José Bensaúde e numa das esquinas “do Calço”) –, dada a majestade de ambas aquelas construções ninguém se atrevia a negar ainda “estar na cidade”. A bem dizer, Santa Clara só começava após “a canada da doca” (actual Av. Kopke). Além do cheiro a maresia, a presença de muitos marítimos e outros trabalhadores do porto, tal como operários e mestres das diversas artes requeridas pela antiga “Junta Autónoma do Porto” ajudavam a definir “a fronteira”. Mas as marcas do percurso – sobretudo as retidas pela saudade e alguma nostalgia de quem percorreu aquele caminho a meados do século XX – só se tornavam nítidas depois de ultrapassada a Rua da Vila Nova de Baixo (actual João Francisco Cabral). E começavam já ali, dependendo da hora, com a azáfama originada pelo “Barracão de Peixe”. Mas logo continuava: a Loja do Sr. Tapia e a sua discreta idiossincrasia; a Barbearia do Sr. Silva, com a muita banda desenhada e as várias colecções de cromos que lá se vendiam; a torrefacção dos Bettencourt e o seu característico aroma a farinha de milho torrado. E continuava do outro lado da rua: a Pastelaria do Sr. Lopes (na casa onde nascera Teófilo Braga, S.E.&O.), os seus bolos de arroz e bolachas de limão; a entrada para o “Estradinho”, antiga “porta para o mar de Ponta Delgada”, acesso para o recinto de banhos onde um sem número de pessoas "daquelas bandas" aprenderam a nadar (com minúsculas piscinas, uma poça entre pedras com grossas correntes a servir de módulo de segurança, e já no mar, o “poceirão” ao lado do qual se esperavam as ondas para fazer “carreiras”); a Geladaria Esquimó com seus sorvetes e sumos; e, quase no fim do percurso, a “Loja do Sr. Manuel Pedro”, as “pimentas” (doce de açúcar envolto num palito de cana) e os gelados caseiros de cacau ou baunilha, cujos sabores a memória ainda retém.
Passado “o Calço” lá estava de novo a Rua do Carvão, com o fim da viagem logo ali.

A.O. 09/11/2013; “Cá à minha moda" (revisto e muito acrescentado)